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LITURGIA DIÁRIA

sexta-feira, 25 de março de 2011

Bispos canadenses desafiam jovens a viver castidade


Convidam a nadar contra a corrente para seguir Cristo
OTTAWA, quinta-feira, 24 de março de 2011 (ZENIT.org) - Os bispos canadenses desafiaram os jovens a viver a sua sexualidade com alegria, na verdade, como Deus quer, através do exercício da castidade.

A Comissão Episcopal para a Doutrina, da Conferência dos Bispos Católicos do Canadá, publicou uma carta pastoral dirigida aos jovens sobre a questão da castidade, na qual os bispos reconhecem que, "com tantas vozes e opiniões sobre o sexo, com frequência é difícil saber como usar este presente tão belo".

"Desde o início da criação, Deus nos deu uma linguagem para falar. Além do dom da palavra, deu-nos nosso corpo", que "se expressa através de gestos que são, em si, uma linguagem. Da mesma forma que as nossas palavras revelam quem somos, assim também acontece com a nossa linguagem corporal".

"O Senhor quer que falemos esta ‘linguagem sexual' na verdade, porque esta é a maneira de viver com alegria a nossa sexualidade", observam os bispos.
"Este viver na verdade a linguagem sexual dos nossos corpos é o que a Igreja chama de ‘castidade'", acrescentam.

O verdadeiro amor
"A castidade expressa o respeito pelas pessoas e por sua capacidade de doar-se - diz a carta. Ela nos assegura que somos amados pelo que somos e que estamos amando as pessoas pelo que elas são, e não apenas pelo prazer que podem nos oferecer."
Para os bispos, "os preconceitos atuais com relação à castidade são particularmente preocupantes, pela maneira de ver a sexualidade: o fato de ‘relacionar-se' uns com os outros por prazer".
"Esta não é apenas uma ofensa contra a dignidade da pessoa que é usada, mas também leva quem ‘usa' a práticas que ocasionam danos físicos, emocionais e psicológicos."
Os bispos canadenses reconhecem que "os esforços por controlar os impulsos sexuais podem ser difíceis, até dolorosos".
"Seu controle, no entanto, leva os homens e mulheres à maturidade sexual e dá paz de espírito - afirmam.Viver castamente hoje significa nadar contra a corrente! Somos chamados a seguir Jesus, a nadar contra a corrente."
"Se queremos encontrar serenidade e alegria, devemos viver de acordo com a vontade de Deus - destacam os bispos. Ele criou à sua imagem e, se vivermos de acordo com seus mandamentos, seremos felizes."
"A castidade é um desafio, mas não é impossível", declaram.

Verdadeiros amigos
Em sua carta, os bispos explicam que "podemos nos cercar de amigos que queiram viver, também eles, de forma casta: pessoas que nos sustentarão em nosso caminho".
"Podemos escolher sabiamente nossas formas de entretenimento, procurando o que eleva o espírito humano e expressar a beleza, a verdade e a bondade."
"E o mais importante: podemos viver a nossa união com Cristo recebendo os sacramentos regularmente, sobretudo o da Reconciliação."
"A prática da confissão dos pecados de impureza, de falar sobre nossas tentações com um guia espiritual, pode ajudar a purificar a nossa mente e o nosso coração", sublinham os bispos.
"Quanto mais aceitarmos a castidade e fizermos dela nosso estilo de vida, mais as pessoas que nos rodeiam perceberão o Espírito Santo que habita em nós."

In http://www.zenit.org/

Eucaristia: Pão vivo para a paz do mundo


1. "A paz seja convosco!". No nome do Senhor, que na noite de Páscoa irrompe no cenáculo de Jerusalém, repetimos: "A paz seja convosco!" (Jo 20, 21). O mistério da sua morte e ressurreição vos conforte, dando sentido a toda a vossa vida e vos preserve na alegria da esperança! Cristo está vivo na sua Igreja; segundo a sua promessa (cf. Mt 28, 20), ele estará sempre connosco até ao fim do mundo. No Santíssimo sacramento da Eucaristia, é Ele próprio que se doa a nós e nos oferece a alegria de amar como Ele, dando-nos o mandamento de partilhar o seu amor vitorioso com os nossos irmãos e irmãs espalhados pelo mundo inteiro. Eis a mensagem de alegria que vos anunciamos, caríssimos Irmãos e Irmãs, no final do Sínodo dos Bispos sobre a Eucaristia.
Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos reuniu de novo como no cenáculo com Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, para fazer memória da doação suprema da Santíssima Eucaristia.
2. Convocados em Roma por Sua Santidade João Paulo II de venerada memória e confirmados pelo Santo Padre Bento XVI, viemos dos cinco continentes da terra para rezar e reflectir juntos sobre a Eucaristia: fonte e ápice da vida e da missão da Igreja. A finalidade do Sínodo era oferecer ao Santo Padre Propostas que servissem para requalificar a pastoral eucarística da Igreja. Pudemos expressar o que significa a Sagrada Eucaristia deste as suas origens: uma só fé e uma só Igreja, alimentada por um único Pão de vida e em comunhão visível com o sucessor de Pedro.
3. A partilha fraterna entre os Bispos, os Auditores e as Auditoras, juntamente com os Representantes das outras Igrejas e Comunidades eclesiais, renovou a nossa convicção de que a Sagrada Eucaristia anima e transforma quer a vida das nossas Igrejas particulares do Oriente e do Ocidente, quer as numerosas actividades humanas nos contextos mais diversos nos quais vivemos.
Sentimos uma profunda alegria ao verificar a unidade da nossa fé eucarística, mesmo se no âmbito de uma grande diversidade de ritos, culturas e situações pastorais. A presença de tantos Delegados Fraternos permitiu-nos experimentar de modo ainda mais directo a riqueza das nossas diversas tradições litúrgicas que faz resplandecer a profundidade do único mistério eucarístico.
Convidamos-vos a rezar com mais intensidade, Irmãos e Irmãs cristãos, para que chegue o dia da reconciliação e da plena unidade visível da Igreja na celebração da Sagrada Eucaristia, em conformidade com a oração do Senhor na vigília da sua morte: "para que todos sejam um só; como Tu, ó Pai estás em Mim e Eu em Ti, que também eles estejam em Nós, para que o mundo creia que Tu Me enviaste" (Jo 17, 21).
4. Profundamente reconhecidos ao Senhor pelo pontificado do Santo Padre João Paulo II e pela sua última encíclica Ecclesia de Eucharistia, à qual se seguiu a Carta apostólica Mane nobiscum Domine, com a qual abriu o ano eucarístico, rezamos ao Senhor para que multiplique os frutos do seu testemunho e do seu ensinamento. A nossa gratidão dirige-se também a todo o povo de Deus do qual sentimos a proximidade e a solidariedade durante estas três semanas de oração e de reflexão. As Igrejas particulares na China, e os seus Bispos que não puderam participar nos nossos trabalhos, ocuparam um lugar especial nos nossos pensamentos e orações.
A todos vós, Bispos, sacerdotes e diáconos do mundo inteiro, homens e mulheres consagrados, fiéis leigos e também a vós, homens e mulheres de boa vontade, paz e alegria no Espírito Santo em nome de Cristo Ressuscitado!

À escuta do sofrimento do mundo
5. A Assembleia sinodal constituiu um período intenso de intercâmbios e de testemunhos sobre a vida da Igreja nos diferentes continentes. Tomámos consciência de situações dramáticas e de sofrimentos causados pelas guerras, pela fome, por várias formas de terrorismo e de injustiça, que atingem a vida quotidiana de centenas de milhares de pessoas. Os diversos focos de violência no Médio Oriente e em África tocaram-nos particularmente, mas também nos sensibilizaram mais face ao esquecimento deste continente na opinião pública mundial. As calamidades naturais, que parecem multiplicar-se com uma frequência cada vez maior, obrigam a considerar com mais respeito a natureza e a fortalecer os vínculos de solidariedade com as populações atingidas.
Não escondemos as consequências da secularização presentes sobretudo sobretudo no Ocidente, que levam à indiferença religiosa e às diversas expressões do relativismo. Recordámos e denunciámos as situações de injustiça e de pobreza extrema que proliferam em toda a parte, mas sobretudo em África e na Ásia. Todos estes sofrimentos bradam a Deus e provocam a consciência da humanidade. Este grito interpela-nos. O que se está a tornar, de facto, a aldeia global do nosso mundo que corre o risco de se autodestruir devido à ameaça que domina o ambiente? O que fazer para que nesta era da globalização a solidariedade possa triunfar sobre o sofrimento e a miséria? O nosso pensamento dirige-se a quantos governam as nações para que considerem com a devida atenção o bem de todos e sejam promotores da plena dignidade de cada pessoa, desde a concepção da vida até ao seu fim natural. A eles pedimos que promovam leis que respeitem o direito natural do matrimónio e da família. Por nosso lado, continuaremos a participar activamente no compromisso comum de criar as condições duradouras para um real progresso de toda a família humana, onde a ninguém falte o pão quotidiano.
6. Levámos estes sofrimentos e estes problemas à celebração e adoração eucarística. Nos nossos debates, ouvindo-nos profundamente uns aos outros, ficámos comovidos e abalados pelo testemunho de mártires que ainda estão presentes nos nossos dias, como em toda a história da Igreja, em diversas partes da terra. Os Padres sinodais recordaram que os mártires encontraram sempre a força para vencer o ódio com o amor e a violência com o perdão, graças à Sagrada Eucaristia.

"Fazei isto em memória de Mim"
7. Na vigília da sua Paixão, "Jesus tomou o pão e, depois de pronunciar a bênção, partiu-o e deu-o aos Seus discípulos, dizendo: "Tomai, comei: Isto é o Meu corpo". Tomou, em seguida, um cálice, deu graças e entregou-lho dizendo: "Bebei dele todos. Porque este é o Meu sangue, sangue da aliança, que vai ser derramado por muitos para remissão dos pecados"" (Mt 26, 26-28); "Fazei isto em memória de Mim" (Lc 22, 19; 1 Cor 11, 24-25). A Igreja, desde as suas origens, faz memória da morte e ressurreição de Jesus, com as suas mesmas palavras e gestos da última Ceia, pedindo ao Espírito Santo que transforme o pão e o vinho no Corpo e no Sangue de Cristo. Nós cremos firmemente e ensinamos na tradição constante da Igreja que as palavras de Jesus, pronunciadas pelo sacerdote durante a Santa Missa, pelo poder do espírito Santo, realizam aquilo que significam. Estas palavras realizam a presença real de Cristo Ressuscitado (cf. CIC 1366). A Igreja vive deste dom supremo que a reúne, purifica e transforma no único Corpo de Cristo animado por um só Espírito (cf. Ef 5, 29).
A Eucaristia é o dom do amor, amor do Pai que enviou o seu Filho único para que o mundo seja salvo (cf. Jo 3, 17); amor de Cristo que nos amou até ao fim (cf. Jo 13, 1); amor de Deus derramado nos nossos corações mediante o Espírito Santo (cf. Rm 5, 5), que nos brada: "Abbá, Pai" (Gl 4, 6). Portanto ao celebrar o Santo Sacrifício, anunciamos com alegria a salvação do mundo e proclamamos a morte vitoriosa do Senhor até à sua vinda. Comungando do seu Corpo, por fim, recebemos o "penhor" da nossa própria ressurreição.
8. Quarenta anos após o Concílio Ecuménico Vaticano II fomos estimulados a fazer um exame de consciência pastoral, para verificar em que medida a fé é expressa e celebrada com coerência nas nossas Assembleias litúrgicas. O Sínodo reafirma que o Concílio Ecuménico Vaticano II lançou as bases necessárias para uma autêntica renovação litúrgica. Por conseguinte, é necessário cultivar os frutos positivos e corrigir os abusos que se infiltraram na prática. Estamos convictos de que o respeito do carácter sagrado da liturgia passa através de uma autêntica fidelidade às normas litúrgicas da legítima autoridade. Ninguém se considere dono da Liturgia da Igreja. A fé viva colhe a presença do Senhor e constitui a primeira condição para a beleza das celebrações e para o seu cumprimento no amen pronunciado para glória de Deus.

Luzes na vida eucarística da Igreja
9. Os trabalhos do Sínodo realizaram-se numa atmosfera de júbilo e de fraternidade que foi alimentada por um debate aberto dos problemas e por uma partilha espontânea dos frutos do ano eucarístico. A escuta e as intervenções do Santo Padre Bento XVI foram para todos nós um exemplo e uma ajuda preciosa. Muitos testemunhos referiram factos positivos que confortam; por exemplo, a renovada tomada de consciência sobre a importância da Santa Missa dominical, o aumento das vocações sacerdotais e de vida consagrada em várias partes do mundo, a forte experiência das jornadas mundiais da juventude que culminaram na Alemanha, em Colónia, o desenvolvimento de numerosas iniciativas para a adoração do Santíssimo Sacramento em todo o mundo, o renovamento da catequese do Baptismo e da Eucaristia à luz do Catecismo da Igreja Católica, o crescimento de movimentos e comunidades que formam missionários para a nova evangelização, a multiplicação de tantos grupos de ministrantes, viveiros de novas vocações, e muitas outras experiências que nos abrem para uma sincera acção de graças.
Por fim, nós, Padres sinodais desejamos que o ano eucarístico seja o início e um ponto de referência para a nova evangelização da humanidade, na era da globalização, a partir da Eucaristia.
10. Desejamos que o "enlevo eucarístico" (EE 6) estimule os fiéis a uma vida interior cada vez mais forte. Para esta finalidade, as tradições orientais ortodoxas e católicas celebram a Divina Liturgia, praticam a oração de Jesus e o jejum eucarístico, enquanto a tradição latina propõe uma "espiritualidade eucarística" que tem o seu ápice na celebração eucarística e na adoração do Santíssimo Sacramento fora da Missa, as bênçãos eucarísticas, as procissões com o Santíssimo Sacramento e as manifestações sadias de piedade popular. Tal espiritualidade será certamente fecunda no apoio à vida quotidiana e no fortalecimento do nosso testemunho.
11. Agradecemos ao Senhor porque muitos Países onde os sacerdotes estavam ausentes ou eram obrigados à clandestinidade, a Igreja hoje pode celebrar livremente os santos Mistérios. A liberdade de evangelização e os testemunhos de reencontrado fervor despertam pouco a pouco a fé em zonas profundamente descristianizadas. Saudamos com afecto e encorajamos quantos ainda sofrem as perseguições. Além disso, pedimos para que onde os cristãos são uma minoria possam celebrar o dia do Senhor em plena liberdade.

