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LITURGIA DIÁRIA

sábado, 30 de janeiro de 2010

Zilda Arns, pela fé


Por Dom Walmor de Azevedo, arcebispo de Belo Horizonte


BELO HORIZONTE, sexta-feira, 22 de janeiro de 2010 (ZENIT.org).- Apresentamos artigo do arcebispo de Belo Horizonte (Brasil), Dom Walmor Oliveira de Azevedo, enviado a ZENIT hoje, sobre a fundadora da Pastoral da Criança, Zilda Arns.
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Zilda Arns, pela fé
O apóstolo Paulo, em exortação na carta Romanos, 14,18-19, tem uma palavra que se aplica, plenamente, no juízo que se pode, por justiça, fazer a respeito da vida e do testemunho da dra. Zilda Arns: “É servindo a Cristo, dessa maneira, que seremos agradáveis a Deus e teremos a aprovação dos homens. Portanto, busquemos tenazmente tudo que contribui para a paz e a edificação de uns pelos outros”. A história de sua vida ultrapassa, simplesmente, as mais nobres causas e motivações políticas. Oportuno é recordar que a intuição que originou a Pastoral da Criança se aplicou, em primeiro lugar, em Florestópolis, no Paraná, na Arquidiocese de Londrina, com o incentivo do irmão Dom Paulo Cardeal Arns, e com o apoio decisivo de Dom Geraldo Majela Cardeal Agnelo, então arcebispo metropolitano naquela região.
A origem desse projeto, que chegou a motivar a sua candidatura ao Prêmio Nobel da Paz, nasceu no meio dos mais pobres, sem os holofotes habituais dos interesses eleitoreiros e da mesquinhez de se tirar proveito de algo, particularmente no âmbito da projeção política. O olhar fixado nos mais pobres, endereçado às crianças, patrimônio a ser defendido e promovido, com todo esforço, fez brotar do coração de dra. Zilda esta intuição. Um discernimento visionário que se concretizou com simplicidade, fazendo a diferença, mudando estatísticas na mortalidade infantil, com traços de milagre operado pela força do amor que toma conta do coração de tantos voluntários, exemplares curadores e promotores da vida.
Os custos baixos e o efeito significativo da operação da Pastoral no cenário da exclusão social e da desnutrição, não podem deixar de envergonhar e fazer pensar mil vezes todos aqueles que se apropriam e usufruem de aparatos caros e sofisticados produzindo tão pouco efeito no quadro das mudanças urgentes. O legado da dra. Zilda, com o exército de voluntários de todas as classes sociais, na Pastoral da Criança e na Pastoral da Pessoa Idosa, não poderá servir de âncora para alavancar candidaturas ou para promover plasticamente figuras políticas. Mas deverá ser uma realidade que continuará a fazer o bem, ganhando o mundo, a custo de sacrifícios e, sobretudo, da convicção amorosa de tantos, incluindo mesmo a oferta abnegada da própria vida: o segredo deste sucesso. Esta realidade está sacramentada na tragédia do terremoto do Haiti, onde a dra. Zilda se encontrava, por razões humanitárias, imolando sua vida ali ofertada, sangue também derramado - tombando como um jequitibá, num grande mistério de fé e da existência humana.
Começou em Florestópolis e concluiu no Haiti. Sempre entre os mais pobres e na luta pela vida. Há uma pergunta que precisa ser feita por todos, contemplando o conjunto desta trajetória, graças a Deus situada numa limpidez que não se mistura com os óleos da corrupção e do uso indevido do que é para o bem de todos. Esta pergunta respondida fará compreender de onde nasce o segredo de uma intuição da qual uma médica e sanitarista se tornou depositária, fazendo a diferença, mudando cenários e vencendo as estatísticas alarmantes da mortalidade infantil. De onde nasce esta intuição e o que mantém a sua força? É preciso começar a responder esta pergunta dizendo logo, para não perder tempo, que o sustento e a moldura de todo este patrimônio, a Pastoral da Criança e a Pastoral da Pessoa Idosa, serviço da Igreja Católica na sociedade pluralista contemporânea, não nasce de motivações políticas. Se o fosse não avançaria com a mesma força, é incontestável. A intuição e a audácia corajosa deste serviço à vida nascem da fé. A pessoa de Jesus Cristo é o nascedouro e o ápice deste segredo. A fé banha e fermenta a formação técnica e a consciência de cidadania. Quando dela se prescinde, o percurso é mais árduo e falta a sabedoria do coração.
O Papa Bento XVI, na sua Carta Encíclica “Deus é Amor”, n. 31, lembra que não basta por si só a competência profissional e que os seres humanos necessitam sempre de algo mais do que um tratamento apenas tecnicamente correto: “os seres humanos têm necessidade de humanidade, precisam da atenção do coração”. O trabalho profissional, a vida e os afazeres não atingem suas metas apenas por execuções habilidosas, menos ainda por artimanhas políticas. Mas sim pelas atenções e intuições sugeridas pelo coração. A formação do coração é capítulo indispensável, e a fé é insubstituível nesse processo. É o encontro com Deus em Cristo que suscita o amor, gera sabedoria enquanto força que faz perseverar, e abre o íntimo ao outro de tal modo que o amor do próximo não seja uma imposição, mas, diz o Papa Bento XVI, “uma consequência resultante da sua fé que se torna operativa pelo amor”. É preciso refletir e proclamar aos corações que a excelência da dra. Zilda e seu legado vêm pela fé.

