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LITURGIA DIÁRIA

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O Santo Advento


O Advento abre o novo ano litúrgico da Igreja e nos prepara para o Natal.
Este tempo é composto por quatro semanas. Neste período, a Igreja pode muito bem exprimir seus sentimentos com as palavras da esposa do Cântico dos Cânticos: «Eis a voz do meu Amado! Ele vem correndo pelos montes... Meu Amado é meu e eu sou dele!» (2,8s.16). Ele vem vindo, o Amado, «porque Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único» (Jo 3,16) para ser o Esposo da humanidade, o Salvador do mundo. O Autor da Epístola aos Hebreus exprimiu isso de modo muito profundo: «Muitas vezes e de modos diversos falou Deus, outrora, aos Pais pelos profetas; agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio do seu Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e pelo qual fez os séculos» (1,1-2). Efetivamente, Deus já não nos manda um mensageiro, um intermediário, um presente... ele vem pessoalmente no seu Filho, vem ele mesmo ser o Emanuel, o Deus-conosco! Por isso o homem pode ter a certeza que não mais está só, que não mais pode se sentir desamparado, esquecido, perdido... apesar de tanta dor e sofrimento ainda existentes no nosso mundo!
Mas, aprofundemos um pouco mais. O Advento insiste e celebra e espera do Salvador. Sim, porque ele foi esperado. E esperado ansiosamente, de modo que não é somente o Enviado do Pai, mas também o Esperado por nós! Mais que o vigia pela aurora, mais que a terra pelo sol nascente, mais que a flor pelo orvalho, nós o esperamos.
Primeiramente, esperado por Israel, o Povo eleito. Esperado porque Deus o prometera a Abraão, aos Patriarcas, a Moisés, a Davi, aos Profetas. Deus prometera... e quando Deus promete, não falha jamais! Quantas e quantas páginas das Escrituras de Israel falam deste Esperado! Como esquecer as palavras do velho Jacó, no leito de morte, já cego? “Judá, teus irmãos te louvarão, tua mão está sobre a cerviz de teus inimigos e os filhos de teu pai se inclinarão diante de ti. O cetro não se afastará de Judá nem o bastão de chefe de entre seus pés até que venha aquele a quem pertencem e a quem obedecerão os povos” (Gn 49,8-10). E as palavras de Deus a Davi? “O Senhor te diz que ele te fará uma casa. E quando os teus dias estiverem completos, farei permanecer a tua linhagem após ti, gerada das tuas entranhas e estabelecerei para sempre o seu trono. Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho” (2Sm 7,11ss). Sim, Deus prometeu, Deus jurou a Israel pela sua fidelidade: “A virgem vai conceber e dará à luz um filho e seu nome será Deus-conosco!” (Is 7,14). Promessa insistente, a de Deus! Até pela boca de um feiticeiro pagão, um tal de Balaão, Deus prometeu: “Eu vejo, mas não para já, eu contemplo, mas não para perto: uma Estrela sai de Jacó e um cetro se levanta de Israel” (Nm 24,17). Por isso mesmo, Israel esperou, acreditou, implorou: “Céus, deixai cair o orvalho das alturas, e que as nuvens façam chover a justiça; abra-se a terra e germine a salvação!” (Is 45,8); “Senhor, tu és o nosso redentor; Eterno é o teu nome! Ah! se rasgasses os céus e descesses! As montanhas se desmanchariam diante de ti!” (Is 63,19). Nos momentos de alegria, Israel esperou; e esperou também nos momentos de trevas e de dor! É esta espera comovente, insistente, teimosa, que a Igreja celebra e revive no Advento!
Mas o Salvador que Deus nos enviou foi também esperado pelos pagãos, por todos os povos! É uma idéia que nem sempre recordamos e, no entanto, é um aspecto importante do Advento: os pagãos desejaram o Salvador! Como pode ser isso? É verdade: eles não conheciam as promessas de Deus; eles não conheciam o Deus verdadeiro; eles não sabiam nada a respeito do Messias... Mas eles tinham e têm ainda no coração um desejo louco de paz, uma sede insaciável de verdade, devida, de amor... sede que Deus mesmo colocou nos seus corações para que sem saberem, às apalpadelas, buscassem Aquele único que pode dar repouso ao coração humano. É isso que Mateus quer dizer quando nos conta a visita dos magos: eles vêm de longe, seguindo a estrela do Menino, eles esperavam e agora o procuram: “Vimos a sua estrela e viemos adorá-lo!” (Mt 2,2)! Esses Magos representam os pagãos todos, todos os povos, todos os homens e mulheres de boa vontade que, seguindo sua consciência, sem saber, procuravam o Salvador. Pensemos em tantos santos pagãos do Antigo Testamento: Noé, Melquisedec, Jó e tantos outros. Pensemos em tantos sábios das várias culturas: Buda, Confúcio, Maomé, Sócrates e tantos, tantos outros, tão numerosos que somente Deus pode contá-los... Todos esperam Aquele que é a verdade, a luz que ilumina todo homem que vem a este mundo! Também estes a Igreja recorda neste tempo do Advento.
Esperado por Israel, esperado pelas nações, o Salvador também foi esperado pela criação toda! É admirável e sublime! Se tudo foi criado através dele e para ele (cf. Cl 1,15), tudo traz em si sua marca, a saudade do encontro com ele! A Mãe católica, num êxtase emocionado, canta assim, nas vésperas do Natal: “Saúdam vossa vinda /o céu, a terra, o mar /e todo ser que vive /entoa o seu cantar!” É toda a criação que o espera! Tudo, desde o início, caminha para ele! Desde quando explodiu o universo, iniciando a festa, o baile da existência; desde quando as galáxias se formaram; desde quando nosso sistema solar, nosso planeta foram delineados... tudo caminha para ele... passo a passo, lentamente, aos olhos da eternidade de Deus: e a vida surgiu na terra, tímida, pequena, frágil... depois, a vida animal; depois o homem... tudo caminhando para ele, para noite de Belém e, um dia, que será o Dia, caminhando para o Cristo Ressuscitado, que virá em glória! É porque tudo caminha para ele que o botão se abre em flor, que a vida teima em brotar, que o universo se expande! Também esta espera cósmica é celebrada pela Igreja nestes dias de Advento! Que também nós entremos na festa, na espera, na esperança... e abramos o coração para Aquele que vem – o Enviado, o Esperado, o Rei que vai chegar!
Para celebrar um acontecimento tão maravilhoso e estupendo a Igreja quer preparar-se bem... Daí o tempo sagrado de Advento. Nós, como Igreja, não podemos deixar passar esse tempo favorável, não podemos receber em vão a graça de Deus que vem a nós em Jesus (cf. 2Cor 6,1-2). Os sentimentos que nos devem orientar nas quatro semanas do Advento são: (1) a vigilância na fé, na oração, na busca de reconhecer o Cristo que vem nos acontecimentos e nos irmãos; (2) a conversão, procurando consertar nossos caminhos e andar nos caminhos do Senhor, para seguir a Jesus para o Reino do Pai; (3) o testemunho da alegria que Jesus nos traz, através de uma caridade paciente e carinhosa para com os outros; (4) a pobreza interior, de um coração disponível para Deus, como Maria, José, João Batista, Zacarias, Isabel; (5) a alegria, na feliz expectativa do Cristo que vem e na invencível certeza de que ele não falhará.
Neste tempo de Advento a Igreja recomenda muito a leitura e meditação do Livro do Profeta Isaías.
Na celebração da Eucaristia têm-se os seguintes sinais: (1) a cor roxa, recordando a sobriedade de quem vigia e espera ansioso; (2) as flores na Igreja são usadas com moderação, também como sinal de expectativa; (3) não se canta o «Glória» na Missa, na expectativa feliz de cantá-lo na Noite Santa do Natal do Senhor; (4) na igreja, se pode colocar a Coroa do Advento, com quatro velas, significando a luz de Cristo, que vai se tornando mais intensa a cada um dos quatro domingos do Advento.

