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LITURGIA DIÁRIA

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Uma esmolinha, por amor de Deus!



Por Dom Murilo S.R. Krieger, scj (in ZENIT.org)



Seu rosto era um espelho diferente, já que refletia todos os tempos: o passado tinha gravado nele sulcos profundos, denunciadores de dias difíceis e de sofrimento intenso; o futuro era antecipado pela insegurança e pelo medo, estampados em seu olhar; o presente estava sintetizado no movimento de seus lábios, a pedir: “Uma esmolinha, por amor de Deus!”
Uma esmolinha! Qual seria a história desta mulher, quase só pele e ossos, envelhecida tão precocemente? Seria possível reconstituir sua infância? Que sonhos teriam povoado sua juventude? Que histórias teria para nos contar? Depois de tudo o que passou, enfrentou e viveu, o que pensa da vida? O que espera da sociedade?
Não seria possível, agora, fazer-lhe muitas perguntas. O problema que enfrentava era marcado pela urgência, melhor, pela sobrevivência. Não tinha tempo nem condições para considerações sociológicas, filosóficas ou metafísicas. O máximo que poderia fazer seria recordar as repostas que seu pedido tivera ao longo do dia. Não conseguiria, contudo, adivinhar o que não lhe foi dito, mas apenas expresso nos olhares de piedade, indiferença ou repulsa.
Diante de sua pobreza, cada qual se definiu, mesmo que só em pensamento: “Eu não ajudo quem pede esmola”; “Aí está o resultado de uma sociedade estruturada sobre a injustiça”; “Onde está o dinheiro de nossos impostos?”; “Por que o Governo não faz nada por pessoas assim?”; “Meu Deus, que rosto de sofrimento!”; “O que será que posso fazer?” etc.
Conseguimos resgatar espaçonaves perdidas no espaço, obter progressos consideráveis na pesquisas do câncer e desenvolver tipos de sementes adaptadas às condições climáticas de cada região. Novos Lázaros continuam, porém, percorrendo nossas estradas, estendendo suas mãos para matar a fome com o que cai de nossas mesas (cf. Lc 16,19-31).
O que fazemos pelos pobres? Houve épocas que foram dominadas por obras assistenciais. Tratava-se de “dar o peixe” aos necessitados, mesmo porque a fome exige respostas rápidas. Depois, nasceram iniciativas visando a promoção humana; o importante, dizia-se, é “ensinar a pescar”, para evitar a eterna dependência. Descobrimos, porém, que isso já não basta. É toda uma renovação das estruturas de nossa sociedade que se torna necessária, para que o processo de empobrecimento deixe de fabricar novos miseráveis. Enquanto isso, conforme o caso concreto que nos desafia, esta ou aquela atitude poderá ser a mais oportuna.
São muitos os pobres e necessitados que nos cercam. Há pobres no campo econômico: famintos, sem casa ou sem saúde, desempregados, sem meios para viver com dignidade. Há pobres no campo social: marginalizados por inúmeras razões, migrantes, analfabetos. Há pobres na consistência física ou moral: deficientes, alcoólatras, drogados, prostitutas, debilitados psiquicamente. Há pobres de amor: idosos desprezados, crianças abandonadas, prisioneiros, famílias desfeitas ou desagregadas. Há pobres de valores autênticos: escravos do prazer, do dinheiro, do poder.
A mão que se estende em nossa direção é um grito de alerta: alguém, em algum lugar, precisa de nossa ajuda material e de nosso tempo, de nossa dedicação e de nosso amor. Poderemos nos omitir, refugiando-nos em desculpas; ou, então, poderemos nos unir a todos os que se inquietam com os olhares que atravessam o tempo e as distâncias para nos pedir: “Uma esmolinha, por amor de Deus!”
Em nossa cidade, região e Estado, há inúmeras iniciativas em favor de crianças pobres; de mães grávidas abandonadas pelos maridos; de adolescentes que muito cedo são motivo de preocupação; ou de idosos sem família e sem amor. Interessar-se por essas iniciativas ou, inclusive, oferecer-se como voluntário, poderá ser o primeiro passo para a descoberta de novas respostas para os problemas sociais que nos desafiam.
Descobriremos, então, que somos ricos de esperança porque alguém, um dia, estendeu sua mão em nossa direção, levantou-nos e nos acolheu como irmãos, dando-nos dignidade e razões para viver. Não será esta uma indicação para fazermos o mesmo?



Dom Murilo S.R. Krieger, scj, é arcebispo de São Salvador da Bahia

A vida que a Jornada Mundial da Juventude salvou



Peregrinos irlandeses convencem casal a não abortar (in ZENIT.org)






– A 26ª Jornada Mundial da Juventude (JMJ) conseguiu, entre seus numerosos frutos, salvar uma vida humana, já que uns peregrinos que foram a Madri, para o evento, convenceram um casal a não abortar.
No último dia 19 de agosto, um grupo de jovens pró-vida irlandeses começou a rezar na frente da igreja de San Martín de Tours, onde há uma importante clínica de abortos, segundo informou a ZENIT o Centro Internacional para a Defesa da Vida Humana (CIDEVIDA).
Um casal chegou até o lugar com a intenção de abortar e os jovens foram ao seu encontro, explicando-lhes as razões pelas quais não deveriam fazer isso.
Uma voluntária de CIDEVIDA, organização que tinha uma exposição instalada no claustro dessa igreja madrilena cêntrica, uniu-se ao grupo e colocou o casal em contato com a fundação de apoio, assessoria e ajuda à mulher grávida, Red Madre.
Esta rede se comprometeu a prestar apoio para o nascimento do filho do casal, que consolidou assim sua decisão de não abortar.
Para o secretário de CIDEVIDA, Juan José Panizo, “o presente desta vida é uma alegria para todos”. “Obrigado, Bento, por ter vindo”, expressou, elogiando também a ação dos voluntários da entidade pró-vida e dos peregrinos irlandeses, que, depois desse encontro, voltaram a rezar de joelhos no mesmo lugar.
Um grupo de pessoas preocupadas pelas consequências da nova lei do aborto na Espanha colocou em marcha o CIDEVIDA em 2009, para informar sobre a realidade do aborto e promover alternativas para ajudar as mulheres com problemas diante da gravidez.
Entre outras atividades, a entidade mantém, na Villa de Tordesillas, na província de Valladolid, uma exposição permanente sobre o aborto, um centro de ajuda às mulheres grávidas e de atenção à síndrome pós-aborto, bem como um centro documental.

Oração com que o Papa consagrou jovens ao Coração de Jesus



Na vigília da JMJ em Cuatro Vientos

Senhor Jesus Cristo, Irmão, Amigo e Redentor do Homem,
olhai com amor os jovens aqui reunidos e abri para eles a fonte eterna
da vossa misericórdia, que mana do vosso Coração aberto na Cruz.
Dóceis ao vosso chamado, eles vieram para estar convosco e adorar-vos.
Com ardente oração, eu os consagro ao vosso Coração,
para que, enraizados e edificados em Vós, sejam sempre vossos,
na vida e na morte. Que jamais se afastem de Vós!
Outorgai-lhes um coração semelhante ao vosso, manso e humilde,
para que escutem a vossa vontade e sejam, no meio do mundo,
louvor da vossa glória, de maneira que todos os homens,
contemplando as suas obras, deem glória ao Pai,
com quem viveis feliz para sempre,
na unidade do Espírito Santo,
pelos séculos dos séculos.Amém.

sábado, 13 de agosto de 2011

Oração pelo Dia dos Pais



Senhor Jesus, Tu que conheceste um Pai de coração infinito, Sempre disposto a acolher teus filhos de braços abertos, Fazendo festa mesmo depois que eles erraram (Lc 15,11-32), Ajuda nossos pais a viverem a acolhida e o carinho, A ensinarem pela firmeza e pela ternura, Nunca pela dureza de coração e pela violência.



Senhor Jesus, Tu que chegaste a sentir o abandono de seu pai, No momento em que mais precisavas dele (Mc 15,24), Ajuda nossas crianças a mostrarem aos homens de hoje Que o abandono e a falta compromisso paterno, Não ajudam a construir corações que amam.



Senhor Jesus, Tu experimentaste a pobreza em sua vida, Naquele casebre de Nazaré. Ajuda nossos pais a não desanimarem, Quando não conseguem oferecer o mínimo de dignidade A quem deles ainda depende.



Senhor Jesus, Tu conseguiste descobrir um Deus paizinho E foste capaz de mostrar esse Deus a teus seguidores e seguidoras. Ajuda-nos a descobrir esse mesmo Deus, Pai de ternura e compaixão. E que ele nos ensine a cuidar uns dos outros, Como pais e como filhas e filhos. Amém

In http://www.cebi.org.br

Eu quero um pai...



Eu quero um pai



Que quando me disser SIM, o faça com alegria



E quando disser NÃO, o faça com carinho



Pois eu preciso de sim e de não



Ambos, sempre com AMOR.
Eu quero um pai



Que seja ocupado e responsável como todos os pais



Mas que encontre tempo para ouvir as minhas bobagens



Que se lembre que já teve a minha idade



E não se envergonhe de sentar no chão para brincar comigo
Eu quero um pai



Que quando eu crescer um pouco mais



E viver alguma crise ‘aborrescente’



Tenha paciência comigo



Me convide para sair, bater um papoJogar conversa fora
Eu quero um pai



Que me mostre os caminhos



Caminhando comigo



Que não use muitas palavras, ou discursos



pois estarei sempre aprendendo com seus gestos



Que seja uma presença em minha vida



Mesmo quando estiver distante
Eu quero um pai



Não precisa ser herói



Nem espetacular



Pode ser até baixinho e gordinho



Nem de longe ser um pai bonito



Como esses das propagandas de Dia dos Pais
Eu não quero um Pai para um dia



Eu quero um pai para a vida toda...







Autor: Eduardo Machado
In http://direto.amaivos.com.br/

As lições da orfandade



Dia dos pais quase nunca foi dos mais alegres em minha infância. Perdi meu pai aos nove anos de idade e a partir daí essa data era um tanto tabu, onde todos procuravam fazer-me esquecer a única dor que já experimentara em uma vida coberta de carinho: eu não tinha pai. Era órfã. Palavra que soava como um soco no estômago ou um dardo no coração: órfã, órfã, órfã.



O câncer levara meu pai, homem bonito, alto, risonho e carinhoso, aos 46 anos de idade. Deixou um rastro de luto e lágrimas a marcar para sempre rosto e olhar de minha mãe que largou um pedaço de si própria no enterro do esposo profundamente amado. Diziam-me as coisas mais desajeitadas e odiosas sobre o tema: que eu devia aceitar a vontade de Deus, que havia sido melhor para ele, que agora eu tinha que ser muito boazinha para mamãe, etc.]



Nunca fui pessoa de entregar-se facilmente e baixar a guarda. E com esse importante episódio de minha vida não foi diferente. Resolvi que se eu não tinha pai, podia viver sem ele. E que não ia dar a ninguém o gosto de me ver triste e chorando. Trinquei meus pequenos dentes com raiva, apertei os punhos e parti para a luta pela alegria que parecia que me havia sido roubada para sempre com o desaparecimento do princípio da realidade do meu horizonte.



