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LITURGIA DIÁRIA

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O Santo Advento


O Advento abre o novo ano litúrgico da Igreja e nos prepara para o Natal.
Este tempo é composto por quatro semanas. Neste período, a Igreja pode muito bem exprimir seus sentimentos com as palavras da esposa do Cântico dos Cânticos: «Eis a voz do meu Amado! Ele vem correndo pelos montes... Meu Amado é meu e eu sou dele!» (2,8s.16). Ele vem vindo, o Amado, «porque Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único» (Jo 3,16) para ser o Esposo da humanidade, o Salvador do mundo. O Autor da Epístola aos Hebreus exprimiu isso de modo muito profundo: «Muitas vezes e de modos diversos falou Deus, outrora, aos Pais pelos profetas; agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio do seu Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e pelo qual fez os séculos» (1,1-2). Efetivamente, Deus já não nos manda um mensageiro, um intermediário, um presente... ele vem pessoalmente no seu Filho, vem ele mesmo ser o Emanuel, o Deus-conosco! Por isso o homem pode ter a certeza que não mais está só, que não mais pode se sentir desamparado, esquecido, perdido... apesar de tanta dor e sofrimento ainda existentes no nosso mundo!
Mas, aprofundemos um pouco mais. O Advento insiste e celebra e espera do Salvador. Sim, porque ele foi esperado. E esperado ansiosamente, de modo que não é somente o Enviado do Pai, mas também o Esperado por nós! Mais que o vigia pela aurora, mais que a terra pelo sol nascente, mais que a flor pelo orvalho, nós o esperamos.
Primeiramente, esperado por Israel, o Povo eleito. Esperado porque Deus o prometera a Abraão, aos Patriarcas, a Moisés, a Davi, aos Profetas. Deus prometera... e quando Deus promete, não falha jamais! Quantas e quantas páginas das Escrituras de Israel falam deste Esperado! Como esquecer as palavras do velho Jacó, no leito de morte, já cego? “Judá, teus irmãos te louvarão, tua mão está sobre a cerviz de teus inimigos e os filhos de teu pai se inclinarão diante de ti. O cetro não se afastará de Judá nem o bastão de chefe de entre seus pés até que venha aquele a quem pertencem e a quem obedecerão os povos” (Gn 49,8-10). E as palavras de Deus a Davi? “O Senhor te diz que ele te fará uma casa. E quando os teus dias estiverem completos, farei permanecer a tua linhagem após ti, gerada das tuas entranhas e estabelecerei para sempre o seu trono. Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho” (2Sm 7,11ss). Sim, Deus prometeu, Deus jurou a Israel pela sua fidelidade: “A virgem vai conceber e dará à luz um filho e seu nome será Deus-conosco!” (Is 7,14). Promessa insistente, a de Deus! Até pela boca de um feiticeiro pagão, um tal de Balaão, Deus prometeu: “Eu vejo, mas não para já, eu contemplo, mas não para perto: uma Estrela sai de Jacó e um cetro se levanta de Israel” (Nm 24,17). Por isso mesmo, Israel esperou, acreditou, implorou: “Céus, deixai cair o orvalho das alturas, e que as nuvens façam chover a justiça; abra-se a terra e germine a salvação!” (Is 45,8); “Senhor, tu és o nosso redentor; Eterno é o teu nome! Ah! se rasgasses os céus e descesses! As montanhas se desmanchariam diante de ti!” (Is 63,19). Nos momentos de alegria, Israel esperou; e esperou também nos momentos de trevas e de dor! É esta espera comovente, insistente, teimosa, que a Igreja celebra e revive no Advento!