Dom Henrique Soares in http://www.domhenrique.com.br/index.php/liturgia

Questões politicamente incorretas e cristãmente necessárias...


O cotidiano francês “La Croix” há algum tempo publicou uma grande pesquisa sobre o futuro do cristianismo no Ocidente. O título é “Os novos caminhos da fé daqui até 2020.
A pesquisa durou cinco semanas e foi aberta com a publicação de uma sondagem sobre os franceses e o cristianismo. Três dados dão o que pensar:
1. Dois franceses em cada três pensam que o cristianismo é “suficientemente visível” na sociedade. Mas quatro em cada dez afirmam não conhecer em suas próprias família e amigos nenhum cristão “praticante ou ativo na vida da Igreja”.
2. Perguntados sobre qual seria a missão principal da Igreja, a imensa maioria dos franceses afirmou ser “lutar contra a pobreza” e “agir pela paz no mundo”. Também entre os católicos foi assim: a maior parte deles indicou a luta contra a pobreza e pela paz, enquanto somente um em cada três respondeu: “Fazer conhecer a mensagem de Cristo”.
3. 62% dos franceses se dizem de acordo com a seguinte afirmação: “Todas as religiões são iguais”. E entre os católicos praticantes o percentual é ainda superior: 63%!
Estes dados mostram muito bem a debilidade na qual desabou o catolicismo na França... Mas, nos devem também fazer pensar: a Igreja tem ainda bastante forte e arraigada a autoconsciência de que é a religião verdadeira? Tem consciência bastante profunda de que existe para tornar acessível aos homens a vida que brota do Pai pelo Filho no Espírito Santo, levando à humanidade à plenitude da vida divina, que é nosso único e impreterível destino?
Será que nosso discurso e práxis não nos fazem parecer mais uma ONG filantrópica, que se refugia num fazer exagerado – relegando a terceiro e quarto planos a vida mística e a importância da liturgia como lugar do Mistério, no qual Deus se dá a nós, nos eleva a ele e nos renova para renovarmos o mundo com a vida divina?
Será que essa situação – forte na França e em caminho em outros países, inclusive o Brasil – não é fruto de uma Igreja que fala demais de si própria e de tudo, vive se autocriticando quase que neuroticamente, ao invés de esquecer-se de si, simplesmente vivendo a alegria de crer e anunciar gostosamente o Cristo que nos encanta e dá vida, e é único e absoluto caminho de salvação? Coisas para serem pensadas com seriedade...
Será que não temos colocado demais o homem no centro do nosso discurso e deixado Deus de lado? Deus que deve ser buscado, amado, adorado, anunciado, simplesmente porque é Deus, sem nenhuma outra justificativa?