Não foi fácil. O coração apertava quando via as amigas e colegas com seus pais, celebrando o dia dos pais e aniversários e Natais povoados da força e do carinho que não eram presentes em minha casa e em minha vida. Embora minha mãe tentasse ser ao mesmo tempo pai e mãe, não conseguia. E a falta da presença paterna era duramente sentida como uma amputação irreparável.



Mas a orfandade ensinou também algumas lições que tentei aprender o melhor que pude. Com ela aprendi que nada na vida pode se considerar como já conquistado. Por tudo há que lutar com bravura e valentia, persistência e teimosia. A vida não se rende em preguiçoso “a priori”. Tem que ser buscada com unhas e dentes e toda luta é pequena para conservá-la e re-adquiri-la a cada suspiro e a cada instante. Assim cresci, assim me formei, assim conheci o homem que hoje é pai de meus filhos e decidi que uma vez que a paternidade povoou novamente minha casa e minha vida, não iria deixá-la ir embora tão facilmente.



Assim vi meus filhos crescerem, perdi noites de sono por causa deles, sofri com suas hesitações escolares e vitais, alegrei-me com seus sucessos, orgulhei-me, envergonhei-me, engoli sapos e aceitei críticas. A orfandade fizera de mim uma lutadora quase beligerante, perfil que a família que formei suavizou, mas não chegou a eliminar.



Porém a experiência definitivamente sanadora que colocou como um selo em meu aprendizado de órfã foi o aprendizado da oração. Em um retiro que fiz, já adulta, experimentei finalmente a presença de Deus Pai, fonte de onde jorra toda paternidade. Acolhi em lágrimas o dom de poder pronunciar “Abba Pai” e sentir que me dirigia a uma pessoa que me envolvia com seu amor. E enquanto isso acontecia, era como se todo o sentimento guardado e reprimido houvesse formado um tumor túrgido e doloroso que agora drenava um líquido viscoso e liberava a carne para, viva, novamente pulsar e palpitar.



Foi uma lição quase definitiva, essa. Porque sinto que ela só se faz completa hoje, quando contemplo, deslumbrada e agradecida, a paternidade de meu filho que carrega em seus braços, sorridente, a pequena Maria Antonia. Nesta paternidade vejo a paternidade interrompida em minha vida re-fazendo seu ciclo e recomeçando a girar em novo ciclo feito de amor e fecundidade.



Volto a celebrar de todo coração o Dia dos Pais. Posso celebrá-lo com redobrada alegria. E as lições que aprendi, tento humildemente comunicá-las aos outros. Por isso lhes digo: aproveitem seus pais. Dêem-lhes muitos, infinitos abraços e beijos. Digam até cansar que os amam. Cuidem deles para que fiquem mais tempo, o maior tempo possível, junto de vocês.



Mas sobretudo, não percam a ligação e a sintonia com a paternidade divina. Dali jorra uma fonte pura que é graça e vida em abundancia. Quem estiver ligado a esta fonte jamais se sentirá sozinho ou órfão. Não é a toa que a oração que Jesus ensinou e deixou como legado começa com a palavra Pai. Quem entende o que esta oração significa sabe que não é órfão e é infinitamente amado. Feliz Dia dos Pais para todos.






Maria Clara Bingemer

terça-feira, 19 de julho de 2011

A consagração dos jovens ao Coração de Jesus



Na Jornada Mundial da Juventude de Madri



(IN ZENIT.org)



– Bento XVI consagrará todos os jovens ao Sagrado Coração de Jesus durante a vigília do sábado 20 de agosto no aeródromo de Quatro Ventos, em Madri, durante a JMJ. Apresentamos a catequese que a organização da JMJ preparou com este motivo.
* * *
CATEQUESE DE PREPARAÇÃO PARA A CONSAGRAÇÃO DOS JOVENS DO MUNDO AO CORAÇÃO DE JESUS NA JMJ 2011 DE MADRID



A finalidade desta catequese é ajudar os jovens a preparar a Consagração da Juventude do Mundo ao Sagrado Coração de Jesus pelo Santo Padre Bento XVI na próxima Jornada Mundial da Juventude.
Consta de três partes. Na primeira, aproximamo-nos da Mensajem do Papa para a JMJ a partir da perspectiva do Coração de Jesus. Na segunda, recordamos brevemente a história da devoção ao Coração de Jesus. Por último, explicamos o sentido desta Consagração da Juventude do Mundo ao Coração de Jesus.



I. “Do coração do homem ao Coração de Deus”
1. Se penetramos nas profundezas do nosso coração, encontramos todos o mesmo desejo: queremos ser felizes. Mas onde e como podemos encontrar a felicidade?, perguntamo-nos. A experiência diz-nos que a felicidade do homem só se encontra na medida em que a sua ânsia de infinito é saciada. Diz o Papa na sua mensagem: “O homem é verdadeiramente criado para aquilo que é grande, para o infinito.” (Bento XVI, Mensagem para a JMJ 2011 Madrid.)
Devemos dar um passo mais. Este desejo de infinito, para o homem, identifica-se com o desejo de ser amado por um Amor que não tem limites. A resposta a esta interrogação é-nos dada pela própria revelação de Deus: “Deus é Amor”. Deus manifestou-Se-nos precisamente como o Amor infinito, eterno, pessoal e misericordioso que dá resposta, com plenitude, aos anseios de felicidade que há no coração de todo o homem. Por esta razão, diz-nos o Papa: “Deus é a fonte da vida; eliminá-l’O equivale a separar-se desta fonte e, inevitavelmente, a privar-se da plenitude e da alegria: ‘De facto, sem o Criador a criatura esvai-se’ (Conc. Ecum. Vaticano II, Const. Gaudium et Spes, 36)” (Mensagem JMJ). Podemos vê-lo nas múltiplas experiências e tentativas que aconteceram e acontecem na nossa sociedade, de construção de um “paraíso na terra” à margem de Deus.
2. O problema do coração do homem só se resolve definitivamente no encontro com o Coração de Deus. A este respeito, diz Santo Agostinho: “Fizeste-nos, Senhor, para Ti, e o nosso coração permanecerá inquieto até que em Ti descanse”. A inquietação de que fala o santo de Hipona refere-se à dificuldade de “alcançar” o Amor, como consequência da nossa condição de criaturas; somos finitos e, além disso, somos pecadores. Uma e outra vez tropeçamos na pedra do nosso egoismo, da desordem das nossas paixões que nos impedem de alcançar esse Amor. O coração do homem “necessitava” um Coração que, por um lado, estivesse ao seu “nível”, e que, por outro lado, fosse omnipotente para o arrancar à sua finitude e ao seu pecado. Em Jesus Cristo, Deus foi ao encontro do homem, e a nós, homens, amou-nos “com coração humano”. No encontro do coração do homem com o Coração de Jesus realizou-se o mistério da Redenção: "A partir do horizonte infinito do seu amor, de facto, Deus quis entrar nos limites da história e da condição humana, assumiu um corpo e um coração, para que possamos contemplar e encontrar o infinito no finito, o Mistério invisível e inefável no Coração humano de Jesus, o Nazareno". (Bento XVI, Angelus 1 de Junho de 2008)
3. A revelação definitiva desse Amor foi-nos dada na Cruz. O amor que Deus tem por nós chega ao “limite” da entrega da sua vida. O Coração aberto de Jesus, na Cruz, como consequência de ter sido trespassado pela lança do soldado, é a maior expressão de quanto Deus nos ama e de como nos ama. Diz o Papa, na sua mensagem: “Do Coração aberto de Jesus na cruz brotou a vida divina” (Mensagem JMJ). Assim, na Cruz, Jesus transforma o nosso “coração de pedra”, ferido pelo pecado, num “coração de carne”, como o seu: dá-nos o seu amor e, por sua vez, torna-nos capazes de amar com o seu próprio amor.
4. Do Coração de Jesus, vivo e ressuscitado, brota a fonte em que o homem deve beber para saciar a sua sede infinita de amar e ser amado. É, portanto, neste encontro pessoal, “de coração a Coração”, que o homem vive “arraigado e edificado em Cristo, firme na fé” (Col 2,7). A santidade consiste en entrar plenamente nesta corrente de amor que brota do Coração de Jesus. “O lema do Cardeal Newman, ‘de coração a Coração’, dá-nos a perspectiva da sua compreensão da vida cristã como uma chamada à santidade, experimentada como o desejo profundo do coração humano de entrar em comunhão íntima com o Coração de Deus” (Bento XVI, Homilia na Beatificação do Cardeal Newman).



II. “Eis aqui o Coração que tanto tem amado os homens”
A Igreja, ao longo dos séculos, foi aprofundando o significado do culto ao Sagrado Coração de Jesus. Muitos homens e mulheres encontraram, na contemplação desta imagem do coração trespassado, um caminho muito válido para se identificarem plenamente com Cristo e alcançarem a meta da santidade.
Entre estes santos, temos de destacar Santa Margarida Maria de Alacoque (1647-1690), religiosa da Ordem da Visitação em Paray-le-Monial, a quem Jesus Se manifesta na Eucaristia, revelando-lhe o mistério do seu Coração: "Eis aqui o Coração que tanto tem amado os homens e que mais não tem recebido que ingratidões e afrontas”. Ao longo da sua vida, Santa Margarida ensinou a amar o Coração de Jesus: acompanhando-O na Eucaristia, por intermédio da Hora Santa, a consagrar-se a Ele e a oferecer pequenos actos de amor em reparação dos pecados. Também difundiu a prática das primeiras sextas-feiras de cada mês: confissão e comunhão em reparação dos pecados. Foi beatificada em 1864 pelo Beato Pio IX e canonizada em 1920 por Bento XV. A sua festa celebra-se a 16 de Outubro.
Juntamente com esta santa, destacamos São Cláudio de la Colombière S.J. (1641-1682), director espiritual de Santa Margarida Maria. Foi ele o encarregado de propagar a mensagem do amor ao Coração de Cristo pelos lugares mais longínquos; e, graças a ele, a ordem religiosa dos jesuítas acometeu a tarefa de propagar a devoção ao Coração de Jesus.
O eco destas revelações na vida da Igreja foi tão grande que o Beato Pio IX, no ano de 1856, proclamou a festa do Sagrado Coração de Jesus; e no ano de 1899, o Papa Leão XIII consagrou o Género Humano ao Sagrado Coração. Centenas de congregações religiosas dedicadas à educação dos jovens, à assistência aos anciãos e enfermos, às missões, nasceram neste tempo, inspiradas na espiritualidade do Coração de Jesus. Ao longo do Século XX, os Pontífices convidaram continuamente a recorrer ao Sagrado Coração como “principal indicador e símbolo do amor com que o divino Redentor ama continuamente o eterno Pai e todos os homens” (Pio XII, Enc. “Haurietis Aquas”).
A contemplação do Coração de Jesus fecunda hoje a Igreja com novos caminhos de santidade e apresenta-se aos homens do nosso tempo, tão necessitados da misericórdia divina, como um anúncio de esperança, para que, “sobre as ruínas acumuladas pelo ódio e a violência, se estabeleça a civilização do amor, o reino do Coração de Cristo” (João Paulo II, Mensagem ao Prepósito Geral da Companhia de Jesus, P. Peter Hans Kolvenbach, 5 de Outubro de 1986).