São necessários jornalistas cristãos nos meios de comunicação


Entrevista com o cardeal Carlos Amigo Vallejo
Por Gilberto Hernández

SEVILLA, sexta-feira, 29 de janeiro de 2010 (ZENIT.org-El Observador).- 24 de janeiro foi dia de São Francisco de Sales, santo padroeiro dos jornalistas. Na mensagem do Papa que guia a reflexão da Jornada Mundial das Comunicações Sociais – divulgada nesse dia –, o Papa Bento XVI propôs refletir sobre "O sacerdote e a pastoral no mundo digital".
Nesse contexto, o cardeal Carlos Amigo Vallejo, OFM, arcebispo emérito de Sevilla, conversou com ZENIT-EL Observador sobre o tema dos meios de comunicação, particularmente sobre o jornalista católico e sua importância para a Igreja.

–Falamos do jornalista sem adjetivos. Qual diagnóstico tem do que se faz hoje em dia?
–Cardeal Amigo: Não é fácil fazer um diagnóstico, e não só pela diversidade e variedade, sim pela mensagem heterogênea que se quer fazer chegar. No geral, pode-se dizer que o grande mérito do jornalismo atual é ter de se desenvolver com liberdade em meio de muitas condições ideológicas, empresariais, políticas, de grupos de pressão... No entanto, não deixa de se notar certa subserviência à ideologia, ao desejo de ganância e de controle político, às rivalidades e conflitos entre grupos. O que conduz que a verdade apareça de uma maneira parcial e o sensacionalismo distorça os fatos.
–A Igreja, com sua mensagem de novidade do Evangelho, suas ações a favor dos pobres, testemunho de amor e esperança, não parece atrativa para os meios de comunicação; maximizam-se as notas que acarretam o descrédito. O que o senhor tem a dizer sobre essa situação, o tratamento da Igreja pelos meios de comunicação?
–Cardeal Amigo: Estamos diante de dois extremos. Por um lado, a vida e a atividade da Igreja é desconhecida. Mas, por outro, surpreende que aqueles meios que se declaram abertamente defensores da desaparição do religioso na vida pública e social são aqueles que mais tempo dedicam às notícias referidas à Igreja, sempre, como era de se esperar, com uma versão interessadamente negativa.
O tratamento que estes meios dão, por exemplo, às intervenções do Santo Padre, são marcadas pelo preconceito e pelo desejo de desqualificação de Bento XVI. As palavras são tiradas do contexto e, certamente, ninguém leu o texto original dado pelo Santo Padre, nem teve nenhum cuidado em analisá-lo corretamente. Com ocasião ou sem ela, deve ser dito que o Papa está errado.
–Parece adequada a batalha travada pelos meios de comunicação católicos no esforço de levar o Evangelho, a voz do Papa e dos pastores?
–Cardeal Amigo: Não somente isso me parece adequado, mas sim necessário e até imprescindível. Em primeiro lugar, com um sentido de ajuda ao conhecimento da verdade, a formação de critérios objetivos, a difusão da mensagem de Cristo e a voz do Magistério da Igreja, sobre tudo a do Santo Padre.
O jornalismo católico pode ser uma verdadeira consciência crítica, o que é muito positivo e ajuda a conhecer a busca da verdade objetiva. Agora, não esperemos que uma atitude tão nobre vá passar desapercebida. Os obstáculos, a ridicularização e o interesse por silenciar a voz da Igreja e de seus meios aparecerá em seguida.
–A quem deve se dirigir esse esforço de comunicação: ao interior da Igreja ou fora dela, ao mundo laico?
–Cardeal Amigo: Tem-se de levar a todos os ambientes. Os media são muito diferentes, desde as modestas folhas paroquiais até as grandes redes de comunicação. A Igreja tem de chegar a todos. Não é fácil. Mas são muitos os exemplos que podemos dizer, que está se tornando plausível uma tentativa de atingir os mais diversos ambientes públicos e sociais.
–Podemos falar realmente de um jornalismo católico? Quais características deve ter?
–Cardeal Amigo: Dizia um famoso comunicador, que foi o cardeal Herrera Oria, que um jornal católico tinha de ser primeiro um bom jornal, ou seja, um meio de comunicação bom sob o ponto de vista técnico. Isso significa levar a notícia de forma objetiva e fiél à Doutrina Social da Igreja na argumentação.
As características da atuação do católico nos meios de comunicação seriam as que, em mais de uma ocasião, expressa o Magistério da Igreja: informação verdadeira, respeito às leis morais, ter em mente a que as pessoa e a comunidade são o fim e a medida do uso dos meios de comunicação social.
–Na sua opinião qual deve ser o perfil de um autêntico comunicador católico?
–Cardeal Amigo: Se o jornalista se confessa católico, essa condição não deve limitar a liberdade de expressão e o direito à informação, e sim deve ser uma garantia de profissionalismo.
São necessários cristãos profissionais nos media, e também meios de comunicação própios para poder dizer nossa palavra em uma sociedade democrática, aberta e pluralista. Ao mesmo tempo que se pensa dessa forma, nem sempre existe um autêntico interesse por levar adiante essa missão. E mais, não é encontrado o apoio necessário para levar adiante esse trabalho apostólico. Os fiéis contribuem generosamente a manter as obras caritativas e assistenciais que realiza a Igreja. Mas não há consciência de que a Igreja também tem de pregar o Evangelho através dos diferentes meios de comunicação.