Desafios para um renovamento eucarístico
12. A vida das nossas Igrejas está marcada também por algumas sombras e problemas que não eludimos. Pensamos, em primeiro lugar, na perda do sentido do pecado e na crise persistente na prática do sacramento da Penitência. É importante redescobrir o seu significado profundo: é uma conversão e um remédio precioso doado por Cristo Ressuscitado para a remissão dos pecados (cf. Jo 20, 23) e para o crescimento no amor para com Ele e com os irmãos.
Contudo, observamos com interesse que cada vez mais jovens, devidamente instruídos na catequese, praticam a confissão pessoal dos pecados e manifestam uma sensibilidade à reconciliação, exigida para receber dignamente a Sagrada Comunhão.
13. Preocupa-nos em grande medida a falta de presbíteros para a celebração da Eucaristia dominical, o que nos convida a rezar e a promover mais activamente a pastoral para as vocações sacerdotais. Diversos sacerdotes, com grande dificuldade, são obrigados a multiplicar as celebrações e a transferir-se de um lugar para outro para corresponder do melhor modo possível às necessidades dos fiéis ao preço de grandes fadigas. Merecem a nossa estima e a nossa gratidão. Dirigimos um pensamento de reconhecimento também aos numerosos missionários cujo entusiasmo pelo anúncio do Evangelho permite até hoje ser fiéis ao mandamento do Senhor de ir por todo o mundo e baptizar no seu nome (cf. Mt 28, 19).
14. Por outro lado, estamos preocupados porque a ausência do sacerdote impede a celebração da Santa Missa no dia do Senhor. Em diversos continentes que sofrem pela falta de sacerdotes já existem várias formas de celebração. A prática da "comunhão espiritual", contudo, tão querida à tradição católica poderia e deveria ser em maior medida promovida e explicada, para ajudar os fiéis a melhor se comunicarem sacramentalmente quer para servir de verdadeiro conforto a quantos não podem receber a comunhão do Corpo e do Sangue de Cristo quer por várias razões. Pensamos que esta prática ajudaria as pessoas sozinhas, em particular os deficientes, os idosos, os presos e os refugiados.
15. Conhecemos a tristeza de quantos não podem ter acesso à comunhão sacramental devido a uma situação familiar não conforme com o mandamento do Senhor (cf. Mt 19, 3-9). Alguns divorciados que voltaram a casar aceitam com sofrimento não poder receber a comunhão sacramental e oferecem-no a Deus. Outros não compreendem esta restrição e vivem uma frustração interior. Reafirmamos que, mesmo se na irregularidade da sua situação (cf. CIC 2384), não estão excluídos da vida da Igreja. Pedimos-lhe que participem na Santa Missa dominical e que se dediquem assiduamente à escuta da palavra de Deus para que ela possa alimentar a sua vida de fé, de caridade e de partilha. Desejamos dizer que estamos próximos deles com a oração e com a solicitude pastoral; todos juntos pedimos ao Senhor que obedeçam fielmente à sua vontade.
16. Verificámos nalguns ambientes um baixo sentido do sagrado que diz respeito não só à participação activa e generosa dos fiéis na Santa Missa, mas também ao modo de celebrar e à qualidade do testemunho público de vida que os cristãos estão chamados a dar. Através da Sagrada Eucaristia procuremos despertar o sentido e a alegria de pertencer à comunidade católica porque em alguns Países multiplicam-se os abandonos. O facto da descristianização exige uma formação melhor da vida cristã nas famílias, de modo que a prática dos sacramentos se renove e exprima realmente o conteúdo de fé. Por conseguinte, convidamos os pais, os pastores e os catequistas a mobilizarem-se para abrir um grande canteiro de evangelização e de educação para a fé no início deste novo milénio.
17. Diante do Senhor da história, do presente e do futuro, os pobres de sempre e os novos, as vítimas cada vez mais numerosas da injustiça e todos os esquecidos da terra interpelam-nos; trazem à nossa mente a agonia de Cristo que dura até ao fim dos tempos. Estes sofrimentos não podem permanecer alheios às celebrações do mistério eucarístico que compromete todos nós a trabalhar pela justiça e pela transformação do mundo de modo activo e consciente, fortalecidos pelo ensinamento social da Igreja, que promove a centralidade da pessoa e da sua dignidade. "Não podemos iludir-nos: pelo amor recíproco e, em particular, pela solicitude por quem se encontra em necessidade seremos reconhecidos como verdadeiros discípulos de Cristo (cf. Jo 13, 35; Mt 25, 31-46). Eis o critério com base no qual será comprovada a autenticidade das nossas celebrações eucarísticas" (Mane nobiscum Domine, 28).

Sereis minhas testemunhas
18. "Jesus, que amou os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim". São João revela o sentido da instituição da Sagrada Eucaristia com a narração do lava-pés (cf. Jo 13, 1-20). Jesus inclina-se para lavar os pés dos seus discípulos como sinal do seu amor que vai até ao extremo. Este gesto profético antecipa o despojamento de si até à morte na cruz que tira os pecados do mundo e lava as nossas almas de qualquer culpa. A Sagrada Eucaristia é o dom do amor, um encontro com Deus que nos ama e uma fonte da qual jorra a vida eterna. Nós, Bispos, sacerdotes e diáconos somos as primeiras testemunhas e os servos deste amor.
19. Queridos sacerdotes, nestes dias pensámos muito em vós, conhecemos a vossa generosidade e dedicação. Em comunhão connosco carregai o peso do serviço pastoral quotidiano junto do povo de Deus. Anunciai com vigor a Palavra do Senhor, procurando introduzir bem os fiéis no mistério eucarístico. Que graça é o vosso ministério! Rezamos convosco e por vós para que juntos possamos permanecer fiéis ao amor de Cristo. Pedimos-vos que sejais, juntamente connosco e a exemplo do Santo Padre Bento XVI, os "humildes trabalhadores na vinha do Senhor", com uma vida sacerdotal coerente. A paz de Cristo, que ofereceis aos pecadores penitentes e às assembleias eucarísticas, resplandeça sobre vós e sobre as comunidades que vivem do vosso testemunho.
Recordamos com gratidão o compromisso dos diáconos permanentes, dos catequistas, dos agentes de pastoral e dos numerosos fiéis leigos a favor da comunidade. Que o vosso serviço seja sempre fecundo e generoso, amparado por uma plena comunhão de intenções e de acção com os Pastores da comunidade.
20. Caríssimos irmãos e irmãs, qualquer que seja o estado de vida no qual somos chamados a viver a nossa vocação baptismal, revistamo-nos dos sentimentos de Jesus Cristo (cf. Fl 2, 2) e segundo o seu exemplo concorramos uns com os outros na humildade e no amor. A nossa caridade recíproca não é apenas uma imitação do Senhor, é uma prova viva da sua presença que age no meio de nós. Saudamos e agradecemos todas as pessoas consagradas, esta porção escolhida para a vinha do Senhor, que em plena gratuidade testemunha a boa notícia do Esposo que há-de vir (cf. Ap 22, 17-20). O vosso testemunho eucarístico no seguimento de Cristo é um grito de amor na noite do mundo, um eco do Stabat Mater e do Magnificat. A Mulher eucarística por excelência, coroada de estrelas e imensamente fecunda, Virgem Assunta e Imaculada Conceição, vos proteja na paz e na alegria da Páscoa para a esperança do mundo, no serviço que prestais a Deus e aos pobres.
21. Queridos jovens, o Santo Padre Bento XVI disse-vos e repetiu-vos que ao doar-vos a Cristo nada perdeis. Retomemos as suas palavras fortes mas serenas, pronunciadas para a Santa Missa de início do seu ministério, que vos orientam para a verdadeira felicidade, no maior respeito da vossa liberdade: "Não tenhais medo de Cristo! Ela de nada priva e tudo doa. Quem se doa a Ele recebe o cêntuplo. Sim, abri de par em par as portas a Cristo e encontrareis a vida verdadeira". Confiamos nas vossas capacidades e no vosso desejo de desenvolver os valores positivos do mundo e de mudar quanto nele há de injusto. Contai com o nosso apoio e com a nossa oração para enfrentarmos juntos o desafio de construir o futuro com Cristo. Vós sois "as sentinelas da manhã" e os "exploradores do futuro". Não deixareis de haurir da fonte da energia divina da Sagrada Eucaristia para realizar as transformações necessárias.
Aos jovens seminaristas que se estão a preparar para o ministério sacerdotal e partilham com os seus coetâneos as esperanças pelo futuro, desejamos fazer chegar um pensamento particular para que a sua vida de formação seja impregnada de uma genuína espiritualidade eucarística.
22. Queridos casais cristãos com as vossas famílias, a vossa vocação à santidade, como igreja doméstica alimenta-se na sagrada Mesa da Eucaristia. A vossa fé no sacramento do matrimónio transforma a união conjugal num templo do Espírito Santo, numa nascente fecunda de vida nova ao gerar os filhos, fruto do vosso amor. Falámos com frequência de vós no Sínodo, porque estamos conscientes das fragilidades e incertezas do mundo presente. Tende coragem no vosso esforço por educar os filhos na fé. Sede rebentos de vocações para o sacerdócio e para a vida consagrada; não vos esqueçais que Cristo está presente na vossa união e a abençoa com todas as graças das quais tendes necessidade para viver santamente a vossa vocação. Encorajamos-vos a preservar o costume de participar com toda a família na Eucaristia dominical. Desta forma alegrais o coração de Jesus que disse: "Deixai vir a mim as criancinhas" (Mc 10, 14).
23. Desejamos dirigir uma palavra a quantos sofrem, em particular aos doentes e aos deficientes, que com o seu sofrimento vivido na fé se unem ao sacrifício de Cristo (cf. Rm 12, 2). Pelo sofrimento que levais no corpo e no vosso coração participais de modo especial no sacrifício eucarístico e sois testemunhas privilegiadas do amor que ele exprime. Estamos certos de que no momento em que fazemos a experiência da debilidade e dos nossos limites, a força da Eucaristia pode ser de grande ajuda. Unidos ao mistério pascal de Cristo, encontramos a resposta para as perguntas angustiantes do sofrimento e da morte, sobretudo quando a doença atinge as crianças inocentes. Estamos próximos de todos vós, mas sobretudo dos moribundos que recebem o Corpo de Cristo como viático para a sua derradeira passagem para a vida eterna.

Que todos sejam um só
24. O Santo Padre Bento XVI reafirmou o solene compromisso da Igreja pela causa ecuménica. Todos somos responsáveis por esta unidade (cf. Jo 17, 21) porque, mediante o Baptismo, somos membros da família de Deus, gratificados pela mesma dignidade fundamental e partilhando o inestimável dom sacramental da vida divina. Todos sentimos o sofrimento da separação que impede a celebração comum da Eucaristia. Desejamos intensificar nas nossas comunidades a oração pela unidade, o intercâmbio de dons entre as Igrejas e as comunidades eclesiais, assim como os relacionamentos respeitosos e fraternos entre nós, para que possamos conhecer-nos melhor e amar-nos, respeitando e apreciando as nossas diferenças e os valores comuns. Normas claras da Igreja estabelecem as condições para aceder à comunhão eucarística com irmãos e irmãs que ainda não estão em plena comunhão connosco. Uma disciplina sadia impede a confusão e os gestos improvisados que, ao contrário, podem prejudicar a verdadeira comunhão.
25. Como cristãos, estamos próximos dos outros filhos de Abraão: dos judeus, herdeiros da primeira Aliança, e dos muçulmanos. Celebrando a Sagrada Eucaristia pensamos ser, como diz santo Agostinho, "sacramento da humanidade" (cf. De civ. Dei, 10, 6), a voz de todas as orações e súplicas que se elevam da terra para Deus.

Conclusão: Paz repleta de esperança
Caríssimos Irmãos e Irmãs!
26. Agradeçamos ao Senhor esta XI Assembleia sinodal que nos permitiu voltar à nascente do mistério da Igreja, quarenta anos após o Concílio Vaticano II. Terminamos o Ano da Eucaristia, confirmando-nos na unidade e renovando-nos no entusiasmo apostólico e missionário. No início do quarto século do cristianismo, o culto cristão ainda era proibido pelas autoridades do Império Romano. Alguns cristãos do Norte de África ligados à celebração do dia do Senhor desafiaram a proibição. Foram martirizados enquanto declaravam que não teriam podido viver sem a Eucaristia do domingo. Os quarenta e nove mártires de Abitene, juntamente com tantos santos e beatos que fizeram da Eucaristia o centro da sua vida, intercedem por nós no início do novo milénio. Ensinam-nos a fidelidade ao encontro na Nova Aliança com Cristo ressuscitado.
No final deste Sínodo experimentamos esta paz cheia de esperança que os discípulos de Emaús receberam com o coração ardente do Senhor ressuscitado. Eles levantaram-se e regressaram apressadamente a Jerusalém para partilhar a alegria com os irmãos e as irmãs na fé. Nós desejamos que possais ir repletos de alegria ao encontro da Sagrada Eucaristia e viver pessoalmente a verdade da sua Palavra: "E Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo" (Mt 28, 20).
Caríssimos irmãos e irmãs, a paz esteja convosco!

MENSAGEM DA XI ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA DO SÍNODO DOS BISPOS AO POVO DE DEUS

In http://rosabiblica.com

A EUCARISTIA


Está Cristo presente na Eucaristia?
São vários os caminhos pelos quais podemos nos aproximar do Senhor Jesus e assim viver uma existência realmente cristã, quer dizer, segundo a medida do próprio Cristo, de tal maneira que seja Ele mesmo quem vive em nós (ver Gl 2,20). Uma vez ascendido aos céus o Senhor nos deixou seu Espírito.
Por sua promessa é segura sua presença até o fim do mundo (ver Mt 28, 20). Jesus Cristo se faz realmente presente em sua Igreja não somente através da Sagrada Escritura, mas também, e de maneira mais excelsa, na Eucaristia.

O que quer dizer Jesus com "vinde a mim"?
Ele mesmo nos revela o mistério mais adiante: "Eu sou o pão da vida. O que vem a mim, não sentirá fome, o que crê em mim nunca terá sede" (Jo 6,35). Jesus nos convida a alimentar-nos d'Ele. É na Eucaristia onde nos alimentamos do Pão da Vida que é o próprio Senhor Jesus.