Mas o Salvador que Deus nos enviou foi também esperado pelos pagãos, por todos os povos! É uma idéia que nem sempre recordamos e, no entanto, é um aspecto importante do Advento: os pagãos desejaram o Salvador! Como pode ser isso? É verdade: eles não conheciam as promessas de Deus; eles não conheciam o Deus verdadeiro; eles não sabiam nada a respeito do Messias... Mas eles tinham e têm ainda no coração um desejo louco de paz, uma sede insaciável de verdade, devida, de amor... sede que Deus mesmo colocou nos seus corações para que sem saberem, às apalpadelas, buscassem Aquele único que pode dar repouso ao coração humano. É isso que Mateus quer dizer quando nos conta a visita dos magos: eles vêm de longe, seguindo a estrela do Menino, eles esperavam e agora o procuram: “Vimos a sua estrela e viemos adorá-lo!” (Mt 2,2)! Esses Magos representam os pagãos todos, todos os povos, todos os homens e mulheres de boa vontade que, seguindo sua consciência, sem saber, procuravam o Salvador. Pensemos em tantos santos pagãos do Antigo Testamento: Noé, Melquisedec, Jó e tantos outros. Pensemos em tantos sábios das várias culturas: Buda, Confúcio, Maomé, Sócrates e tantos, tantos outros, tão numerosos que somente Deus pode contá-los... Todos esperam Aquele que é a verdade, a luz que ilumina todo homem que vem a este mundo! Também estes a Igreja recorda neste tempo do Advento.
Esperado por Israel, esperado pelas nações, o Salvador também foi esperado pela criação toda! É admirável e sublime! Se tudo foi criado através dele e para ele (cf. Cl 1,15), tudo traz em si sua marca, a saudade do encontro com ele! A Mãe católica, num êxtase emocionado, canta assim, nas vésperas do Natal: “Saúdam vossa vinda /o céu, a terra, o mar /e todo ser que vive /entoa o seu cantar!” É toda a criação que o espera! Tudo, desde o início, caminha para ele! Desde quando explodiu o universo, iniciando a festa, o baile da existência; desde quando as galáxias se formaram; desde quando nosso sistema solar, nosso planeta foram delineados... tudo caminha para ele... passo a passo, lentamente, aos olhos da eternidade de Deus: e a vida surgiu na terra, tímida, pequena, frágil... depois, a vida animal; depois o homem... tudo caminhando para ele, para noite de Belém e, um dia, que será o Dia, caminhando para o Cristo Ressuscitado, que virá em glória! É porque tudo caminha para ele que o botão se abre em flor, que a vida teima em brotar, que o universo se expande! Também esta espera cósmica é celebrada pela Igreja nestes dias de Advento! Que também nós entremos na festa, na espera, na esperança... e abramos o coração para Aquele que vem – o Enviado, o Esperado, o Rei que vai chegar!
Para celebrar um acontecimento tão maravilhoso e estupendo a Igreja quer preparar-se bem... Daí o tempo sagrado de Advento. Nós, como Igreja, não podemos deixar passar esse tempo favorável, não podemos receber em vão a graça de Deus que vem a nós em Jesus (cf. 2Cor 6,1-2). Os sentimentos que nos devem orientar nas quatro semanas do Advento são: (1) a vigilância na fé, na oração, na busca de reconhecer o Cristo que vem nos acontecimentos e nos irmãos; (2) a conversão, procurando consertar nossos caminhos e andar nos caminhos do Senhor, para seguir a Jesus para o Reino do Pai; (3) o testemunho da alegria que Jesus nos traz, através de uma caridade paciente e carinhosa para com os outros; (4) a pobreza interior, de um coração disponível para Deus, como Maria, José, João Batista, Zacarias, Isabel; (5) a alegria, na feliz expectativa do Cristo que vem e na invencível certeza de que ele não falhará.
Neste tempo de Advento a Igreja recomenda muito a leitura e meditação do Livro do Profeta Isaías.
Na celebração da Eucaristia têm-se os seguintes sinais: (1) a cor roxa, recordando a sobriedade de quem vigia e espera ansioso; (2) as flores na Igreja são usadas com moderação, também como sinal de expectativa; (3) não se canta o «Glória» na Missa, na expectativa feliz de cantá-lo na Noite Santa do Natal do Senhor; (4) na igreja, se pode colocar a Coroa do Advento, com quatro velas, significando a luz de Cristo, que vai se tornando mais intensa a cada um dos quatro domingos do Advento.