Dom Henrique Soares in http://www.domhenrique.com.br/index.php/analises

Simplesmente José


Por Pe. Alfredo Gonçalvez

José é uma das figuras mais silenciosas nas narrativas evangélicas. Ao mesmo tempo, porém, aparece sempre na hora certo e no lugar certo. Quando se trata de proteger a família -mãe e filho- lá está ele. Verdade que conta com os anjos, mensageiros de Deus, que o alertam sobre as maquinações dos "filhos das trevas". Mas, alertado dos riscos que correm Jesus e Maria, põe-se logo em marcha, seja fugindo para o Egito, seja de lá retornando. Exerce certo protagonismo na infância de Jesus, porém, não há registro de sua presença na vida adulta do profeta itinerante. Pouco ou nada se sabe de seu destino. É lícito supor que também ele estaria ao pé da cruz, na hora trágica da morte de Jesus!...
Tudo indica que se trata de um caráter discreto, homem de poucas palavras e de guardar segredos. Podemos também ver nele um profissional de experiência, o carpinteiro de Nazaré, trabalhador sério e respeitado. Sinais de uma sabedoria inata que, em lugar de ações intempestivas frente aos imprevistos da vida (como a gravidez de Maria, por exemplo), prefere o silêncio, a escuta e a espera. Aqui também temos a intervenção dos mensageiros de Deus, como atores principais, mas é José que toma as providências práticas e necessárias. Os seres alados necessitam dos pés e das mãos de José para garantir a segurança da Sagrada Família.
Não obstante, o humilde carpinteiro permanece como uma espécie de ator de bastidores. Raramente aparece em cena. Hoje diríamos que não parece gostar de holofotes, câmeras e microfones. Como se não se sentisse à vontade no palco, em evidência diante dos espectadores. Menos à vontade ainda no cenário dos acontecimentos que, mais tarde, irão se desenrolar com seu filho adotivo. Se de Jesus se diz que "passou pela vida fazendo bem", de José teremos poucas notícias. Não faz barulho, como quem caminha de pés descalços, silencioso e oculto.
Os estudiosos da Bíblia, particularmente do Novo Testamento, nos alertam que não podemos olhar para essas narrativas sobre a infância de Jesus como fatos históricos. Constituem antes acomodações pós-pascais ao nascimento do Filho de Deus, isto é, grandioso, misterioso, milagroso. Mas isso não invalida a reflexão sobre a presença simultaneamente discreta e oportuna de José nesses relatos. Fictícias ou não, os autores dessas páginas apresentam a figura do "pai adotivo de Jesus" como alguém com um papel secundário, embora relevante.
Partindo do pano de fundo dos parágrafos anteriores, surpreende o número de pessoas que, no mundo inteiro e ao longo da história, foram batizadas com o nome de José. Desnecessário deter-se em pesquisas para constatar que esse é o nome mais recorrente em praticamente todos os povos e culturas do mundo ocidental. No judaísmo, no cristianismo católico ou protestante e nos movimentos religiosos derivados, José se impõe como nome quase obrigatório de um dos filhos de não poucas famílias. Mesmo entre os que recebem outro nome de pia, muitos tratam de intercalar o José como intermediário entre nome e sobrenome.
A surpresa é ainda maior se nos detemos sobre determinadas manifestações da devoção popular a São José. É sem dúvida uma das mais disseminadas no universo católico. No nordeste brasileiro, por exemplo, o dia do santo, a 19 de março, constitui, ao mesmo tempo, um marco para a carência ou a abundância de chuvas e, consequentemente, um marco para o novo plantio. De acordo com uma crença popular bastante generalizada, se a estiagem se prolongar além do São José, o ano tende a ser pobre em feijão, milho, batata, mandioca, inhame, etc. Por outro lado, não são poucos os religiosos e os sacerdotes que, respectivamente, fazem sua profissão perpétua, ou se ordenam presbíteros, exatamente nesse mesmo dia.
Como explicar essa dupla homenagem a São José? Implícita ou explicitamente, é fácil identificar-se com o José dos Evangelhos. Na sociedade do espetáculo (Guy Debord) em que vivemos e nos movemos, são poucas as estrelas e incontáveis os planetas. Algumas pessoas se destacam e brilham com luz própria, mas a imensa maioria apenas reflete o brilho dos astros mais eminentes. O culto ao corpo e à celebridade se difunde juntamente com a exacerbação do subjetivismo e do individualismo. Porém, raros são os senhores Fulano, Sicrano ou Beltrano, e mais raras ainda as beldades, princesas. A tirania do prazer ou o império do efêmero (para usar expressões de Jean-Claude Guillebaud e Gilles Lipovetsky), só é possível graças a dezenas, centenas ou milhares de coadjuvantes. Estes são os Josés, inúmeros e desconhecidos, com o sobrenome de Silva, Souza, Santos, Oliveira, Gonçalves, e assim por diante.
No entanto, é preciso estar atento às pérolas ocultas por trás das mãos calejadas, dos rostos impenetráveis e das almas rudes desses Josés. Mais do que apoiar-se no sucesso momentâneo e fugaz, eles seguem com os pés firmes no cotidiano, ainda que cheio de surpresas e adversidades. Mais do que colher as luzes de espetáculos fulgurantes e efêmeros, eles procuram lançar sementes no solo úmido e escuro da terra. Mais do que explodir rojões que sobem e iluminam os céus, mas com a mesma rapidez descem e viram cinzas, eles acreditam que as mudanças se erguem do chão, através de pequenos gestos de solidariedade.