Não está Cristo falando de forma simbólica?
Cristo, argumenta-se, poderia estar falando simbolicamente. Ele disse: "Eu sou a videira" e Ele não é uma videira; "Eu sou a porta" e Cristo não é uma porta.
Mas o contexto no qual o Senhor Jesus afirma que Ele é o pão da vida não é simbólico ou alegórico, mas doutrinal. É um diálogo com perguntas e respostas como Jesus costuma fazer ao expor uma doutrina.
Às perguntas e objeções que lhe são feitas pelos judeus no Capítulo 6 de São João, Jesus Cristo responde reafirmando o sentido imediato de suas palavras. Quanto mais rejeição e oposição encontra, mais Cristo insiste no sentido único das palavras: "Minha carne é verdadeiramente uma comida e meu sangue é verdadeiramente uma bebida" (v.55).
Isto faz com que os discípulos o abandonem (v.66). E Jesus Cristo não tenta retê-los tratando de explicar-lhes que o que acaba de dizer-lhes é tão somente uma parábola. Pelo contrário, interroga a seus próprios apóstolos: "Não quereis também vós partir?". E Pedro responde: "Senhor, a quem iremos? Só tu tens palavras de vida eterna." (v.67-68).
Os Apóstolos entenderam o sentido imediato das palavras de Jesus na última ceia. "Tomou o pão...e disse: "Tomai e comei, este é o meu corpo". (Lc 22,19). E eles ao invés de dizer-lhe: "explica-nos esta parábola, "tomaram e comeram, quer dizer, aceitaram o sentido imediato das palavras. Jesus não disse "Tomai e comei, isto é como se fosse meu corpo... é um símbolo de meu sangue".
Alguém poderia objetar que as palavras de Jesus "fazei isto em memória de mim" não indicam mais que esse gesto deveria ser feito no futuro como uma simples recordação, um fazer memória com qualquer um de nós pode recordar algum fato de seu passado e, deste modo, "trazer ao presente". Entretanto não é assim, porque memória, anamnese ou memorial, no sentido empregado na Sagrada Escritura, não é somente a lembrança dos acontecimentos do passado, mas a proclamação das maravilhas que Deus realizou em favor dos homens. Na celebração litúrgica, estes acontecimentos se fazem, de certa maneira, presentes e atuais.
Assim, pois, quando a Igreja celebra a Eucaristia, faz memória da Páscoa de Cristo e esta se faz presente: o sacrifício que Cristo ofereceu de uma vez para sempre na cruz permanece sempre atual (ver Hb 7,25-27). Por isso a Eucaristia é um sacrifício (ver Catecismo da Igreja Católica n. 1363-1365).
São Paulo expõe a fé da Igreja no mesmo sentido: "O cálice de benção que abençoamos não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos não é comunhão com o corpo de Cristo?" (1Cor 10,16). A comunidade cristã primitiva, os próprios testemunhas da última ceia , quer dizer, os Apóstolos, não teriam permitido que Paulo transmitisse uma interpretação falsa desse acontecimento.
Os primeiros cristãos acusam os docetas (aqueles que afirmavam que o corpo de Cristo não era mais que uma aparência) de não crer na presença de Cristo na Eucaristia: "Se abstêm da Eucaristia, porque não confessam que é a carne de nosso salvador". Santo Inácio de Antioquia (Esmir VII).
Finalmente, se fosse simbólico quando Jesus afirma: "O que come minha carne e bebe o meu sangue..." então também seria simbólico quando acrescenta: "...tem vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia" (Jo 6,54).
Por acaso a ressurreição é simbólica? Por acaso a vida eterna é simbólica?Tudo, portanto, favorece a interpretação literal ou imediata e não simbólica do discurso. Não é correto, pois, afirmar que a Escritura deve ser interpretada literalmente e, por sua vez, fazer uma arbitrária e brusca exceção nesta passagem.

Se a missa rememora o sacrifício de Jesus, Cristo volta a padecer o Calvário em cada Missa?

A carta aos Hebreus diz: "Mas Ele possui um sacerdócio perpétuo, porque permanece para sempre...Assim é o sacerdote que nos convinha: santo inocente...que não tem necessidade de oferecer sacrifícios cada dia...Nós somos santificados, mediante uma só oblação pelos pecados." (Hb 7, 26-28 e 10, 14-18).
A Igreja ensina que a Missa é um sacrifício, mas não como acontecimento histórico e visível, mas como sacramento e, portanto, é incruento, quer dizer, sem dor nem derramamento de sangue (ver Catecismo da Igreja Católica n. 1367).
Portanto, na Missa Jesus Cristo não sofre uma "nova agonia", mas que é a oblação amorosa do Filho ao Pai, "pelo qual Deus é perfeitamente glorificado e os homens são santificados" (CVII. Sacrosanctum Concilium n. 7).
O sacrifício da Missa não acrescenta nada ao Sacrifício da Cruz nem o repete, mas o "representa", no sentido de que "o faz presente" sacramentalmente em nossos altares, o mesmo e único sacrifício do Calvário (ver Catecismo da Igreja Católica n. 1366; Paulo VI, Credo do Povo de Deus n. 24).
O texto de Hebreus 7,27 não diz que o sacrifício de Cristo o realizou "de uma só vez e já se acabou", mas "de uma vez para sempre". Isto quer dizer que o único sacrifício de Cristo permanece para sempre (ver Catecismo da Igreja Católica n. 1364). Por isso diz o Concílio: "Nosso Salvador, na última ceia, ...instituiu o sacrifício eucarístico de seu corpo e sangue, com o qual ia perpetuar pelos séculos, até a sua volta, o sacrifício da cruz" (ver Concílio Vaticano II, Sacrosanctum Concilium n.47). Portanto, o sacrifício da Missa não é uma repetição mas uma re-apresentação e renovação do único e perfeito sacrifício da cruz pelo qual fomos reconciliados.

In http://www.acidigital.com/catecismo/xtoeucaristia.htm

Transfiguração: celebração antecipada da vitória sobre a cruz


Por Ildo Bohn Gass

Segundo os evangelistas, a cena da transfiguração está em meio aos anúncios da paixão. A intenção é mostrar como a cruz faz parte da vida de quem assume o projeto do Pai até as últimas consequências. A fidelidade a Deus e ao resgate da vida dos pobres contraria interesses religiosos, econômicos e políticos. Nesse sentido, a perseguição pelos poderes que governam este mundo é inevitável na vida de quem assume a causa do Reino e de sua justiça.
Este relato é uma leitura pós-pascal e pretende narrar antecipadamente a vitória de Jesus sobre a morte na cruz, apresentando-o como o messias glorioso. É o que indica sua roupa branca como a luz (Mt 17,2). A ressurreição, a vitória sobre os poderosos, é a vida em toda a sua plenitude que vence os poderes de morte deste mundo.
Elias é o representante da profecia. Moisés faz lembrar não somente o êxodo, mas também todo Pentateuco, toda lei, que a tradição judaica atribuía a ele. Por um lado, a lei e os profetas, isto é as Escrituras todas, se cumprem em Jesus. Ou seja, o Nazareno dá continuidade à primeira aliança, levando-a à sua plenitude. Por outro lado, a comunidade de Mateus apresenta Jesus como um profeta que, tal como os profetas Elias (1Rs 17,1) e Moisés (Dt 18,15), veio anunciar um novo êxodo de liberdade para seu povo. O fato de Jesus subir, acompanhado por Pedro, Tiago e João, no alto de uma montanha (Mt 17,1), confirma esta perspectiva, pois é uma referência ao monte Sinai, no qual Deus deu a conhecer ao povo o seu projeto de vida e de liberdade, que Moisés registrou no decálogo (Ex 20,2-17). A tradição identificou a montanha da transfiguração com o monte Tabor. E Jesus é apresentado ao mundo como o novo Moisés que vem para resgatar a essência da lei, isto é, o amor que liberta e promove a vida de todos igualmente.
Ao propor ficar na montanha e construir três tendas (Mt 17,4), Pedro revela sua dureza de coração. Fazia pouco tempo que Jesus já lhe tinha chamado a atenção para sua cegueira, acusando-o de cumprir a função de Satanás como pedra de tropeço no projeto de Deus (Mt 16,22-23). Mesmo assim, Pedro ainda não compreendera que a construção da justiça do Reino não permite privilégios, nem acomodação. Ser discípulo não é somente participar da glória de Jesus, mas é também carregar a sua cruz, gerando e defendendo a vida.
A nuvem (Mt 17,5) é um dos símbolos privilegiados na Bíblia para falar da presença de Deus (Ex 13,21; 16,10; 34,5; Nm 12,5). E, tal como em Lucas o anjo dissera a Maria "o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra" (Lc 1,35), agora desceu uma nuvem sobre a montanha, "cobrindo-os com a sua sombra". É o Pai confirmando a missão do Filho. Da nuvem saiu uma voz que disse: "Este é meu filho amado, em quem me comprazo, ouvi-o", da mesma forma como já havia anunciado por ocasião do batismo (Mt 3,17). Jesus é o Emanuel, presença libertadora de Deus entre nós (Mt 1,23).
Não é possível acomodar-se no alto da montanha. Ouvir a sua voz desinstala e leva a descer para junto do povo sofrido e tornar o Reino de Deus presente, sem ufanismo ou triunfalismo (Mt 17,9). Mas ciente de que o seguimento humilde da prática libertadora de Jesus significa estar disposto a também sofrer as consequências da cruz.
Ildo Bohn Gass é bliblista, leigo católico. Junto com o Pastor Carlos Dreher (IECLB) e a Revma. Lucia Sírtoli (IEAB), é autor do livro O pão nosso de cada dia dá-nos hoje.


Etimologia da Semana Santa


O pão e o vinho
São os elementos naturais que Jesus toma para que não só simbolizem mas também se convertam em seu Corpo e seu Sangue e o façam presente no sacramento da Eucaristia.
Jesus os assume no contexto da ceia pascal, onde o pão ázimo da páscoa judaica que celebravam com seus apóstolos fazia referência a essa noite no Egito em que não havia tempo para que a levedura fizesse seu processo na massa (Ex 12,8).
O vinho é o novo sangue do Cordeiro sem defeitos que, posto na porta das casas, evitou aos israelitas que seus filhos morressem na passagem de Deus (Ex 12,5-7). Cristo, o Cordeiro de Deus (Jo 1,29), ao que tanto se refere o Apocalipse, salva-nos definitivamente da morte por seu sangue derramado na cruz.
Os símbolos do pão e o vinho são próprios da Quinta-feira Santa no que, durante a Missa vespertina da Ceia do Senhor, celebramos a instituição da Eucaristia, da qual encontramos alusões e alegorias ao longo de toda a Escritura.Mas como esta celebração vespertina é o pórtico do Tríduo Pascal, que começa na Sexta-feira Santa, é necessário destacar que a Eucaristia dessa Quinta-feira Santa, celebrada por Jesus sobre a mesa-altar do Cenáculo, era a antecipação de seu Corpo e seu Sangue oferecidos à humanidade no "cálice" da cruz, sobre o "altar" do mundo.

O lava-pés
É o único que nos relata este gesto simbólico de Jesus na Última Ceia e antecipa o sentido mais profundo do "sem-sentido" da cruz.
Um gesto incomum para um Mestre, próprio dos escravos, converte-se na síntese de sua mensagem e dá aos apóstolos uma chave de leitura para enfrentar o que virá.
Em uma sociedade onde as atitudes defensivas e as expressões de autonomia se multiplicam, Jesus humilha nossa soberba e nos diz que abraçar a cruz, sua cruz, hoje, é ficar ao serviço dos outros. É a grandeza dos que sabem fazer-se pequenos, a morte que conduz à vida.

Os símbolos da Paixão

1. A cruz
A cruz foi, na época de Jesus, o instrumento de morte mais humilhante. Por isso, a imagem do Cristo crucificado se converte em "escândalo para os judeus e loucura para os pagãos" (1 Cor 1,23). Teve que passar muito tempo para que os cristãos se identificassem com esse símbolo e o assumissem como instrumento de salvação, entronizado nos templos e presidindo as casas e habitações, e pendendo no pescoço como expressão de fé.
Isto demonstram as pinturas catacumbais dos primeiros séculos, onde os cristãos, perseguidos por sua fé, representaram a Cristo como o Bom Pastor pelo qual "não temerei nenhum mal" (Sl 22,4); ou fazem referência à ressurreição em imagens bíblicas como Jonas saindo do peixe depois de três dias; ou ilustram os sacramentos do Batismo e a Eucaristia, antecipação e alimento de vida eterna. A cruz aparece só velada, nos cortes dos pães eucarísticos ou na âncora invertida.
Poderíamos pensar que a cruz era já a que eles estavam suportando, nos anos da insegurança e a perseguição. Entretanto, Jesus nos convida a segui-lo nos negando a nós mesmos e tomando nossa cruz a cada dia (cf MT 10,38; Mc 8,34; Lc 9,23).
Expressão desse martírio cotidiano são as coisas que mais nos custam e nos doem, mas que podem ser iluminadas e vividas de outra maneira precisamente desde Sua cruz.
Só assim a cruz já não é um instrumento de morte mas sim de vida e ao "por que eu" expresso como protesto diante de cada experiência dolorosa, substituímo-lo pelo "quem sou eu" de quem se sente muito pequeno e indigno para poder participar da Cruz de Cristo, inclusive nas pequenas "lascas" cotidianas.

2. A coroa de espinhos, o látigo, os pregos, a lança, a esponja com vinagre...
Estes "acessórios" da Paixão muitas vezes aparecem graficamente apoiados ou superpostos à cruz.
São a expressão de todos os sofrimentos que, como peças de um quebra-cabeças, conformaram o mosaico da Paixão de Jesus.
Eles materialmente nos recordam outros sinais ou elementos igualmente dolorosos: o abandono dos apóstolos e discípulos, as brincadeiras, os cusparadas, a nudez, os empurrões, o aparente silêncio de Deus.
A Paixão revestiu os três níveis de dor que todo ser humano pode suportar: física, psicológica e espiritual. A todos eles Jesus respondeu perdoando e abandonando-se nas mãos do Pai.

