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LITURGIA DIÁRIA

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Bento XVI e a pedofilia na Igreja: a realidade


Por D. Hilário Moser,
bispo emérito de Tubarão/SC
De repente, a moda é falar da pedofilia dentro da Igreja. Episódios do passado, já conhecidos e encerrados, agora são exumados um por um, dentro de certo encadeamento, com a finalidade de exagerar a repercussão pelo mundo, tendo um claro objetivo: desacreditar a Igreja católica e atingir o Papa Bento XVI.
Será mesmo verdade tudo os que os jornais andam propalando? É a pedofilia que se quer combater, ou, na realidade, pretende-se “linchar” o Papa, hostilizado desde sua eleição e, periodicamente, por ocasião de alguma sua declaração ou tomada de atitude mais contundente?
Como se explica tudo isso? A resposta não é difícil. Existe no Ocidente certa cultura que se caracteriza por uma clara posição laicista e anticatólica, cujos porta-vozes são jornais e outros meios de comunicação social. Muitas vezes, por trás deles há os que algum sociólogo qualifica como “empresários morais”, pessoas que promovem e financiam campanhas segundo os próprios interesses.
A Igreja, para essa cultura, cria sérios problemas. Basta pensar na constante defesa da vida e da dignidade da pessoa humana contra interesses de pessoas, grupos poderosos e governos.
Para atacar o Papa, começou-se em Ratisbona (Alemanha), tentando envolver seu irmão, Mons. Georg Ratzinger, que por longos anos dirigiu o coral de meninos da catedral daquela diocese. De fato, no passado houve dois episódios de abuso de meninos desse coral; todavia, tais abusos ocorreram antes que Mons. Georg fosse posto à sua frente; inclusive, já eram conhecidos e estavam encerrados judicialmente.
Entretanto, o nome “Ratzinger” ficou nas manchetes dos jornais e não era difícil prever que se tentaria envolver nos escândalos outro Ratzinger, o próprio Bento XVI.
E assim foi. Procurou-se, então, a arquidiocese de Munique, onde Joseph Ratzinger foi arcebispo nos anos 80; ali desenterrou-se o caso do padre que ficou conhecido como “Padre H.”. Esse padre, tendo-se envolvido em casos de abuso de menores na sua diocese, Essen, foi acolhido por Ratzinger em Munique com a única finalidade de fazer uma terapia; todavia, sem dar conhecimento ao arcebispo, o vigário geral de Munique lhe confiou algumas tarefas pastorais; hoje, o vigário geral reconhece seu erro e assume toda a responsabilidade pelo não cumprimento das orientações de Ratzinger. Este caso também já estava resolvido judicialmente; o próprio tribunal que julgou o acusado confirmou a não responsabilidade do Cardeal Ratzinger.
Perguntamos: esse caso foi descoberto em 1985 e julgado por um tribunal em 1986; por qual motivo um jornal alemão decide exumá-lo 24 anos depois de encerrado?
Outra tentativa de envolver Bento XVI foi feita pelo jornal New York Times – tradicionalmente laicista e anticatólico. Segundo o jornal, em 1996, os cardeais Ratzinger e Bertone (respectivamente, prefeito e secretário da Congregação para a Doutrina da Fé) teriam ocultado o caso do padre pedófilo Murphy e impedido que fosse levado à atenção das autoridades civis.
A realidade é precisamente o oposto. Em 1975, Murphy foi denunciado às autoridades civis; todavia, elas não encontraram provas suficientes para condená-lo. A Igreja, apesar de a denúncia contra ele ter sido arquivada pela magistratura, foi mais severa que o Estado e continuou indagando sobre Murphy e, dado que suspeitava que fosse culpado, tomou medidas para que limitasse seu ministério.
Passados 20 anos, em 1995, num clima de fortes polêmicas sobre os casos dos “padres pedófilos”, a arquidiocese de Milwaukee considerou oportuno entregar o caso à Congregação para a Doutrina da Fé. A Congregação para a Doutrina da Fé não retomou o processo, mas recomendou que Murphy admitisse publicamente sua responsabilidade. Quatro meses depois, Murphy faleceu. Ficou claro, pois, que não houve nenhuma tentativa de ocultamento do caso do padre pedófilo por parte dos cardeais Ratzinger e Bertone, que só souberam do acontecido quando o sacerdote estava para morrer.
Além de exumar esses três “esqueletos”, os meios de comunicação social propositadamente exageram os números de casos de pedofilia na Igreja para dar a impressão de um fenômeno extenso e incontrolável, uma espécie de epidemia.
Repete-se constantemente, por exemplo, que só nos Estados Unidos houve 4.000 casos de abusos de menores por parte de padres. De fato, de 1950 a 2002, 4.392 sacerdotes americanos (sobre um contingente de 109.000 padres!) foram “acusados” de relações sexuais com menores; nem todos os casos, porém, se confirmaram como pedofilia, além de haver uma série de padres inocentes que foram caluniados. Ao mesmo tempo, porém, omite-se que, das 4.392 acusações (não sentenças de condenação), os casos de pedofilia foram somente 958 e levaram a 54 condenações, num período de 42 anos! Repetimos: 54 condenações sobre 109.000 padres!
O número de condenações de padres e religiosos em outros países é semelhante ao dos USA. De modo geral, se se compara a Igreja Católica dos USA com as principais denominações protestantes, as estatísticas mostram que a presença de pedófilos é – dependendo de cada denominação – de 2 a 10 vezes mais alta entre pastores protestantes do que entre padres católicos. Isso mostra que o problema não é o celibato, como alguns insistem em apontar, inclusive o teólogo católico Hans Küng. Note-se também que, enquanto um número reduzido de padres católicos foi condenado por abusos de menores, o número de professores de ginástica e treinadores de times juvenis de esportes (na maioria, homens casados) julgados pelos tribunais americanos beirou os 6.000.
E aqui uma observação importante: segundo o governo americano, dois terços mais ou menos das moléstias sexuais com menores não procedem de estranhos ou de educadores – padres e pastores protestantes – mas de membros da própria família: padrinhos, tios, primos, irmãos e até mesmo pais! Os mesmos dados são confirmados por numerosos países.
Existe ainda um dado mais significativo: mais de 80% dos pedófilos – sejam leigos ou sejam padres – são homossexuais, homens que abusam de outros homens. Por isso, mais uma vez, o problema não é o celibato.
Na Alemanha, a partir de 1995, em todo o país, houve 210.000 denúncias de abusos de menores; os casos ocorridos na Igreja foram apenas 94 (1 sobre 2.000!). Na Irlanda, o Relatório Ryan (sempre muito duro com a Igreja) de 2009, registrou o testemunho de 1.090 pessoas a respeito de casos de violência (não só sexuais, mas sobretudo físicas e psicológicas) no sistema escolar da ilha, de 1914 a 2000. No exame de centenas de violências, os religiosos acusados de abusos sexuais de menores são apenas 23, embora os dados não sejam completos porque em duas escolas o número não foi especificado.
Nas escolas femininas foram acusadas 3 empregadas leigas. Em diversas escolas, os abusos foram de pessoal adido, de visitantes externos ou de alunos maiores, não de sacerdotes. O relatório se refere mais a situações de abandono, violência física e depravação que afetou os métodos educativos de todo o sistema escolar.
No fim das contas, somando tudo o que se sabe sobre pedofilia na Igreja – pelo menos por ora -, trata-se de uns 300 casos de padres pedófilos no mundo inteiro sobre um contingente de 400.000 sacerdotes!
É óbvio que, no futuro, deverão surgir novas denúncias. Mesmo assim, sempre se tratará de um índice mínimo, se comparado com outros índices da sociedade em geral. Isto, naturalmente, não justifica de modo nenhum a prática da pedofilia por parte de membros do clero, que deveriam buscar com persistência a santidade de vida. Todo padre que se mancha com o crime de pedofilia é algo muito repugnante, mesmo quando se trata de um caso isolado; assim como é lamentável o fato de que algum expoente da Igreja tenha ocultado casos. Na verdade, essa era a praxe dos tempos passados: transferir o sacerdote culpado para outro ambiente a fim de não provocar escândalo, deixando de dar a devida atenção à vítima. Por outro lado, pintar a Igreja como um covil de pedófilos e o Papa e os bispos como empenhados em esconder casos, é totalmente falso.
Qual é a reação de Bento XVI aos casos de pedofilia? Bento XVI, dentre os papas contemporâneos, é o que mais se dedicou a corrigir essa chaga da Igreja. Foi esse Papa quem deu impulso decisivo a esta luta, também graças a seus 20 anos de experiência como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Como cardeal, favoreceu a reforma também legislativa mais rigorosa nesse assunto.
Em particular, procure-se conhecer a carta que Bento XVI dirigiu aos católicos da Irlanda, simbolicamente a todas as dioceses do mundo. É o primeiro documento de um papa que reconhece coletivamente a culpa da instituição eclesiástica quanto aos abusos sexuais cometidos por decênios e séculos, e vai direta ao coração do problema.
As vítimas foram silenciadas, admite, porque a primeira preocupação foi o bom nome da Igreja e evitar escândalos… Essa, de fato, como vimos, era a mentalidade da época. Pelo contrário, o Papa dá razão às vítimas, que não tinham como fazer ouvir a própria voz. Aos bispos fala de graves falhas, de erros, de falência da liderança, da não aplicação das penas canônicas…, apesar de se tratar de autênticos crimes.
Primeiro dever da Igreja na Irlanda: reconhecer o pecado perante Deus e a opinião pública; usar plena honestidade e transparência, sem nada esconder; os culpados se submeterem à justiça dos tribunais; os bispos colaborarem com as autoridades civis. Não por nada o Papa já aceitou algumas demissões de bispos irlandeses e determinou uma visita canônica minuciosa a toda a Igreja da Irlanda, ordenando uma série de orações e penitências em vista do arrependimento e da mudança de mentalidade e do modo de agir em casos semelhantes.
Na carta, o Papa estigmatiza com determinação o fenômeno, põe a nu sua raiz no afastamento da vida de fé por parte de alguns membros da Igreja e, de forma geral, em certas confusões devidas à secularização e à má interpretação do Concílio Vaticano II. Convida com força os bispos que encobriram casos ou que não reagiram adequadamente diante deles a assumir as responsabilidades dos próprios atos a fim de que não voltem a acontecer no futuro.
É a mesma clareza e determinação que o Papa mostrou durante sua viagem aos USA e à Austrália, quando se encontrou com algumas vítimas dos abusos.
A prova de que a atuação de Bento XVI está produzindo frutos é o relatório da Conferência Episcopal dos USA que mostra que o número das denúncias de supostos casos de pedofilia por parte de eclesiásticos alcançou o mínimo histórico em 2004 (desde quando começaram a ser conferidos). Portanto, a REALIDADE é bem diversa do que certos meios de comunicação social andam propalando.
Enquanto, de modo geral, os 400.000 sacerdotes no mundo inteiro procuram trabalhar corretamente, há quem aponte o dedo acusador para algumas centenas de padres – sem dúvida dignos de condenação ou de compaixão, conforme o caso – para desacreditar toda a Igreja, particularmente Bento XVI. Agir dessa maneira é trair a verdade e a justiça.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Eucaristia, muito mais que reunião fraterna