Evangelho do domingo: como mais um, sem ser qualquer um


Por Dom Jesús Sanz Montes, ofm, arcebispo eleito de Oviedo
HUESCA, sexta-feira, 29 de janeiro de 2010 (ZENIT.org).- Publicamos o comentário ao Evangelho deste domingo, 4º do Tempo Comum (Lucas 4, 21-30), redigido por Dom Jesús Sanz Montes, ofm, bispo de Huesca e de Jaca, arcebispo eleito de Oviedo (Espanha), sede da qual tomará posse neste sábado.
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A cena do Evangelho deste domingo nos situa com Jesus na sinagoga de Nazaré. Jesus passou por lá pouco tempo depois da visita anterior e, em seu fugaz regresso, descobriu a indiferença repleta de preconceito dos seus conterrâneos com relação à sua Pessoa. Em pé, Jesus dirá aquela frase que se tornou célebre: ninguém é profeta em sua terra.
Qual era a dificuldade dos nazarenos com relação a Jesus? Precisamente uma familiaridade que os impedia de reconhecer n’Ele alguém maior que o filho do carpinteiro, o da Sra. Maria. Eles acreditavam conhecer a quem, no fundo, desconheciam profundamente. Em espanhol, temos esse ditado belíssimo: “Del roce nace la querencia”. Mas já vimos que nem tudo é assim sempre: podemos amar aqueles a quem não podemos tocar pela distância e ignorar calamitosamente a quem vemos e com quem tratamos todo dia. Então vem à memória a pergunta decisiva de Jesus aos seus discípulos: O que as pessoas dizem de mim? E vocês, quem dizem que eu sou? Esta é uma pergunta que poderia ser feita a nós, hoje.
Os nazarenos conheciam Jesus como se conhece um conterrâneo, alguém do bairro. Nós podemos conhecê-lo a partir do verniz das pinturas, do escorço de algumas imagens ou da literatura que nos fala d’Ele. Para muitos, este seria o bairro ou a paisagem em seu conhecimento de Jesus. Podemos dizer que há um halo cultural que nos permite saber d’Ele algumas coisas comuns, talvez algumas coisas a mais que as que seus conterrâneos conheciam. Eles recordavam de Jesus o que haviam visto em sua juventude, enquanto cresciam no povoado. Nós podemos recordar o que aprendemos rapidamente. Mas só conhece Jesus quem se fiou da sua palavra e quem foi seduzido pela sua presença.
Hoje é um dia para desejar conhecer o Senhor por dentro, a partir do coração que ora e que ama, a partir do testemunho que narra, com atos simples e cotidianos, o amor que o invade e o torna pleno. Somente assim podemos dizer que Jesus não é um estranho profeta na terra da nossa vida, mas um Deus vizinho, cuja casa tem entranha e tem lar; uma casa habitada, que abre e escancara as portas. Com Ele convivemos; a Ele vamos contar nossas tristezas, buscando o consolo nos desgostos, quando a vida parece que tenta nos acurralar; a Ele vamos também para agradecer pelos dons, pelas muitas alegrias com as que também esta vida sorri para nós. E descobrimos que esse Bom Deus, o melhor vizinho, sabe rir e sabe chorar, porque se importa com a nossa vida, com o nosso destino e com a nossa paz.
Deus, sem ser qualquer um, quer ser entre nós como um a mais, que não somente é o Caminho, mas também o caminhante junto a cada um.