Os símbolos da Luz

1. A luz e o fogo
Desde sempre, a luz existe em estreita relação com a escuridão: na história pessoal ou social, uma época sombria vai seguida de uma época luminosa; na natureza é das escuridões da terra de onde brota à luz a nova planta, assim como à noite lhe sucede o dia.
A luz também se associa ao conhecimento, ao tomar consciência de algo novo, frente à escuridão da ignorância. E porque sem luz não poderíamos viver, a luz, sempre, mas sobre tudo nas Escrituras, simboliza a vida, a salvação, que é Ele mesmo (Sl 27,1; Is 60, 19-20).
A luz de Deus é uma luz no caminho dos homens (Sl 119, 105), assim como sua Palavra (Is 2,3-5). O Messias traz também a luz e Ele mesmo é luz (Is 42.6; Lc 2,32).
As trevas, então, são símbolo do mal, a desgraça, o castigo, a perdição e a morte (Jó 18, 6. 18; Am 5. 18). Mas é Deus quem penetra e dissipa as trevas (Is 60, 1-2) e chama os homens à luz (Is 42,7).
Jesus é a luz do mundo (Jo 8, 12; 9,5) e, por isso, seus discípulos também devem sê-lo para outros (MT 5.14), convertendo-se em reflexos da luz de Cristo (2 Cor 4,6). Uma conduta inspirada no amor é o sinal de que se está na luz (1 Jo 2,8-11).
Durante a primeira parte da Vigília Pascal, chamada "lucenario", a fonte de luz é o fogo. Este, além de iluminar queima e, ao queimar, purifica. Como o sol por seus raios, o fogo simboliza a ação fecundante, purificadora e iluminadora. Por isso, na liturgia, os simbolismos da luz-chama e iluminar-arder se encontram quase sempre juntos.

2. O círio pascal
Entre todos os simbolismos derivados da luz e do fogo, o círio pascal é a expressão mais forte, porque reúne ambos.
O círio pascal representa a Cristo ressuscitado, vencedor das trevas e da morte, sol que não tem ocaso. Acende-se com fogo novo, produzido em completa escuridão, porque em Páscoa todo se renova: dele se acendem todas as demais luz.
As características da luz são descritas no exultet e formam uma unidade indissolúvel com o anúncio da libertação pascal. O acender o círio é, pois, um memorial da Páscoa. Durante todo o tempo pascal o círio estará aceso para indicar a presença do Ressuscitado entre os seus. Toda outra luz que arda com luz natural terá um simbolismo derivado, ao menos em parte, do círio pascal.

Os símbolos do Batismo

1. A água
Embora o rito do Batismo está todo ele repleto de símbolos, a água é o elemento central, o símbolo por excelência.
Em quase todas as religiões e culturas, a água possui um duplo significado: é fonte de vida e meio de purificação.
Nas Escrituras, encontramos as águas da Criação sobre as quais pairava o Espírito de Deus (Gn 1,2). A água é vida no regaço, na seiva, no liquido amniótico que nos envolve antes de nascer.
No dilúvio universal as águas torrenciais purificam a face da terra e dão lugar à nova criação a partir de Noé.
No deserto, os poços e os mananciais se oferecem aos nômades como fonte de alegria e de assombro. Perto deles têm lugar os encontros sociais e sagrados, preparam-se os matrimônios, etc.
Os rios são fontes de fertilização de origem divina; as chuvas e o orvalho contribuem com sua fecundidade como benevolência de Deus. Sem a água o nômade seria imediatamente condenado à morte e queimado pelo sol palestino. Por isso se pede a água na oração.
Yahvé se compara com uma chuva de primavera (Os 6,3), ao orvalho que faz crescer as flores (Os 14.6). O justo é semelhante à árvore plantada ao borde das águas que correm (Nm 24,6); a água é sinal de bênção.
Segundo Jeremias (2, 13), o povo do Israel, ao ser infiel, esquece de Yahvé como fonte viva, querendo escavar suas próprias cisternas. A alma procura deus como o cervo sedento procura a presença da água viva (Sl 42,2-3). A alma aparece assim como uma terra seca e sedenta, orientada para a água.
Jesus emprega também este simbolismo em sua conversação com a samaritana (Jo 4.1-14), a quem lhe revela como "água viva" que pode saciar sua sede de Deus. Ele mesmo se revela como a fonte dessa água: "Se alguém tiver sede, que venha para Mim e beba" (Jo 7,37-38). Como da rocha de Moisés, a água surge do flanco transpassado pela lança, símbolo de sua natureza divina e do Batismo (cf Jo 19,34).
Por este motivo, a água se converteu no elemento natural do primeiro sacramento da iniciação cristã. Desde os primeiros séculos do cristianismo, os cristãos adultos eram batizados em uma espécie de pileta cheia de água que contava com duas escadas: por uma descia e por outra saía. A imagem de "descer" às águas representava o momento da purificação dos pecados e estava associada à morte de Cristo.
A saída, subindo pelo lado oposto, representava o renascer à nova vida, como saindo do ventre materno,. e era associado à ressurreição. No centro se fazia a profissão de fé pública. E isto significa que a água do batismo não é algo "mágico" -como pensam muitos crentes- que protege ou transforma por si só, mas sim a expressão deste duplo compromisso: o de mudar de vida morrendo ao pecado e o de renovar a escala de valores, iluminados por Cristo, ressuscitados com Ele.

2. A vestimenta branca
A cor branca sempre foi identificado com a pureza, com o inocente. Parece lógico que, desde os primeiros séculos do cristianismo, os catecúmenos fossem ao Batismo vestidos com túnicas brancas. Poderíamos considerá-lo, inclusive, como inspirado na imagem reiterada do Apocalipse, em que os seguidores fiéis do Cordeiro mereceram vestir-se de branco (cf 3,4-5.18; 4,4; 7,9.13-14; 19,14; 22,14).
Entretanto, os textos bíblicos dependeriam do que nos diz a tradição cultural dos primeiros séculos, anterior aos mesmos. Em todo o Império Romano, só os membros do Senado se vestiam com túnicas brancas. Dali que os chamassem candídatus, do latim "cândida", branco. Desta maneira. Manifestava publicamente sua dignidade, a de servir ao Imperador, quem se apresentava como o Filho de Deus.
Os cristãos, então, a irem vestidos de branco a receber o Batismo, tentaram mostrar que a verdadeira dignidade do homem não consiste em trabalhar para nenhum poder político mas sim em servir Jesus Cristo, o verdadeiro Filho de Deus. Portanto, mais que símbolo de pureza, era símbolo de dignidade, de vida nova, de compromisso com um estilo de vida e com o esforço cotidiano por conservá-la sem mancha, para ser considerados dignos de participar do banquete do Reino (cf MT 22, 12).
Em uma sociedade consumista como a nossa, em que a dignidade das pessoas depende de como vão vestidas, da moda que seguem, das marcas que usam, os cristãos deveriam nos perguntar o que fizemos de nossa "veste branca" batismal e verifìcar se, como diz São Paulo, "tendo-nos revestldo de Cristo" (Cfr Gl 3.27).

Comemoração da Paixão de Cristo.- Uma festa posta na terça-feira logo depois de sexagésima (sexagésimo dia antes da Páscoa). Seu objeto é a recordação devota e a honra dos sofrimentos de Cristo para a redenção da humanidade. Enquanto a festa em honra dos instrumentos da Paixão de Cristo – a Santa Cruz, a Lança, Pregos, e a Coroa de Espinhos – chamadas “Arma Cristã”, originou-se durante a Idade Média, esta comemoração é de mais recente origem. Aparece pela primeira vez no Breviário de Meissen (1517) como uma festa simples para 15 de Novembro. O mesmo breviário tem uma festa da Santa Face para 15 de Janeiro e do Nome Sagrado para em 15 de Março. [Grotefend, "Zeitrechnung" (Hanover, 1892), II, 118 sqq.]; estas festas desapareceram com a introdução do Luteranismo. Como se encontra no apêndice do Breviário Romano, foi iniciado por São Paulo da Cruz (morto em 1775). O Ofício foi composto por Tomás Struzzieri, Bispo de Todi, e fiel associado a São Paulo.
Na quinta-feira Santa a Eucaristia com que se dá início ao Tríduo Pascal é a "Missa in Coena Domini", porque é a que mais entranhavelmente recorda a instituição deste sacramento por Jesus em sua última ceiar, adiantado assim sacramentalmente sua entrega na Cruz.

Ceia do Senhor.- É o nome que, junto ao de "fração do pão", São Paulo dá em 1 Cor. 11,20 ao que logo se chamou "Eucaristia" ou "Missa": "kyriakon deipnon", ceia senhorial, do Senhor Jesus. É também o nome que dá o Missal atual: "Missa ou Ceia do Senhor" ((IGMR. 2 e 7).

Abstinência.- (do latim abstinentia, ação de privar-se ou abster-se de algo) Gesto penitencial. Atualmente se pede que os fiéis com uso de razão e que não tenham algum impedimento se abstenham de comer carne, realizem algum tipo de privação voluntária ou façam uma obra caridosa nas sextas-feiras, que são chamados dias penitenciais. Só Na quarta-feira de Cinzas e Na sexta-feira Santa são dias de jejum e abstinência.

Jejum.- (do latim ieiunium, jejum, abstinência) Privação voluntária de comida por motivos religiosos. É uma forma de vigília, um sinal que ajuda a tomar consciência (ex.: o jejum da Quarta-feira de Cinzsa recorda o início do tempo penitencial) ou que prepara (ex.: o jejum eucarístico predispõe à recepção que breve se fará do Corpo de Cristo). A Igreja o prescreve pelo espaço de um dia para Na quarta-feira de Cinzas, com caráter penitencial, e para Na sexta-feira Santa, extensivo à Sábado Santo, com caráter pascal; e por uma hora para quem vai comungar.

Cinzas.- A cinza que impõe o sacerdote aos fiéis Na quarta-feira de Cinzas, procede da queima das Palmas bentas durante a Missa do Domingo de Ramos.

Palma.- Do latim: -palmae- que significa palma da mão e folha da palmeira, que já usavam os romanos como símbolo de vitória. Os povos que coincidem em lhe atribuir altos valores a este símbolo já que desenvolveram em torno dela diversos ritos. Recordemos, começando pelo mais próximo, como é tradição entre nós pendurar nos balcões os Ramos bentos No domingo de Ramos para que protegessem a casa durante todo o ano.

Paixão.- Do latim patior, passus, que significa experimentar, suportar, padecer, forma-se o essencial passio (acus. pl. Passiones). É sintomático que nos tenhamos decantado com preferência pelos aspectos positivos da palavra "paixão".

Semana Santa.- À Semana Santa lhe chamava em um princípio “A Grande Semana”. Agora chamada Semana Santa ou Semana Maior e a seus dias lhes diz dias Santos. Esta semana começa com o domingo de Ramos e termina no domingo de Páscoa.

Ecce Homo.- Imagem de Jesus Cristo tal como Pilatos a apresentou ao povo ( do latim “ecce”, eis aqui, e “homo”, o homem).

Gólgota.- Calvário. Colina de Jerusalém na Palestina, onde Jesus foi crucificado.

Via Sacra.- (em latim: Via Crucis - O caminho da cruz) Exercício piedoso que consiste em meditar o caminho da cruz por meio de leituras bíblicas e orações. Esta meditação se divide em 14 ou 15 momentos ou estações. São Leopoldo de Porto Mauricio deu origem a esta devoção no século XIV no Coliseu de Roma, pensando nos cristãos que se viam impossibilitados de peregrinar à Terra Santa para visitar os Santos lugares da paixão e morte de Jesus Cristo. Tem um caráter penitencial e está acostumado a rezá-los dias sexta-feira, sobre tudo na Quaresma. Em muitos templos estão expostos quadros ou baixos-relevos com ilustrações que ajudam os fiéis a realizar este exercício.

In http://www.acidigital.com/fiestas/semanasanta/etimologia.htm

A Semana Santa: símbolos e significado


A Igreja propõe aos cristãos os sagrados mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição do Filho de Deus, tornado Homem, para no martírio da Cruz e na vitória sobre a morte, oferecer a todos os homens a graça da salvação.

Domingo de Ramos
O Domingo de Ramos dá início à Semana Santa e lembra a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, aclamado pelos judeus.A Igreja recorda os louvores da multidão cobrindo os caminhos para a passagem de Jesus, com ramos e matos proclamando: “Hosana ao Filho de Davi. Bendito o que vem em nome do Senhor”. (Lc 19, 38; Mt 21, 9). Com esse gesto, portando ramos durante a procissão, os cristãos de hoje manifestam sua fé em Jesus como Rei e Senhor.

Quinta-feira Santa
Celebramos a Instituição do Sacramento da Eucaristia. Jesus, desejoso de deixar aos homens um sinal da sua presença antes de morrer, instituiu a eucaristia. Na Quinta-feira Santa, destacamos dois grandes acontecimentos:
Bênção dos Santos Óleos
Não se sabe com precisão, como e quando teve início a bênção conjunta dos três óleos litúrgicos. Fora de Roma, esta bênção acontecia em outros dias, como no Domingo de Ramos ou no Sábado de Aleluia. O motivo de se fixar tal celebração na Quinta-feira Santa deve-se ao fato de ser este último dia em que se celebra a missa antes da Vigília Pascal. São abençoados os seguintes óleos:
Óleo do Crisma - Uma mistura de óleo e bálsamo, significando a plenitude do Espírito Santo, revelando que o cristão deve irradiar “o bom perfume de Cristo”. É usado no sacramento da Confirmação (Crisma), quando o cristão é confirmado na graça e no dom do Espírito Santo, para viver como adulto na fé. Este óleo é usado também no sacramento para ungir os “escolhidos” que irão trabalhar no anúncio da Palavra de Deus, conduzindo o povo e santificando-o no ministério dos sacramentos. A cor que representa esse óleo é o branco ouro.
Óleo dos Catecúmenos - Catecúmenos são os que se preparam para receber o Batismo, sejam adultos ou crianças, antes do rito da água. Este óleo significa a libertação do mal, a força de Deus que penetra no catecúmeno, o liberta e prepara para o nascimento pela água e pelo Espírito. Sua cor é vermelha.
Óleo dos Enfermos - É usado no sacramento dos enfermos, conhecido erroneamente como “extrema unção”. Este óleo significa a força do Espírito de Deus para a provação da doença, para o fortalecimento da pessoa para enfrentar a dor e, inclusive a morte, se for vontade de Deus. Sua cor é roxa.
Instituição da Eucaristia e Cerimônia do Lava-pés
Com a Missa da Ceia do Senhor, celebrada na tarde de quinta-feira, a Igreja dá início ao chamado Tríduo Pascal e comemora a Última Ceia, na qual Jesus Cristo, na noite em que vai ser entregue, ofereceu a Deus Pai o seu Corpo e Sangue sob as espécies do Pão e do Vinho, e os entregou para os Apóstolos para que os tomassem, mandando-lhes também oferecer aos seus sucessores. Nesta missa faz-se, portanto, a memória da instituição da Eucaristia e do Sacerdócio. Durante a missa ocorre a cerimônia do Lava-Pés que lembra o gesto de Jesus na Última Ceia, quando lavou os pés dos seus apóstolos.O sermão desta missa é conhecido como sermão do Mandato ou do Novo Mandamento e fala sobre a caridade ensinada e recomendada por Jesus Cristo. No final da Missa, faz-se a chamada Procissão do Translado do Santíssimo Sacramento ao altar-mor da igreja para uma capela, onde se tem o costume de fazer a adoração do Santíssimo durante toda a noite.