Dom Henrique Soares in http://www.domhenrique.com.br/index.php/liturgia

Questões politicamente incorretas e cristãmente necessárias...


O cotidiano francês “La Croix” há algum tempo publicou uma grande pesquisa sobre o futuro do cristianismo no Ocidente. O título é “Os novos caminhos da fé daqui até 2020.
A pesquisa durou cinco semanas e foi aberta com a publicação de uma sondagem sobre os franceses e o cristianismo. Três dados dão o que pensar:
1. Dois franceses em cada três pensam que o cristianismo é “suficientemente visível” na sociedade. Mas quatro em cada dez afirmam não conhecer em suas próprias família e amigos nenhum cristão “praticante ou ativo na vida da Igreja”.
2. Perguntados sobre qual seria a missão principal da Igreja, a imensa maioria dos franceses afirmou ser “lutar contra a pobreza” e “agir pela paz no mundo”. Também entre os católicos foi assim: a maior parte deles indicou a luta contra a pobreza e pela paz, enquanto somente um em cada três respondeu: “Fazer conhecer a mensagem de Cristo”.
3. 62% dos franceses se dizem de acordo com a seguinte afirmação: “Todas as religiões são iguais”. E entre os católicos praticantes o percentual é ainda superior: 63%!
Estes dados mostram muito bem a debilidade na qual desabou o catolicismo na França... Mas, nos devem também fazer pensar: a Igreja tem ainda bastante forte e arraigada a autoconsciência de que é a religião verdadeira? Tem consciência bastante profunda de que existe para tornar acessível aos homens a vida que brota do Pai pelo Filho no Espírito Santo, levando à humanidade à plenitude da vida divina, que é nosso único e impreterível destino?
Será que nosso discurso e práxis não nos fazem parecer mais uma ONG filantrópica, que se refugia num fazer exagerado – relegando a terceiro e quarto planos a vida mística e a importância da liturgia como lugar do Mistério, no qual Deus se dá a nós, nos eleva a ele e nos renova para renovarmos o mundo com a vida divina?
Será que essa situação – forte na França e em caminho em outros países, inclusive o Brasil – não é fruto de uma Igreja que fala demais de si própria e de tudo, vive se autocriticando quase que neuroticamente, ao invés de esquecer-se de si, simplesmente vivendo a alegria de crer e anunciar gostosamente o Cristo que nos encanta e dá vida, e é único e absoluto caminho de salvação? Coisas para serem pensadas com seriedade...
Será que não temos colocado demais o homem no centro do nosso discurso e deixado Deus de lado? Deus que deve ser buscado, amado, adorado, anunciado, simplesmente porque é Deus, sem nenhuma outra justificativa?

