LITURGIA DIÁRIA

sexta-feira, 5 de março de 2010

O PECADO E A GRAÇA DE DEUS


Deus é infinitamente bom e todas as suas obras são boas. Todavia, ninguém escapa à experiência do sofrimento, dos males existentes na natureza que aparecem ligados às limitações que são próprias das criaturas e, sobretudo, ninguém escapa à questão do mal moral.
Uma pergunta que sempre nos vem à mente é a seguinte: De onde vem o mal? É preciso que abordemos a questão da origem do mal fixando o olhar de nossa fé naquele que é o Vencedor do mal: Jesus de Nazaré.
Não podemos perder de vista que o pecado está presente na história do homem, e seria inútil tentar ignorá-lo ou dar a esta realidade obscura outros nomes. É pecado, é o mal. No entanto, para tentarmos compreender o que é o pecado, é preciso antes de tudo reconhecer a ligação profunda do ser humano com Deus, pois fora desta relação o mal do pecado não é desmascarado em sua verdadeira identidade de recusa e de oposição a Deus, embora continue a pesar sobre a vida do homem e sobre a história. Nós sabemos identificar o mal porque temos conhecimento do bem. Nós sabemos que o pecado nos leva à destruição porque é o contrário de tudo aquilo que constrói.
Deus criou o homem à sua imagem e o constituiu em sua amizade. Criatura espiritual, o homem só pode viver esta amizade como livre submissão a Deus. E o que exprime a proibição, feita ao homem, de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, "pois, no dia em que dela comeres, terás de morrer" (Gn 2,17). "A árvore do conhecimento do bem e do mal" (Gn 2,l7) evoca simbolicamente o limite intransponível que o homem, como criatura, deve livremente reconhecer e respeitar com confiança. O homem depende do Criador, está submetido às leis da criação e às normas morais que regem o uso da liberdade.
A realidade do pecado, e mais particularmente a do pecado das origens, só se entende à luz da Revelação divina. Sem o conhecimento de Deus que esta Revelação nos dá não se pode reconhecer com clareza o pecado. Daí somos tentados a querer explicar o pecado unicamente como uma falta de crescimento outros querem entender o pecado simplesmente como uma fraqueza psicológica, um simples erro. Outros ainda querem apenas compreender o pecado como a conseqüência necessária de uma estrutura social inadequada.
Somente à luz do desígnio de Deus sobre o homem pode-se compreender que o pecado é um abuso da liberdade que Deus dá às pessoas criadas para que possam amá-lo e amar-se mutuamente. Repito: o pecado é um abuso da liberdade que Deus dá às pessoas criadas para que possam amá-lo e amar-se mutuamente.
O homem, tentado pelo Diabo, deixou morrer em seu coração a confiança em seu Criador e, abusando de sua liberdade, desobedeceu ao mandamento de Deus. Foi nisto que consistiu o primeiro pecado do homem. Todo pecado, daí em diante, ser uma desobediência a Deus e uma falta de confiança em sua bondade.
Neste pecado, o homem preferiu a si mesmo a Deus, e com isso menosprezou a Deus: optou por si mesmo contra Deus, contrariando as exigências de seu estado de criatura e consequentemente de seu próprio bem. Constituído em um estado de santidade, o homem estava destinado a ser plenamente "divinizado" por Deus na glória. Pela sedução do Diabo, quis "ser como Deus", mas "sem Deus, e antepondo-se a Deus, e não segundo Deus".
A Escritura mostra as conseqüências dramáticas desta primeira desobediência. Adão e Eva perdem de imediato a graça da santidade original. Têm medo deste Deus, do qual fizeram uma falsa imagem, a de um Deus enciumado de suas prerrogativas.
A harmonia na qual estavam, estabelecida graças à justiça original, está destruída; o domínio das faculdades espirituais da alma sobre o corpo é rompido; a união entre o homem e a mulher é submetida a tensões; suas relações serão marcadas pela cupidez e pela dominação (cf. Gn 3, 16). A harmonia com a criação está rompida: a criação visível tornou-se para o homem estranha e hostil. Por causa do homem, a criação está submetida "à servidão da corrupção". Finalmente, vai realizar-se a conseqüência explicitamente anunciada para o caso de desobediência: o homem "voltará ao pó do qual é formado" A morte entra na história da humanidade.
Vejam: o ser humano foi criado “capaz de conhecer e amar seu criador, e por isto, foi constituído senhor de todas as criaturas terrenas, para as dominar e delas se servir, dando glória a Deus”. Ele “não foi só criado bom, mas também foi constituído em uma amizade com Deus, seu criador. Foi criado em harmonia consigo mesmo e com a criação que o rodeava”. Esta graça o fazia participar da vida de Deus. A pessoa humana foi criada para participar da vida de Deus.
Esta harmonia, porém, entre criador e criatura, foi rompida quando o ser humano renegou ao amor gratuito de Deus e escolheu, pela desobediência, afastar-se da graça original. “O homem se decide contra a vontade de Deus e se ilude numa auto-suficiência destruidora. Enganado pelo desejo de infinito, o homem quer ser como Deus e pretende ficar no lugar dele. Os resultados são bem conhecidos: o homem, uma vez fechado para Deus, fecha-se igualmente para o irmão, homem e mulher deturpam o seu relacionamento mútuo, homens e mulheres dominam arbitrariamente a natureza”, uma vez que, “a desobediência não consiste apenas no fechamento à proposta salvífica de Deus, mas é também negação da responsabilidade diante da criação”. A relação homem-natureza fica desordenada, e isto tudo por causa da desobediência, da ingratidão do ser humano para com Deus.
A harmonia foi rompida dado que a “relação vital de filho para Pai foi cortada e o homem não consegue mais reatá-la por si mesmo”. Esta relação cortada pelo pecado, o homem não tem forças suficiente para reatá-la sozinho. Deus, porém, é amor e não um carrasco castigador. Por isso, promete restaurar a comunhão. Deus promete restaurar o seu plano de amor. E a realização desta promessa dá-se em Jesus Cristo, pois é à luz dele que toda a história aparece aberta a um Deus que nos ama infinitamente, faz-se graça, salvando-nos.
E a graça de Deus se manifesta. Mas o que é a graça? A graça é a “realidade do amor infinito de Deus que se dá e, correlativamente, a realidade da indigência absoluta do homem abarrotando-se desse amor divino... Graça quer dizer que Deus desceu, condescendeu com o homem... A graça é, antes de mais nada , graça (dom) incriada (de Deus)... O Pai se nos deu dando-nos o Filho... A graça de Deus é graça de Cristo; a graça de Cristo é Cristo mesmo dando-nos sua vida, conformando-nos com ele, tornando-nos filhos no Filho.” Filiação especial que possui um fundamento ontológico na participação da mesma natureza de Deus. É por Jesus Cristo de Nazaré que podemos dizer que não somos mais escravos do pecado e da morte.
A vitória sobre o pecado, conseguida por Cristo, deu-nos bens melhores do que aqueles que o pecado nos havia tirado: "Onde avultou o pecado, a graça superabundou" (Rm 5,20).
O mundo em que vivemos foi criado e conservado pelo amor do Criador. Na verdade, este mundo foi reduzido à servidão do pecado, mas Cristo crucificado e ressuscitado quebrou o poder do Maligno e libertou o mundo.

Pe. Ademir Nunes Farias

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