Sexta-feira Santa
Celebra-se a paixão e morte de Jesus Cristo. O silêncio, o jejum e a oração devem marcar este dia que, ao contrário do que muitos pensam, não deve ser vivido em clima de luto, mas de profundo respeito diante da morte do Senhor que, morrendo, foi vitorioso e trouxe a salvação para todos, ressurgindo para a vida eterna. Às 15 horas, horário em que Jesus foi morto, é celebrada a principal cerimônia do dia: a Paixão do Senhor. Ela consta de três partes: liturgia da Palavra, adoração da cruz e comunhão eucarística. Depois deste momento não há mais comunhão eucarística até que seja realizada a celebração da Páscoa, no Sábado Santo.

Sábado Santo
No Sábado Santo ou Sábado de Aleluia, a principal celebração é a “Vigília Pascal”.
Vigília Pascal
Inicia-se na noite do Sábado Santo em memória da noite santa da ressurreição gloriosa de Nosso Senhor Jesus Cristo. É a chamada “a mãe de todas as santas vigílias”, porque a Igreja mantém-se de vigília à espera da vitória do Senhor sobre a morte. Cinco elementos compõem a liturgia da Vigília Pascal: a bênção do fogo novo e do círio pascal; a proclamação da Páscoa, que é um canto de júbilo anunciando a Ressurreição do Senhor; a liturgia da Palavra, que é uma série de leituras sobre a história da Salvação; a renovação das promessas do Batismo e, por fim, a liturgia eucarística.

Domingo de Páscoa
A palavra “páscoa” vem do hebreu “Peseach” e significa “passagem”. Era vivamente comemorada pelos judeus do Antigo Testamento. A Páscoa que eles comemoram é a passagem do mar Vermelho, que ocorreu muitos anos antes de Cristo, quando Moisés conduziu o povo hebreu para fora do Egito, onde era escravo. Chegando às margens do Mar Vermelho, os judeus, perseguidos pelos exércitos do faraó teriam de atravessá-lo às pressas. Guiado por Deus, Moisés levantou seu bastão e as ondas se abriram, formando duas paredes de água, que ladeavam um corredor enxuto, por onde o povo passou. Jesus também festejava a Páscoa. Foi o que Ele fez ao cear com seus discípulos. Condenado à morte na cruz e sepultado, ressuscitou três dias após, num domingo, logo depois da Páscoa judaica. A ressurreição de Jesus Cristo é o ponto central e mais importante da fé cristã. Através da sua ressurreição, Jesus prova que a morte não é o fim e que Ele é verdadeiramente o Filho de Deus. O temor dos discípulos em razão da morte de Jesus, na Sexta-Feira, transforma-se em esperança e júbilo. É a partir deste momento que eles adquirem força para continuar anunciando a mensagem do Senhor. São celebradas missas festivas durante todo o domingo.

A data da Páscoa
A fixação das festas móveis decorre do cálculo que estabelece o Domingo da Páscoa de cada ano. A Páscoa deve ser celebrada no primeiro domingo após a primeira lua cheia que segue o equinócio da primavera, no Hemisfério Norte (21 de março). Se esse dia ocorrer depois do dia 21 de abril, a Páscoa será celebrada no domingo anterior. Se, porém, a lua cheia acontecer no dia 21 de março, sendo domingo, será celebrada dia 25 de abril. A Páscoa não acontecerá nem antes de 22 de março, nem depois de 25 de abril. Conhecendo-se a data da Páscoa, conheceremos a das outras festas móveis. Domingo de Carnaval - 49 dias antes da Páscoa. Quarta-feira de Cinzas - 46 dias antes da Páscoa. Domingo de Ramos - 7 dias antes da Páscoa. Domingo do Espírito Santo - 49 dias depois.Corpus Christi - 60 dias depois.

Símbolos da Páscoa
Cordeiro:
O cordeiro era sacrificado no templo, no primeiro dia da páscoa, como memorial da libertação do Egito, na qual o sangue do cordeiro foi o sinal que livrou os seus primogênitos. Este cordeiro era degolado no templo. Os sacerdotes derramavam seu sangue junto ao altar e a carne era comida na ceia pascal. Aquele cordeiro prefigurava a Cristo, ao qual Paulo chama “nossa páscoa” (1Cor 5, 7).João Batista, quando está junto ao Rio Jordão em companhia de alguns discípulos e vê Jesus passando, aponta-o em dois dias consecutivos dizendo: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jô 1, 29 e 36).Isaías o tinha visto também como cordeiro sacrificado por nossos pecados ( Is 53, 7-12). Também o Apocalipse apresenta Cristo como cordeiro sacrificado, agora vivo e glorioso no céu. ( Ap 5,6.12; 13, 8).
Pão e vinho: Na ceia do Senhor, Jesus escolheu o pão e o vinho para dar vazão ao seu amor. Representando o seu corpo e sangue, eles são dados aos seus discípulos para celebrar a vida eterna.
Cruz: A cruz mistifica todo o significado da Páscoa na ressurreição e também no sofrimento de Cristo. No Conselho de Nicéia, em 325 d.C., Constantino decretou a cruz como símbolo oficial do cristianismo. Símbolo da Páscoa, mas símbolo primordial da fé católica.
Círio Pascal: É uma grande vela que é acesa no fogo novo, no Sábado Santo, logo no início da celebração da Vigília Pascal. Assim como o fogo destrói as trevas, a luz que é Jesus Cristo afugenta toda a treva do erro, da morte, do pecado. É o símbolo de Jesus ressuscitado, a luz dos povos. Após a bênção do fogo acende-se, nele, o Círio. Faz-se a inscrição dos algarismos do ano em curso; depois cravam-se cinco grãos de incenso que lembram as cinco chagas de Jesus, e as letras “alfa” e “ômega”, primeira e última letra do alfabeto grego, que significam o princípio e o fim de todas as coisas.

Ir. Ili AlvesCoordenadora diocesana da Catequese da Diocese de Palmas -Francisco Beltrão
In http://www.comshalom.org/formacao

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Entrevista com o arcebispo de Toronto sobre a ‘lectio divina’


TORONTO, quinta-feira, 24 de março de 2011 (ZENIT.org) - O arcebispo Thomas Collins, de Toronto, conduziu a ‘lectio divina' na sua diocese durante 10 anos. Ele acaba de publicar um livro para compartilhar esta experiência com um público mais amplo. Veja a entrevista que ele concedeu a ZENIT.


ZENIT: O livro é descrito como uma "adaptação da antiga prática da ‘lectio divina' aos católicos de hoje". Que tipo de adaptação é necessária? Quais são as diferenças entre a antiga prática e a ‘lectio divina' atual?


Dom Collins: A ‘lectio divina' é basicamente uma leitura orante das Escrituras, é algo diferente do estudo da Bíblia (exegese), da proclamação da Palavra de Deus na liturgia ou da leitura contínua de longos trechos bíblicos. O objetivo é experimentar um encontro com o Senhor através da leitura orante um pequeno trecho da Bíblia. Isso foi feito de muitas maneiras pelos cristãos nos últimos 2 mil anos.
Em nossos tempos modernos, várias pessoas adaptaram esta prática de maneiras diferentes, quer em sessões abertas a todos, quer em privado.
A forma pública da ‘lectio divina', que é o que eu ofereço, é um método simples de leitura orante de um pequeno fragmento da Bíblia. Espero que quem participe possa adaptar esta à sua oração privada diária.


ZENIT: O senhor poderia fazer um breve resumo do método de ‘lectio divina' que propõe no livro?


Dom Collins: A forma como eu faço a ‘lectio divina' está baseada em métodos utilizados por outros, com os ajustes à minha própria situação. As pessoas podem fazer isso de diferentes maneiras.
Eu começo com a oração solene das Vésperas na catedral, com o canto dos salmos. É uma prática antiga que enriquece a nossa vida moderna. Depois, saio e fico ao lado do santuário, às vezes dando alguma informação que pode ser útil para os fiéis para a oração do texto.
Há três fases na ‘lectio divina':
Primeiro, fazemos o Sinal da Cruz, para começar o tempo dedicado à ‘lectio divina'. Nós precisamos nos situar conscientemente na presença de Deus, pedindo-lhe perdão pelos nossos pecados e afastando as distrações que nos impedem de ouvir a sua Palavra. Fazemos a oração do jovem Samuel: "Fala Senhor, que teu servo escuta".
A segunda fase é a oração do texto sagrado. Primeiro, leio toda a passagem devagar, com uma voz forte, e peço a todos que considerem o que nos diz a nossa cabeça, nosso coração e nossas mãos: isto é conhecer a Deus, amar a Deus, servir a Deus.
Após um período de silêncio, leio o primeiro versículo da passagem, e então faço algumas observações que me vêm à mente e encorajo as pessoas a passarem algum tempo em silêncio, refletindo sobre esse versículo. Este padrão é seguido com os outros versículos - texto, comentário, silêncio - e, finalmente, volto a ler o texto inteiro, que é seguido por outro momento de silêncio.
A terceira fase é a oração do Pai Nosso, Ave Maria, Glória e o Sinal da Cruz, antes de retornar à correria da vida cotidiana.


ZENIT: Bento XVI tem recomendado repetidamente a ‘lectio divina'. Em 2005, ele disse que, se "promovida eficazmente", ela poderia trazer uma nova primavera para a Igreja. O que é uma promoção eficaz?


Dom Collins: Eu acho que é bom para um bispo ou padre dirigir uma forma pública de ‘lectio divina' ou descrever esta forma de oração em palestras ou retiros. É uma maneira simples e profunda de encontrar Deus na Bíblia.


(Kathleen Naab)


In www.zenit.org

quinta-feira, 17 de março de 2011

São Francisco e a criação


189. São Francisco é hoje um modelo para os que buscam uma relação mais qualitativa em relação às criaturas, pois cresce a consciência de que há relações que as degradam, acarretando também a degradação do ser humano. Existe uma interrelação entre o ser humano e as criaturas, como soube expressar São Paulo:
“De fato, toda a criação espera ansiosamente a revelação dos filhos de Deus; pois a criação foi sujeita ao que é vão e ilusório, não por seu querer, mas por dependência daquele que a sujeitou. Também a própria criação espera ser liberta da escravidão da corrupção, em vista da liberdade que é a glória dos filhos de Deus. Com efeito, sabemos que toda a criação, até o presente, está gemendo como que em dores de parto” (Rm 8, 19-22).
190. Por atitudes de arrogância e autosuficiência dos homens exploraram exaustivamente a natureza e a destruíram, depredaram, aniquilaram, extinguiram espécies e poluíram o ar e as águas. Assim, não foram respeitosos ao Criador que ao ser humano reservou a função de cuidar do seu jardim e de todas as criaturas[1]. Nesse sentido, é necessário que se desenvolvam novas atitudes para com a criação que se constitui em um dom de nosso Deus Criador.
191. Em relação à posse, esta relação é também muito perigosa, pois pela posse, o detentor de poder desqualifica o significado ou identidade dos seres em geral, entendendo-os como meros objetos para servir à intenção ou à necessidade de quem os possui. São Francisco soube contemplar e valorizar as coisas pelo que eram e pelo valor mais profundo que apresentavam como criaturas de Deus[2].
192. O uso das criaturas para o nosso sustento e sobrevivência é imprescindível e se o homem foi colocado como o zelador das coisas, de outro, também é verdade que tudo lhe ficou à disposição. O problema está no uso indiscriminado, na gastança desmedida, no consumismo desenfreado, muitas vezes de coisas supérfluas. É necessário resgatar a sobriedade no consumo dos bens necessários à dinâmica da vida e evitar desperdícios. São Francisco soube cultivar esta sobriedade no uso das criaturas, como podemos ver no fato de mandar o lenhador cortar apenas os galhos secos das árvores para que continuassem produzindo[3].
193. A transformação está ligada ao trabalho, à atividade mediante a qual os seres humanos operam transformações de materiais ou de seres em outras realidades segundo sua intenção e necessidade. Hoje vemos que as transformações muitas vezes somente vão atender à necessidade de se manter ativa a roda do consumismo, com a produção do supérfluo. No entanto, esta atividade deve visar à vida e à sua justa manutenção.
194. Resgatar São Francisco neste contexto de nossas relações com as criaturas da natureza significa valorizar suas atitudes. Primeiramente, a pobreza, que neste santo significou a não-posse, reverteu-se em redenção para as criaturas, e lhe possibilitou pelo olhar contemplativo alcançar o que eram realmente, a ponto de lhes chamar de irmãs e irmãos. A razão é simples, em última análise este olhar purificado de poder e lucro, revela que as criaturas são dom de Deus e também portam sinais do Criador.
195. Por isso, São Francisco purificado interiormente pela ação do Espírito que o conduziu a renúncias, como posse e dominação, ao contemplar a natureza, nela somente via reflexos da imagem de Deus, de sua bondade e beleza. Assim, as criaturas não se constituem em obstáculos para se encontrar Deus e amá-lo[4].
196. Assim, a contemplação deste santo não era pautada simplesmente pelo fator racional, mas se deixava levar pelos seus sentimentos, por sua sensibilidade, até o ponto de realmente amar as criaturas, afinal, havia feito a descoberta de que elas eram também suas irmãs. Em consequência, nele brotou um respeito impressionante por todos os seres criados e soube viver de modo perfeitamente integrado a este universo, numa grande fraternidade com todo o universo criado por Deus. São Francisco, disse um de seus biógrafos, descobriu os segredos do coração das criaturas, às quais chamava de irmãs, porque já parecia gozar a liberdade gloriosa dos filhos de Deus[5].
197. Que a oração em que São Francisco louva a Deus pelas criaturas, nos inspire novas atitudes e nos ajude a ser transformados pelo Espírito de Deus de modo a resgatarmos atitudes de quem cultiva e cuida do seu jardim, esta obra maravilhosa, que hoje requer socorro dos autênticos filhos de Deus, e de todos aqueles que empreendem ações sinceras e despojadas em prol do planeta.