III. Consagrarmo-nos ao Coração de Jesus para permanecermos “Enraizados e edificados em Cristo e firmes na fé”(Col 2,7)
A Consagração ao Coração de Jesus é um acto com o qual nós, Jovens de todo o Mundo, presididos pelo Santo Padre, queremos dirigir o nosso olhar confiado a Jesus Cristo, para que nos ajude a viver “enraizados e edificados em Cristo e firmes na fé” (Col 2,7).
Trata-se de fazer reviver em nós a experiência do discípulo amado, que, contemplando o Coração aberto de Jesus na Cruz, crê no seu amor e se converte em sua testemunha. “Aquele que O viu, dá testemunho” (Jn 19,35).
É, portanto, um acto de fé. Ao consagrar-nos ao Coração de Jesus, o Santo Padre convida-nos a confessar a nossa fé: “Cremos firmemente que Jesus Cristo Se ofereceu na Cruz para nos doar o seu amor; na sua paixão, carregou os nossos sofrimentos, assumiu sobre Si os nossos pecados, obteve-nos o perdão e reconciliou-nos com Deus Pai, abrindo-nos o caminho da vida eterna” (Mensagem JMJ). Esta confissão fazemo-la, não só a partir do conhecimento das verdades que professamos, mas também como fruto de uma relação pessoal com Cristo, que se estabelece a partir da confiança no Amor do seu Coração. Além disso, esta profissão de fé realizamo-la unidos ao Papa, aos bispos e pastores da Igreja, significando que “a nossa fé pessoal em Cristo […] está ligada à fé da Igreja” (Mensagem JMJ). É no “coração da Igreja” que podemos experimentar o latejar do Coração de Cristo.
É, em segundo lugar, um acto de esperança. Não só nos consagramos, cada um de nós, ao seu Coração, mas também a todos nós, “todos os jovens do mundo”, nos confia o Papa. Nos jovens do presente encontra-se a esperança do futuro da Igreja e da humanidade. Com esta consagração, nós, os jovens, exprimimos com o Papa que “sem Cristo, morto e ressuscitado, não há salvação”, que “só Ele pode libertar o mundo do mal e fazer crescer o Reino de Justiça, de paz e de amor a que todos aspiram” (Mensagem JMJ). Unidos num “só Coração”, pedimos com toda a Igreja: “Vem, Senhor Jesus”, ajuda-nos a nós, jovens do Terceiro Milénio, a ser artífices da Civilização do Amor, que se constrói “onde as pessoas e os povos acolhem a presença de Deus, O adoram na verdade e ouvem a sua voz” (Mensagem JMJ).
Por último, a consagração é um acto de amor. Nós, jovens do terceiro Milénio, tal como o apóstolo Tomé, queremos “ter um contacto sensível com Jesus, meter, por assim dizer, a mão nos sinais da sua Paixão, os sinais do seu amor” (Mensagem JMJ). Ao consagrarmo-nos, “tocamos Jesus”, renovando a graça do nosso baptismo, com que fomos introduzidos plenamente nesse Amor. Afiança-se em nós o desejo de beber constantemente nas fontes de onde brota a vida divina que são os Sacramentos, especialmente a Eucaristia e o Sacramento do Perdão. E, por último, introduzimo-nos no seu olhar misericordioso, para poder estar sempre junto dos mais pobres e enfermos, sendo para eles manifestação palpável do Amor de Deus.
Tal como o discípulo amado, também nós somos convidados a “acolher Maria na nossa casa”. A consagração ao Coração de Jesus, realizamo-la tendo a Virgem como especial intercessora e medianeira. Ela, que “acolheu com fé a palavra de Deus”, ensina-nos a crer no Amor, a confiarmo-nos a Ele e a ser seus testemunhas entre os homens nossos irmãos.

Contemplativos no mundo



A palavra contemplação evoca imediatamente para nós a idéia de monges, frades, homens ou mulheres de clausura e consagrados à oração, vivendo em rigorosa ascese e distancia do mundo e das ocupações cotidianas da maioria dos seres humanos.



Uma certa tradição religiosa nos ensinou que para contemplar é necessário isolar-se, fazer silencio, retirar-se. Tudo isso exige, portanto, que a pessoa deixe a secularidade e as correntes da história e do século para recluir-se em espaços estritamente feitos e preparados para a vida monacal. Hoje, no entanto, a contemplação com tudo que implica de gratuidade e entrega radical não é mais apanágio de religiosos e monges. Os leigos começam cada vez mais, nestes tempos mutantes e pós-modernos, a sentir a atração deste gênero de vida que desde sempre recebeu a adesão do ser humano em sua busca pela Transcendência.



Homens e mulheres de hoje, como os de todo tempo, continuam a experimentar o drama de sentir-se limitados e frágeis e, no entanto, feitos para a união com o Sem-limites. E, no fundo mais profundo de si próprios, se percebem habitados pelo desejo ardente e incontrolável de entrar em comunhão com esta incompreensível realidade que se chama sagrado, ou sublime, ou Deus - a qual, devido ao fato de ser incompreensível não é sentida como menos real - de tocar e ser tocados pela Beleza Infinita; de tremer de amor sendo possuídos pela santidade divina, pelo Mistério Invisível que atrai e seduz e cuja vida chama a participar e se integrar. Este mistério de Alteridade que lhes propõe a profunda comunhão na gratuidade. O amor passa, então, a governar suas vidas e a transformá-las segundo a inexorabilidade e a radicalidade de Sua vontade.



O princípio de toda experiência religiosa encontra um denominador comum no desejo seduzido, a inclinação fascinada e irresistivelmente atraída pelo mistério do Outro, que envolve, seduz e apaixona com sua beleza e sua “diferença”, que provoca o impulso incontrolável de aproximação, abraço e união. Este mistério que atrai e seduz, no entanto, não deixa de amedrontar e provocar distanciamento reverente e trêmulo, de humildade pobre e impotente (cf. Ex 3,6-7): “ E Moisés cobriu o rosto, porque não ousava olhar para Deus “). É a violência mesma da atração que submete e se parece a uma torrente volumosa e apavorante, ou a um “fogo devorador”que devora e consome, mas ao mesmo tempo embriaga e delicia, o que a faz ser sentida tão radicalmente ameaçadora e inexorável como a própria morte, apesar de que seu segredo seja a fonte da vida. É assim que a esposa do Cântico dos Cânticos, ferida de amor pela visão do Amado, geme, “enlanguesce de amor”(CT 2,5) e exclama: “ o amor é forte como a morte e a paixão violenta como o abismo”(Ct 8,6). São João da Cruz, no ponto mais alto da união mística e da inefável experiência unitiva com Deus, joga com as palavras morte-vida para tentar descrever a experiência ao mesmo tempo gozosa e dolorosa que o amor de Deus faz viver.



É um fato, portanto, que o Eros divino se apresenta sempre como mais forte que o ser humano, vencendo suas resistências e se impondo por sua majestade. Sob o toque ao mesmo tempo suave e violento de seu amor, o profeta inclina a nuca e se rende, exclamando: “Tu me seduziste, Senhor e eu me deixei seduzir. Foste mais forte que eu e me venceste!” (Jr 20,7). E, sob sua liderança, a esposa infiel retorna sobre seus passos, abandona seus amantes e se deixa docilmente conduzir ao deserto, à nudez e ao despojamento do primeiro amor da juventude. (cf. Os 2,16ss)



Ao mesmo tempo, no entanto, com seu irresistível poder de atração, e uma vez conquistado e “ferido”o coração humano, o Outro Bem-amado se esconde, retirando-se da capacidade de ser atingido por aquele ou aquela em quem ele acendeu uma chama inextinguível de desejo. Ele se revela, assim, como o Imanipulável, sobre o qual o ser humano não tem poder, mas ao contrário, deixa bem claro que é o próprio ser humano aquele que deve viver sob sua dependência. O deus assim desejado e experimentado não se rende às impaciências frenéticas do homem, nem a sua ansiedade apaixonada, mas, soberanamente livre, vai encher com sua plenitude quando e como desejará, a pobreza expectante e humilde que não deixa de desejá-lo e buscá-lo onde ele se deixa encontrar, para dele receber a salvação ( a saúde) e a santidade.



Toda esta profunda e fascinante experiência está sendo cada vez mais buscada não apenas por monges e monjas, mas por leigos e leigas, pessoas de fé que têm uma profissão, uma carreira, uma família e que procuram mosteiros e casas de retiro para ali passar largos momentos dedicados à contemplação. Estes contemplativos voltam depois ao mundo banhados e purificados pela contemplação na qual mergulharam e seu olhar transfigurado vai olhar as coisas de nova maneira, sendo possível então para eles e elas transformar a história na qual habitam com a mesma luz e o mesmo amor pelos quais foram transformados.



A diminuição de vocações contemplativas em muitas partes do mundo não significa portanto, o fim da vida contemplativa. Significa que esta continuará, mais importante que nunca talvez, mas reconfigurada e com novos protagonistas: os leigos e leigas que sedentos de Absoluto buscam o silencio e a quietude para desfrutar da intimidade de um Deus que se revelou como Amante e deseja ser Amado.






Autor: Maria Clara Lucchetti Bingemer

"NÓS PEGA O PEIXE"



Sinceramente, como professora, a notícia me deu um verdadeiro choque. Ao saber que o Ministério da Educação distribuiu a quase 500 mil estudantes do ensino fundamental e médio um livro que afirma não haver problema incorporar a linguagem popular, mesmo incorreta, na língua portuguesa, senti-me triste e desanimada.
Posso perfeitamente concordar em que não se deve discriminar quem fala de forma diferente de nós. Sobre tudo quando essa diferença se deve ao fato de que tal pessoa não frequentou os bancos da escola e vive em um meio onde essa forma de falar é usual. Posso até concordar com a distinção entre “errado” e “inadequado” e entre “certo” e “adequado”.
Já participei de muitas reuniões de pastoral com comunidades populares, onde a fala popular é considerada e valorizada dentro do conjunto do evento. E pude apreciar falas cheias de sabedoria e profundidade ainda que dentro de formas incorretas de expressar-se. Eram falas, sim, “adequadas” à situação e ao ambiente no qual ocorriam. Jamais pensaria que alguém - mesmo o assessor ou o coordenador da reunião – devesse levantar-se e corrigir a pessoa que assim se expressava. Isso seria uma demonstração de preconceito, sem dúvida alguma.
Concordaria, igualmente, em que um artista ou escritor pudesse compor uma canção usando expressões populares que seriam incorretas desde o ponto de vista formal ou colocando-as em boca de seus personagens ou mesmo inventando neologismos que não existem no dicionário. A escrita magistral de Guimarães Rosa, a poesia de Adélia Prado, os sambas de Adoniran Barbosa entre outros exemplificam bem o que tento dizer.
No entanto, aqui e agora, trata-se de outra coisa. É em um livro didático, distribuído pelo órgão governamental que deve cuidar do aprendizado da língua portuguesa falada no Brasil que se faz a defesa da linguagem incorreta. E se legitima expressões erradas como certas, ensinando distorcidamente aos jovens que vão à escola e usam o livro para aprender a falar e escrever corretamente. Não estamos diante de inadequação, mas sim de erro. Não estamos em um ambiente de uma reunião de pastoral ou de movimento popular, onde todos têm o direito de expressar-se como sabem e como podem. Nosso assunto é educação, é ensino, é iniciação do aluno à língua de seu país e de seu povo.
Não me parece que tal prática ajude o estudante. Ao contrário, dá-me a impressão de que confirma sua ignorância, sua exclusão do falar correto, sua situação de inferioridade frente aqueles que dominam o instrumental linguístico. Certamente a intenção da autora não é esta, nem muito menos a do Ministério da Educação, ao admitir o livro e distribuí-lo oficialmente. Entretanto, parece-me que infelizmente é isso que conseguem, afinal de contas.
Dá-me a impressão de estarmos, aqui, diante de uma posição basista, anti-intelectual, que qualifica o errado como certo e desqualifica o correto como elitista. Distorce, assim, a evidência objetiva do código que utilizamos para expressar-nos e que constitui o salvo-conduto primeiro da comunicação entre os cidadãos de um mesmo grupo linguístico.
Pois, se isso fosse a atitude a tomar, porque enviamos nossos filhos à logopedista ou à fonoaudióloga quando apresentam dislexia na escola? Ou porque nós, professores, nos debruçamos sobre os trabalhos escritos de nossos alunos e ali gastamos horas corrigindo cada erro gramatical? Trata-se de serviço indispensável, a meu ver, na missão de um professor. Mesmo no ensino superior. Que dirá no ensino fundamental e médio, onde crianças e jovens estão entrando apenas em relação com a língua e necessitam dominar seus sinais e códigos.
Com todo respeito e sem nenhum sentimento de superioridade e arrogância. “Nós pega o peixe” não dá. Se a educação já é o problema número 1 do Brasil com vistas a seu futuro, se os responsáveis por ela começarem a ensinar a escrever e falar errado, onde vamos parar? “Nós pegamos o peixe”, assim como “dois mais dois sãoquatro” e não cinco, como bem lembrou a acadêmica Ana Maria Machado.