Há, contudo, um segredo ainda mais misterioso, um tesouro escondido, ao qual esses Josés costumam ter acesso imediato. Sabem pela experiência que a felicidade duradoura não está no sucesso, no dinheiro, na conta bancária, nos privilégios, nos títulos, no patrimônio acumulado - mas numa prática diária e silenciosa do bem. Surfar sobre a onda dos sucessos equivale a surfar nas depressões dos fracassos. Uns são direta e alternadamente proporcionais aos outros. Expectativas inflacionadas, tal como os balões de ar, murcham com facilidade e geram frustrações igualmente infladas. Todo domingo de festa, regado a comida, bebida e embriaguez, é seguido de uma segunda-feira de ressaca. Se a cruz aponta para a ressurreição, esta supõe aquela.
Os Josés evitam os saltos de lebre. Preferem o passo lento e firme da tartaruga ou do jumento, nosso irmão, diria o nordestino. Depositam sua confiança não nos pulos em falso, mas num caminhar laborioso, regular e persistente. Sabem como extrair alegrias miúdas de uma palavra, de um olhar, de um gesto, de uma visita, de um sorriso, de um beijo, de um abraço, de um toque... E sabem que é nessas mínimas coisas que reside uma felicidade menos volátil e mais sólida. Aprendem a tirar água de pedras, a colher flores no deserto estéril, a acender uma vela no meio da escuridão. Raramente se deixam levar pela aparência de grandiosidade, desconfiam dos passos largos. Mais ainda: desconfiam da própria energia, colocando-se nas mãos de uma força que desconhecem, mas em que crêem.
Normalmente não sobem muito alto, mas tampouco ficam expostos a quedas bruscas. Mais facilmente descem ao coração da terra e das coisas. Suas palavras costumam ser poucas e parcimoniosas, mas revestidas de uma sabedoria simples e profunda. Os ditos populares, ricos e concentrados, nascem, crescem e cruzam as encruzilhadas do mundo com a persistência dos Josés. São diamantes lapidados com sua experiência oculta e silenciosa. A própria palavra "José", concentrada e valorizada como moeda preciosa, percorre as famílias, os povos e as culturas.
José não deixa de ser, também, a cara da migração. Esta, de fato, põe em marcha uma grande quantidade de Josés. O próprio "pai adotivo" de Jesus, esposo de Maria, é testemunha disso. Um novo olhar aos Evangelhos basta para dar-se conta de como ele, primeiro, por causa do recenseamento, sobe de Nazaré a Belém, lugar em que se completam os dias de Maria ela dá á luz um numa manjedoura, "pois não havia lugar para eles"; depois de nascido o menino, empreende a fuga para o Egito, protegendo o recém-nascido da fúria e perseguição de Herodes; dessa terra estrangeira, retorna à própria pátria, quando a tormenta já tinha se acalmado; por fim, ao longo da vida, quantas vezes terá se deslocado por causa desse Filho "rebelde", o qual insistia que "o seu Reino não era deste mundo"!
Não é essa a trajetória de inúmeros migrantes? De tribulação em tribulação, de fuga em fuga, de sonho em sonho, de busca em busca... Sempre perseguindo o futuro, e este como que sempre lhes escapando entre os dedos. Josés, milhões de pessoas sem terra nem lugar, sem rumo nem pátria... Josés a caminho! Josés que, por sê-lo, vivem inquietos e irrequietos. Rompem obstáculos e fronteiras, abrindo com os ombros curvados os horizontes de um novo amanhã. É nome comum de um povo acostumado à estrada. Não costuma figurar entre as famílias milionárias, nobres e aristocráticas, assentadas solidamente sobre suas fortalezas e suas jazidas de ouro e prata. Josés são pessoas pouco vinculadas a castelos e fazendas, normalmente habitam tendas. Conhecendo de perto a transitoriedade e a provisoriedade dos bens terrenos, podem desenvolver uma ambivalência diante da riqueza: ou se agarram ao pouco que possuem, lutando com unhas e dentes para ter mais, ou amadurecem um despojamento que os torna mais leves e livres. Neste último caso, aprendem a lição de depurar a mala e a alma, para caminhar com um fardo menos carregado de coisas supérfluas.
Por isso, ao contrário daqueles que nascem em berço de ouro e a ele se apegam morbidamente, os Josés, e entre estes os migrantes, tendem a uma maior abertura quanto ao futuro. Estão mais preparados para as surpresas da história. Especialmente em momentos de crise e tormenta, enquanto os que moram em castelos e fortalezas correm a se abrigar no berço dourado e saudoso da infância, os Josés costumam ser impelidos para a fronteira. Os primeiros, com o coração preso aos seus tesouros acumulados, lutam para mantê-los a todo o custo; os segundos, encontram-se mais preparados para enfrentar as pedras e espinhos que a existência apresenta. Tenderão a rasgar veredas novas, a se aventurarem, pois nada têm a perder. Das duas uma: ou são tomados pelo medo e a angústia da miséria já experimentada na carne e na alma, agarrando-se mesquinhamente a qualquer migalha; ou se lançam intrépidos à luta por algo diferente. Neste caso, a coragem lhes é praticamente inata. Mas com muita raridade terão seu nome gravado nos jornais. Em geral não são mártires abatidos a tiro, de nome no calendário, de folha na parede. Vivem, antes, um martírio de gota a gota, passo a passo, miúdo e diário, onde uma travessia dura e teimosa substitui as ações vistosas, sensacionais e espetaculares.