Fonte: Texto Base da CF 2011


[1] Cf. Celso Márcio TEIXEIRA. Visão franciscana das criaturas. In Perspectivas para uma nova Teologia da Criação. p. 274.
[2] Cf. Celso Márcio TEIXEIRA. p. 275.
[3] Cf. Idem.
[4] Cf. Celso Márcio TEIXEIRA. p. 276.
[5] Cf. Cf. Celso Márcio TEIXEIRA. p. 277-278.

O pecado e sua dimensão ecológica


180. As criaturas foram chamadas à vida por Deus Criador por amor, num ato de doação de vida. E, mesmo envolvendo-as com sua presença, Deus respeita os seres criados em sua justa autonomia e liberdade. Esta condição é indispensável para que o homem e mulher, queridos e criados por Deus, também pudessem amar. O amor é também condição para que cumprissem a missão de cuidar da obra realizada pelo Criador, a qual exige doação e entrega. E não se pode simplesmente exigir isto de alguém, tal empenho requerido por Deus ao homem, passa por um coração que ama.
181. No entanto, esta mesma liberdade entrevia a possibilidade do pecado, ou do uso da liberdade para se negar a via do amor, cuja consequência é o rompimento da confiança em Deus e nos demais seres. “Ninguém pode hospedar a quem lhe traiu a confiança e ninguém permanece hospedado com alguém a quem ofendeu. O livre ato humano impossibilita a continuidade do shabbat: a festa é interrompida abruptamente”[1]. Em consequência o homem e a mulher vão se emancipar de Deus, ou passam a viver num estado de autonomia que implica separação de Deus e autoafirmação em si mesmos. Neste estado, já não acolhem o chamado de Deus para cooperarem com o seu projeto, e se fecham cada vez mais em um mundo próprio em descordo com a palavra do Criador. Neste sentido, vão conhecer uma degradação cada vez maior, como podemos vemos na sequência dos primeiros capítulos do livro do Genesis.
182. Na crise ambiental atual, fica patente o poder destruidor do pecado. É o mesmo poder que nega ou deturpa a relação dialógica com o Deus da Vida e do Amor, as relações entre homem e mulher bem como as outras relações entre os seres humanos (comunitárias, políticas, econômicas, etc.). É o mesmo poder mortífero cristalizado em estruturas sociais injustas e em modos de produção-consumo destruidores do meio ambiente. A alienação do ser humano em relação ao projeto de Deus sobre a humanização, manifesta-se na sociedade injusta e opressora e na utilização abusiva e destruidora da natureza.
183. Nessa visão integrada do ser humano, a salvação oferecida pelo Deus da revelação bíblica afeta o ser humano em todas as suas dimensões. O universo inteiro possui uma dimensão crística. A encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo possuem um significado cósmico, totalmente universal. A libertação da natureza, manipulada abusivamente pelo ser humano, está incluída na libertação do pecado humano para a vivência da liberdade concretizada no amor-serviço. Inclui as relações responsáveis e solidárias com as outras criaturas. Hoje, fica cada vez mais claro que a salvação do ser humano é inseparável da salvação da criação toda (Rm 8, 19-23). O destino de ambos está intimamente unido.

Fonte: Texto Base da CF 2011

[1] BRUSTOLIN, L.A. e MACHADO, R.F. Um pacto pela terra – a crise ecológica. In TEOCOMUNICAÇÕES. Porto Alegre – Vol. 38, No. 160 – maio/agosto 2008.