Dom Henrique Soares in http://www.domhenrique.com.br/index.php/analises

Simplesmente José


Por Pe. Alfredo Gonçalvez

José é uma das figuras mais silenciosas nas narrativas evangélicas. Ao mesmo tempo, porém, aparece sempre na hora certo e no lugar certo. Quando se trata de proteger a família -mãe e filho- lá está ele. Verdade que conta com os anjos, mensageiros de Deus, que o alertam sobre as maquinações dos "filhos das trevas". Mas, alertado dos riscos que correm Jesus e Maria, põe-se logo em marcha, seja fugindo para o Egito, seja de lá retornando. Exerce certo protagonismo na infância de Jesus, porém, não há registro de sua presença na vida adulta do profeta itinerante. Pouco ou nada se sabe de seu destino. É lícito supor que também ele estaria ao pé da cruz, na hora trágica da morte de Jesus!...
Tudo indica que se trata de um caráter discreto, homem de poucas palavras e de guardar segredos. Podemos também ver nele um profissional de experiência, o carpinteiro de Nazaré, trabalhador sério e respeitado. Sinais de uma sabedoria inata que, em lugar de ações intempestivas frente aos imprevistos da vida (como a gravidez de Maria, por exemplo), prefere o silêncio, a escuta e a espera. Aqui também temos a intervenção dos mensageiros de Deus, como atores principais, mas é José que toma as providências práticas e necessárias. Os seres alados necessitam dos pés e das mãos de José para garantir a segurança da Sagrada Família.
Não obstante, o humilde carpinteiro permanece como uma espécie de ator de bastidores. Raramente aparece em cena. Hoje diríamos que não parece gostar de holofotes, câmeras e microfones. Como se não se sentisse à vontade no palco, em evidência diante dos espectadores. Menos à vontade ainda no cenário dos acontecimentos que, mais tarde, irão se desenrolar com seu filho adotivo. Se de Jesus se diz que "passou pela vida fazendo bem", de José teremos poucas notícias. Não faz barulho, como quem caminha de pés descalços, silencioso e oculto.
Os estudiosos da Bíblia, particularmente do Novo Testamento, nos alertam que não podemos olhar para essas narrativas sobre a infância de Jesus como fatos históricos. Constituem antes acomodações pós-pascais ao nascimento do Filho de Deus, isto é, grandioso, misterioso, milagroso. Mas isso não invalida a reflexão sobre a presença simultaneamente discreta e oportuna de José nesses relatos. Fictícias ou não, os autores dessas páginas apresentam a figura do "pai adotivo de Jesus" como alguém com um papel secundário, embora relevante.
Partindo do pano de fundo dos parágrafos anteriores, surpreende o número de pessoas que, no mundo inteiro e ao longo da história, foram batizadas com o nome de José. Desnecessário deter-se em pesquisas para constatar que esse é o nome mais recorrente em praticamente todos os povos e culturas do mundo ocidental. No judaísmo, no cristianismo católico ou protestante e nos movimentos religiosos derivados, José se impõe como nome quase obrigatório de um dos filhos de não poucas famílias. Mesmo entre os que recebem outro nome de pia, muitos tratam de intercalar o José como intermediário entre nome e sobrenome.
A surpresa é ainda maior se nos detemos sobre determinadas manifestações da devoção popular a São José. É sem dúvida uma das mais disseminadas no universo católico. No nordeste brasileiro, por exemplo, o dia do santo, a 19 de março, constitui, ao mesmo tempo, um marco para a carência ou a abundância de chuvas e, consequentemente, um marco para o novo plantio. De acordo com uma crença popular bastante generalizada, se a estiagem se prolongar além do São José, o ano tende a ser pobre em feijão, milho, batata, mandioca, inhame, etc. Por outro lado, não são poucos os religiosos e os sacerdotes que, respectivamente, fazem sua profissão perpétua, ou se ordenam presbíteros, exatamente nesse mesmo dia.
Como explicar essa dupla homenagem a São José? Implícita ou explicitamente, é fácil identificar-se com o José dos Evangelhos. Na sociedade do espetáculo (Guy Debord) em que vivemos e nos movemos, são poucas as estrelas e incontáveis os planetas. Algumas pessoas se destacam e brilham com luz própria, mas a imensa maioria apenas reflete o brilho dos astros mais eminentes. O culto ao corpo e à celebridade se difunde juntamente com a exacerbação do subjetivismo e do individualismo. Porém, raros são os senhores Fulano, Sicrano ou Beltrano, e mais raras ainda as beldades, princesas. A tirania do prazer ou o império do efêmero (para usar expressões de Jean-Claude Guillebaud e Gilles Lipovetsky), só é possível graças a dezenas, centenas ou milhares de coadjuvantes. Estes são os Josés, inúmeros e desconhecidos, com o sobrenome de Silva, Souza, Santos, Oliveira, Gonçalves, e assim por diante.
No entanto, é preciso estar atento às pérolas ocultas por trás das mãos calejadas, dos rostos impenetráveis e das almas rudes desses Josés. Mais do que apoiar-se no sucesso momentâneo e fugaz, eles seguem com os pés firmes no cotidiano, ainda que cheio de surpresas e adversidades. Mais do que colher as luzes de espetáculos fulgurantes e efêmeros, eles procuram lançar sementes no solo úmido e escuro da terra. Mais do que explodir rojões que sobem e iluminam os céus, mas com a mesma rapidez descem e viram cinzas, eles acreditam que as mudanças se erguem do chão, através de pequenos gestos de solidariedade.