O autor deste artigo é Assessor das Pastorais Sociais da Igreja Católica

O que é a Eucaristia?


É o próprio sacrifício do Corpo e do Sangue do Senhor Jesus, que Ele instituiu para perpetuar pelos séculos, até seu retorno, o sacrifício da cruz, confiando assim à sua Igreja o memorial de sua Morte e Ressurreição. É o sinal da unidade, o vínculo da caridade, o banquete pascal, no qual se recebe Cristo, a alma é coberta de graça e é dado o penhor da vida eterna.
Quando Cristo instituiu a Eucaristia?
Instituiu-a na Quinta-feira Santa, "na noite em que ia ser entregue" (1Cor 11,23), celebrando com os seus Apóstolos a Última Ceia.
O que representa a Eucaristia na vida da Igreja?
É fonte e ápice de toda a vida cristã. Na Eucaristia, atingem o seu clímax a ação santificante de Deus para conosco e o nosso culto para com Ele. Ele encerra todo o bem espiritual da Igreja: o mesmo Cristo, nossa Páscoa. A comunhão da vida divina e a unidade do Povo de Deus são expressas e realizadas pela Eucaristia. Mediante a celebração eucarística, já nos unimos à liturgia do Céu e antecipamos a vida eterna.
Como Jesus está presente na Eucaristia?
Jesus Cristo está presente na Eucaristia de modo único e incomparável. Está presente, com efeito, de modo verdadeiro, real, substancial: com o seu Corpo e o seu Sangue, com a sua Alma e a sua Divindade. Nela está, portanto, presente de modo sacramental, ou seja, sob as espécies eucarísticas do pão e do vinho, Cristo todo inteiro: Deus e homem.
O que significa transubstanciação?
Transubstanciação significa a conversão de toda a substância do pão na substância do Corpo de Cristo e de toda a substância do vinho na substância do seu Sangue. Essa conversão se realiza na oração eucarística, mediante a eficácia da Palavra de Cristo e da ação do Espírito Santo. Todavia, as características sensíveis do pão e do vinho, ou seja, as “espécies eucarísticas”, permanecem inalteradas.
O que se requer para receber a santa comunhão?
Para receber a santa Comunhão, deve-se estar plenamente incorporado à Igreja católica e estar em estado de graça, ou seja, sem consciência de pecado mortal. Quem estiver consciente de ter cometido um pecado grave deve receber o sacramento da Reconciliação antes de se aproximar da comunhão. Importantes são também o espírito de recolhimento e de oração, a observância do jejum prescrito pela Igreja e a atitude do corpo (gestos, roupas), em sinal de respeito a Cristo.
"Na Eucaristia, nós partimos 'o único pão que é remédio de imortalidade, antídodo para não morrer, mas para viver em Jesus Cristo para sempre' " (Santo Inácio de Antioquia)

Trecho do Compêndio do Catecismo da Igreja Católica

Bendita entre todas as mulheres


Maria de Nazaré, mãe de Jesus. Quem é essa que a Igreja proclama e venera como bendita entre todas as mulheres e cheia de graça? O que ela nos diz sobre o mistério de Deus, da vida, do ser humano homem e mulher? A teologia hoje trata de fazer uma releitura da Maria de acordo com as exigências de nosso tempo. Essa releitura dá testemunho, sobretudo, do momento privilegiado que vive a humanidade inteira com o despertar da consciência histórica da mulher.
Com relação à interpretação sobre o mistério de Maria de Nazaré, portanto, há que ressaltar três pontos:a) O povo tem imenso carinho por Maria, a mãe de Jesus. E este amor expressa o clamor em busca de socorro, qualquer que este seja. Isto parece transparecer a espiritualidade mariana do povo mais simples. Maria é a esperança, a mãe, a protetora, aquela que não abandona seus filhos.b) Existe hoje, igualmente, uma maneira diferente e própria de ler os textos bíblicos. Os textos que falam d Maria são muito poucos na tradição neotestamentaria. Porém, cada época histórica parece construir, a partir deles, uma imagem de Maria e de sua atuação histórica passada e presente. c) O conceito de Reino de Deus é essencial para essa hermenêutica. Vai além da pessoa de Jesus e afeta a totalidade de seu movimento, do qual participavam homens e mulheres de forma ativa. Entre eles está incluída María, essa judia que é mãe de Jesus, com sua paixão pelos pobres e pela justiça de Deus, com sua memória perigosa e subversiva. Nesta perspectiva hermenêutica, Maria não é somente a encantada e suave mãe de Jesus, mas também e, sobretudo, trabalhadora na colheita do Reino, membro ativo do movimento dos pobres criado por seu filho Jesus de Nazaré. Mesmo os dogmas marianos devem ser pensados à luz dos pressupostos hermenêuticos anteriormente descritos e refletidos em chave eclesiástica e pastoral.
E o que nos dizem estes dogmas? 1. Maria é mãe de Deus, figura e símbolo do povo que crê e experimenta essa chegada de Deus que agora pertence à raça humana Esta mesma que chamamos Mãe e Nossa Senhora é, porém a pobre e obscura mulher de Nazaré, mãe do carpinteiro subversivo e condenado à morte. Depois do título de glória e as luxuosas imagens com que a piedade tradicional a representa, Maria ensina a maternidade como serviço, inspiração para a Igreja que deseja ser servidora dos pobres, para quem a encarnação de Jesus em Maria traz a boa nova da liberação.2. Maria é virgem, não de um ponto de vista moralizante e idealizado. Trata-se, ao invés, da glória de Deus onipotente que se manifesta naquilo que é pobre, impotente e desprezado aos olhos do mundo. A preferência de Deus pelos pobres se torna clara e explícita ao encarnar-se ele mesmo no seio de uma virgem, inserindo-se na linha de serviço dos pobres de Yahvé.3. Maria é Imaculada e isso é garantia de que a utopia de Jesus é realizável nesta pobre terra. A Imaculada Concepção venerada nos altares é a pobre Maria de Nazaré, que leva sobre si a confirmação das preferências de Deus pelos mais humildes, pequenos e oprimidos. O assim chamado «privilégio Mariano» é, na verdade, o privilégio dos pobres4. Maria é Assunta aos céus e assim a humanidade e, muito especialmente, a mulher, têm a dignidade de sua condição reconhecida e assegurada pelo criador. A mulher que deu à luz em um estábulo, entre animais, que teve o coração transpassado por uma espada de dor, que compartilhou a pobreza, a humilhação, a perseguição e a morte violenta de seu Filho, que esteve a seu lado ao pé da cruz, a mãe do condenado, foi exaltada. É a culminação gloriosa do mistério das preferências de Deus por aquilo que é pobre, pequeno e desamparado neste mundo para fazer brilhar ali sua presença e sua glória.