Catequese do Papa: Ecumenismo, diálogo delicado, mas frutífero


CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 20 de janeiro de 2010 (ZENIT.org).- Apresentamos, a seguir, a intervenção do Papa hoje, durante a audiência geral realizada na Sala Paulo VI com peregrinos procedentes do mundo inteiro.
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Queridos irmãos e irmãs:
Cristo faz antes de tudo com o convite à oração, imitando o próprio Jesus, que pede ao Pai pelos seus discípulos: “Que sejam um, para que o mundo creia” (Jo 17, 21).
O convite perseverante à oração pela plena comunhão entre os seguidores do Senhor manifesta a orientação mais autêntica e mais profunda de toda a busca ecumênica, porque a unidade, antes de mais nada, é dom de Deus. De fato, como afirma o Concílio Vaticano II, “o santo propósito de reconciliar todos os cristãos na unidade de uma só e única Igreja de Cristo excede as forças e a capacidade humana” (Unitatis Redintegratio, 24). Portanto, muito além do nosso esforço para levar a cabo relações fraternas e de promover o diálogo para esclarecer e resolver as divergências que separam as igrejas e comunidades eclesiais, é necessária a invocação confiante no Senhor.
O tema deste ano, para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, foi tomado do Evangelho de São Lucas, das últimas palavras do Ressuscitado aos seus discípulos: “Vós sois as testemunhas destas coisas” (Lc 24, 48). A proposta do tema foi pedida pelo Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, de acordo com a Comissão Fé e Constituição, do Conselho Ecumênico das Igrejas, a um grupo ecumênico da Escócia. Há um século, a Conferência Mundial para a Consideração dos Problemas Referentes ao Mundo Não-Cristão aconteceu precisamente em Edimburgo, na Escócia, nos dias 13 a 24 de junho de 1910. Entre os problemas então discutidos, esteve o da dificuldade objetiva de propor com credibilidade o anúncio evangélico ao mundo não-cristão por parte de cristãos divididos entre si.
Se a um mundo que não conhece Cristo, que se afastou d’Ele ou que se mostra indiferente ao Evangelho, os cristãos se apresentam desunidos, frequentemente contrapostos, será crível o anúncio de Cristo como único salvador do mundo e nossa paz? A relação entre unidade e missão, desde aquele momento, representou uma dimensão essencial de toda a ação ecumênica e seu ponto de partida. E é por esta contribuição específica que esta Conferência de Edimburgo permanece como um dos pontos firmes do ecumenismo moderno. A Igreja Católica, no Concílio Vaticano II, retomou e reafirmou com vigor esta perspectiva, dizendo que a divisão entre os discípulos de Jesus “contradiz abertamente a vontade de Cristo e é escândalo para o mundo, como também prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda a criatura” (Unitatis Redintegratio, 1).
Neste contexto teológico e espiritual, situa-se o tema proposto para a meditação e a oração: a exigência de um testemunho comum de Cristo. O breve texto proposto como tema – “Vós sois as testemunhas destas coisas” – precisa ser lido no contexto de todo o capítulo 24 do Evangelho segundo Lucas. Recordemos brevemente o conteúdo deste capítulo. Primeiro as mulheres se aproximam do sepulcro, veem os sinais de ressurreição de Jesus e anunciam o que viram aos apóstolos e aos outros discípulos (v. 8); depois, o próprio Ressuscitado aparece aos discípulos de Emaús ao longo do caminho, aparece a Simão Pedro e, sucessivamente, aos Onze e aos demais que estavam com eles (v. 33). Ele abre a mente à compreensão das Escrituras sobre sua morte redentora e sua ressurreição, afirmando que em seu nome se pregará a todos os povos a conversão e o perdão dos pecados (v. 47). Aos discípulos que se encontram reunidos e que foram testemunhas da sua missão, o Senhor Ressuscitado promete o dom do Espírito Santo (v. 49), para que, juntos, deem testemunho d’Ele a todos os povos. Desta afirmação – “destas coisas”, disso sois as testemunhas (cf. Lc 24, 48) – que é o tema desta Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, nascem para nós duas perguntas. A primeira é: o que significa “destas coisas”? A segunda: como podemos nós ser testemunhas “destas coisas”?