Discurso de Bento XVI aos bispos brasileiros em visita "ad limina"

Amados Irmãos no Episcopado,
A vossa visita ad Limina tem lugar no clima de louvor e júbilo pascal que envolve a Igreja inteira, adornada com os fulgores da luz de Cristo Ressuscitado. Nele, a humanidade ultrapassou a morte e completou a última etapa do seu crescimento penetrando nos Céus (cf. Ef 2, 6). Agora Jesus pode livremente retornar sobre os seus passos e encontrar-Se como, quando e onde quiser com seus irmãos. Em seu nome, apraz-me acolher-vos, devotados pastores da Igreja de Deus peregrina no Regional Norte 2 do Brasil, com a saudação feita pelo Senhor quando se apresentou vivo aos Apóstolos e companheiros: «A paz esteja convosco» (Lc 24,36).
A vossa presença aqui tem um sabor familiar, parecendo reproduzir o final da história dos discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 33-35): viestes narrar o que se passou no caminho feito com Jesus pelas vossas dioceses disseminadas na imensidão da região amazônica, com as suas paróquias e outras realidades que as compõe como os movimentos e novas comunidades e as comunidades eclesiais de base em comunhão com o seu bispo (cf. Documento de Aparecida, 179). Nada poderia alegrar-me mais do que saber-vos em Cristo e com Cristo, como testemunham os relatórios diocesanos que me enviastes e que vos agradeço. Reconhecido estou de modo particular a Dom Jesus Maria pelas palavras que acaba de me dirigir em nome vosso e do povo de Deus a vós confiado, sublinhando a sua fidelidade e adesão a Pedro. No regresso, assegurai-o da minha gratidão por tais sentimentos e da minha Bênção, acrescentando: «Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão» (Lc 24,34).
Nesta aparição, palavras - se as houve - diluíram-se na surpresa de ver o Mestre redivivo, cuja presença diz tudo: Estive morto, mas agora vivo e vós vivereis por Mim (cf. Ap 1,18). E, por estar vivo e ressuscitado, Cristo pode tornar-Se «pão vivo» (Jo 6, 51) para a humanidade. Por isso sinto que o centro e a fonte permanente do ministério petrino estão na Eucaristia, coração da vida cristã, fonte e vértice da missão evangelizadora da Igreja. Podeis assim compreender a preocupação do Sucessor de Pedro por tudo o que possa ofuscar o ponto mais original da fé católica: hoje Jesus Cristo continua vivo e realmente presente na hóstia e no cálice consagrados.
Uma menor atenção que por vezes é prestada ao culto do Santíssimo Sacramento é indício e causa de escurecimento do sentido cristão do mistério, como sucede quando na Santa Missa já não aparece como proeminente e operante Jesus, mas uma comunidade atarefada com muitas coisas em vez de estar recolhida e deixar-se atrair para o Único necessário: o seu Senhor. Ora, a atitude primária e essencial do fiel cristão que participa na celebração litúrgica não é fazer, mas escutar, abrir-se, receber… É óbvio que, neste caso, receber não significa ficar passivo ou desinteressar-se do que lá acontece, mas cooperar – porque tornados capazes de o fazer pela graça de Deus – segundo «a autêntica natureza da verdadeira Igreja, que é simultaneamente humana e divina, visível e dotada de elementos invisíveis, empenhada na ação e dada à contemplação, presente no mundo e, todavia, peregrina, mas de forma que o que nela é humano se deve ordenar e subordinar ao divino, o visível ao invisível, a ação à contemplação, e o presente à cidade futura que buscamos» (Const. Sacrosanctum Concilium, 2). Se na liturgia não emergisse a figura de Cristo, que está no seu princípio e está realmente presente para a tornar válida, já não teríamos a liturgia cristã, toda dependente do Senhor e toda suspensa da sua presença criadora.
Como estão distantes de tudo isto quantos, em nome da inculturação, decaem no sincretismo introduzindo ritos tomados de outras religiões ou particularismos culturais na celebração da Santa Missa (cf. Redemptionis Sacramentum, 79)! O mistério eucarístico é um «dom demasiado grande – escrevia o meu venerável predecessor o Papa João Paulo II – para suportar ambigüidades e reduções», particularmente quando, «despojado do seu valor sacrificial, é vivido como se em nada ultrapassasse o sentido e o valor de um encontro fraterno ao redor da mesa» (Enc. Ecclesia de Eucharistia, 10). Subjacente a várias das motivações aduzidas, está uma mentalidade incapaz de aceitar a possibilidade duma real intervenção divina neste mundo em socorro do homem. Este, porém, «descobre-se incapaz de repelir por si mesmo as arremetidas do inimigo: cada um sente-se como que preso com cadeias» (Const. Gaudium et spes, 13). A confissão duma intervenção redentora de Deus para mudar esta situação de alienação e de pecado é vista por quantos partilham a visão deísta como integralista, e o mesmo juízo é feito a propósito de um sinal sacramental que torna presente o sacrifício redentor. Mais aceitável, a seus olhos, seria a celebração de um sinal que corresponda a um vago sentimento de comunidade.
Mas o culto não pode nascer da nossa fantasia; seria um grito na escuridão ou uma simples auto-afirmação. A verdadeira liturgia supõe que Deus responda e nos mostre como podemos adorá-Lo. «A Igreja pode celebrar e adorar o mistério de Cristo presente na Eucaristia, precisamente porque o próprio Cristo Se deu primeiro a ela no sacrifício da Cruz» (Exort. ap.Sacramentum caritatis, 14). A Igreja vive desta presença e tem como razão de ser e existir ampliar esta presença ao mundo inteiro.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Páscoa: Experiência de fé e compromisso missionário