Apontamentos bíblicos sobre a preservação da natureza


1.1. O nosso Deus é o Deus da vida
100. A Bíblia inicia mostrando a vitória de Deus sobre o caos, organizando o cosmos e revelando-se como doador da vida. Na primeira narração da criação (Gn 1-2, 4a), o Deus criador vai gerando a vida na “semana da criação”. Deus dá à terra o poder de gerar frutos, árvores, sementes, ervas e verduras (Gn 1, 12). O texto vai repetindo, a cada etapa: “E Deus viu que era bom”. Deus criou por meio de suas palavras todas as realidades, formando uma grande solidariedade cósmica[1], como vemos na narrativa dos cinco primeiros dias, na qual se integraram os animais selvagens, domésticos e pequenos do chão segundo suas espécies, e o ser humano, criados no sexto dia. E o texto diz “E Deus viu tudo quanto havia feito, e era muito bom” (Gn 1, 31).
101. Podemos notar facilmente a harmonia entre os planos da realidade: o temporal expresso nos seis dias de trabalho e o espacial das realidades criadas nos seis dias, desde a primeira, a luz, até o ser humano de modo que é estabelecida uma unidade formada de coisas distintas que se entrelaçam.
102. Mas houve quem entendesse que o ser humano era dono absoluto do planeta porque o texto também diz: “Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a! Dominai sobre os peixes do mar, as aves de céu e todos os animais que se movem pelo chão” (Gn 1, 28). No entanto, a leitura desta narrativa nos revela que o ser humano foi criado no sexto dia ao lado de outros animais como as feras dos bosques, animais domésticos e os répteis, os quais parecem superiores aos anteriormente criados (Gn 1, 23-25).
103. A palavra dominar vem do latim dominus, que significa “senhor”. Dominar significa exercer o senhorio sobre os demais, e este exercício do senhorio deve ser feito a partir do modelo de “Senhor” que é o próprio Deus. A narrativa da criação nos mostra como Deus exerce o senhorio em relação à natureza: ele a cria, ordena o seu crescimento e a sua evolução a fim de que ela possa trilhar um caminho de perfeição, garante a sua continuidade, cuida dela e a abençoa. Assim, o exercício do senhorio, ou a dominação, por parte do ser humano deve significar respeito à ação criativa divina, contribuir com o crescimento e a evolução da natureza em todas as suas dimensões, cuidado com o meio ambiente e fazer dele uma fonte de bênçãos, ou seja, de comunhão com ela e, a partir dela, harmonia interior, comunhão com as outras pessoas e caminho de conhecimento e estreitamento de relações com o próprio Criador.
104. Desse modo, o ser humano vai condividir o mesmo espaço com estes animais que foram criados ao seu lado. No texto bíblico acima, podemos notar que os animais da terra ganham autonomia e são colocados sobre o mesmo espaço em que se encontram os seres humanos. É evidente que há uma diferença fundamental entre seres os humanos e os animais, que é de ordem sobrenatural, pois os seres humanos foram criados à imagem e semelhança de Deus e receberam o seu sopro em suas narinas, mas enquanto seres naturais, eles se encontram unidos em um equilíbrio dinâmico, o que não concede a eles o direito de se utilizar da natureza segundo seus caprichos de modo a causar destruição e colocá-la em perigo[2].
105. Tendo em vista todos os problemas do meio ambiente, fruto de um processo desmedido da utilização dos bens do planeta, é oportuna uma reflexão acerca do mandato “enchei a terra e submetei-a. Dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que se movem no chão” (Gn 1, 28). Para este intento, é fundamental compreender o significado de alguns verbos como: submeter e dominar.
106. O verbo submeter, em hebraico, kabash, no contexto da cultura semita tem como foco principal a terra e o seu cultivo, e o verbo dominar é tradução do hebraico radah, que possui o sentido de cultivar, organizar e cuidar. Assim, não é concedida ao ser humano, a posse em termos de senhorio em relação aos outros seres criados, pois a consideração destes verbos indica precisamente atitudes de cultivo, zelo e cuidado, próprias de um pastor que conduz suas ovelhas protegendo-as dos iminentes perigos[3]. O livro do Gênesis é claro quanto a isso ao afirmar que Deus colocou o ser humano no jardim para o cultivar e guardar (Gn 2, 15).
1.2. O lugar do ser humano na criação
107. O salmista, logo após indagar sobre o que é o ser humano, afirma, “o fizeste só um pouco menor que um deus, de glória e honra o coroaste” (Sl 8, 6). Dessa forma, indica que o ser humano foi criado de modo especialíssimo no reino da criação porque, mesmo sendo um ser integrante da natureza, a transcende, e essa transcendência, embora não tire do ser humano sua condição natural, traz outras implicações que dão sentido à natureza e gera responsabilidades em relação a ela. O primeiro relato da criação, no livro do Gênesis, expressa esta condição humana com a afirmação de que “Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou. Homem e mulher ele os criou” (Gn 1, 27).
108. Em um dos Documentos referenciais do Concílio Ecumênico Vaticano II, encontramos a seguinte interpretação dessa afirmação, “o homem foi criado à ‘imagem e semelhança de Deus’, capaz de conhecer e amar o seu criador, e por este constituído senhor de todas as criaturas terrenas, para as dominar e delas se servir, dando glória a Deus”[4]. O documento conciliar entende que o homem se encontra no centro da criação, inclusive utiliza o verbo dominar para caracterizar as suas relações com os demais seres da natureza. No entanto, o entende como um ser de relações, “Deus não criou o homem sozinho”, e “o homem por sua própria natureza, é um ser social”[5], e consequentemente, chamado à cooperação e à solidariedade para com seus irmãos e para e para com os seres da natureza. Pois, o texto diz para dominar e se servir das criaturas, dando glória a Deus, o que não é compatível com a atitude de um déspota que utiliza os bens da natureza até o seu esgotamento, provocando somente morte em relação aos seres da natureza. Certamente, esta leitura pode ser realizada, mesmo que na época da realização do Concílio as preocupações ecológicas fossem apenas incipientes.
109. Visando esclarecer ainda o entendimento desta concessão para que o homem domine, dada a singularidade de seu ser, imagem de Deus, outro verbo desta narrativa merece ser mencionado e analisado, é mashal (governar, presidir), que aparece em Gn 1, 16-18. Este verbo é utilizado para descrever um domínio como o exercido pelos astros que receberam a incumbência de presidir sobre o dia e a noite, marcando o ritmo da vida. Assim sendo, o ser humano é responsável pela vida, bem estar e integridade daqueles que estão sob seu domínio. O homem e a mulher, criaturas do sexto dia, imagem e semelhança de Deus, têm responsabilidades: diante da natureza, do semelhante e diante do criador[6]. De modo, que esta singularidade observada na criação do homem e da mulher quer dizer que foram chamados à vida, ao cuidado do que a ela se refere, e a trabalhar em prol da manutenção da obra do Criador.
110. As realizações humanas, assim como suas construções e até mesmo sua procriação, devem contribuir para que este objetivo seja atingido, e dar continuidade à obra de Deus. E tendo em vista esta responsabilidade conferida ao ser humano, é oportuno recolocar uma pergunta que o saudoso Papa João Paulo II inseriu em um de seus escritos, “Todas as conquistas alcançadas até agora, bem como as que estão projetadas pela técnica para o futuro, estão de acordo com o progresso moral e espiritual do homem?”[7]. E suas preocupações ao estender seu olhar para aquele momento histórico, o fez continuar com suas indagações, “Crescem verdadeiramente nos homens, entre os homens, o amor social, o respeito pelos direitos de outrem...ou, pelo contrário, crescem os egoísmos... a tendência para dominar os outros, para além dos próprios e legítimos direitos e méritos, e a tendência para desfrutar de todo o progresso material e técnico-produtivo exclusivamente para o fim de predominar sobre os outros, ou em favor deste ou daquele outro imperialismo?”[8]. Os problemas levantados por estas interrogações se encontram entre os motivos da atual crise ecológica que coloca em risco a vida no planeta.
1.3. A atualidade da advertência aos primeiros pais no paraíso (Gn 3, 1-24)
111. Se por um lado, o progresso científico e econômico, político e social da modernidade trouxe contribuições para o bem da humanidade, de outro introduziu muitas situações que atentam contra a vida em sua dimensão planetária. Pois, os detentores do poder quiseram comer da árvore do bem e do mal, utilizando de modo destrutivo dos bens do planeta, e chegamos ao ponto em que as condições para a vida se encontram seriamente ameaçadas, com o efeito estufa e as mudanças climáticas.
112. Nunca como hoje, os frutos desta árvore da vida se mostraram ao mesmo tempo mais fascinantes e mais ameaçadores. As ameaças não vêm evidentemente das ciências e das tecnologias consideradas em si mesmas. Essas podem se constituir em instrumentos preciosos para se desvendar e melhor usufruir das maravilhas da criação. As ameaças vêm das ideologias e do espírito de dominação que muitas vezes marcam certos segmentos do denominado meio científico, e que pela mídia são assimiladas inclusive pelas multidões que absorvem este espírito através dos inúmeros meios de comunicação. A arrogância e a prepotência transparecem, antes de mais nada, em certas afirmações categóricas feitas em nome das ciências, mas que no fundo não passam de meras hipóteses, ou no máximo de teorias. Enquanto há poucas décadas se presenciava um movimento generalizado de dessacralização, hoje, em pleno século XXI, se percebe um movimento inverso. Em certos setores da sociedade, indo na contramão da história e do princípio básico da cientificidade, a palavra “científico” transformou-se numa espécie de ídolo diante do qual todos devem dobrar os joelhos. Enquanto o princípio da cientificidade aponta para a provisoriedade de todas as conquistas, o cientificismo tende a absolutizar o que, por definição, é relativo e provisório. E, uma vez mais na contramão da história, há grupos que se aproveitam de teorias pretensamente científicas para investir contra a vida e os que defendem sua inviolabilidade desde a concepção até a morte natural.
113. A par da arrogância que transparece no uso e abuso do adjetivo “científico”, causa preocupação a maneira como são anunciadas as promessas de eventuais curas de certas doenças através do avanço das biotecnologias. O tom dessas promessas é tal que levanta sérias dúvidas sobre qual seria de fato o móvel de anúncios sensacionalistas. Seria expressão de uma concepção reducionista e até certo ponto ingênua da complexidade dos mecanismos da vida, mormente da vida humana? Seria a tentação de ocupar destaque na mídia para garantir um lugar de honra no panteon outrora ocupado pelos deuses pagãos? Por trás de tantas promessas não se esconderiam interesses escusos, seja na linha de obter financiamentos públicos para laboratórios privados, ou então até mesmo para usufruir de lucros oriundos da exploração de um povo sofredor? Por trás desta venda de ilusões não se esconderiam até segundas intenções de caráter mais político-ideológico, no sentido de distrair as atenções do povo das verdadeiras causas de seus sofrimentos imediatos e que se localizam nas estruturas econômicas e sociais que impedem uma grande maioria de se beneficiar dos benefícios do progresso?
114. Assim, o apossar-se dos frutos da árvore da vida está significando caminhos para o apossamento das pessoas e da natureza, sem avaliar as consequências deste ato e sem considerar uma justa hierarquia de valores que deve reger as relações das pessoas entre si, com a natureza e com o Criador.
115. Desse modo, este pecado do princípio, é um pecado atual, que permanece aberto e se atualiza, especialmente quando as pessoas se deixam conduzir pelo anseio e desejo de dominação e subjugação do outro, de modo violento, causando destruição e morte, como atualmente no sistema estruturador de nossas sociedades. Este pecado diz que os homens e mulheres quiseram assumir prerrogativas divinas e pela força, dominar o mundo e subjugar os demais seres, em uma guerra social e ecológica que leva inevitavelmente à morte.
116. Quando o ser humano se comporta como Deus, fazendo o que deseja, sem respeitar os limites, ele fica só (constatam que estão nus), não se relaciona de modo justo e edificante com Deus, pois precisa esconder-se dele, ou com seu semelhante, pois acusa a mulher de ser a responsável por seus erros, e nem com os seres vivos da natureza, pois é expulso do paraíso. A desordem surge quando homem e mulher pretendem conhecer o bem e o mal com a intenção de se tornarem divinos (lembremo-nos das palavras da serpente à Eva: de modo algum morrereis, mas sereis como Deus [cf. Gn 3, 5], e assim, dirigir toda criação conforme suas leis e critérios, sem nenhum respeito pelas normas que presidem o justo e solidário relacionamento humano com o universo.
117. Diante de nossas problemáticas com o meio ambiente, se faz oportuna a leitura em chave ecológica da denominada queda dos primeiros pais no paraíso (Gn 3, 1-24). E podemos reconhecer no que Deus disse a Adão e Eva uma advertência com implicações ecológicas: “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não deves comer, porque, no dia em que dela comeres, com certeza morrerás” (Gn 2, 17). A riqueza que os seres humanos têm à disposição se reveste igualmente de um princípio de responsabilidade.
118. Esse enunciado bíblico indica ao homem e à mulher que podem usufruir dos bens do jardim, desde que mantenham a ordem, que é de caráter superior e aponta para a justiça e a solidariedade, dentro da terra em vista da coletividade. A não observância desta advertência implica em morte, o que é atualíssimo. Comer da árvore não recomendada significa que as pessoas se fazem dominadoras e instalam um sistema destruidor, e na condição de senhores e senhoras do bem e do mal, acabam destruindo tudo, inclusive a si mesmos e instalando um conflito no lugar de uma vida solidária.
1.4. O descanso e o sentido autêntico da criação
1.4.1. Consideração sobre o descanso no livro do Gênesis
119. Deus nos dá este mundo para que vivamos numa solidariedade geradora de paz. “No sétimo dia, Deus concluiu toda obra que tinha feito; e no sétimo dia repousou de toda obra que fizera” (Gn 2, 2a). Este dia, o sétimo, se reveste de grande importância no contexto do primeiro relato da criação, pois nele, Deus “concluiu” a sua criação. Desta forma, é no dia chamado de sábado e através dele, que o homem e a mulher vão reconhecer a realidade na qual vivem, como também perceberem-se como criação de Deus. Este dia é chamado de sábado, do qual deriva uma doutrina, que também, ilumina a criação sobre o seu autêntico futuro, pois a abre para a presença da eternidade no tempo, e testemunha o mundo vindouro que está sendo engendrado no hoje.
120. A filosofia moderna criou as bases para o desenvolvimento de uma visão mecanicista da natureza. Através do pensamento de Francis Bacon, desenvolveu o método indutivo que possibilitou a elaboração de princípios gerais das ciências através da associação de elementos particulares observáveis empiricamente. René Descartes trabalhou os conceitos de ideia clara e distinta, que ajudou na observação de fenômenos particulares. Depois estabeleceu a distinção entre a realidade material e a inteligível (res extensa e res cogitans), possibilitando uma mentalidade dualista, que fundamenta o materialismo como consequência da ruptura entre o material e o espiritual e, por fim, desenvolveu o método racional. Galileu Galilei descobriu a órbita dos planetas, que fez com que ele concebesse o universo funcionando como um relógio. Tudo isso contribuiu para uma visão mecanicista do universo, que será desenvolvido até as últimas consequências por Isaac Newton. Nessa visão mecanicista do universo, não há espaço lógico para pensar o descanso da natureza ou para encontrar um lugar na vida humana para a contemplação. Mas não há nada mais estranho ao significado da criação do que o planeta ser entendido como uma espécie de máquina, como na modernidade.
121. Em nossos dias, há muito ficou para segundo plano esta leitura do descanso de Deus, no qual Ele abençoa e santifica a sua obra criada. Damos muito mais valor e sentido à vida do ponto de vista do trabalho e da produção, enquanto que o descanso, a festa, a alegria em viver são desqualificadas como sem serventia e sem sentido. Não é possível entender a criação de modo mais aprofundado, sem perceber o sentido deste repouso. Para as tradições bíblicas estas realidades estão interligadas, pois o repouso é a festa da criação. É em vista desta festa que Deus criou o céu e a terra e tudo o que neles existem. Por isso, na história da criação, sucede-se a cada dia uma noite; o descanso de Deus, no entanto, não conhece noite alguma.
122. Então podemos nos interrogar: o que Deus acrescentou com o descanso às obras da Criação se já a havia concluído no sexto dia? O que ainda faltava para a criação, se já se encontrava acabada? A resposta é o próprio descanso, do qual emergem a bênção e a santificação do sétimo dia, ou seja, Deus conclui a criação com a sua bênção[9]. É do repouso de Deus que emergem a bênção e a santificação do sábado. A obra da criação tem sua conclusão com o descanso do Criador. O Deus que descansa no sétimo dia é o criador que descansa de toda obra que fizera. No dia do repouso, o Criador também se recolhe novamente a si, o que não significa um retorno à existência eterna anterior à criação do mundo e das pessoas, mas deixa de criar e, junto com a sua criação, descansa e a contempla[10].
123. Entretanto, com o descanso, inicia-se a história de Deus com as suas criaturas, com o mundo e do mundo com Deus. Podemos dizer que Deus, não somente descansa de sua criação, mas que este descanso se dá em sua obra, que está diante dele e Ele presente nela[11]. Resulta que no sétimo dia, Deus liga a sua presença eterna com a sua criação transitória, está com ela e nela. Assim, a conclusão da criação se realiza no e com o descanso. A criação se refere à obra de Deus, enquanto o repouso à sua existência presente[12].
124. Pode-se afirmar que a criação revela Deus através de seus seres, mas apenas o repouso é a autorrevelação de Deus. Por isso, as obras da criação desembocam no descanso. No sétimo dia, inicia-se o reino da glória, da esperança e do futuro de todas as criaturas, e o sábado humano, torna-se “sonho de plenitude”[13], dado que esse descanso é indício e antecipação da eterna festa da glória divina. Para que isso seja possível, não podemos dissociar descanso de contemplação do divino, de modo que o descanso aprofunda os relacionamentos entre Criador e criatura e torna-se caminho de santificação e, por isso, o Decálogo exige a santificação do descanso (cf. Ex 20, 8).
125. O próprio Deus mostra o repouso como exigência para a vida humana e para a natureza quanto estabelece o ano sabático e o ano jubilar (cf. Lv 25, 1-22), sendo que o descanso deve ser respeitado não apenas para o ser humano, mas também para toda a natureza. Sem descanso não pode haver nem sequer vida natural de qualidade.
1.4.2. O dia do descanso e a ressurreição de Cristo
126. Nós cristãos entendemos que o sentido original do dia festivo está na celebração da ressurreição de Jesus, fato primordial sobre o qual apoia a nossa fé,[14] ocorrida no domingo. O domingo cristão deve ser visto como a expansão messiânica do sábado de Israel. O domingo, dia festivo cristão, entendido e vivido como o “dia do Senhor” não somente antecipa o descanso do final dos tempos, mas indica o início da nova criação.
127. Segundo a concepção cristã, a nova criação começa com a ressurreição de Cristo[15]. O jardim da ressurreição é o novo jardim do Éden, o lugar da recriação. O casal humano se reencontra num universo que não é o túmulo, mas o jardim, lugar da vida e não da morte. Se o sábado de Israel permite olhar em retrospectiva para as obras da criação de Deus e para o próprio trabalho das pessoas, a festa da ressurreição olha para frente, para o futuro da nova criação. Se o sábado de Israel permite participar do descanso de Deus, a festa cristã da ressurreição permite participar da força que opera a recriação do mundo. Se o sábado de Israel é primordialmente um dia de reflexão e de agradecimento, a festa cristã da ressurreição é primordialmente um dia de início e de esperança.
128. Não é por acaso que o dia da festa da ressurreição é visto pela Igreja como o primeiro dia da semana. Se para Deus, o sábado da criação era o sétimo dia, para as pessoas que haviam sido criadas no sexto dia, o sábado era o primeiro dia que experimentavam.
129. O esquecimento do significado profundo do dia do descanso também proporcionou a estruturação de um mundo sem celebração, de um tempo visto somente pela ótica da produção e do progresso, que gerou desequilíbrios e injustiças. E, dessa forma, prosperou um sistema de produção ancorada na eficiência, crescimento contínuo e na exclusão, com o capital assumindo a função de mantenedor da expansão e voltado para o lucro. Por isso, mesmo neste contexto de crise ambiental, nossa atenção não pode deixar de voltar-se para aqueles ‘descartados’ do sistema produtivo e que passam fome e outras necessidades. Este mundo sem o descanso de Deus, de sua presença, corre o risco de converter-se em fábricas que poluem e de homens e mulheres que atuam em um mercado de trabalho gerador mais de morte, que de vida propriamente.
1.5. O cuidado com a vida e suas fontes
130. Na Bíblia em geral, não encontramos um tratado específico sobre o meio ambiente, mas podemos encontrar algumas indicações preciosas, a partir das quais podemos perceber o respeito que o povo de Israel devia nutrir para com os seres da natureza. Nesse sentido, um dos mais importantes é o livro do Deuteronômio. Nele podemos observar algumas passagens com recomendações expressas sobre o cuidado que as pessoas as quais se dirigia deviam nutrir para com os seres do meio ambiente.
131. É interessante observar que este livro em que se reuniu leis para vários âmbitos referentes à vida dos israelitas, prestou-se para a reorganização da sociedade israelita na metade do século VII a.C, numa fase posterior à dominação da Assíria e procura contrapor-se aos valores e práticas deste povo imperialista da época[16], inclusive no cuidado para com a natureza. Abaixo seguem algumas destas recomendações:
a) Dt 22, 6-7 – nesta passagem, o texto diz explicitamente que se alguém encontrar no caminho, sobre uma árvore ou na terra, uma ave sobre um ninho, com ovos ou filhotes, e tendo necessidade destes alimentos, poderá ficar com os filhotes, mas deverá poupar a ave (“livre deixarás a mãe”). Essa lei nos permite perceber a preocupação com a fonte da vida, com a continuidade do processo de reprodução para que a espécie não venha a se extinguir. A mentalidade imperialista dos assírios não demonstrava esta sensibilidade, conforme é possível perceber na profecia de Isaías contra a Assíria, referindo-se a interferência devastadora da mesma em relação à dominação dos povos e ao saque de seus tesouros: “A minha mão, como em um ninho apanhou a riqueza dos povos... colhi a terra inteira: não houve ninguém que batesse as asas, ninguém que desse um pio” (Is 10, 14). Trata-se de uma ação destrutiva, sem a preocupação com o ciclo da vida, com a integridade da criação. Em virtude de atitude semelhante, temos visto que a vida no planeta se encontra ameaçada.
b) Dt 20, 19-20 – apresenta orientações para situações de batalha, mas não é esquecido o cuidado com a natureza. Nesse sentido, é interessante a indicação para se poupar as árvores produtivas: “quando sitiares uma cidade... não destruas as árvores a golpes de machado; porque poderás comer dos frutos. Não derrubes as árvores. Ou as árvores do campo seriam porventura homens para fugirem de tua presença por ocasião do cerco?” (Dt 20, 19). A permissão para o corte contempla ações contra o inimigo, mas somente em relação às árvores não frutíferas, “as árvores que souberes não frutíferas, poderás destruí-las e derrubá-las para as obras do cerco contra a cidade inimiga” (Dt 20, 20). Essas recomendações são um tanto quanto paradoxais, pois em ação contra uma determinada população, procurava-se poupar árvores que lhe forneciam alimentos para sobreviver. Expressa a distinção básica entre uma árvore e o ser humano e apesar da beligerância do ser humano, deixa uma esperança para uma parte da criação[17]. Mas por outro lado, refreava o desmatamento do lugar, preocupação inexistente às potências imperialistas da época. E, neste sentido, esta preocupação demonstrada no texto é oportuna para o nosso contexto, dado que ainda se constata o prosseguimento de uma das formas mais aviltantes de agressão ao meio ambiente, a devastação de florestas.
c) Dt 23, 13-15 – nesta passagem, existe a indicação para se manter a limpeza do acampamento: “Fora do acampamento terás um lugar onde te possas retirar para as necessidades. Levarás no equipamento uma pá para fazeres uma fossa... Antes de voltar, cobrirás os escrementos.” (Dt 23, 13-14). Aqui aparece a preocupação para com o saneamento em meio ao acampamento do povo, dado importante para as condições de vida daquelas pessoas. Em nossos dias o déficit em saneamento básico é vergonhoso, atinge cerca de 2,5 bilhões de pessoas no mundo. É bom nos atentarmos também, para o fato de que essa situação vai contra a santidade da vida, “teu acampamento deve ser santo, para que o Senhor não veja em ti algo de inconveniente e te volte as costas” (Dt 23, 15b). Diante desse texto, que fala diretamente do saneamento, devemos igualmente pensar na poluição e lixo que inundam nossos rios e matas, ou o nosso ‘acampamento’.
132. Quando o pecado ganha espaço, o prejuízo acaba indo mais longe do que percebemos ou prevemos. Os judeus costumam dizer que Caim não foi responsável só pela morte de Abel, mas por ter tornado impossível a vida de toda uma descendência que viria a partir dos filhos de seu irmão. Nós também, se não cuidamos das fontes da vida e permitirmos a devastação do planeta, estamos negando vida e direitos às gerações que ainda não nasceram. Como partícipes da grande família dos filhos de Deus, temos que zelar por todos os irmãos, os do presente e os do futuro. Esses e outros textos bíblicos nos revelam a compreensão que Israel tinha de que a terra, casa comum, foi criada por Deus, mas entregue aos seres humanos, como um espaço a ser trabalhado e cuidado. Isso não apenas em textos sobre as origens do universo, mas também na literatura sapiencial conforme nos testemunha o Sl 115, 16:“Os céus são os céus do Senhor, mas a terra ele a deu aos filhos de Adão”.
133. Essa pequena reflexão sobre cuidados para com a natureza e meio ambiente a partir do livro do Deuteronômio, certamente nos ajuda a pensarmos e colocarmos em prática, novas atitudes visando à preservação do mundo em que vivemos. Pois é comum, no contexto do atual sistema, em que os bens criados são explorados indiscriminadamente, nos depararmos com atitudes de absoluto descaso para com a natureza, como o mero fato de se jogar papéis no chão ou sacolas plásticas. É urgente a nossa tarefa de construir uma espiritualidade que contribua para que todos os seres possam ser respeitados
1.6. No deserto, uma lição de consumo responsável
134. Deus libertou o seu povo da escravidão no Egito, pois o povo estava morrendo sob a mão forte do Faraó, e, Deus o libertou e o fez caminhar pelo deserto, onde zelou por seu povo. Moisés foi o guia e líder desta caminhada pelo deserto. O povo precisava de comida e recebeu o maná, “Moisés lhes disse: Isto é o pão que o Senhor vos dá para comer” (Ex 16, 15b). Entretanto, havia normas para evitar o desperdício e permitir que todos tivessem o necessário. Cada um só podia recolher o que de fato precisava, “Eis o que o Senhor vos mandou: recolhei a quantia que cada um de vós necessita para comer, um jarro de quatro litros por pessoa” (Ex 16, 16a). O que fosse acumulado a mais apodreceria, “alguns, porém, desobedeceram a Moisés e guardaram o maná para o dia seguinte; mas ele bichou e apodreceu” (Ex 16, 20).
135. Apodrecer é um símbolo das consequências do acúmulo do desnecessário. Quando o ser humano quer bens materiais em excesso, quando acumula, suscita “podridão” para na sua vida, na dos outros e na própria natureza. Deus havia planejado tudo para que a necessidade básica fosse atendida, tanto em relação à alimentação quanto ao descanso. Mas há os ambiciosos, os que querem acumular, ter mais. E o Senhor questiona: até quando recusareis guardar meus mandamentos e minhas leis? (Ex 16, 28). Se esse texto tivesse sido escrito hoje, provavelmente Deus perguntaria: até quando vocês vão desprezar a natureza, pela ambição de acumular e gastar, e assim, apodrecer o planeta irresponsavelmente?
136. Essa lição da caminhada do povo pelo deserto é interessante para a dinâmica de nossa sociedade e para cada um de nós pessoalmente. Segundo os estudiosos, hoje já gastamos recursos do planeta que ultrapassam a sua capacidade de se manter sustentável. Fala-se em 25% a mais em relação ao seu limite. O sistema capitalista atual e o modo de vida que vem sendo difundido são altamente consumistas e desperdiçadores. As pessoas querem acumular coisas e capital para além do que é realmente essencial à satisfação das suas necessidades, e se deliciam, inclusive com as coisas supérfluas.
1.7. Entrando na terra prometida
137. A terra é repartida de modo a evitar a concentração de bens, e consequentemente de poder, “Entre estes se repartirá a terra em herança, de modo proporcional ao número de pessoas” (Nm 26, 53). É fácil ver que o objetivo é o bem comum, não o enriquecimento dos mais afoitos. Mas a terra, mesmo assim distribuída, não é objeto de posse absoluta, sem restrições. A terra continua sendo de Deus, para ser usada de modo responsável.
138. Nesse sentido, a doutrina do descanso é primordial, pois, além de prescrever o descanso individual no sábado, prevê também um descanso da terra na instituição do ano sabático, que deveria acontecer de sete em sete anos (Ex 23, 10-11). E a lei do descanso não parava por aí, indicava também um ano jubilar (a cada cinquenta anos), no qual a terra deveria voltar às famílias que originalmente as ocuparam, demonstrando assim, que a terra deveria ser usada segundo o desejo de seu legítimo dono, que é Deus. Diz o Senhor: “As terras não se venderão a título definitivo, porque a terra é minha, e vós sois estrangeiros e meus agregados” (Lv 25, 23). A intenção aí é cuidar da justiça social, impedindo que os empobrecidos percam tudo. Mas hoje perdemos esta perspectiva de que a terra, em última análise é de Deus, e existe grandes acumulações nas mãos de poucos, o que resulta em expulsão de uma grande massa de pessoas nascidas neste ambiente para a periferia das cidades, onde nem sempre conseguem se refazer, tudo em nome da ganância e do lucro.
139. A Bíblia nos apresenta outra proposta, que diverge das concepções atuais de nosso sistema econômico liberal, que tem na propriedade privada um de seus alicerces, e se encontra em uma fase altamente concentradora. Esse fenômeno se dá em virtude da concorrência do mercado, no qual, quanto mais capital alguém dispuser e maior for a capacidade produtiva e a distributiva, mais condições de sobrevivência e lucro terá. No entanto, esta lógica é excludente, exclui a grande maioria, gerando sofrimento e morte. Portanto, aqui temos duas bases para se edificar a sociedade: uma em que os bens estão a serviço das pessoas e outra em que as pessoas recebem um tratamento secundário e chegam até mesmo a serem excluídas.
1.8. Jesus vence tentações
140. O tentador diz a Jesus depois de quarenta dias de jejum, “Se és filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães” (Mt 4, 3). Ele rejeita essa tentação, pois ceder significaria mudar a finalidade da natureza em benefício próprio, sem respeitá-la. Hoje vemos que o “o rolo compressor do capitalismo deixa de lado qualquer tipo de consideração de cunho afetivo e espiritual. Ele prima pelo objetivismo, ou seja, transforma em mercadoria não apenas a matéria, como também os seres vivos, inclusive os humanos”[18]. A natureza não pode ser toda transformada para servir ao nosso consumo e ao lucro, sem outras considerações. Vendo o “pão” como símbolo de bens materiais de toda espécie, temos que ver aí também um convite para se resistir à tentação de transformar tudo em objeto de consumo, para que tenhamos condições de aprofundar o nosso em relação aos seres os seus autênticos valores.
141. Outro problema bem visível em nosso tempo é o desejo de transformar o próprio Deus em um mágico protetor que garante a prosperidade de seus devotos, o que podemos relacionar com a segunda das tentações de Jesus. “Então o diabo o levou à Cidade Santa, e o colocou sobre o pináculo do Templo e disse-lhe: Se és filho de Deus, atira-te daqui abaixo! Pois está escrito: ‘Ele dará ordens a seus anjos a teu respeito, e eles te carregarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’” (Mt 4, 5-6). A tentação de usar Deus em benefício próprio é muito arraigada na religiosidade que se difunde no contexto de nossa sociedade consumista. Em vez de servir a Deus, com tudo o que isso implica, muitas pessoas querem que Deus esteja ao seu serviço para satisfazer desejos e ambições individuais. Usa-se o nome de Deus até para pedir coisas que o próprio Deus, certamente, não aprova, querendo sucesso em tudo, mesmo quando esse “tudo” desrespeita o direito alheio ou quer justificar fontes de lucro que agridem o planeta.
142. A última tentação resume bem o perigo que estamos querendo denunciar: “O diabo o levou ainda para uma montanha. Mostrou-lhe todos os reinos do mundo e sua riqueza, e lhe disse: ‘Eu te darei tudo isso, se caíres de joelhos para me adorar’” (Mt 4, 8). Diante dessa tentação devemos nos lembrar que, “a própria fé na criação, aquela que informando ao homem sobre a soberania absoluta do Criador, estabelece limites ao senhorio humano sobre a terra”[19]. E, quando este limite ao senhorio humano é infringido, ocorre um processo de degradação da vida como expressa este profeta dizendo, “o país está abatido e seus cidadãos estão murchos. Os animais silvestres, as aves do céu e até os peixes do mar estão desaparecendo” (Os 4, 3). E, ainda vemos em outra passagem da literatura profética, na qual se fala das consequências do rompimento da aliança com Deus, “a terra ficará mesmo vazia, saqueada de ponta a ponta... o mundo definha... A terra foi poluída sob os pés dos moradores, pois passaram por cima das leis” (Is 24, 3-5). Na literatura paulina, podemos ver um veredito que resume o sofrer da criação pelas atitudes do homem ao sucumbir à tentação acima, “a criação foi sujeita ao que é vão e ilusório... por dependência daquele que a sujeitou” (Rm 8, 20).
1.9. O que pode nos afastar de Deus
143. No livro dos Provérbios (Pr 30, 7-9) vemos que o sábio reza para que tenha o suficiente para viver e não mais. Para que não caia em outro tipo de tentação, pede: “concede-me apenas minha porção de alimento. Isto para que, estando farto, eu não seja tentado a renegar-te e comece a dizer: ‘Quem é o Senhor?’” (Pr 30, 8b-9a). Jesus vai falar muitas vezes da escolha que precisa ser feita: é Deus ou o dinheiro que manda em nossa vida? Esse tema já foi abordado na Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2010, ocasião em que lembrávamos com energia que não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Jesus manda dar mais valor aos tesouros do céu, que certamente incluem responsabilidade pela vida e pelo outro, capacidade de defender o que é certo em vez da simples acomodação que pode nos tornar cúmplices do erro. É preciso identificar o que, para nós, é realmente um valor prioritário. Jesus disse: “onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração.” (Mt 6, 21) Se o nosso coração estiver em Deus estará também na defesa da natureza, no uso responsável dos dons que o Criador nos deu.
1.10. A voz de Deus na natureza
144. Mesmo antes de inspirar a escrita dos textos bíblicos, Deus se comunicou com a humanidade através do livro da natureza, da diversidade da vida, da riqueza de tudo que forma o mundo em que vivemos. Seria uma falsidade louvar o Criador e não se importar com o atual processo de destruição de suas obras no âmbito da criação. Porém, uma espiritualidade de contemplação e deslumbramento diante das maravilhas da natureza é parte importante da construção da nossa vida religiosa.
145. Diversos textos bíblicos trazem um louvor à criação, vendo nas manifestações da natureza sinais da sabedoria, do poder, da grandeza do Criador. Esses textos nascidos da fé e, em forma poética, convidam-nos a contemplar com olhos amorosos a criação de Deus. Temos, por exemplo:
a) o cântico de Misael, Ananias e Azarias em Dn 3, 57-87 – Esses três jovens aparecem também com o nome babilônico: Sidrac, Misac e Abdênago. Eles foram lançados na fornalha ardente, por causa de sua fidelidade a Deus. No entanto, um anjo do Senhor é enviado para lançar um orvalho refrescante e não permite que as chamas lhes façam nenhum mal. No meio das chamas, os três jovens entoam um louvor ao Senhor, a partir das obras da criação.
b) O salmo 8, que fala do lugar do ser humano na criação. O salmo 8 foi muitas vezes entendido equivocadamente como justificação religiosa para o “domínio” do ser humano, “rei da criação”, sobre a natureza. No entanto, este salmo expressa o lugar que o humano ocupa no conjunto da criação. Se o apresenta acima de todas as criaturas (Cf. Gn 1), não quer com isso lhe dar um direito de domínio predatório sobre a natureza, mas sugere um cuidado responsável para com ela, na função de zelador da obra de Deus. Sobre isso, poderíamos lembrar também a fala de Jesus: “A quem muito foi confiado, dele será exigido muito mais” (Lc 12, 48). O ser humano, que raciocina, toma decisões e pode transformar o planeta, precisa escolher com responsabilidade o que faz ou o que deixa acontecer por omissão.
c) O esplendor da criação (Sl 104). Este salmo está entre os mais belos do saltério; como um hino à natureza, expressa poeticamente a dimensão de Deus como Senhor e Criador. O salmo estabelece uma inter-relação de Deus com as criaturas, evidenciando a consciência que tinham os antigos israelitas da profunda dependência vital da humanidade e de todo o criado em relação ao poder criador originário. Se Deus retira seu ruah (= espírito de vida, v. 29-32), as coisas voltam ao seu nada. Desse modo, a criação é pensada, neste salmo, em termos de uma grandiosa e incessante troca de energias[20].