Se observarmos o contexto do capítulo, “destas coisas” quer dizer, antes de tudo, a cruz e a ressurreição: os discípulos viram a crucifixão do Senhor, viram o Ressuscitado e, assim, começaram a entender todas as Escrituras que falam do mistério da Paixão e do dom da Ressurreição. “Destas coisas”, portanto, refere-se ao mistério de Cristo, do Filho de Deus feito homem, morto por nós e ressuscitado, vivo para sempre, sendo assim garantia da nossa vida eterna.
Mas, conhecendo Cristo – este é o ponto essencial –, conhecemos o rosto de Deus. Cristo é sobretudo revelação de Deus. Em todos os tempos, os homens percebem a existência de Deus, um Deus único, mas que está longe e não se mostra. Em Cristo, este Deus se mostra, o Deus distante se converte em próximo. “Destas coisas” significa, portanto, o mistério de Cristo, que Deus tenha se tornado próximo de nós. Isso implica outra dimensão: Cristo nunca está sozinho; Ele veio no meio de nós, morreu sozinho, mas ressuscitou para atrair todos a si. Cristo, como diz a Escritura, cria um corpo, reúne toda a humanidade em sua realidade da vida imortal. E assim, em Cristo que reúne toda a humanidade, conhecemos o futuro da humanidade: a vida eterna. Tudo isso, portanto, é muito simples, em última instância: conhecemos Deus conhecendo Cristo, seu corpo, o mistério da Igreja e a promessa da vida eterna.
Chegamos agora à segunda pergunta: como podemos ser testemunhas “destas coisas”? Podemos ser testemunhas somente conhecendo Cristo e, conhecendo Cristo, também conhecendo Deus. Mas conhecer Cristo envolve certamente uma dimensão intelectual – aprender o que conhecemos de Cristo –, mas é sempre muito mais que um processo intelectual: é um processo existencial, é um processo da abertura do meu eu, da minha transformação pela presença e pela força de Cristo e, assim, é também um processo de abertura a todos os demais, que devem ser corpo de Cristo.
Dessa forma, é evidente que conhecer Cristo, como processo intelectual e sobretudo existencial, é um processo que nos torna testemunhas. Em outras palavras: podemos ser testemunhas somente se conhecermos Cristo em primeira pessoa, e não só através de outros; a partir da nossa vida, do nosso encontro pessoal com Cristo. Encontrando-O realmente em nossa vida de fé, nós nos convertemos em testemunhas e podemos contribuir para a novidade do mundo, para a vida eterna. O Catecismo da Igreja Católica nos dá uma indicação também para o conteúdo deste “destas coisas”. A Igreja reuniu e resumiu o essencial de tudo o que o Senhor nos deu na Revelação, no “Símbolo dito de Niceia-Constantinopla, que deve a sua grande autoridade ao fato de ser proveniente desses dois primeiros concílios ecumênicos (dos anos de 325 e 381)” (CIC, n. 195). O Catecismo indica que este Símbolo “ainda hoje continua a ser comum a todas as grandes Igrejas do Oriente e do Ocidente” (ibid.). Neste Símbolo, portanto, encontram-se as verdades da fé que os cristãos podem professar e testemunhar juntos, para que o mundo creia, manifestando, com o desejo e o compromisso por superar as divergências existentes, a vontade de caminhar rumo à comunhão plena, a unidade do Corpo de Cristo.
A celebração da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos nos leva a considerar outros aspectos importantes para o ecumenismo. Antes de tudo, o grande progresso realizado nas relações entre igrejas e comunidades eclesiais após a Conferência de Edimburgo há um século. O movimento ecumênico moderno se desenvolveu de forma tão significativa, que se converteu, no último século, em um elemento importante na vida da Igreja, recordando o problema da unidade entre todos os cristãos e sustentando também o crescimento da comunhão entre eles. Este não só favorece a relação fraterna entre as igrejas e comunidades eclesiais em resposta ao mandamento do amor, como também estimula a pesquisa teológica. Além disso, envolve a vida concreta das igrejas e das comunidades eclesiais com temáticas que se referem à pastoral e à vida sacramental, como, por exemplo, o reconhecimento mútuo do Batismo, as questões relativas aos matrimônios mistos, os casos parciais de comunicatio in sacris em situações particulares bem definidas. No sulco deste espírito ecumênico, os contatos foram se ampliando também a movimentos pentecostais, evangélicos e carismáticos, para um maior conhecimento recíproco, ainda que não faltem problemas graves neste setor.