Maria Clara Lucchetti Bingemer

Não sei o que mais impressiona nos relatos pascais que encontramos nos Evangelhos. Se a mudança radical que faz com que o luto doloroso e lacrimejante pelo Crucificado morto de maneira infame se transmute em alegria exultante e intrépida; ou se o fato de que um mistério tão profundo e tão sublime seja ao mesmo tempo tão carregado de raiz histórica e realismo humano.
Talvez ambas as coisas. Mas o fato é que a lógica de Deus, que sempre desconcerta, porque vai na contra mão de nossa lógica humana, talvez jamais desconcerte tanto como no evento pascal que dá origem à fé cristã. A começar pela fragilidade do movimento que mudará o mundo e dividirá a história em “antes” e “depois”: umas frágeis e desoladas mulheres que não se conformavam que o corpo do Amado mestre, morto depois de sofrer tanto, ficasse sem o perfume e os óleos por elas cuidadosamente preparados em sua última morada.
Será que acreditavam mesmo que era a última? Será que em seus corações e, sobretudo em seus ventres feitos para a vida e a fecundidade, acreditavam na morte como última palavra? Ainda que suspeitando que não, o fato é que na madrugada do domingo, quando tudo ainda dormia e a noite ameaçadora ainda não fora vencida pela luz, elas caminharam trêmulas e tristes, amparando-se umas às outras e habitadas por uma pergunta que dá bem testemunho de sua fragilidade: “Quem nos há de remover a pedra da entrada do sepulcro?”
Força para enfrentar a noite e seus fantasmas elas tinham. Força para sobrepor-se à dor e levar perfumes para ungir o corpo do Mestre também. Mas força para remover a enorme pedra que selava o sepulcro... para isso precisariam da ajuda de alguém. E, no entanto, encontraram a pedra removida e o túmulo vazio e alguém que lhes disse, diante de seu estupor pela ausência do Mestre, que ele as precederia na Galiléia. E que fossem dar esta notícia a Pedro e ao discípulos.
Tiveram medo, diz o evangelista, e fugiram e calaram-se. Mas em Maria Madalena não houve medo que paralisasse, pois além de ver a pedra rolada, as impossibilidades removidas e a ausência que a desesperou pensando haver perdido o que lhe restava de seu Senhor para sempre, a necessidade de partilhar esta notícia foi mais forte que o medo. E foi dizê-lo aos discípulos... que não creram nela.
Depois, no entanto, foram ver. E não viram nada, pois o túmulo estava vazio. Mas aquele a quem Jesus amava viu e creu. E a partir daí, já nada nem ninguém mais era capaz de segurar esta notícia, esta boa nova, esta espetacular inversão da lógica da morte e da tristeza: aquele que vimos morto está vivo e apareceu às mulheres, a Maria Madalena, a Simão Pedro, a dois dos nossos que caminhavam para Emaús, aos onze reunidos.
Seria lógico que a alegria dos amigos que reencontram a preciosidade do amigo perdido fosse retumbante... se tudo voltasse a ser como antes. Mas não. Nada era como antes. O Ressuscitado aparecia e de novo os deixava. Dava-lhes incumbência e missão: contar a todos, anunciar a outros, a outros e outros mais. Fazer com que a notícia corresse mundo e transformasse os corações enlutados em alegres, o medo em coragem, a solidão em companhia. Deixava-os, mas desta vez não sozinhos, não em lágrimas, não mergulhados na desolação.
Sua identidade estava transformada. De frágeis e desolados seres humanos atirados em irremissível orfandade eram agora intrépidas testemunhas. Que deviam fazer? Juntar-se o mesmo grupo para comemorar juntos a boa notícia da qual só eles sabiam, na qual somente eles e elas creram? Não. Trabalhar, mover-se, contá-la aos outros. Testemunhar para que outros creiam e tenham parte nesta alegria.
Após a experiência tão dolorosa da Paixão, a palavra de ordem de Jesus Ressuscitado não é descansar e recuperar-se dos traumas para depois voltar à rotina. Mas é imediatamente mudar de vida, lançar fora uma rotina que nunca mais acontecerá. Porque agora a vida consistirá em não descansar nunca mais de anunciar que aquele que os homens mataram está vivo pelo poder de Deus e a morte não tem mais nenhum poder sobre ele.
O anúncio do mistério maior que funda a fé cristã não lança os discípulos que agora são apóstolos e mensageiros da boa notícia na órbita longínqua e distante da alienação imobilizante. Mas pelo contrário, os atira de cheio no ventre da história conflitiva e problemática, a mesma que levou Jesus à morte, para dar testemunho de sua Ressurreição.
O tempo mostrou que a muitos e muitas estaria reservada a mesma sorte do Mestre. Que importância tinha? Que medo poderiam ter de uma morte que Deus já havia vencido em seu Filho? O que poderia dete-los ou rete-los? Nada. Ninguém. Pelos caminhos de terra, pelo seio do mundo, pelo espaço e pelo tempo, desde aquela madrugada até hoje, esta notícia continua disponível para mudar a face da terra, transformar a dor em júbilo e proclamar que tudo tem sentido, uma vez que o amor é mais forte que a morte.
Passar por aí, sofrer a perda e proclamar o ganho, chorar a morte e converter-se em testemunha da vida, apalpar o fim e constatar e anunciar que é apenas o princípio da vida que não morre é o sentido da vida humana sobre a terra. Cabe a nós levar adiante essa notícia, cuidando-a desveladamente, a fim de que sua amorosa fragilidade possa chegar aos confins da terra, como desejou e profetizou Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem, padeceu, morreu, foi sepultado, mas foi ressuscitado por Deus seu Pai e nosso, porque o amor é mais forte que a morte.