Maria Clara Bingemer

A espiritualidade da cruz


Quem não tem uma espiritualidade cruciforme, faria bem em adquiri-la, e não existe tempo mais propício para isto do que a Quaresma. Nosso melhor refúgio e proteção é a Cruz de Nosso Senhor e, por isso, trazê-la ao peito ou pendurá-la na parede de nossa casa é sinal de devoção que deve, por sua vez, refletir-se em nossa vida.
Encontramos na Cruz a plena manifestação do Mistério da Misericórdia divina. Deus nos perdoa, pelos méritos do Filho unigênito, cujo sacrifício redentor lavou a mancha do pecado, contraída pelo primeiro patriarca da humanidade, Adão. São Paulo descreve: “Deus não poupou seu Filho, mas por todos nós O entregou” (Rm 8,32). O Filho, por sua vez, adere, livremente, ao plano do Pai: “O Filho de Deus me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20) - eis o supremo gesto de misericórdia.Para isso, “Ele se fez obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2,8), assumindo a dor e o vexame de ser despido e exposto à zombaria da populaça: “Se és o Filho de Deus, desce da cruz!” (Mt 27,40). E se Ele descesse? Não o fez, porque seu alimento é cumprir a vontade do Pai, conforme Ele mesmo já havia afirmado (cf. Jo 4,34). Aquela seria a sua Hora, o seu verdadeiro batismo, que Ele esperava com ânsia que se realizasse (cf. Lc 12,50). Essa humilhação chega ao ápice da entrega na Cruz: “Tudo está consumado”(Jo 19,30). “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46).A dimensão sublime e transcendente da Crucifixão, a princípio incompreendida pelos discípulos, gerou em quase todos um grande escândalo. Refiro-me, de modo particular, àqueles que encontraram Jesus na estrada para Emaús. Não conseguindo admitir que o Senhor e sua missão tivessem final tão trágico, abandonaram a comunidade de Jerusalém e seguiram para Emaús, arrastando, na poeira do caminho, o fardo da decepção: “Nós esperávamos que fosse Ele quem haveria de restaurar Israel e agora, além de tudo isto, é hoje o terceiro dia em que essas coisas sucederam” (Lc 24,21). Ao invés de buscar apoio na comunidade, quiseram enfrentar sozinhos a crise que se abateu sobre eles após os padecimentos e a Crucifixão de Cristo. E foram embora, como que sem rumo certo... Foi ao longo dessa caminhada que o próprio Senhor lhes apareceu, e eles nem O reconheceram. Esta é uma dificuldade nossa: imersos nos próprios problemas, às vezes, não identificamos Jesus, que se comunica de uma forma bem clara - pela voz de uma criança, de um amigo ou de um representante de Deus, através da leitura de um bom livro e, até mesmo, do sofrimento, que nos acomete...Jesus começa a explicar para aqueles discípulos o conteúdo das Escrituras: “Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo o que anunciaram profetas! Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na sua glória?” (Lc 24,25-26). Os dois discípulos envolvem-se de tal forma na conversa, que seus corações ardem de entusiasmo e começam a se encher de esperança. Finalmente, reconhecem o Senhor ao partir do pão, naquele momento que identificamos como uma celebração eucarística. Jesus vem consolar e confirmar na fé, durante a hora mais terrível de crise daquelas duas pessoas. Depois desaparece, deixando, como marcos da sua presença, os gestos e palavras que suscitam em nós um ardor de ordem transcendente... “Quando eu for levantado da terra, atrairei todos os homens a mim” (Jo 12,32). A forte expressão deste versículo resume a obra redentora de Cristo, na qual se fundamenta a missão de cada um de seus seguidores. No seu ato de união à Cruz, São Paulo afirma: “O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja” (Cl 1,24). A Paixão de Cristo é, evidentemente, completa em si. Mas cada um de nós precisa aceitar sua própria participação nela. Esta aceitação Jesus não pode assumir por nós, porque temos a liberdade e a necessidade da adesão da fé e da confiança.Se olharmos nossa própria experiência, quando é que isto acontece? A vida está cheia de cruzes. De ordem física - dores, doenças e a própria morte; de ordem moral - pecados e falhas cometidas e, também, humilhações e injustiças recebidas. Isto tudo faz parte do Mistério da Cruz, até mesmo a aparente incógnita do sofrimento dos inocentes, como o das crianças. Como explicá-lo? Cada uma delas está seguindo a morte do próprio Cristo, está completando, da sua parte, o quinhão que cabe a cada um de nós na Paixão de Nosso Senhor, na solidariedade que nos une a Ele e aos demais.Mesmo nas situações mais gratificantes, como o relacionamento e o convívio com os outros e o trabalho pastoral, não estamos imunes às decepções e desilusões. Nós esperávamos... assim falavam os discípulos de Emaús. Mas depois que encontraram Jesus, o que esperavam ou queriam passou a ser secundário. Deus deseja que colaboremos com o seu plano de amor, e não que lhe imponhamos nossas perspectivas. Acima de tudo, que a sua vontade se faça e, quem sabe, de vez em quando, a nossa, se coincidir com a d’Ele, naturalmente. Entretanto, em nenhum momento pode faltar a esperança. Pois, “então aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem. Todas as tribos da terra baterão no peito e verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens do céu cercado de glória e de majestade” (Mt 24,30). “Deus mesmo estará com eles. Enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição” (Ap 21,3-4).Não se pode querer afastar a Cruz do nosso cotidiano, ou subtraí-la à nossa realidade. As cruzes dos cemitérios estão aí, apontando para Deus e para os irmãos. O Cristo do Corcovado testemunha a Cruz Redentora, vitoriosa sobre a morte. Nós mesmos somos feitos em forma de cruz, ou melhor, a nossa envergadura moldou o formato da cruz, como lógica do nosso existir. Portanto, que o nosso sinal seja sempre o Sinal da Cruz, em todos os momentos. Meu pai terminou a sua vida traçando este Sinal, bem devagar, “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. E deixou de respirar o ar da terra, para respirar a bem-aventurança eterna. Que Deus nos conceda a graça de semelhante despedida do mundo transitório. Ao final de nossa caminhada, possamos todos engolfar-nos nos braços de Jesus Cristo, que penderam da Cruz para nos salvar e se abrirão para nos acolher no seu eterno convívio feliz.