Autor: Maria Clara Bingemer

Ecologia e antropologia



Por Cardeal Odilo Scherer



Preservar a natureza, respeitar os ecossistemas e não interferir indevidamente no delicado equilíbrio ambiental, para não comprometer a sobrevivência das espécies... Será apenas exaltação romântica de ambientalistas? Por certo, ninguém ousa mais afirmar isso; o desrespeito à natureza e uma relação inconsequente com o mundo que nos sustenta poderia custar caro. Também nós somos parte dessa natureza e dependemos dela.
Isso me faz refletir sobre a união estável entre pessoas do mesmo sexo, equiparada pelo STF à união estável entre pessoas de sexos diferentes; a decisão colocou ainda mais em evidência, na opinião pública, as temáticas de homossexualismo e gênero, em discussão um pouco por toda parte. Penso que isso requeira uma reflexão sobre a própria natureza do ser humano e sua sexualidade.
Parto da antropologia cristã, que procura compreender e explicar o ser humano à luz do desígnio de Deus sobre o homem e a mulher, perceptível pela inteligência a partir da natureza das coisas e da revelação divina, na Sagrada Escritura. O pensamento cristão reconhece dois gêneros complementares - masculino e feminino. O relato bíblico diz, de maneira poética, que Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança e constata: “homem e mulher Deus os criou” (Gn 1,27). E Deus viu que assim estava bem, muito bom!
O homem não é, pois, fruto de uma evolução caótica ou de um voluntarismo volúvel, mas do desígnio divino, sábio e bom, perceptível na própria natureza humana: na sua corporeidade, inteligência, vontade e capacidades espirituais, orientadas não apenas para a sobrevivência, mas também para a busca da verdade, do bem e da plenitude do viver. O homem é dotado de liberdade e tem a capacidade de discernir e de decidir-se pelo bem, ou pelo mal; no exercício da liberdade, com responsabilidade, está uma das razões de sua dignidade e grandeza.
Nem somos, como cantava um de nossos poetas, “esta metamorfose ambulante”, que segue vagando pela vida sem saber quem é, o que quer, para quê vive, por que é aquilo que é; e nem estamos presos a um determinismo cego, acorrentados aos acontecimentos e à ignorância sobre nós mesmos, sem que possamos ser senhores das nossas decisões e ações. Cabe-nos tomar conta de nós mesmos e viver de forma responsável, conforme nossa natureza e dignidade.
Um aspecto importante desse viver conforme a nossa natureza e dignidade consiste em assumir a própria identidade sexual. Sobre isso há muita confusão na cultura atual; ao invés de ter a identidade sexual como um dado de natureza, com significado e valores próprios, tende-se a ver nela um fenômeno cultural volúvel, uma “construção subjetiva”; cada um lhe daria a orientação ditada pela vontade, sentimentos e gostos pessoais. Nem mesmo a diferenciação sexual física entre o masculino e o feminino é levada a sério; seria apenas um “fato secundário”, quase um adereço descartável no corpo humano, contando mais aquilo que o sujeito decide ser. Identidade sexual seria, pois, uma questão de opção.
Será que não estamos aqui diante de um tremendo equívoco, apoiado no pressuposto errôneo de que a “natureza humana” não é um dado real, mas algo projetado pelo sujeito, de dentro para fora de si? Nega-se à natureza humana a “objetividade” que se afirma e defende, com razão, para a natureza dos outros seres. Uma consequência dessa confusão, relativa à identidade sexual, é o aumento de comportamentos pouco ou nada definidos, nem masculinos, nem femininos. A “troca de sexo” parece um fato banal, apenas uma intervenção cirúrgica no corpo... Neste contexto, ser heterossexual, homem ou mulher, seria apenas uma entre várias possibilidades e opções quanto à identidade sexual. E se chama “casamento” a união entre pessoas do mesmo sexo! Diante da pressão das circunstâncias, questionar isso, quem ousaria? Seria politicamente incorreto!
Mas... perguntar é preciso! Assim está bem? Assim vai ficar bem? Que conseqüências isso terá para o futuro? A antropologia cristã afirma que a diferenciação sexual física tem um significado próprio, a ser levado plenamente a sério. A pretensão de mexer na harmonia entre os sexos e de submeter a identidade sexual ao arbítrio da vontade e dos sentimentos, tão influenciáveis por fatores culturais e dinâmicas sócio-educativas (ou deseducativas...), é uma temeridade, que não promete bons frutos.
A Igreja católica vê com preocupação a crescente distorção sobre a identidade sexual. Antes mesmo de ser uma questão moral, é um problema antropológico. A Igreja não incentiva, não apóia nem justifica qualquer tipo de violência e agressão contra homossexuais, ou quem quer que seja, mas convida a uma séria reflexão. Não é pensável que a natureza tenha errado, ao moldar o ser humano como homem e mulher. Isso tem sentido e finalidade, que é preciso descobrir e acolher, em vez de banalizar.
A sexualidade qualifica todos os aspectos da pessoa humana, na sua unidade de alma e corpo, e diz respeito à afetividade, à capacidade de amar e procriar, de estabelecer vínculos serenos e altruístas com os demais. Cabe a cada homem e mulher reconhecer e aceitar a própria identidade sexual como um dom e uma missão; as diferenças físicas, morais e espirituais são voltadas para a complementariedade, um bem para as pessoas e para o fecundo convívio social.
O coração pode ser como um barco desatado; não comandado pela racionalidade, ele é arrastado pelas correntes oportunistas e se rebenta contra os rochedos... Não respeitar a natureza das coisas leva a desastres ambientais e compromete a sustentabilidade da vida. E não é assim, quando se trata da natureza humana?
SÃO PAULO, 08.07.2011
Card. Odilo P. Scherer
Arcebispo de São Paulo

Europa: liberdade religiosa em risco



Estudo da Comissão Europeia
Por padre John Flynn, L. C.



(in ZENIT.org) – A Europa tem sido cenário de uma série de disputas sobre religião e política, desde a proibição da burka na França até a sentença do Tribunal Europeu de Direitos Humanos sobre os crucifixos nas escolas italianas, passando pelos conflitos na Grã-Bretanha sobre diversas questões religiosas.



Diante da situação, a Comissão Europeia está desenvolvendo o projeto de estudo Religare. A descrição oficial explica que o estudo parte da “suposta universalidade do conceito de igualdade e analisa como ele é ameaçado pela crescente diversidade de crenças religiosas e de outras convicções que estão transformando o panorama intelectual, cultural e religioso da Europa”.O projeto de estudo começou em fevereiro de 2010 e durará três anos.



Uma organização não governamental, o Observatório da Intolerância e Discriminação contra os Cristãos na Europa, acaba de publicar um documento enviado aos responsáveis pelo estudo. A ONG afirma que, embora o projeto Religare tenta se basear mais em estudos independentes do que em documentos enviados por organizações, soube-se que a Fundação Humanista Europeia (EHF) enviou para o projeto o seu próprio documento.



Este documento continha exigências de caráter intolerante, que constituem uma discriminação contra os cristãos. O Observatório preparou, portanto, a sua própria apresentação para não deixar tais exigências sem resposta.
A liberdade de religião é reconhecida em todos os documentos importantes sobre direitos humanos, afirma a comunicação do Observatório. Ela não é apenas um direito individual, mas vale também para as atividades das comunidades religiosas.
“A religião, principalmente a fé cristã, é um valioso ativo para a sociedade”, afirma o comunicado. Segundo o texto, as pessoas religiosas têm uma vida mais sadia, maior esperança de vida, casamentos mais estáveis e são mais generosas para contribuir com o bem comum. A religião, por conseguinte, deve ser incentivada em vez de restrita.
O Observatório critica o documento da EHF por conter estereótipos negativos carentes de fundamento. Entre eles, o de apresentar a religião como a fonte de todos os males sociais, como totalitária e causa de divisão.
O Observatório critica ainda a postura da EHF de atacar as outras visões de mundo sem fazer nenhuma contribuição positiva. Uma evidência desta mentalidade é a falta de uma única contribuição social destacada por parte dos ateus, que contrasta com o grande número de hospitais, asilos, colégios e universidades dirigidas por comunidades religiosas.



Laicismo
Em nome do laicismo, a EHF solicita um espaço público neutro, em que todos possam se encontrar em condições de igualdade. Para isto, propõem suprimir qualquer conteúdo ou símbolo religioso. Longe de ser neutro, isto seria uma rejeição da religião.
O cristianismo reconhece o caráter laico do Estado, explica o documento do Observatório. Mas considera importante definir o termo. Laico indica o que é terreno ou temporal: a tarefa das autoridades públicas é garantir o bem-estar temporal dos cidadãos, enquanto a religião procura a sua salvação eterna.
O documento sustenta que são tarefas diferentes, mas sua separação não quer dizer que o Estado deva ser irreligioso ou antirreligioso, nem que se devam excluir os pontos de vista religiosos nos debates públicos.
A pretensão de um Estado neutro quanto à religião não se encontra unicamente na comunicação da EHF, mas também nos termos de referência para os estudos do próprio projeto Religare, indica o Observatório.
Esta postura não reflete a realidade da Europa. O Observatório enumera Estados cujas constituições fazem referência a Deus ou reconhecem o status especial da religião. Entre eles, a Alemanha, a Suíça, a Grécia, a Itália, a Dinamarca, a Noruega e a Espanha.
O Observatório afirma, ainda, que a liberdade de religião não significa apenas tratar todas as religiões de forma igual. A liberdade religiosa e de consciência inclui a tolerância e o espaço para as crenças religiosas sempre que elas estejam de acordo com as exigências fundamentais da justiça.