Monsenhor Oscar Romero: Trinta anos de um martírio


Maria Clara Lucchetti Bingemer

No dia 24 de março de 1980, às 6 h da tarde, o arcebispo de San Salvador, capital do pequeno país da América Central, El Salvador, celebrava missa na capela do Hospitalito, hospital de religiosas que cuidavam de doentes de câncer. No momento da consagração, o tiro desfechado por um atirador de elite escondido atrás da porta traseira da capela atingiu o coração do pastor e matou-o imediatamente.
Calava-se assim a voz que defendia os pobres no regime cruel e sangrento que dominava El Salvador. E Monsenhor Romero passaria a estar vivo, a partir de então, no coração de seu povo, no qual profetizou que ressuscitaria, se o matassem. Assim foi, assim é. Não existe um só salvadorenho nos dias de hoje que não fale com carinho extremo de Monsenhor Romero e não reconheça nele um pai e um protetor. E não há um cristão que não deva conhecer a vida e a trajetória deste grande bispo que é exemplar para todos aqueles e aquelas que hoje se dispõem a seguir Jesus de Nazaré.
Como homem de seu tempo, Romero é configurado pela formação que recebeu como seminarista e sacerdote. Uma formação dada por uma Igreja pré-conciliar, onde a vivência da fé e a pratica da religião são concebidas como um tanto desvinculadas da vida real e cotidiana das pessoas. Seu caminho será extremamente coerente com o caminho cristão nesses mais de 2000 anos de história. A fé cristã foi desde seus começos uma fé no testemunho de outros. É uma fé de testemunhas e nem tanto de textos. As testemunhas continuam sendo os melhores teóricos da fé que professamos e que desejamos comunicar. Nesse sentido, continuam sendo os teólogos primordiais.
Monsenhor Oscar Arnulfo Romero entra nessa categoria de testemunha e teólogo primordial. Seu testemunho de vida e sua morte iluminaram e continuam iluminando o caminho e a vida de várias gerações. Enquanto era padre, Oscar Arnulfo Romero era um sacerdote de corte tradicional, que exercia sua pastoral mais ao interior da Igreja, celebrando missas, distribuindo sacramentos, organizando sua diocese. Devido a seu perfil tranqüilo e não conflitivo foi designado pelo Vaticano como bispo no conflitivo país de El Salvador.
A segunda conversão de Monsenhor Romero, conversão à causa dos pobres e dos explorados - uma classe de maioria nas terras de El Salvador – ocorreu depois de sua nomeação para as funções de bispo. Olhando mais de perto essa conversão, podemos ver que é perfeitamente coerente com o itinerário de um homem honrado e bom, cujo coração se mantinha aberto à missão recebida e à vocação sentida no coração. E sobretudo, aberto ao Deus em quem acreditava e ao qual tinha consagrado toda sua vida , assim como ao povo ao qual prometera servir como pastor. Desde seu posto de bispo, de autoridade eclesiástica, pôde sentir de outra maneira a miséria de seu povo e a violência dos capitalistas, que - como em muitos países do Continente - matavam ou faziam desaparecer líderes, camponeses, padres, agentes de pastoral e tantos quantos fizessem ouvir suas vozes em defesa do povo oprimido.
Monsenhor Romero foi “convertido” aos pobres e a sua causa, a causa da justiça e da verdade, por outra testemunha: o jesuíta P. Rutilio Grande. O Padre Rutilio fez muitas denúncias contra a situação de pobreza do povo, a insensibilidade das elites e a violência do governo. No dia 12 de Março de 1977 quando se dirigia para sua terra natal com outros cristãos para preparar uma festa religiosa, foi morto por militares, com uma rajada de metralhadora. Dom Oscar Romero afirmou que foi o exemplo do Padre Rutilio e sua morte que o convenceram a ficar firmemente ao lado dos pobres e dos injustiçados de El Salvador.
Depois da morte de seu companheiro, Romero passou a acusar frontalmente os capitalistas, governantes, militares e ricos, responsabilizando-os por todos os males ocorridos no país. O testemunho de Rutilio mudou seu olhar sobre a história. Romero não se calou diante das violências da guerrilha revolucionária mas tampouco diante daquelas perpetradas pelos poderes constituídos. Entendeu que seu papel de pastor – papel esse que entendia como extensivo a toda a Igreja naquele momento histórico difícil e doloroso que vivia seu país e seu povo – era levantando a voz e expondo-se, colocando-se claramente do lado dos mais fracos e oprimidos. Por isso a configuração mais vigorosa de sua ação e de sua luta em favor da justiça e da paz, em defesa dos direitos humanos, vamos encontra-la em suas homilias dominicais, nas quais analisa a realidade da semana à luz do evangelho. Transmitidas pela rádio católica, são ouvidas em cada canto do país, dando esperança ao povo e suscitando o rancor dos capitalistas.
Ao mesmo tempo em que conclamava a todos à plena responsabilidade eclesial, denunciava a acomodação e a alienação de muitos com relação a sua responsabilidade eclesiástica e histórica. Eclesialidade e cidadania para ele são inseparáveis.
"Uma religião de missa dominical, mas de semana injusta, não agrada ao Senhor. Uma religião de muitas rezas e tantas hipocrisias no coração, não é cristã. Uma Igreja que se instala sozinho para estar bem, para ter muito dinheiro, muita comodidade, mas que se esquece do clamor das injustiças, não é verdadeiramente a Igreja de nosso divino Redentor" (04/12/1977).
Fiel a sua leitura da história iluminada pelo evangelho do Jesus, sabia também e inseparavelmente, que assumir essa visão e essa vivência de Igreja leva consigo sérias conseqüências. A mais séria, mais dolorosa, mas também a mais luminosa e consoladora é a perseguição.
Já nos primórdios do cristianismo os discípulos entenderam, de acordo a ensinamentos do próprio mestre, que seriam perseguidos se permaneciam fiéis em seu proceder e em seu testemunho. O mundo os odiaria como tinha odiado a Jesus e os perseguiria implacavelmente. Ao invés, se eram aplaudidos e elogiados pelos capitalistas e as instâncias ricas da sociedade deveriam ficar muito desconfiados. Isso significaria que seu testemunho era débil e não seguia fielmente as pegadas do Mestre e Senhor, a quem deveriam aspirar assemelhar-se. Assim entendeu Monsenhor Romero a cascata de ameaças, perseguições e sofrimentos que se abateu sobre ele e a Igreja salvadorenha que o acompanhava e apoiava e procurou inspira-la com sua palavra e seu carinho de pastor.