A FAMÍLIA


O futuro do mundo e da Igreja passa através da família”. A constatação, absolutamente verídica, pode ser encontrada na Exortação Apostólica “Familiaris Consortio”, do Papa João Paulo II. Ela explica a atenção especial que a Igreja dá à sociedade doméstica. Os problemas aumentam, em nossos dias, como resultado do ambiente que nos cerca e do enfraquecimento dos valores que servem de alicerce à sociedade. O tema questiona, sumamente, o homem na atualidade.
Uma das causas que geram todas as crises conjugais e, de modo particular, a separação dos pais e suas sequelas, é a deficiência na preparação ao matrimônio. Um contrato que, para nós, é elevado à dignidade de Sacramento, - e, conforme São Paulo, “grande sacramento” (Ef 5,32)– exige cuidadosa formação. Trata-se de uma opção definitiva e indissolúvel pela lei natural e divina. A ausência de um profundo conhecimento mútuo é motivo de desentendimento e introduz o germe da desagregação. Com a convivência percebe-se defeitos físicos, espirituais e de caráter até então ignorados. Muitas vezes a união conjugal fundamenta-se na paixão e esta decorre do instinto – o poderoso instinto que assegura a continuidade da espécie humana – ao passo que o amor é um ato oblativo e se fundamenta também na razão. Importa, portanto, identificar, em tempo oportuno, qual dos dois elementos move à decisão em assunto matrimonial.
Um outro fator é a pressão de uma sociedade que promove a busca do prazer e da felicidade pessoal a qualquer preço como um direito indiscutível, mesmo que, para alcançá-lo, atropele o outro cônjuge e a prole. Esse é um grande drama que foi estimulado pela introdução do divórcio. Dada a fraqueza humana, certamente todas as famílias, no decorrer da existência, terão problemas a superar. A tentação em resolvê-las com a separação leva, com frequência, à dissolução da vida em comum. Na atualidade, o indivíduo se esquece da importância da ascese, da necessidade de suportar os problemas que surgem no transcorrer da vida. No entanto, o sofrimento é instrumento válido e fecundo na formação do caráter e no exercício da paz na vida matrimonial. Ela expressa a união de Cristo com sua Igreja.
As ilusões propostas como verdades sólidas, fazem muitos acreditarem que o casamento é um oásis a ser usufruído. Ora, isso só ocorre, se for construído e defendido dia a dia. No momento em que se pensa apenas em desfrutá-lo e, por vezes, à margem dos valores morais, envereda-se pelo caminho que leva à destruição do lar.
Ouvem-se, hoje, comentários de que a Igreja é contrária à satisfação do instinto sexual, inclusive dentro do matrimônio. Não é verdade. A Doutrina cristã veda a relação sexual fora desse sacramento ou com a exclusão, por meios artificiais, de seu efeito reprodutivo. Em outras palavras, impedindo uma de suas finalidades. Esse ato deve estar aberto à vida. Cabe aos pais decidir sobre o número dos filhos, tomando também em consideração as possibilidades do que podem dispor para educá-los. E utilizando somente métodos naturais.
Em nossos dias cresce uma deficiência que afeta uma grave obrigação dos progenitores. Refiro-me à omissão dos pais em dar aos filhos uma educação segundo os preceitos cristãos. O clima, que direi de loucura, pela permissividade moral que se respira por toda parte, acovarda alguns pais e mães, diante das exigências audaciosas da prole. Os que assim procedem darão severas contas a Deus. Todo fiel, consciente de seus deveres, jamais permitirá algo que fira a sua consciência cristã. O “não” deverá ser envolvido pela bondade, que não se confunde com fraqueza ou ausência. A observância dos compromissos diante do Senhor, com a ajuda mútua dos esposos na educação dos filhos, mesmo que não obtenha resultados positivos, muito ajudará a criar ou manter um ambiente de paz, que vem de Deus. A falha nessa matéria gera muitos outros problemas, que levam à crise no lar.