Espaço público
A comunicação do Observatório examina também outros pontos levantados pela EHF. Em seu documento, a EHF afirma que a presença de símbolos religiosos em espaços públicos viola os princípios de neutralidade e laicismo.
Esta postura carece de fundamento, já que esses supostos princípios não se encontram nem na União Europeia nem no direito internacional.
A EHF exige restrições ao uso de vestes religiosas. Ceder a esta demanda, responde o Observatório, seria restringir a liberdade pessoal. Todos devem ser livres para se vestirem como quiserem, desde que garantida a segurança e a decência.
Quanto à educação dos filhos, o papel do Estado é ajudar os pais. O Observatório reforça que o Estado não tem o direito de doutrinar as crianças com ideologias. Se os pais querem educar os filhos na fé cristã, o Estado deveria apoiá-los neste esforço.
Quanto ao local de trabalho, o Observatório indica que a legislação da União Europeia reconhece a necessidade de isentar as organizações com ethos específico. Deve-se garantir um respeito similar à religião ou às crenças de cada empresário. O pedido da EHF de se regulamentar o direito à objeção de consciência é uma clara interferência neste direito.
A EHF afirma que a objeção de consciência só se aplica aos indivíduos e não aos hospitais cristãos ou às igrejas. O Observatório aponta que isso é contrário ao que estabelece o direito internacional, que reconhece a natureza coletiva da liberdade religiosa.
O documento da EHF também busca mudar os conceitos de casamento e família para eliminar a complementaridade natural de ambos sexos. Traz argumentos a favor do “casamento” do mesmo sexo e a favor de permitir a estes pares ter filhos.
É perfeitamente legítimo definir o casamento como o compromisso de vida entre um homem e uma mulher, contesta o Observatório. Esse conceito existia antes do cristianismo e não é crença de nenhuma religião em particular.
Além disso, diluir o conceito de casamento e de família e permitir um número de opções arbitrárias conduzirá à dissolução de todo o conceito.
Outro ponto colocado pelo escrito da EHF é a pretensão de reconhecimento oficial do Estado, igual ao dado pelas igrejas, para as organizações ateias e humanistas.
Esta medida conduziria a uma imerecida influência de grupos que são marginais, afirma o Observatório. Ademais, a experiência do século XX dos regimes totalitários ateus ofereceria suficiente evidência do antagonismo existente entre ateísmo e direitos humanos.



Questão de dignidade
“O direito à liberdade religiosa fundamenta-se na própria dignidade da pessoa humana”, afirmava Bento XVI em sua mensagem para o Dia Mundial da Paz (1º de janeiro).
A paz deve entender-se não só como ausência de coação, mas fundamentalmente como a capacidade de ordenar as próprias opções segundo a verdade, assinala o pontífice.
A liberdade religiosa também é fruto de uma boa cultura política e jurídica, comentava o Papa. É um bem essencial, que permite que cada pessoa professe e manifeste suas crenças, de forma individual ou em comunidade, em público ou de forma privada. Fica por ver se a pesquisa da Comissão Europeia reconhecerá todo o alcance da liberdade religiosa.

O aborto, sinal de coisa pior?



Professor de Ética fala da perda de humanidade
É uma observação do padre Robert Gahl, professor adjunto de Ética na Universidade Pontifícia da Santa Cruz.
O padre Gahl falou com o programa de televisão “Deus chora na Terra”, da Catholic Radio and Television Network (CRTN) em colaboração com Ajuda à Igreja que Sofre.

- O aborto é um sofrimento universal: 53 milhões de abortos no mundo. Em alguns países, mais de 70% das mulheres já abortaram. Por que essas questões ficaram tão presentes hoje: aborto, eutanásia?



- Padre Gahl: Bom, é um paradoxo, triste, que evoca o pecado original. Adão e Eva tentaram ficar no lugar de Deus, ser deuses no lugar dele. Os seres humanos tentam dominar o poder divino, o poder sobre a origem da vida, e controlar o começo da vida de um jeito que é contrário ao desígnio de Deus, e, por isso mesmo, contrário ao desígnio do amor. E eles se sentem poderosos durante um instante. Pode ser até que eles achem que conseguiram. Mas logo depois eles sentem a frustração e a negação da sua própria identidade, porque essa identidade é a identidade do amor, porque eles foram feitos para o amor. O nosso coração foi feito para o amor. Mas em vez de ser pessoas apaixonadas, em vez de apertar os nossos laços familiares, nós viramos meros construtores, gente que controla produtos. Se o nosso poder de dar vida é simplesmente produzir elementos que se encaixam no “fui produzido”, ou no “sou só o final da linha de um sistema de produção mecanizado”, isso é só a negação da minha própria dignidade como filho de Deus. E como filho dos meus pais.



- Olhando para trás, qual foi o momento em que surgiu no horizonte essa aceitação do aborto, da pesquisa com células-tronco, da eutanásia?
- Padre Gahl: O aborto, infelizmente, é tão estendido por tantas partes do mundo que, hoje, muita gente, até os documentos da ONU, acham que ele é um direito reprodutivo. A origem disso é a revolução sexual, que não foi uma revolução de libertação, mas uma revolução do narcisismo, do desespero, de cortar laços, afeto, amizade e amor pelos outros. E no centro dessa revolução sexual nós tínhamos o desenvolvimento dos anticoncepcionais químicos, que permitiram o sexo sem bebês, ou seja, as pessoas podiam ter o prazer da sexualidade só como uma busca egoísta. E eles desconectaram a ordem intrínseca, orientada ao dom da vida; desconectaram a sexualidade dos compromissos sérios de amor, de formar uma família, e, claro, de ser pais e mães. É uma diminuição da dignidade humana. Eu considero que o problema do aborto é que é um sinal de alerta. É uma luz vermelha que está arrancando vidas, mas que indica uma coisa que é mais onipresente ainda, e que está mais profundamente enraizada na nossa sociedade do que você possa imaginar.



- E o que é?
- Padre Gahl: É a perda da própria identidade. Da nossa identidade que participa do poder criador de Deus, e que chama a pessoa a ser mãe e pai.



- O aborto é justificado quase sempre como o direito de escolha. Mas também como um apelo ao amor. Por exemplo, algumas pessoas dizem que acham melhor abortar do que criar um filho sem amá-lo. Como é que nós chegamos a esta situação invertida, em que a morte é justificada por amor?
- Padre Gahl: O verdadeiro amor humano é incondicional. Quando você ama alguém, não interessa o que acontece. Não interessa, você vai cuidar. Se ele fica doente, se ele fica paralisado por causa de um acidente de carro, você vai cuidar dele pelo resto da vida. Naquele outro tipo de amor, que é uma forma de amor egoísta, você só se entrega a alguém enquanto quer. O aborto, nesse tipo de amor manipulado, vira um meio de saída. Nós temos que mudar completamente e dizer que precisamos aceitar a todos, toda vida humana. Como dizia a Madre Teresa: não existem filhos não desejados; se existe uma criança que alguém diz que não é desejada, tragam para mim, eu vou cuidar dela, porque eu desejo essa criança. E essa é a verdade. Se alguém foi capaz de dizer que o aborto nos permite agir com um cuidado altruísta, porque evita dificuldades, esta lógica nos leva de um modo trágico, eu até diria de um modo assassino, a afirmar que os deficientes não deveriam existir. Isso é a negação de toda dignidade humana.



- Nós passamos da vida como algo intrinsecamente importante a enfatizar a qualidade de vida. A mudança para a qualidade de vida coloca a pergunta: Qual é a minha qualidade de vida? Eu estou tendo qualidade de vida? Isto aponta para os deficientes: eles estão tendo a qualidade de vida que deveriam ter? Isso não coloca em questão a própria vida deles?
- Padre Gahl: Claro. Uma parte dessa lógica aberrante leva também a julgar cada um de nós com base no nosso rendimento. O meu valor se baseia no que eu posso fazer pela sociedade. Se num dado momento os meus resultados são decepcionantes, por doença, por um erro, por estar num setor da economia que o consumidor não deseja mais, então eu não seria mais necessário, e, aí, deixaria de ser importante.



- O maior dom de Deus à humanidade foi o dom de co-criar a vida com Ele. O que faz o aborto ao quebrar esta relação entre o homem e Deus?
- Padre Gahl: Nos esquecemos às vezes, devido ao “cientificismo” – que reduz tudo ao fato científico – que o começo de uma nova vida humana não só vem de um homem e uma mulher, mas também de Deus. Exige a participação de três pessoas, porque a alma humana é imaterial. É a alma espiritual que é criada direta e imediatamente por Deus. Por isso, quando um homem e uma mulher unem-se para ter um filho, é também – tanto ou mais – filho de Deus. Daí que, se quisermos recuperar este respeito pela vida, será porque teremos voltado a tomar consciência do papel de Deus ao dar a vida e, pelo mesmo, deste poder que temos dentro de nós, que é na realidade um poder divino e transcendente. Trata-se de um poder criador pelo qual quase temos Deus na palma da mão, porque podemos dizer-lhe, em certo sentido, quando criar uma nova alma humana. Portanto, se renovarmos esse respeito pela intervenção de Deus, Ele nos ajudará também a nos respeitarmos uns aos outros como imagens de Deus, como outros Cristos.



- Em países como a Rússia, mais de 70% das mulheres abortaram. A proporção de abortos em algumas províncias russas pode alcançar os oito ou dez abortos por mulher, porque o utilizam como um meio de controle de natalidade. Na China, a política de um só filho obriga as mulheres a abortar. Que impacto espiritual e psicológico tem isso na sociedade?
- Padre Gahl: No leste europeu, onde vemos índices tão altos de abortos, que frequentemente se associam a altos índices de suicídios, alcoolismo e depressões graves, há uma sensação de niilismo, de perda total do sentido da vida. Isso ocorre em uma sociedade que não se baseia no amor a seus filhos. É necessário que isso mude. Graças a Deus, em alguns desses países está-se notando uma tendência na direção correta. Na Federação Russa, por exemplo, tem havido ultimamente um aumento na taxa de natalidade. A proporção de abortos continua muito alta, mas fica a esperança de que este aumento da taxa de natalidade continue, de modo que o índice de abortos caia.



- Que mais a Igreja pode fazer neste tema?
- Padre Gahl: Em primeiro lugar, quando pensamos na “Igreja”, tendemos a pensar na hierarquia – em nós, sacerdotes, bispos, o Papa –, mas na realidade a Igreja é o conjunto de todos os cristãos batizados. A Igreja é uma família, por isso precisamos que todos – todos os cristãos batizados – aceitem a vida com amor. Precisamos também de ajuda nos centros para mulheres grávidas. A Igreja magisterial, a Igreja hierárquica, evidentemente, tem de ser também coerente com os princípios da teologia moral católica sobre o tema.
A Igreja há de continuar seguindo o exemplo de Karol Wojtyla, que, como arcebispo de Cracóvia, abriu centros de ajuda para mulheres em situações de crise. Mas na realidade tudo se reduz a isso: Deus é amor. Sou filho de Deus. Sou feito à imagem de Deus, por isso tenho de fazer presente entre os demais seres humanos o rosto de Deus, que é o rosto do amor. Se fizermos isso em todas as nossas relações humanas, se mostrarmos de verdade respeito pela dignidade humana, se mostrarmos respeito e amor pelas pessoas que sofrem, então podemos começar a recuperar os princípios que são necessários para que toda vida humana seja aceita. A vida então não será jamais considerada só um produto, como os bebês que são feitos num tubo de ensaio segundo os desejos de algum fabricante.
Voltando atrás, gostaria de acrescentar que precisamos recuperar nossa sexualidade, assim como a consciência de que a sexualidade é sagrada, e precisamos, portanto, viver a modéstia e o respeito pela nossa sexualidade e nossos desejos sexuais com castidade e fortaleza, de modo que nos preparem para dar vida dentro da estrutura da família.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

SANTA MARIA GORETTI - A SANTA MENINA MÁRTIR



O Santo Padre Pio XII no dia 24 de julho de 1950 canonizou Maria Goretti, angelical jovem italiana e mártir da castidade aos 12 anos.
Maria Goretti, a Santa Inês do século XX, é um modelo perfeito de amor à virgindade.
Em Corinaldo, pequena povoação da Itália, a cinqüenta quilômetros da Ancona, nasceu Maria Goretti, dia 16 de outubro de 1890, sendo seus pais Luís Goretti e Assunção Carlini, que chegaram a educar sete filhos, em meio de dificuldades econômicas de vida. Como bons cristãos sabiam confiar na Providência do Pai celestial, que está no céu.
Em busca, de sustento, percorreram vários povoados e aldeias, estabelecendo-se, finalmente, em Agro Pontinho, onde a 6 de maio de 1900, faleceu o pai de nossa heroína.