"Quando nos chamarem de loucos, embora nos chamem de subversivos, comunistas e todas as ofensas que assacam contra nós, sabemos que não fazem mais que pregar o testemunho ‘subversivo’ das bem-aventuranças, que anima a todos para proclamar que os bem-aventurados são os pobres, bem-aventurados os sedentos de justiça, bem-aventurados os que sofrem" (11/05/1978).
Assim também a Igreja, se seguir seriamente a seu Senhor, não pode ser aplaudida e aclamada por todos. A perseguição real e a disposição a sofrê-la é e sempre foi a “verificação mais clara do seguimento do Jesus”. Monsenhor Romero sabe e a isso convoca abundante e eloqüentemente a seus fiéis.
"Uma Igreja que não sofre perseguições, e que está desfrutando dos privilégios e o apoio da burguesia, não é a verdadeira Igreja de Jesus Cristo" (11/03/1979).
Os dias do pastor estavam contados. Ele sabia. E o dizia claramente. São conhecidas de todos nós o sem número de vezes em que anunciou sua morte próxima. Fazem-nos recordar os anúncios da Paixão feitos por Jesus do Nazaré e que os evangelhos recolhem. Com muita clareza, afirmava: “Se nos cortarem a rádio, se nos fecharem o jornal, se não nos deixam falar, se matarem todos os sacerdotes e até o arcebispo, e fica um povo sem sacerdotes, cada um de vocês deve converter-se em microfone de Deus, cada um de vocês deve ser um mensageiro, um profeta”.
Duas semanas antes de sua morte, em uma entrevista ao jornal Excelsior, do México, disse: “Fui freqüentemente ameaçado de morte. Devo lhe dizer que, como cristão, não acredito na morte sem ressurreição: se me matarem, ressuscitarei no povo salvadorenho. Digo isso sem nenhuma ostentação, com a maior humildade. Como pastor, sou obrigado, por mandato divino, a dar a vida por aqueles que amo, que são todos os salvadorenhos, até por aqueles que me assassinem. Se chegarem a cumpri-las ameaças, a partir de agora ofereço a Deus meu sangue pela redenção e ressurreição do Salvador. O martírio é uma graça de Deus, que não me sinto na situação de merecer, entretanto, se Deus aceitar o sacrifício de minha vida, que meu sangue seja semente de liberdade e sinal de que a esperança se transformará logo em realidade. Minha morte, se é aceita Por Deus, que seja pela liberação de meu povo e como testemunho de esperança no futuro. Pode escrever: se chegarem a me matar, desde já eu perdôo e benzo aquele que o faça”.
Na homilia de 23 de março de 1980, um dia antes de morrer, ele se dirige explicitamente aos homens do exército, da Guarda Nacional e da Polícia: “Frente à ordem de matar seus irmãos deve prevalecer a Lei de Deus, que afirma: NÃO MATARÁS! Ninguém deve obedecer a uma lei imoral (...). Em favor deste povo sofrido, cujos gritos sobem ao céu de maneira sempre mais numerosa, suplico-lhes, peço-lhes, ordeno-lhes em nome de Deus: cesse a repressão!”.
Serão as últimas palavras do bispo ao país. No dia seguinte, é assassinado por um franco-atirador, enquanto reza a missa. Selou seu testemunho com sangue, como Jesus e todos os mártires cristãos. Entretanto, sua morte não pode ser desconectada de sua vida. Foi o selo coerente desta. Para entender o alcance da morte de Mons. Romero e afirmar que é realmente um martírio importa lançar os olhos sobre o modo como viveu. É o modo como viveu, sua história de vida que ilumina e faz com que sua morte cobre todo sentido. E vice –versa. Sua morte confirma e legitima todo aquilo pelo que lutou em vida.
A fé de Monsenhor Romero, como fé de uma autêntica testemunha, tem que alimentar nossa fé aqui e agora. Em que pontos pode alimentá-la e fortalecê-la principalmente?1. A fé de Monsenhor Romero chama a uma conversão pessoal. Chama-nos a ser testemunhas mais coerentes no sentido de mais atentos à história e seus signos para ver onde há dor, onde há sofrimento, onde há necessidade para estar aí, consolando, atendendo, testemunhando, como verdadeiros seguidores e discípulos de Jesus Cristo. Se formos cristãos de missa dominical e de semana injusta, estamos muito longe do Jesus do Nazaré e do testemunho de Monsenhor Romero. 2. A fé de Mons. Romero enquanto homem de Igreja nos chama a construir uma Igreja que seja aberta aos desafios e solicitações de hoje. Uma Igreja acolhedora e servidora dos pobres, tendo-os sempre como prioridade inescapável de sua agenda; uma Igreja aberta às diferenças – de genero, de raça, de etnia; uma Igreja aberta ao diálogo com o mundo, e com as outras tradições com vistas a construir juntos os grandes valores que o mundo necessita mais que tudo: justiça, paz e solidariedade.3. A fé de Mons. Romero nos ensina que nossa Igreja, se for essa Igreja que ele viveu e pregou e que anunciou com sua vida e sua morte, terá necessariamente que ser perseguida. Temos que ser uma Igreja que não procure aplausos e aprovações gerais e totalizantes, mas que aceite a incompreensão, a contradição e a perseguição e o conflito como provas constitutivas e coerentes com a veracidade de nosso seguimento de Jesus.4. A fé de Mons. Romero nos diz que importa nem tanto anunciar o Cristianismo como uma religião feita de normas morais, formula dogmáticas e rituais sem fim, mas sim como um caminho de vida, e vida em abundância para todos. Por isso, trata-se muito mais de fé e nem tanto de religião. Muito mais de caminho e nem tanto de estabilidade e instituição.5. A fé de Mons. Romero nos ensina que o Reino é uma proposta para todos e terá que colocar-nos ao lado de todos que desejam construí-lo. Mas a Igreja é uma proposta para aqueles que se dispõem a tomar a sério seu Batismo e aceitar suas implicações, que são sofrer e morrer pelo povo. Por isso, terá que dar sua vida construindo o Reino para todos, mas fazer Igreja com aqueles que realmente querem seguir a Jesus Cristo com todas as suas conseqüências. Enquanto o Batismo seja um bem de consumo posto a disposição de todos, parece que não conseguiremos construir a Igreja segundo o sonho de Jesus.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Quando a Eucaristia se torna Vida!