Evidentemente, a construção constante da estrutura familiar necessita do fator religioso, a começar pelo exemplo. O ensino dos encargos oriundos do Evangelho, a oração, e, em especial, o terço em família, são fontes inesgotáveis de bênçãos para todos e cada um. A observância do Dia do Senhor, o Domingo, se constitui elemento importante na edificação de uma família feliz. A Missa dominical, se possível unindo todos os integrantes da comunidade doméstica, se torna poderoso elemento de louvor e ação de graças ao Senhor. O mesmo se diga da leitura frequente da Palavra divina, a Bíblia. Sem dúvida, posso assegurar que aí está um pára-raios contra as borrascas no lar e uma fonte abundante de bênçãos para a família.
Na Exortação Apostólica “Ecclesia in America”, fruto da IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, ao tratar dos desafios para a Família cristã, assim se exprime o Santo Padre: “É urgente, portanto, uma ampla obra de catequese acerca do ideal cristão da comunhão conjugal e da vida familiar que inclui uma espiritualidade da paternidade e da maternidade. Maior atenção pastoral vai dirigida ao papel dos homens, como maridos e como pais (...) tampouco se omita uma séria preparação dos jovens, antes do casamento” (nº 46).
A saúde espiritual e moral da família é um assunto fundamental para a sociedade civil e religiosa. Merece todo sacrifício em sua defesa e promoção. Não nos faltará a graça de Deus e o amparo da Sagrada Família.


Autor: Cardeal Eugenio de Araujo Sales

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

OS SACRAMENTOS DA IGREJA


"Os sacramentos são sinais eficazes da graça, instituídos por Cristo e confiados à Igreja, por meio dos quais nos é dispensada a vida divina. Os ritos visíveis sob os quais os sacramentos são celebrados significam e realizam as graças próprias de cada sacramento. Produzem fruto naquele que os recebem com as disposições exigidas.
A Igreja celebra os sacramentos como comunidade sacerdotal estruturada pelo sacerdócio batismal e pelos ministros ordenados.O Espírito Santo prepara para a recepção dos sacramentos por meio da Palavra de Deus e da fé que acolhe a Palavra nos corações bem dispostos. Então, os sacramentos fortalecem e exprimem a fé.O fruto da vida sacramental é ao mesmo tempo pessoal e eclesial. Por um lado, este fruto é para cada fiel uma vida para Deus em Cristo Jesus; por outro, é a para a Igreja crescimento na caridade e em sua missão de testemunho."
Sacramento são gestos de Deus em nossa vida. Realizam aquilo que expressam simbolicamente.


Os sacramentos são, por conseguinte:
Sinais sagrados, porque exprimem uma realidade sagrada, espiritual;
Sinais eficazes, porque, além de simbolizarem um certo efeito, produzem-no realmente;
Sinais da graça, porque transmitem dons diversos da graça divina;
Sinais da fé, não somente porque supõem a fé em quem os recebe, mas porque nutrem, robustecem e exprimem a sua fé;
Sinais da Igreja, porque foram confiados à Igreja, são celebrados na Igreja e em nome da Igreja, exprimem a vida da igreja, edificam a Igreja, tornam-se uma profissão de fé na Igreja.
Sacramento

Batismo
Nascemos para fé
Iniciação Cristã
Começamos a fazer parte da grande família que é a Igreja
Confirmação
Crescemos como Cristãos
Iniciação Cristã
Assumimos com mais maturidade o compromisso na Igreja
Eucaristia
Precisamos de alimentos para fé e a vida em comunidade
Iniciação Cristã
Recebemos o corpo de Cristo unidos a todos os irmãos
Penitência
Erramos e nos arrependemos
Cura
Recebemos o perdão de Deus na comunidade
Unção dos Enfermos
Somos atingidos pela doença
Cura
A graça de Deus e o caminho da Igreja ajudam o doente que sofre
Ordem
Alguém sente vocação de serviço total a Deus e ao irmão
Serviço
O Cristão se torna sacerdote a serviço da comunidade
Matrimônio
Homem e mulher se amam e querem se casar
Serviço
Os dois se comprometem a viver seu amor como cristãos de verdade