SITUAÇÃO TRÁGICA
Naquela situação trágica, Maria Goretti, que apenas contava nove anos de idade, ajudava sua mãe e procurava animá-la, dizendo:
- Coragem, mamãe! a Providência nos guardará! A Senhora há de ver como iremos à frente!
E a Mãe com o apoio de sua filhinha transformou-se em a mulher forte da Sagrada Escritura.
Após um ano que o pai havia falecido, conseguiram colher 300 quintais de trigo e 96 de favas, mas ao fazer as contas viram que faltavam 95 liras para pagar as dívidas.
Nas circunstâncias de penúria e miséria em que viviam, ainda em vida de seu marido, para que pudessem vencer as dificuldades financeiras, uniram-se com a família Serenelli, composta do pai viúvo, chamado João, com sessenta anos, e de seus dois filhos, Gaspar e Alexandre.

TERRÍVEL BATALHA
Dia 5 de julho de 1902, pela tarde, sob um calor sufocante, achavam-se Assunção, mãe de Maria, e Alexandre Serenelli, trabalhando no campo de favas, a guiar dois “barrozze” ou arados puxados por bois.
Maria Goretti achava-se, porém, em casa, a costurar uma camisa, como lhe havia pedido Alexandre.
Em dado momento, já premeditado, Alexandre vai visitar Maria Goretti, dando qualquer desculpa a sua mãe, para que ficasse sozinha trabalhando com o arado. E assim fez.
Com a alma cheia de sensualidade, Alexandre chamou por Maria. E o rapaz já se havia munido de uma barra de aço de uns vinte e quatro centímetros, afiada na ponta como um estilete, e que ele deixara em uma mesa próxima.
Maria começou a tremer pois, conforme declarações posteriores do próprio assassino, ele havia tentado seduzi-la duas vezes, e a jovem conseguira escapar de suas garras, enquanto cobria seu rosto cheio de rubor pelas atrevidas propostas que em sua inocência não podia compreender.
Alexandre, ao ver que Maria não queria acudir ao chamado, em um abrir e fechar de olhos, a tomou violentamente pelos braços, tapou-lhe a boca com a mão, arrastou-a para dentro, enquanto fechava a porta com um ponta-pé.
Diz o Processo Canônico que Maria Goretti, aquela débil menina de doze anos incompletos encontrou forças, para lutar com um leão, somente para defender o tesouro mais querido de sua vida.
- Não! Não! É pecado!. . . Não! . . . Não! . . . Que estás fazendo, Alexandre . . . Irás para o inferno!


O MARTÍRIO
Diante daquela defesa heróica da jovem mártir, o criminoso agarrou a barra de aço e a cravou repetidas vezes naquele corpo virginal. Maria como uma expressão que enterneceria às próprias pedras, exclamava:
- Meu Deus! Meu Deus! . . . Estou morrendo . . . Mamãe! . . . Mamãe! . . .
Alexandre pensou que ela estivesse morta; Maria, porém, que ainda vivia, começou a pedir socorro a João, o pai do assassino.
Então Alexandre em seu furor diabólico, apertou a garganta da virgem cristã, desferindo novos golpes com a arma homicida, deixando-a novamente como estivesse morta.
Maria conseguira a maior batalha de sua vida: conservar a virgindade!
Acudiram logo Mário e Tereza Cimarelli e outras testemunhas, e até a própria mãe da vítima.

- Maria, minha filha que aconteceu? Quem foi . . . Diga-me, diga-me exclamou sua mãe, surpreendida e emocionada.
- Foi Alexandre!
- E por que fez isto?
- Ele queria fazer coisas más, e eu não quis e não deixei.
E o criminoso, poucas horas depois, era levado à prisão, entre os gritos furiosos dos vizinhos, que o queriam linchar. A pobre vítima ficou quase despedaçada.
Conforme o documento da autópsia, tinha quatorze feridas, nove das quais eram profundas em lesões do coração, pulmão esquerdo, do diafragma, do intestino delgado, do ilíaco, do mesentério. Foi um verdadeiro milagre viver, ainda vinte quatro horas!
Levaram-na para o Hospital dos Irmãos de São João de Deus, em Nettuno.
Os médicos tudo fizeram para salvar aquela vida, a sofrer duas horas de verdadeiro martírio, enquanto durou a laparotomia, único recurso, porque não lhe foi possível aplicar anestesia, devido seu estado não o permitir.
Naquela mesma noite, Maria foi inscrita na Congregação das Filhas de Maria osculando a medalha com verdadeira alegria, em meio à dor que queimava os débeis membros daquela terna açucena.

ALMA HERÓICA
Na manhã seguinte, domingo, 6 de julho, recebeu a Sagrada Comunhão. Foi comovente a cena que se passou. A sua mãe perguntou-lhe:
- Maria, minha filha, você perdoa de todo coração ao seu assassino?
- Sim, perdôo . . . Lá do Céu rogarei para que se arrependa. Ainda mais: quero que ele esteja junto de mim na eterna glória.
O sacerdote que assistia aquela cena, perguntando também, se Maria perdoava, recebeu as mesmas respostas, e comovido derramou ardentes lágrimas de consolo.
E a verdade é que Maria conseguiu seu intento, porque no Processo Canônico para a beatificação aparece entre as primeiras testemunhas, Alexandre Serenelli, disposto a não afastar nenhuma humilhação de sua própria pessoa, com tal que fosse para a glória de sua vítima e hoje sua protetora no Céu.
E aquela fragrante açucena deixou de existir às 15,45 do dia 6 de julho de 1902. O seu enterro não foi um funeral, mas, sim, um verdadeiro triunfo!
Os restos mortais dessa humilde camponesa italiana repousavam desde 1926 no belo mausoléu de Zaccagnini, erigido para ela no Santuário de Nossa Senhora das Graças, em Nettuno.

O AGRESSOR - PRISÃO, CONVERSÃO, INGRESSO NO MOSTEIRO
Alexandre Serenelli, preso logo após a violenta investida, foi julgado e condenado a trabalhos forçados e cumpriu 30 anos de pena, quando recebeu o perdão por sua boa conduta. Ele próprio declarou ter tido uma visão da mártir, fato que culminou em sua conversão. A mãe, os irmãos e o próprio assassino puderam assistir em 1950 a solene canonização de Santa Maria Goretti na Praça de São Pedro, então presidida pelo Papa Pio XII.
Em 1936, Alexandre Serenelli ingressara num mosteiro capuchinho e lá viveu o resto de seus dias como frade contemplativo, em vida santa e penitente. Ele próprio, sentindo a aproximação da morte, escreve de punho um belo e comovente testemunho:
"Sou um ancião de quase oitenta anos e estou pronto para partir. Dando uma olhadela ao meu passado, reconheço que na minha primeira juventude escolhi o mau caminho, o caminho do mal que me levou à ruína. Via, através da imprensa, os espectáculos e os maus exemplos que a maioria dos jovens seguem nesse mau caminho, sem refletir. E eu fiz o mesmo sem me preocupar com nada.
Tinha perto de mim pessoas que criam e viviam a sua fé, mas não reparava nisso, cego por uma força selvagem que me arrastava para o mau caminho. Quando tinha vinte anos, cometi um crime passional, que hoje fico horrorizado só em recordar. Maria Goretti, agora uma santa, foi o anjo bom que a Providência pôs no meu caminho. Ainda tenho impressas no meu coração as suas palavras de reprovação e de perdão. Ela rezou por mim, intercedeu por mim, seu assassino.
Depois, vieram 30 anos de cárcere. Se não fosse então menor de idade, teria sido condenado a prisão perpétua. Aceitei a sentença que merecia, expiei com resignação a minha culpa. Maria [Goretti] foi realmente a minha luz e a minha protetora; com a sua ajuda, portei-me bem e tratei de viver honestamente quando fui novamente aceito entre os membros da sociedade. Os filhos de São Francisco, os capuchinhos de le Marche, receberam-me no seu mosteiro com a sua angélica caridade, não como um criado, mas como um irmão. Com eles convivo desde 1936.
Agora estou serenamente à espera de ser admitido à visão de Deus, abraçar de novo os meus entes queridos, estar junto do meu anjo protector e da sua querida mãe, Assunta.
Desejaria que os que vierem a ler estas linhas aprendessem o estupendo ensinamento de evitar o mal e de seguir sempre o bom caminho, desde a infância. Pensem que a Religião, com os seus mandamentos, não é algo que possa pôr-se de lado, mas sim o verdadeiro consolo, a única via segura em todas as circunstâncias, também nas mais dolorosas da vida. Paz e bem!"

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quarta-feira, 20 de abril de 2011

UM AMOR FEITO DE ATOS - A Relevância Social do Evangelho



Pe. Raniero Cantalamessa



Quarta Prédica de Quaresma


1. O exercício da caridade
Na última meditação, aprendemos de Paulo que o amor cristão deve ser sincero; agora, aprendamos de João que ele deve ser também efetivo: “Se alguém possui bens deste mundo e vê seu irmão em necessidade, mas não tem piedade dele, como poderia o amor de Deus estar nele? Filhinhos, não amemos de palavra nem de língua, mas com obras e de verdade” (1Jo 3, 16-18). Encontramos o mesmo ensinamento, mais plástico, na Carta de Tiago: “Se um irmão ou irmã não têm roupa nem comida, e um de vós lhes dizeis ‘Ide em paz, aquecei-vos e saciai-vos’, mas não lhes dais o necessário ao corpo, de que adianta?” (Tg 2, 16).
Na comunidade primitiva de Jerusalém, esta exigência se traduz na partilha. Dizem que os primeiros cristãos “vendiam suas propriedades e bens e os dividiam com todos, conforme a necessidade de cada um” (At 2,45). Mas o que os movia não era um ideal de pobreza, e sim de caridade. O fim não era serem todos pobres, mas que não houvesse entre eles nenhum necessitado (At 4,34). A necessidade de traduzir o amor em gestos concretos de caridade também não é estranha ao apóstolo Paulo, que, como vimos, insiste tanto no amor do coração. Prova disso é a importância que ele dá às coletas em favor dos pobres, a que dedica dois capítulos inteiros da Segunda Carta aos Coríntios (cf. 2Cor 8-9).
A Igreja apostólica não faz mais do que imitar o ensinamento e o exemplo do Mestre, cuja compaixão pelos pobres, doentes e famintos nunca ficava no sentimento oco, mas se traduzia sempre em ajuda concreta. Aliás, ele fez desses atos concretos de caridade a matéria do juízo final (cf. Mt 25).
Os historiadores da Igreja vêem neste espírito de solidariedade fraterna um dos fatores principais da “missão e propagação do cristianismo nos primeiros três séculos” [1]. Isto se traduziu em iniciativas – e mais tarde em instituições – para o cuidado de doentes, apoio a viúvas e órfãos, ajuda aos presos, alimento para os pobres, assistência para os forasteiros... Este aspecto da caridade cristã, na história e hoje, é tratado na segunda parte da encíclica de Bento XVI “Deus caritas est” e, de modo permanente, pelo Pontifício Conselho “Cor Unum”.