Por Frei Sinivaldo S. Tavares, OFM

Observando algumas atitudes que têm caracterizado a relação das nossas comunidades de fé com a Eucaristia, entre perplexos e desapontados, constatamos o retorno de atitudes esclerosadas, filhas de um passado que acreditávamos enfim superado: a insistência em conceber a participação do ministro ordenado na celebração da Eucaristia em termos de um poder autônomo e auto-suficiente, meio mágico até, de consagrar o pão e o vinho; a tendência a considerar as palavras da consagração em si mesmas e, portanto, desvinculadas de seu natural contexto: a oração eucarística e, por extensão, a inteira celebração eucarística; a presença real entendida, numa perspectiva objetivista (coisificada), como presença física, somática; a importância exagerada que se tem dado à adoração em detrimento da celebração eucarística. Nestes casos, ao se julgar conferir grande importância à Eucaristia, acaba-se ofuscando seu sentido mais originário.Apesar de não ter elaborado um tratado sistemático e exaustivo acerca do Sacramento do Corpo e do Sangue do Senhor, Francisco revela possuir uma concepção deveras rica e integral deste mistério cristão. Sua peculiaridade, de resto, reside propriamente no ter abraçado com tamanha intensidade o evangelho e os mistérios de Jesus Cristo de modo a sorvê-los até sua última gota. Talvez seja esta a razão pela qual, Francisco atinja o âmago de tais mistérios com uma invejável profundidade e evidência. Não deixa de suscitar admiração o fato que Francisco, no tocante ao Sacramento do Corpo e do Sangue do Senhor, tenha alcançado experimentá-lo na sua mais genuína radicalidade, não obstante toda aquela situação de degrado que caracterizava tanto a devoção quanto as querelas teológicas de seu tempo.Para evitar abusos e especulações ligados à prática da simonia através da multiplicação indevida de Missas, como era costume em muitos mosteiros e paróquias de então, e para dar maior visibilidade e eficácia sacramental à comunhão eucarística, Francisco recomenda insistentemente que os frades, em suas fraternidades, concelebrem a eucaristia. Na Carta enviada a toda a Ordem, ele escreve: “Por isso, admoesto e exorto no Senhor a que, nos lugares onde moram os irmãos, seja celebrada apenas uma missa por dia, segundo a forma da santa Igreja. Se, porém, houver muitos sacerdotes no lugar, por amor da caridade, contente-se um em ouvir a celebração do outro sacerdote; porque o Senhor Jesus Cristo sacia os presentes e ausentes que são dignos dele. Ele, embora pareça estar em muitos lugares, permanece, contudo, indivisível e não conhece qualquer tipo de detrimento, mas, em todo lugar, como lhe agrada, opera em unidade com o Senhor Deus Pai e com o Espírito Santo Paráclito pelos séculos dos séculos. Amém (cf. Ap 1,6)” (Ord 30-33).Embora não concordasse plenamente com as reivindicações dos movimentos heréticos da época, Francisco parece ter aprendido algo com os Cátaros. É o que ele deixa transparecer ao assumir como própria uma de suas principais reivindicações: que os sacerdotes celebrem de maneira digna o sacramento do Corpo e do Sangue do Senhor. Na Carta enviada a toda a Ordem, ele escreve: “Rogo também no Senhor a todos os meus irmãos sacerdotes – os que são, os que serão e os que desejam ser sacerdotes do Altíssimo – que, todas as vezes que quiserem celebrar a missa, puros e de maneira pura, ofereçam com reverência o verdadeiro sacrifício do santíssimo corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo com santa e pura intenção, não em vista de alguma coisa terrena nem por temor ou amor a qualquer pessoa, como que agradando aos homens (cf. Ef 6,6; Cl 3,22). Mas toda a vossa vontade – à medida que a graça [vos] ajudar – esteja dirigida a Deus, desejando assim agradar unicamente ao mesmo Senhor altíssimo, porque aí só ele opera como lhe apraz; pois – como ele mesmo diz: Fazei isto em memória de mim (Lc 22,19); 1Cor 11,24) –, se alguém o fizer de modo diferente, torna-se Judas traidor e réu do corpo e do sangue do Senhor (cf. 1Cor 11,27). [...] Considerai a vossa dignidade, irmãos (cf. 1Cor 1,26) sacerdotes, e sede santos, porque ele é santo (cf. Lv 19,2). E assim como o Senhor Deus vos honrou acima de todos por causa deste ministério, de igual modo também vós amai-o, reverenciai-o e honrai-o acima de todos. Grande miséria e fraqueza digna de comiseração, quando o tendes assim presente e vos preocupeis com qualquer outra coisa em todo o mundo” (Ord 14-16. 23-25).Ao manifestar sua particular devoção ao sacramento do Corpo e do Sangue do Senhor, Francisco não reduz este sacramento única e exclusivamente ao momento da consagração. Nem se deixa sucumbir face às tendências em voga naquele tempo de valorizar mais a “comunhão ocular” do que propriamente a “comunhão sacramental”, salientando sobremaneira o rito da elevação da hóstia e do cálice com vinho, após a consagração. Naqueles idos, valorizava-se tanto a contemplação das espécies consagradas em detrimento da comunhão propriamente dita que o Concílio Lateranense IV chegou a prescrever que todo cristão deveria comungar ao menos uma vez no ano, por ocasião da festa da Páscoa da Ressurreição. Francisco, ao contrário, insiste na manducação do Corpo e do Sangue do Senhor como expressão de sua autêntica recepção e da plena participação do sacramento do Altar.A íntima relação entre comunhão no Corpo e no Sangue de Jesus Cristo a produção de dignos frutos de penitência constitui nota característica da concepção e devoção eucarísticas de Francisco. Neste sentido, ele não perde uma ocasião sequer para trazer-nos à memória a estreita relação entre a participação ao sacramento do Altar e a conversão evangélica. E o fundamento último desta preocupação é a estreita relação entre Sacramento e Palavra tão salientada pelo poverello de Assis. Na Carta enviada a toda a Ordem, ele afirma: “E, porque quem provém de Deus ouve as palavras de Deus (cf. Jo 8,47), devemos nós, por conseguinte, que mais especialmente fomos encarregados dos ofícios divinos, não só ouvir e fazer o que o Senhor diz, mas também, para compenetrar-nos da grandeza do nosso Criador e da nossa submissão a ele, guardar os vasos e demais objetos do ofício, os quais contêm suas santas palavras. Por isso, admoesto e conforto todos os meus irmãos em Cristo a que, onde encontrarem as palavras divinas escritas, da maneira como puderem, as venerem e, no que lhes compete, se elas não estiverem bem colocadas ou se em algum lugar estiverem dispersas sem a devida honra, recolham-nas e guardem-nas, honrando o Senhor nas palavras que ele falou (1Rs 2,4). Pois muitas coisas são santificadas pelas palavras de Deus (cf. 1Tm 4,5), e é em virtude das palavras de Cristo que se realiza o sacramento do altar” (Ord 34-37).A eficácia das palavras de Cristo é recuperada mediante a peculiar virtude do Espírito Santo. Por esta razão é que o encontro com Cristo, que se dá mediante a busca sincera de seguir seus passos, só é possível na medida em que nos deixamos conduzir por este mesmo Espírito que foi derramado em nossos corações e que habita no seio da comunidade de fé e no coração da história e do cosmos. Neste sentido, a participação plena no sacramento do Corpo e do Sangue do Senhor só se dá naquele horizonte maior propiciado e mantido pelo Espírito do Senhor. Este horizonte maior é caracterizado pela singular experiência de contemporaneidade entre Cristo e nós. Esta contemporaneidade é que cria uma situação de peculiar empatia entre nós e Cristo, experiência esta que se encontra na raiz de toda e qualquer autêntica experiência de encontro e de comunhão. Francisco se mostra particularmente sensível a esta legítima e intrínseca dimensão pneumatológica da eucaristia.Nada melhor, para conclusão destas fragmentárias reflexões, do que deixar o próprio Francisco falar. Quiçá nos deixemos contagiar pela profundidade de suas palavras que revelam a singularidade de sua experiência. Aqui fala o místico que, como ninguém, experimenta a estreiteza e o limite das palavras quando se trata de exprimir experiências profundas. Daí a abundância dos superlativos e o contínuo jogo de palavras que caracterizam sobremaneira a linguagem e o estilo do poverello de Assis:“Pasme o homem todo, estremeça o mundo inteiro, e exulte o céu, quando sobre o altar, nas mãos do sacerdote, está o Cristo, o Filho de Deus vivo (Jo 11, 27)! Ó admirável grandeza e estupenda dignidade! Ó sublime humildade! Ó humilde sublimidade: o Senhor do universo, Deus e Filho de Deus, tanto se humilha a ponto de esconder-se, pela nossa salvação, sob a módica forma de pão! Vede, irmãos, a humildade de Deus e derramai diante dele os vossos corações (Sl 61,9); humilhai-vos também vós, para serdes exaltados (cf. 1Pd 5,6; Tg 4,10) por ele. Portanto, nada de vós retenhais para vós, a fim de que totalmente vos receba aquele que totalmente se vos oferece” (Ord 26-29).