A Igreja Católica, do Concílio Vaticano II em diante, iniciou relações fraternas com todas as igrejas do Oriente e as comunidades eclesiais do Ocidente, organizando, em particular, com a maior parte delas, diálogos teológicos bilaterais, que levaram a encontrar convergências e inclusive consenso em diversos pontos, aprofundando assim os vínculos de comunhão. No ano passado, os diálogos registraram passos positivos. Com as igrejas ortodoxas, a Comissão Mista Internacional para o Diálogo Teológico começou, na 11ª Sessão Plenária realizada em Paphos (Chipre) em outubro de 2009, o estudo de um tema crucial no diálogo entre católicos e ortodoxos: “O papel do Bispo de Roma na comunhão da Igreja no primeiro milênio”, isto é, no tempo no qual os cristãos do Oriente e do Ocidente viviam em comunhão plena. Este estudo se estenderá ao segundo milênio.
Já pedi muitas vezes a oração dos católicos por este diálogo delicado e essencial para todo o movimento ecumênico. Também com as antigas igrejas ortodoxas do Oriente (copta, etíope, síria, armênia), a análoga Comissão Mista se reuniu de 20 a 26 de janeiro do ano passado. Estas importantes iniciativas testemunham que existe atualmente um diálogo profundo e rico de esperanças com todas as Igrejas do Oriente não em plena comunhão com Roma, em sua própria especificidade.
Durante o ano passado, com as comunidades eclesiais do Ocidente, foram examinados os resultados alcançados nos diversos diálogos nestes 40 anos, detendo-se em particular nos mantidos com a Comunhão Anglicana, com a Federação Luterana Mundial, com a Aliança Reformada Mundial e com o Conselho Mundial Metodista. Com relação a isso, o Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos realizou um estudo para evidenciar os pontos de convergência aos que se havia chegado nos respectivos diálogos bilaterais e indicar, ao mesmo tempo, os problemas abertos sobre os quais será preciso iniciar uma nova fase de confrontação.
Entre os recentes acontecimentos, eu gostaria de mencionar a comemoração do 10º aniversário da Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, celebrada por católicos e luteranos juntos em 31 de outubro de 2009, para estimular o prosseguimento do diálogo, como também a visita a Roma do arcebispo da Cantuária, Dr. Rowan Williams, com quem também tive conversas sobre a particular situação em que se encontra a Comunhão Anglicana. O compromisso comum de continuar as relações e o diálogo são um sinal positivo, que manifesta quão intenso é o desejo de unidade, apesar de todos os problemas que se opõem.
Assim, vemos que existe uma dimensão da nossa responsabilidade em fazer todo o possível para chegar realmente à unidade, mas também há outra dimensão, a da ação divina, porque só Deus pode dar unidade à Igreja. Uma unidade “autorrealizada” seria humana, mas nós desejamos a Igreja de Deus, feita por Deus, que, quando Ele quiser e quando nós estivermos preparados, criará a unidade. Devemos ter presente também os progressos reais alcançados na colaboração e na fraternidade em todos estes anos, nestes últimos 50 anos. Ao mesmo tempo, devemos saber que o trabalho ecumênico não é um processo linear. De fato, problemas velhos, nascidos no contexto de outra época, perdem seu peso, enquanto no contexto atual nascem problemas novos e novas dificuldades. Portanto, devemos estar sempre disponíveis para um processo de purificação, no qual o Senhor nos torne capazes de estar unidos.
Queridos irmãos e irmãs: pela complexa realidade ecumênica, pela promoção do diálogo, como também para que os cristãos da nossa época possam dar um novo testemunho comum de fidelidade a Cristo frente a este nosso mundo, peço a oração de todos. Que o Senhor escute a nossa invocação e de todos os cristãos, que nesta semana se eleva a Ele com particular intensidade.
Tradução: Aline Banchieri.