2. O emergir do problema social
A época moderna, em especial o século XIX, sofreu uma reviravolta na abordagem do problema social. Não basta responder caso por caso à necessidade dos pobres e dos oprimidos; é preciso agir sobre as estruturas que criam os pobres e os oprimidos. Que esse terreno é novo, pelo menos na tematização, fica claro pelo próprio título e pelas primeiras palavras da encíclica de Leão XIII “Rerum novarum”, de 15 de maio de 1891: é com ela que a Igreja entra no debate como protagonista. Vale a pena reler o princípio da encíclica:
“A sede de inovações, que há muito tempo se apoderou das sociedades e as tem numa agitação febril, devia, tarde ou cedo, passar das regiões da política para a esfera vizinha da economia social. Efetivamente, os progressos incessantes da indústria, os novos caminhos em que entraram as artes, a alteração das relações entre os operários e os patrões, a influência da riqueza nas mãos dum pequeno número ao lado da indigência da multidão, a opinião enfim mais avantajada que os operários formam de si mesmos e a sua união mais compacta, tudo isto, sem falar da corrupção dos costumes, deu em resultado final um temível conflito”.
É nesta perspectiva que se posiciona a segunda encíclica do Santo Padre Bento XVI sobre a caridade: “Caritas in veritate”. Eu não tenho nenhuma competência nesta matéria e, portanto, me abstenho de entrar no mérito dos conteúdos dela e das outras encíclicas sociais. O que eu gostaria de fazer aqui é ilustrar o substrato histórico e teológico, o “Sitz im Leben” desta nova forma do magistério eclesiástico: como e por que começaram as encíclicas sociais e como e por que novas encíclicas sociais são escritas periodicamente. Isto pode nos ajudar a descobrir coisas novas sobre o evangelho e sobre o amor cristão. São Gregório Magno diz que “a Escritura cresce com aqueles que a lêem” (cum legentibus crescit) [2], ou seja, ela sempre mostra novos significados conforme as perguntas que lhe fazemos, e isto se mostra particularmente verdadeiro neste âmbito do social.
A minha reconstituição será feita com breves pinceladas, como não poderia deixar de ser nestes poucos minutos, mas as sínteses e os resumos também têm a sua utilidade, ainda mais quando não temos a possibilidade de aprofundar pessoalmente em certos problemas, por causa da diversidade dos nossos compromissos.
Na época em que Leão XIII escreveu a sua encíclica social, havia três orientações dominantes quanto ao significado social do evangelho. A mais em voga era a interpretação socialista e marxista. Marx não tinha se ocupado com o cristianismo desse ponto de vista, mas alguns seguidores imediatos dele (Engels de um ponto de vista ainda ideológico e Karl Kautsky de um ponto de vista histórico) abordaram o problema, no âmbito da sua pesquisa sobre os “precursores do socialismo moderno”.
As conclusões deles são as seguintes. O evangelho foi um grande anúncio social aos pobres; todo o resto, o seu revestimento religioso, é secundário, é uma “superestrutura”. Jesus foi um grande reformador social, que quis remir as classes inferiores da miséria. O seu programa prevê a igualdade de todos os homens, o suprimento da necessidade econômica. A primitiva comunidade cristã viveu um comunismo ante litteram, de caráter ainda ingênuo e não científico: um comunismo mais no consumo do que na produção dos bens.
Depois, a historiografia soviética do regime rejeitaria essa interpretação, que, segundo eles, concedia papel demais ao cristianismo. Nos anos 60 do século passado, a interpretação revolucionária reapareceu, desta vez na política, com a tese de um Jesus chefe de um movimento “zelote” de libertação, mas teve vida curta nos nossos campos (o Santo Padre recorda esta interpretação no seu último livro sobre Jesus, falando da purificação do templo).
Quem chega a uma conclusão análoga à marxista, mas dentro de uma proposta muito diferente, é Nietzsche. Ele concorda com os marxistas quanto ao cristianismo ter nascido como um movimento das classes inferiores, mas o parecer dele é todo negativo: o evangelho encarna o “ressentimento” dos fracos contra as naturezas vigorosas; é a “inversão de todos os valores”, um cortar as asas do decolar humano rumo à grandeza. Tudo o que Jesus se propusera seria difundir no mundo, em oposição à miséria terrena, um “reino dos céus”.
Estas duas escolas – concordantes no modo de ver, mas opostas na conclusão – se vêem acompanhadas por uma terceira, que podemos chamar de conservadora. Jesus não teria se interessado pelos problemas sociais e econômicos; atribuir-lhe tais interesses seria diminuí-lo, mundanizá-lo. Ele citou o mundo do trabalho e se compadeceu de pobres e miseráveis, mas nunca visou a melhoria das condições da vida terrena.



3. A reflexão teológica: teologia liberal e dialética
Estas são as ideias dominantes na cultura daquele tempo, quando começa uma reflexão teológica por parte das igrejas cristãs. Ela também se desenvolve em três fases e apresenta três orientações: a da teologia liberal, a da teologia dialética e a do magistério católico.
A primeira resposta é a da teologia liberal do fim do século XIX e começo do XX, representada principalmente por Ernst Troeltsch e Adolph von Harnack. Vale a pena parar um pouco para olhar as ideias desta escola, porque muitas das suas conclusões, pelo menos neste campo específico, são as mesmas do magistério social da Igreja, embora por outros caminhos. Elas são ainda hoje atuais e compartilháveis.
Troeltsch contesta o ponto de partida da interpretação marxista, segundo a qual o fator religioso é sempre secundário em comparação com o fator econômico, uma simples superestrutura. Estudando a ética protestante e o início do capitalismo, ele demonstra que, se o fator econômico influi no religioso, também é verdade o contrário. São dois âmbitos diferentes, não subordinados um ao outro.
Harnack, por sua vez, observa que o evangelho não nos dá um programa social voltado a combater e abolir a necessidade e a pobreza, não dá pareceres sobre a organização do trabalho e sobre outros aspectos importantes hoje, como a arte e a ciência. Mas acrescenta que é muito melhor assim. Teria sido péssimo se o evangelho tivesse ditado regras sobre as relações entre as classes, as condições de trabalho, e assim por diante. Para serem concretas, essas regras teriam nascido fatalmente ligadas às condições do mundo da época (como é o caso de muitas instituições e preceitos sociais do Antigo Testamento), e, portanto, ficariam logo anacrônicas e inúteis para o evangelho. A história, também a do cristianismo, mostra como é perigoso ligar-se a contextos sociais e instituições políticas de uma certa época e como é difícil desamarrar-se deles depois.
“Mas”, prossegue Harnack, “não há outro exemplo de religião surgida com verbo social tão poderoso como a religião do evangelho. E por quê? Porque as palavras ‘ama o próximo como a ti mesmo’ são aqui realmente levadas a sério, porque com estas palavras Jesus iluminou toda a realidade da vida, todo o mundo da fome e da miséria... Substitui um socialismo fundado em interesses antagônicos por um socialismo que se fundamenta na consciência de uma unidade espiritual... A máxima do ‘livre jogo das forças’, do ‘viver e deixar viver’ – seria melhor dizer ‘viver e deixar morrer’ – é abertamente oposta ao evangelho” [3].
A posição da mensagem evangélica se opõe, então, tanto à redução do evangelho a proclamação social e luta de classes quanto à posição do liberalismo econômico do livre jogo das forças. O teólogo evangélico se deixa conduzir por um certo entusiasmo: “Um espetáculo novo”, escreve ele, “se apresentava ao mundo: até então, a religião se adaptava facilmente ao statu quo do mundo, ou se acampava nas nuvens, em direta oposição a tudo. Mas agora ela tinha um novo dever a cumprir: combater a necessidade e a miséria desta terra, e, similarmente, a terrena prosperidade, reduzindo misérias e necessidades de todo tipo; elevar a vista ao céu na coragem que vem da fé, e trabalhar com o coração, com as mãos e com a voz pelos irmãos desta terra” [4].
O que a teologia dialética, sucessora da liberal após a primeira guerra mundial, reprova nesta visão liberal? Antes de tudo, o seu ponto de partida, a sua ideia do reino dos céus. Para os liberais, isso é de natureza essencialmente ética; um sublime ideal moral, que tem como fundamentos a paternidade de Deus e o valor infinito de toda alma; para os teólogos dialéticos (K. Barth, R. Bultmann, M. Dibelius), isso é de natureza escatológica; é uma intervenção soberana e gratuita de Deus, que não se propõe mudar o mundo, mas denunciar a sua situação atual (“crítica radical”), anunciar o seu fim iminente (“escatologia consequente”) e lançar o apelo à conversão (“imperativo radical”).
O caráter de atualidade do evangelho consiste no fato de que “tudo o que é exigido não é exigido em geral, por todos e para todos os tempos, mas por este homem e talvez só por ele, neste momento e talvez só para este momento; e é exigido não com base num princípio ético, mas por causa da situação de decisões em que Deus colocou esse homem, e talvez somente a ele, no aqui e agora” [5]. A influência do evangelho no social se dá no singular, no indivíduo, não através da comunidade ou da instituição eclesial.
A situação enfrentada hoje por quem acredita em Cristo é a mesma que foi criada pela revolução industrial, com as mudanças que ela trouxe ao ritmo da vida e do trabalho, com o consequente desprezo pela pessoa humana. Diante dela, não há “soluções cristãs”; cada crente é chamado a responder com a própria responsabilidade, em obediência ao apelo que Deus lhe faz na situação concreta em que ele vive, mesmo se o critério de fundo é o preceito do amor ao próximo. O cristão não deve se resignar com pessimismo às situações, mas também não deve se iludir com a mudança do mundo.
Pode-se falar ainda, nesta perspectiva, de uma relevância social do evangelho? Sim, mas só de método, não de conteúdo. Explico: esta visão reduz o significado social do evangelho a um significado “formal”, excluindo todo significado “real” ou de conteúdo. Em outras palavras, o evangelho apresenta o método, o impulso, para um correto posicionamento e um reto agir cristão no social.
Este é o ponto fraco desta visão. Por que atribuir aos relatos e às parábolas evangélicas um significado somente formal e não também um significado real e exemplar? É lícito, por exemplo, na parábola do rico epulão, ignorarmos as indicações concretas e claras sobre o uso e abuso da riqueza, o luxo, o desprezo pelo pobre, para nos atermos apenas ao “imperativo do agora” que ressoa na parábola? Não é estranho que Jesus pretendesse apenas dizer que ali, diante dele, era preciso decidir-se por Deus e, para dizer isso, ele tivesse construído um relato tão complexo e detalhado que, em vez de concentrar, só desviaria a atenção do centro de interesse?
Uma solução assim, que dissolve a mensagem de Cristo, parte da premissa errada de que não existem exigências comuns na palavra de Deus, que se impõem ao rico de hoje como se impunham ao rico – e ao pobre – do tempo de Jesus. Como se a decisão pedida por Deus fosse algo vazio e abstrato, um mero decidir-se, e não um decidir-se a respeito de algo. Todas as parábolas de fundo social são definidas como “parábolas do reino” e assim o seu conteúdo é achatado num único significado, o escatológico.