A voz não ouvida da Terra Santa


Entrevista com o patriarca Twal, de Jerusalém
Ainda que os cristãos árabes sejam minoria na Terra Santa, poderiam ser uma ponte importante no conflito que dividiu a região durante tanto tempo, afirma o patriarca Fouad Twal. O patriarca latino de Jerusalém lamenta, no entanto, que, dado que a comunidade internacional não os leva em consideração, o número de cristãos esteja diminuindo. Parte do problema, observa, é que o alto muro que cerca os territórios palestinos tornou quase impossível a vida diária de muitos.
Há aproximadamente 50 mil cristãos na Faixa de Gaza, Jerusalém Oriental e Cisjordânia, com mais de 200 mil em Israel.
Nesta entrevista concedida ao programa de televisão “Deus chora na terra”, da Catholic Radio and Television Network (CRTN), em cooperação com Ajuda à Igreja que Sofre, o patriarca expõe os muitos desafios enfrentados pelos cristãos que moram na Terra Santa. Também lança um convite à oração, aos Projetos e à Pressão (os três “pês” em inglês).

-O senhor poderia nos dizer qual é a situação atual dos cristãos na Terra Santa?
Patriarca Twal:
Temos de recordar que o Patriarcado Latino abrange 3 Estados: Jordânia, Palestina e Chipre. Não é fácil falar sobre um Estado, porque a situação muda de um para outro. Como sabemos, no mundo há normalmente um Estado com muitas dioceses; em nosso caso, temos uma diocese dentro de muitos Estados.
O fato de que vivamos em conflito significa que as fronteiras entre os Estados criam problemas; cruzar as fronteiras significa problemas; designar uma paróquia a outra paróquia não é fácil. Precisamos de passes – autorizações – de Israel para nos movermos dentro desses três Estados, que fazem parte de um único patriarcado de Jerusalém.

-Como o senhor descreveria os sentimentos das pessoas em Jerusalém, na Terra Santa, especialmente os dos cristãos?
Patriarca Twal:
É uma cidade especial, uma cidade belíssima e uma cidade dramática na qual inclusive o Senhor chorou. E ainda estamos chorando. Todos querem que Jerusalém seja sua própria capital; e Jerusalém, para mim, deve ser a mãe de todas as igrejas, a mãe de todos os crentes, e não para um só povo.
É um prazer ver, por um lado, essas pessoas que vêm visitar os Lugares Santos e, por outro, é doloroso ver que a igreja local, os cristãos locais não podem sequer visitar esses lugares santos. Um pároco de Belém não pode trazer seus fiéis em peregrinação a estes lugares santos. A mesma situação ocorre em Ramallah, na Jordânia e em outras paróquias; não podem se mover com facilidade, com tantos pontos de controle e o muro que os separa.

-Esta é a questão-chave. A situação dos cristãos da Terra Santa piorou a partir da construção do muro?
Patriarca Twal:
Claro que sim, o muro separou as famílias. Não é somente uma questão dos Lugares Santos, mas também uma questão de famílias, de algumas famílias, alguns jovens que não podem visitar seus avós do outro lado do muro. Não podem ir ao seu sítio, ao seu jardim ou ao seu olivar, do outro lado. O problema é grande e não é uma questão somente dos Lugares Santos, mas de dignidade das famílias, da separação entre jovens e idosos. Não podem sequer visitar alguém que morreu do outro lado.

-O senhor viaja com um passaporte diplomático do Vaticano?
Patriarca Twal:
Sim. O problema surge quando temos de transferir algum sacerdote. Na Jordânia – a maior parte do patriarcado e a fonte dos nossos sacerdotes, seminaristas e freiras –, a questão sempre é se poderemos trazê-los à Palestina. Outra questão é a que tem a ver com nossos jovens seminaristas que estão em Beit Jala, perto de Belém: se poderão passar as férias na Jordânia, para ver suas famílias.

-Os cristãos se encontram entre os extremistas muçulmanos e os extremistas sionistas. Como encaixam os cristãos? Há uma sensação de agressão à comunidade cristã de ambas as partes ou o senhor acha que não?
Patriarca Twal:
Penso que esta dramática situação deveria fazer que levássemos mais a sério o Evangelho. No Evangelho, o Senhor diz: “Quem quiser me seguir, tome sua cruz e me siga”.
E este é o nosso “pão de cada dia”: carregar a cruz nos mesmos lugares em que Ele a carregou. E como cristãos, como minoria, se esta cruz vem dos judeus, dos muçulmanos, de nós menos, não importa. O fato é que não podemos viver na Terra Santa, não podemos amar a Terra Santa, não podemos trabalhar na Terra Santa sem a cruz, de forma que a situação do muro nos faz levar ao pé da letra o Evangelho. Ao mesmo tempo, no Evangelho, o Senhor diz: “Não tenhais medo, eu estou convosco, nunca vos deixareis sozinhos”.

-O senhor disse que os cristãos árabes são como uma ponte entre o Oriente e o Ocidente. Qual é o papel deles, neste contexto?
Patriarca Twal:
Em primeiro lugar, conservar e respeitar nossa identidade, tanto de árabes como de cristãos; não podemos esquecer esta identidade. Como árabes, temos as mesmas tradições, temos a mesma língua e temos a mesma concepção dos muçulmanos. Podemos falar com eles. Sentimo-nos mais árabes que eles; havia árabes no Oriente Médio vários séculos antes da chegada do Islã e estamos orgulhosos de dizer que somos árabes e viemos do deserto. Eu digo isso com prazer e não tenho nenhum problema com isso.
Ao mesmo tempo, somos cristãos e temos uma cultura, e uma cultura cristã, uma cultura ocidental; e podemos ser e devemos ser um fator de moderação, um fator de reconciliação, um fator ou ponte entre povos em conflito. A questão é se a comunidade internacional nos aceita ou nos considera dessa forma. Este é o ponto.
Costumam se esquecer de nós. Costumam tomar decisões sobre o Oriente Médio sem pensar na pequena minoria cristã desta região. E costumam pagar o preço das suas decisões porque ninguém nos considera nem considera nossa presença entre uma maioria de muçulmanos e uma maioria de judeus.