Há, contudo, um segredo ainda mais misterioso, um tesouro escondido, ao qual esses Josés costumam ter acesso imediato. Sabem pela experiência que a felicidade duradoura não está no sucesso, no dinheiro, na conta bancária, nos privilégios, nos títulos, no patrimônio acumulado - mas numa prática diária e silenciosa do bem. Surfar sobre a onda dos sucessos equivale a surfar nas depressões dos fracassos. Uns são direta e alternadamente proporcionais aos outros. Expectativas inflacionadas, tal como os balões de ar, murcham com facilidade e geram frustrações igualmente infladas. Todo domingo de festa, regado a comida, bebida e embriaguez, é seguido de uma segunda-feira de ressaca. Se a cruz aponta para a ressurreição, esta supõe aquela.
Os Josés evitam os saltos de lebre. Preferem o passo lento e firme da tartaruga ou do jumento, nosso irmão, diria o nordestino. Depositam sua confiança não nos pulos em falso, mas num caminhar laborioso, regular e persistente. Sabem como extrair alegrias miúdas de uma palavra, de um olhar, de um gesto, de uma visita, de um sorriso, de um beijo, de um abraço, de um toque... E sabem que é nessas mínimas coisas que reside uma felicidade menos volátil e mais sólida. Aprendem a tirar água de pedras, a colher flores no deserto estéril, a acender uma vela no meio da escuridão. Raramente se deixam levar pela aparência de grandiosidade, desconfiam dos passos largos. Mais ainda: desconfiam da própria energia, colocando-se nas mãos de uma força que desconhecem, mas em que crêem.
Normalmente não sobem muito alto, mas tampouco ficam expostos a quedas bruscas. Mais facilmente descem ao coração da terra e das coisas. Suas palavras costumam ser poucas e parcimoniosas, mas revestidas de uma sabedoria simples e profunda. Os ditos populares, ricos e concentrados, nascem, crescem e cruzam as encruzilhadas do mundo com a persistência dos Josés. São diamantes lapidados com sua experiência oculta e silenciosa. A própria palavra "José", concentrada e valorizada como moeda preciosa, percorre as famílias, os povos e as culturas.
José não deixa de ser, também, a cara da migração. Esta, de fato, põe em marcha uma grande quantidade de Josés. O próprio "pai adotivo" de Jesus, esposo de Maria, é testemunha disso. Um novo olhar aos Evangelhos basta para dar-se conta de como ele, primeiro, por causa do recenseamento, sobe de Nazaré a Belém, lugar em que se completam os dias de Maria ela dá á luz um numa manjedoura, "pois não havia lugar para eles"; depois de nascido o menino, empreende a fuga para o Egito, protegendo o recém-nascido da fúria e perseguição de Herodes; dessa terra estrangeira, retorna à própria pátria, quando a tormenta já tinha se acalmado; por fim, ao longo da vida, quantas vezes terá se deslocado por causa desse Filho "rebelde", o qual insistia que "o seu Reino não era deste mundo"!
Não é essa a trajetória de inúmeros migrantes? De tribulação em tribulação, de fuga em fuga, de sonho em sonho, de busca em busca... Sempre perseguindo o futuro, e este como que sempre lhes escapando entre os dedos. Josés, milhões de pessoas sem terra nem lugar, sem rumo nem pátria... Josés a caminho! Josés que, por sê-lo, vivem inquietos e irrequietos. Rompem obstáculos e fronteiras, abrindo com os ombros curvados os horizontes de um novo amanhã. É nome comum de um povo acostumado à estrada. Não costuma figurar entre as famílias milionárias, nobres e aristocráticas, assentadas solidamente sobre suas fortalezas e suas jazidas de ouro e prata. Josés são pessoas pouco vinculadas a castelos e fazendas, normalmente habitam tendas. Conhecendo de perto a transitoriedade e a provisoriedade dos bens terrenos, podem desenvolver uma ambivalência diante da riqueza: ou se agarram ao pouco que possuem, lutando com unhas e dentes para ter mais, ou amadurecem um despojamento que os torna mais leves e livres. Neste último caso, aprendem a lição de depurar a mala e a alma, para caminhar com um fardo menos carregado de coisas supérfluas.
Por isso, ao contrário daqueles que nascem em berço de ouro e a ele se apegam morbidamente, os Josés, e entre estes os migrantes, tendem a uma maior abertura quanto ao futuro. Estão mais preparados para as surpresas da história. Especialmente em momentos de crise e tormenta, enquanto os que moram em castelos e fortalezas correm a se abrigar no berço dourado e saudoso da infância, os Josés costumam ser impelidos para a fronteira. Os primeiros, com o coração preso aos seus tesouros acumulados, lutam para mantê-los a todo o custo; os segundos, encontram-se mais preparados para enfrentar as pedras e espinhos que a existência apresenta. Tenderão a rasgar veredas novas, a se aventurarem, pois nada têm a perder. Das duas uma: ou são tomados pelo medo e a angústia da miséria já experimentada na carne e na alma, agarrando-se mesquinhamente a qualquer migalha; ou se lançam intrépidos à luta por algo diferente. Neste caso, a coragem lhes é praticamente inata. Mas com muita raridade terão seu nome gravado nos jornais. Em geral não são mártires abatidos a tiro, de nome no calendário, de folha na parede. Vivem, antes, um martírio de gota a gota, passo a passo, miúdo e diário, onde uma travessia dura e teimosa substitui as ações vistosas, sensacionais e espetaculares.