4. A doutrina social da Igreja
A doutrina social da Igreja católica, como sempre, procura mais a síntese do que a contraposição, o método do et-et em vez do aut-aut. Ela mantém a “dupla iluminação” do evangelho: a escatológica e a moral. Em outras palavras: concorda com a teologia dialética no fato de o reino de Deus pregado por Cristo não ser de natureza essencialmente ética, isto é, um ideal inspirado na validade universal e na perfeição dos seus princípios, mas sim uma iniciativa nova e gratuita de Deus, que, com Cristo, irrompe do alto.
Ela se afasta, porém, da visão dialética no modo de conceber a relação entre esse reino de Deus e o mundo. Entre eles não existe só oposição e inconciliabilidade, como não existe oposição entre a obra da criação e a da redenção, nem entre ágape e eros. Jesus comparou o reino de Deus com o fermento na massa, com a semente lançada à terra, com o sal que dá sabor; ele diz que não veio julgar o mundo, mas salvá-lo. Isto nos mostra o influxo do evangelho no social a partir de uma perspectiva diferente e muito mais positiva.
Apesar de todas as diferenças de posicionamento, há conclusões comuns que emergem de toda a reflexão teológica sobre a relação entre o evangelho e o social. Podemos resumi-las assim: o evangelho não aponta soluções diretamente voltadas aos problemas sociais (vimos que seria péssimo se tivesse apontado); mas ele contém princípios que se prestam a elaborar respostas concretas para diversas situações históricas. Já que as situações e problemas sociais mudam de época em época, o cristão é chamado cada vez a encarnar os princípios do evangelho na situação do momento.
A contribuição das encíclicas sociais dos papas é precisamente esta. Por isso elas se subseguem, cada uma retomando o discurso do ponto até o qual chegaram as precedentes (no caso da encíclica de Bento XVI, o ponto é retomado da “Populorum progressio”, de Paulo VI), e o atualizam com base nas novas instâncias da sociedade (neste caso, o fenômeno da globalização) e também com base numa interrogação sempre nova da palavra de Deus.
O título da encíclica social de Bento XVI, “Caritas in veritate”, indica quais são, aqui, os fundamentos bíblicos sobre os quais se pretende amparar o discurso sobre o significado social do evangelho: a caridade e a verdade. “A verdade”, escreve, “preserva e exprime a força de libertação da caridade nas vicissitudes sempre novas da história […]. Sem a verdade, sem confiança e amor à verdade, não há consciência nem responsabilidade social, e o agir social se deturpa em favor de interesses privados e lógicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade, ainda mais numa sociedade em vias de globalização, em momentos difíceis como os atuais” [6].
A diversidade não está só nas coisas ditas e nas soluções propostas, mas também no modelo adotado e na autoridade da proposta. Consiste, em outras palavras, na passagem da livre discussão teológica para o magistério, e de uma intervenção social de natureza exclusivamente “individual” (coma a proposta pela teologia dialética) para uma intervenção comunitária, como Igreja e não só como indivíduos.



5. A nossa parte
Encerremos com um ponto prático que interpela todos nós, inclusive os que são chamados a agir diretamente no âmbito social. Vimos a ideia que Nietzsche tinha da relevância social do evangelho. O evangelho, para Nietzsche, era o fruto de uma revolução, mas uma revolução negativa, uma involução em comparação com o legado grego; era a revanche dos fracos contra os fortes. Um dos pontos que Nietzsche mais ressaltava era a preferência dada ao servir no lugar do dominar, ao tornar-se pequenos em vez de querer emergir e aspirar a coisas grandes.
Ele acusava o cristianismo por um dos mais belos dons que ele deu ao mundo. Um dos princípios com que o evangelho mais beneficamente influi no social é justamente o do serviço. Não é à toa que ele ocupa um lugar importante na doutrina social da Igreja. Jesus fez do serviço um dos pontos cardeais do seu ensinamento (Lc 22,25); ele mesmo diz que veio para servir e não para ser servido (Mc 10,45).
O serviço é um princípio universal; ele se aplica a todos os aspectos da vida: o estado deveria estar a serviço dos cidadãos, o político a serviço do estado, o médico a serviço dos doentes, o professor a serviço dos alunos… Mas ele se aplica de modo todo especial aos servidores da Igreja. O serviço não é, em si, uma virtude (em nenhum catálogo das virtudes ou dos frutos do Espírito se menciona a diakonia), mas brota de diversas virtudes, em particular da humildade e da caridade. É um modo de manifestação daquele amor que “não procura só o próprio interesse, mas também o dos outros” (Fil 2,4); que doa sem procurar contrapartida.
O serviço evangélico, oposto ao do mundo, não é prestado pelo inferior, pelo necessitado, mas pelo superior, aquele que ocupa os postos mais altos. Jesus diz que, na sua Igreja, é principalmente “quem governa” que deve ser “como aquele que serve” (Lc 22, 26); o primeiro deve ser “o servo de todos” (Mc 10,44). Estamos nos preparando para a beatificação de João Paulo II. No seu livro Dom e mistério, ele expressa com uma imagem forte este significado da autoridade na Igreja. Trata-se de versos que ele compôs em Roma no tempo do concílio:
“És tu, Pedro. Queres ser aqui o Pavimento
Sobre o qual os outros caminham...
Para chegar lá onde lhes guias os passos;
como a rocha sustenta o casco de um rebanho”.
Para encerrar, escutemos as palavras que Jesus disse aos discípulos logo após lhes lavar os pés como dirigidas a nós, aqui e agora: “Entendeis o que eu vos fiz? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, pois eu sou. Se eu, que sou o Senhor e o Mestre, lavei os vossos pés, deveis também vós lavar-vos os pés uns aos outros. Eu vos dei o exemplo, para fazerdes como eu fiz” (Jo 13 12-15).
[Traduzido do original italiano por ZENIT]



Notas:
1. A. von Harnack, Mission und Ausbreitung des Christentums in den ersten drei Jahrhunderten, Lipsia 1902.
2. S. Gregório Magno, Comentário a Jó, XX,1 (CCL 143°, pg.1003).
3. A. von Harnack, Das Wesen des Christentums, Lipsia 1900.
4. A. von Harnack, O cristianismo e a sociedade, edição italiana, Mendrisio 1911, pgs. 12-15.
5. M. Dibelius, Das soziale Motiv im N. Testament, in Botschaft und Geschichte, Tubingen 1953, pgs. 178-203.
6. Bento XVI, “Caritas in veritate”, nº 5.






in zenite.org

Ética civil não pode virar as costas para ética cristã



Arcebispo considera que essa é uma luta missionária da Igreja Católica

ZENIT.org



“A porosidade da ética civil, que sustenta fluxos e dinâmicas na sociedade, pode explicar atrasos, desvarios e absurdos de cenários e condutas, e até de fatos cruéis como o massacre de crianças e adolescentes na Escola de Realengo.”



O arcebispo de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, faz essa afirmação em artigo divulgado à imprensa, num texto em que defende a contribuição da ética cristã para o desenvolvimento da ética civil.



Acontecimentos como o do Realengo “exigem que se ponha a mão na consciência para que haja antecipação de encaminhamentos e providências que darão rumo diferente a esta sociedade enferma. Do contrário, corre-se contra o tempo, numa tentativa de apenas minimizar prejuízos,



muitos deles fatais e irreversíveis na vida de indivíduos, famílias e comunidades”.



O arcebispo reconhece que na sociedade contemporânea há um pluralismo moral, mas “que não dispensa a construção de convergências até para garantir a insubstituível dinâmica democrática como questão de civilidade”.



“O que caracteriza a ética civil não pode prescindir do que vem da moral cristã - contribuição indispensável, tanto pela solidez de seus princípios quanto pela missão daqueles que creem em Cristo têm, no sentido de contribuir e participar da confecção e manutenção do tecido determinante na vida da sociedade.”



“Por um lado considera-se a diversidade que emoldura a postura moral na sociedade pluralista. Por outro, o atendimento da demanda na configuração da ética civil não pode virar as costas para o acervo inesgotável que é a ética cristã”, afirma.
Segundo Dom Walmor, essa é uma luta missionária da Igreja Católica, considerando a gravidade do desafio.



Não se pode assistir de braços cruzados – prossegue o arcebispo – ao “processo de configuração, por vezes de deterioração, da ética civil, indispensável no sustento da sociedade contemporânea”.
“A sustentabilidade é um âmbito que não pode apenas considerar números, rendimentos, a conservação da natureza e outros itens também importantes para a vida no planeta. Em toda e qualquer sociedade, a moralidade é uma alavanca de sustentação para a qual não há substitutos.”



“A corrupção, a indiferença, os interesses cartoriais e outras dinâmicas perversas prejudicam a vida social e política. Diariamente, os noticiários, em diferentes meios, preenchem a maior parte do tempo tratando questões desse âmbito, revelando as origens dessas vulnerabilidades comprometedoras”, afirma.



“É verdade que a ética civil tem leito próprio em relação à confessionalidade. Ora, a vida social não é dirigida por uma determinada profissão de fé. Reporta, pois, ao tema da laicidade, que é entendida como racionalidade e não como confessionalidade.”



Dom Walmor explica ainda que ética civil não se confunde com civismo. “O civismo é a expressão da convivência cidadã ajustada aos usos convencionais, enquanto a ética civil refere-se ao universo da responsabilidade e dos valores morais”.



“O termo civil não pode ser entendido como contraposição ao que é militar, ou eclesiástico, ou mesmo ao social e profissional, embora nestes tenha uma grande e importante incidência.”



“A ética civil é, pois – prossegue o arcebispo –, a referência à instância moral da cidadania e da civilidade. Essa instância moral não pode ser esgarçada e diluída sob pena de prejuízos sérios, como se pode constatar na dimensão moral da vida humana, com repercussão na convivência social e cidadã em geral.”



“A amplitude desse campo de abordagem - com suas peculiaridades - merece, entre outros pontos de constante reflexão, a preocupação com as vulnerabilidades dos limites humanos”, afirma.



Esses limites “têm nomes como o interesse exagerado pelo dinheiro, que faz deste o ponto determinante de negociações, impedindo, muitas vezes, a permanência de projetos de grande importância para a sociedade”.



“Não menor é a vulnerabilidade que se constata pelo descompasso da estatura adquirida na competência profissional e humana, impedindo muitos de aguentar desafios, de fazer sacrifícios e de permanecer nas ‘trincheiras’ por altruísmo.”



“Atitudes que não permitem que questões menos relevantes os levem à condição de desertores bem no auge da batalha. Esse é um enorme desafio emoldurado pela carência de entendimentos no âmbito da ética civil”, assinala Dom Walmor.