Rabino de Roma: Papa na sinagoga, “um sinal importante”


Entrevista com Riccardo Di Segni
Por Carmen Elena Villa


ROMA, terça-feira, 19 de janeiro de 2010 (ZENIT.org).- Riccardo Di Segni, rabino-chefe da comunidade judaica de Roma, considera que a visita deste domingo de Bento XVI à sua sinagoga constitui um passo “importante” no caminho de entendimento e reconciliação entre judeus e cristãos. Em uma entrevista concedida a Zenit, ele faz este balanço: “Acho que foi um acontecimento importante, muito além de todas as polêmicas que se deram e que de certa forma continuam presentes de maneira inevitável. Pensávamos que era o momento necessário em um caminho, um sinal de continuidade importante. E o fizemos”.
Segundo o rabino Di Segni (Roma, 13 de novembro de 1949), neste cargo desde 2001, a visita do Papa “demonstra a existência de um fundamento de boa disponibilidade por ambas as partes, que constitui a base sobre a qual podemos discutir com toda franqueza, sem renunciar a nada, mas continuando adiante”.

Desafios para o diálogo judaico-católico
O rabino vê dois desafios para avançar no diálogo entre católicos e judeus, ainda que reconheça que, se fosse fazer uma lista completa, “poderia ficar até amanhã de manhã”.
Em primeiro lugar, esclarece, “há um problema que afeta a interpretação do papel da Igreja durante a Shoá: a responsabilidade dos cristãos no antissemitismo”.
“Uma parte deste problema é precisamente a responsabilidade de Pio XII. O juízo sobre Pio XII é muito complexo, pois não há dúvida de que, em seu pontificado, muitos judeus foram escondidos e salvos, mas para nós não há dúvida de que houve uma aquiescência, um não fazer nada, diante do que estava acontecendo.”
O segundo problema que a relação judaico-católica apresenta “é o papel teológico dos judeus na visão católica”.
“Temos de converter-nos ou podemos chegar tranquilamente à salvação e, sobretudo, temos de sentar-nos na mesa do diálogo sem o pesadelo de ser postos em dúvida? O que é a nossa fé? Outro ponto sem resolver.”
“Além disso, há problemas políticos que afetam a terra de Israel, mas são especificamente políticos.”
Por último, entre estes desafios, o rabino apresenta a relação de judeus e cristãos “com as demais religiões, com todos os problemas da modernidade”.

Perdão
O rabino avalia positivamente o discurso que o Papa pronunciou na sinagoga, em particular a citação de João Paulo II, na qual pedia perdão pelos sofrimentos provocados pelos filhos da Igreja aos filhos do Povo da Aliança.
“É um texto muito nobre, muito importante, sobre o qual é preciso refletir a partir de diversos pontos de vista, pois no judaísmo não se dá a delegação do perdão. Cada um pode perdoar as culpas sofridas, pessoalmente, e pedir perdão. É algo que serve sobretudo como compromisso para o futuro e, desse ponto de vista, é importante.”
A proposta de perdão apresentada pelo Papa, segundo o rabino, pode purificar no futuro as relações entre judeus e católicos.
“Para nós, o perdão deve ser entendido como não voltar a fazer a mesma coisa. Para nós, isso é o importante.”

Bioética, em busca de um campo em comum
O rabino, que continua exercendo também sua profissão de médico no Departamento de Radiologia do Hospital São João, de Roma, considera que a defesa da vida pode se tornar um ponto de compromisso comum para católicos e judeus.
“Estou comprometido ativamente no campo da bioética. Obviamente, compartilhamos o tema da defesa da vida do início até o final. Temos discussões sobre a maneira de definir o início e o final (...), pois não temos posições idênticas”, dado que “não vemos a concepção como o início da vida”.
Por último, ao falar da pessoa de Bento XVI, o rabino sublinha sobretudo “sua profundidade doutrinal e sua sensibilidade sobre temas culturais. É muito diferente da imagem pastoral precedente. E eu posso lhe dizer que nós, os judeus, amamos a cultura”.