O autor deste artigo é Assessor das Pastorais Sociais da Igreja Católica

O que é a Eucaristia?


É o próprio sacrifício do Corpo e do Sangue do Senhor Jesus, que Ele instituiu para perpetuar pelos séculos, até seu retorno, o sacrifício da cruz, confiando assim à sua Igreja o memorial de sua Morte e Ressurreição. É o sinal da unidade, o vínculo da caridade, o banquete pascal, no qual se recebe Cristo, a alma é coberta de graça e é dado o penhor da vida eterna.
Quando Cristo instituiu a Eucaristia?
Instituiu-a na Quinta-feira Santa, "na noite em que ia ser entregue" (1Cor 11,23), celebrando com os seus Apóstolos a Última Ceia.
O que representa a Eucaristia na vida da Igreja?
É fonte e ápice de toda a vida cristã. Na Eucaristia, atingem o seu clímax a ação santificante de Deus para conosco e o nosso culto para com Ele. Ele encerra todo o bem espiritual da Igreja: o mesmo Cristo, nossa Páscoa. A comunhão da vida divina e a unidade do Povo de Deus são expressas e realizadas pela Eucaristia. Mediante a celebração eucarística, já nos unimos à liturgia do Céu e antecipamos a vida eterna.
Como Jesus está presente na Eucaristia?
Jesus Cristo está presente na Eucaristia de modo único e incomparável. Está presente, com efeito, de modo verdadeiro, real, substancial: com o seu Corpo e o seu Sangue, com a sua Alma e a sua Divindade. Nela está, portanto, presente de modo sacramental, ou seja, sob as espécies eucarísticas do pão e do vinho, Cristo todo inteiro: Deus e homem.
O que significa transubstanciação?
Transubstanciação significa a conversão de toda a substância do pão na substância do Corpo de Cristo e de toda a substância do vinho na substância do seu Sangue. Essa conversão se realiza na oração eucarística, mediante a eficácia da Palavra de Cristo e da ação do Espírito Santo. Todavia, as características sensíveis do pão e do vinho, ou seja, as “espécies eucarísticas”, permanecem inalteradas.
O que se requer para receber a santa comunhão?
Para receber a santa Comunhão, deve-se estar plenamente incorporado à Igreja católica e estar em estado de graça, ou seja, sem consciência de pecado mortal. Quem estiver consciente de ter cometido um pecado grave deve receber o sacramento da Reconciliação antes de se aproximar da comunhão. Importantes são também o espírito de recolhimento e de oração, a observância do jejum prescrito pela Igreja e a atitude do corpo (gestos, roupas), em sinal de respeito a Cristo.
"Na Eucaristia, nós partimos 'o único pão que é remédio de imortalidade, antídodo para não morrer, mas para viver em Jesus Cristo para sempre' " (Santo Inácio de Antioquia)