-Se o senhor tivesse que fazer uma petição aos católicos, o que pediria para os cristãos da Terra Santa?
Patriarca Twal:
A petição é fácil: é a petição dos três grandes “pês” (em inglês).
Oração: pedimos que a Igreja do mundo inteiro – com suas comunidades, seus sacerdotes e seus fiéis – reze pela paz na Terra Santa, porque ainda acreditamos no poder da oração. O Senhor disse: eu vos darei a minha paz. A paz que o mundo, que os políticos não podem dar, ou que talvez não queiram dar, Ele nos dará. Esta paz significa serenidade, fé, amor e respeito por todos.
O segundo “P” é projeto: adotem, por favor, algum projeto social, religioso ou cultural. Podem adotar escolas, podem adotar seminaristas e podem adotar o patriarcado; podem e devem ajudar.
O último “P” é pressão sobre os governos, para alcançar a paz. Precisamos disso mais que de qualquer outra coisa. Precisamos da paz. Precisamos de um calendário que acabe com os postos de controle, com o muro; e temos de estar em paz com todos.
Queremos garantir a todos que, com as armas, muros e postos de controle, não haverá paz nem segurança. A paz e a segurança serão para todos ou não serão para ninguém. Nenhum povo, nem o israelense nem o palestino, pode ter uma segurança ou uma paz unilateral: ambos devem ter paz e segurança ou, de outra forma, continuarão se matando e nunca acabaremos com esta violência. E não queremos isso.
Queremos paz e segurança para todos: judeus, muçulmanos e cristãos.

Quando a leitura orante da Palavra de Deus dá fruto


Entrevista com padre Bruno Secondin, animador de encontros de “lectio divina”
Por Mirko Testa

ROMA, terça-feira, 16 de março de 2010 (ZENIT.org). – Uma escuta séria e obediente da Palavra, preparada com zelo, mas também com criatividade, pode ser capaz de envolver muitos fiéis e tornar-se fonte de discernimento, capaz de renovar o caminho da fé e a própria vida cotidiana. Foi o que disse a ZENIT o padre carmelita Bruno Secondin, professor de teologia espiritual e espiritualidade moderna da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.

- Quais são os frutos desta experiência à frente da lectio divina?
- Padre B. Secondin:
Iniciamos em 1996, e até aqui já realizamos 172 destes encontros, se contarmos o que será realizado na próxima sexta-feira. Foi um longo percurso, e também uma experiência preciosa, que exigiu de nós não apenas uma vigilância constante para não profanar a Palavra, mas, ao mesmo tempo, um empenho em encontrar modalidades adaptadas à diversidade dos participantes, sempre em número elevado, o que dificulta uma aproximação mais direta. Contamos com uma média de 200 participantes nos encontros, provenientes principalmente de Roma, mas também de outras regiões. Por isso, desde o início tentamos imprimir um ritmo que fosse capaz de envolver tantas pessoas. A participação de alguns grandes professores, como o cardeal Joseph Ratzinger, Carlo M. Martini, Enzo Bianchi, Gianfranco Ravasi, Bruno Forte, Carlos Mesters e outros nos mostrou uma ampla variedade de abordagens e de riqueza de estilos, que todos apreciaram.

- Mas o público chega a experimentar a Palavra, a pregá-la, a traduzi-la em sua própria vida?
- Padre B. Secondin:
Não podemos saber muito a esse respeito. Mas o fato de tantas pessoas participarem e retornarem, buscando se informar sobre os textos bíblicos e recorrendo aos cantos que usamos, é certamente um bom sinal. Os quase 100 mil acessos registrados em nosso site nos últimos quatro anos em meio, a boa divulgação dos nossos livros, e das contribuições, o interesse de muitos párocos e comunidades religiosas por nosso método, e pelas traduções de nossos textos para outros idiomas, também nos indicam algo. Como animadores, consideramos uma grande graça trilhar este caminho com as pessoas e com a Palavra: aprendemos a conhecer e amar a Palavra com seriedade, a transmitir sua chama de verdade e doçura; as demonstrações de carinho que recebemos são um sinal de que a “mão do Senhor” nos acompanha. A frequente exortação do Papa à lectio divina nos faz pensar que estamos no caminho certo. Nós semeamos. O Senhor fará germinar e crescer, de acordo com Sua vontade. Somos seus servos, e temos um grande prazer em sê-lo.

- Transcorridos mais de dezesseis meses desde o Sínodo da Palavra de Deus (de outubro de 2008), o que já sabemos sobre a exortação apostólica pós-Sinodal?
- Padre B. Secondin:
O último comunicado oficial sobre a preparação desta “exortação apostólica pós-sinodal” é de junho do ano passado: é o comunicado da Secretaria Permanente do Sínodo, divulgado ao final da terceira reunião do XII Conselho ordinário da secretaria. Neste constava que estaria para ser submetida ao Papa uma proposta, tendo em vista a publicação da exortação. O trabalho foi conduzido visando, entre outras preocupações, “à escuta e leitura orante da Bíblia e sua aplicação na vida pessoal, familiar, eclesial e social”. Esta menção à importância da “leitura orante” (tecnicamente, a lectio divina), corresponde à impressão que se tem vinda dos muito sinais de que o Papa tem uma estima particular pela prática da lectio divina. De fato, ele a recomenda, sempre que a ocasião for adequada, e assume pessoalmente o papel de condutor, como ocorreu por exemplo em sua visita ao Seminário Romano (12 de fevereiro) e no encontro com o clero romano (18 de fevereiro). Os próprios exercícios espirituais desenvolvidos recentemente no Vaticano foram realizados segundo a dinâmica da lectio divina. Sabemos com certeza que a Secretaria permanente do Sínodo concluiu em junho de 2009 seu relatório, enviando-o à Secretaria de Estado de Sua Santidade: este é o organismo que está encarregado, desde então, de concluir o trabalho e providenciar sua publicação. Mas até agora nenhuma informação nova foi divulgada. Esperávamos que o texto fosse publicado no Natal, o que não ocorreu.

- Este atraso na publicação da exortação pós-sinodal poderia indicar que ainda restam dificuldades na redação ou questões delicadas por esclarecer?
- Padre B. Secondin:
Pelas informações que me foram disponibilizadas, e por diversas outras fontes, sabe-se que o Papa dá grande importância ao esclarecimento da relação entre a exegese científica e o trabalho teológico. Ele mesmo, com frequência, mostra-se um modelo eficaz sobre essa questão. Sua conferência no Sínodo, na qual abordou justamente esse tema, realizada em 14 de outubro de 2008, tornou-se famosa. A partir desta conferência, foram elaboradas 4 proposições finais. Mas, de modo geral, este tema – o da Palavra – certamente tem implicações profundas também para as relações com outras Igrejas e comunidades cristãs, com os judeus, com o mundo das comunicações e para todas as variadas experiências do uso pastoral da Palavra. Por isso, o texto exige uma redação muito cuidadosa, mas, ao mesmo tempo, que permaneça estimulante e aberta às novas experiências com que temos nos deparado. As próprias Proposições, bem como a Mensagem final, já assinalavam esta complexidade.