Fonte: Texto Base da CF 2011


[1] Pontifício Conselho Justiça e Paz. Compêndio de Doutrina Social da Igreja. Paulinas, 2009, n. 488
[2] Cf. Xavier PIKAZA. Biblia y ecologia: reflexión introductoria sobre o Gn 1-8. In Sustentabilidade da vida e espiritualidade. (Soter) Ed Paulinas, São Paulo, 2008, p. 05.
[3] Ludovico GARMUS, Bíblia e Ecologia, Grande Sinal, maio/junho, 1992, Ano 46, N° 3, p. 278.
[4] GS 12.
[5] IDEM.
[6] Ludovico GARMUS, p. 280.
[7] Redemptor Hominis 15.
[8] Idem.
[9] Cf. Jurgen MOLTMANN, Deus na Criação. Petrópolis, Ed. Vozes, 1993, p. 396-397.
[10] Cf. Jurgen MOLTMANN, p. 396-397.
[11] Cf. Jurgen MOLTMANN, p. 398.
[12] Cf. Dies D 61.
[13] Cf. Franz ROSENZWEIG, In Jurgen Moltmann, op cit, p. 399.
[14] Cf. Idem 2.
[15] Cf. Idem, 25.
[16] Haroldo REIMER, In Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana. Petrópolis, 2001, N° 39, p.[189] 37.
[17] Haroldo REIMER, p. 42 [194]
[18] Antônio MOSER. Cuidando da Terra: ética do cuidado. In REB Fasc. 273 – Janeiro – 2009, p. 133.
[19] Cf. Ruiz da la Peña. Teologia da Criação. São Paulo: Loyola, 1989, p.159.
[20] Cf. Ruiz da la Peña. Teologia da Criação. São Paulo: Loyola, 1989, p.159.