Trecho do Compêndio do Catecismo da Igreja Católica

Bendita entre todas as mulheres


Maria de Nazaré, mãe de Jesus. Quem é essa que a Igreja proclama e venera como bendita entre todas as mulheres e cheia de graça? O que ela nos diz sobre o mistério de Deus, da vida, do ser humano homem e mulher? A teologia hoje trata de fazer uma releitura da Maria de acordo com as exigências de nosso tempo. Essa releitura dá testemunho, sobretudo, do momento privilegiado que vive a humanidade inteira com o despertar da consciência histórica da mulher.
Com relação à interpretação sobre o mistério de Maria de Nazaré, portanto, há que ressaltar três pontos:a) O povo tem imenso carinho por Maria, a mãe de Jesus. E este amor expressa o clamor em busca de socorro, qualquer que este seja. Isto parece transparecer a espiritualidade mariana do povo mais simples. Maria é a esperança, a mãe, a protetora, aquela que não abandona seus filhos.b) Existe hoje, igualmente, uma maneira diferente e própria de ler os textos bíblicos. Os textos que falam d Maria são muito poucos na tradição neotestamentaria. Porém, cada época histórica parece construir, a partir deles, uma imagem de Maria e de sua atuação histórica passada e presente. c) O conceito de Reino de Deus é essencial para essa hermenêutica. Vai além da pessoa de Jesus e afeta a totalidade de seu movimento, do qual participavam homens e mulheres de forma ativa. Entre eles está incluída María, essa judia que é mãe de Jesus, com sua paixão pelos pobres e pela justiça de Deus, com sua memória perigosa e subversiva. Nesta perspectiva hermenêutica, Maria não é somente a encantada e suave mãe de Jesus, mas também e, sobretudo, trabalhadora na colheita do Reino, membro ativo do movimento dos pobres criado por seu filho Jesus de Nazaré. Mesmo os dogmas marianos devem ser pensados à luz dos pressupostos hermenêuticos anteriormente descritos e refletidos em chave eclesiástica e pastoral.
E o que nos dizem estes dogmas? 1. Maria é mãe de Deus, figura e símbolo do povo que crê e experimenta essa chegada de Deus que agora pertence à raça humana Esta mesma que chamamos Mãe e Nossa Senhora é, porém a pobre e obscura mulher de Nazaré, mãe do carpinteiro subversivo e condenado à morte. Depois do título de glória e as luxuosas imagens com que a piedade tradicional a representa, Maria ensina a maternidade como serviço, inspiração para a Igreja que deseja ser servidora dos pobres, para quem a encarnação de Jesus em Maria traz a boa nova da liberação.2. Maria é virgem, não de um ponto de vista moralizante e idealizado. Trata-se, ao invés, da glória de Deus onipotente que se manifesta naquilo que é pobre, impotente e desprezado aos olhos do mundo. A preferência de Deus pelos pobres se torna clara e explícita ao encarnar-se ele mesmo no seio de uma virgem, inserindo-se na linha de serviço dos pobres de Yahvé.3. Maria é Imaculada e isso é garantia de que a utopia de Jesus é realizável nesta pobre terra. A Imaculada Concepção venerada nos altares é a pobre Maria de Nazaré, que leva sobre si a confirmação das preferências de Deus pelos mais humildes, pequenos e oprimidos. O assim chamado «privilégio Mariano» é, na verdade, o privilégio dos pobres4. Maria é Assunta aos céus e assim a humanidade e, muito especialmente, a mulher, têm a dignidade de sua condição reconhecida e assegurada pelo criador. A mulher que deu à luz em um estábulo, entre animais, que teve o coração transpassado por uma espada de dor, que compartilhou a pobreza, a humilhação, a perseguição e a morte violenta de seu Filho, que esteve a seu lado ao pé da cruz, a mãe do condenado, foi exaltada. É a culminação gloriosa do mistério das preferências de Deus por aquilo que é pobre, pequeno e desamparado neste mundo para fazer brilhar ali sua presença e sua glória.

Maria Clara Bingemer

A espiritualidade da cruz


Quem não tem uma espiritualidade cruciforme, faria bem em adquiri-la, e não existe tempo mais propício para isto do que a Quaresma. Nosso melhor refúgio e proteção é a Cruz de Nosso Senhor e, por isso, trazê-la ao peito ou pendurá-la na parede de nossa casa é sinal de devoção que deve, por sua vez, refletir-se em nossa vida.
Encontramos na Cruz a plena manifestação do Mistério da Misericórdia divina. Deus nos perdoa, pelos méritos do Filho unigênito, cujo sacrifício redentor lavou a mancha do pecado, contraída pelo primeiro patriarca da humanidade, Adão. São Paulo descreve: “Deus não poupou seu Filho, mas por todos nós O entregou” (Rm 8,32). O Filho, por sua vez, adere, livremente, ao plano do Pai: “O Filho de Deus me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20) - eis o supremo gesto de misericórdia.Para isso, “Ele se fez obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2,8), assumindo a dor e o vexame de ser despido e exposto à zombaria da populaça: “Se és o Filho de Deus, desce da cruz!” (Mt 27,40). E se Ele descesse? Não o fez, porque seu alimento é cumprir a vontade do Pai, conforme Ele mesmo já havia afirmado (cf. Jo 4,34). Aquela seria a sua Hora, o seu verdadeiro batismo, que Ele esperava com ânsia que se realizasse (cf. Lc 12,50). Essa humilhação chega ao ápice da entrega na Cruz: “Tudo está consumado”(Jo 19,30). “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46).A dimensão sublime e transcendente da Crucifixão, a princípio incompreendida pelos discípulos, gerou em quase todos um grande escândalo. Refiro-me, de modo particular, àqueles que encontraram Jesus na estrada para Emaús. Não conseguindo admitir que o Senhor e sua missão tivessem final tão trágico, abandonaram a comunidade de Jerusalém e seguiram para Emaús, arrastando, na poeira do caminho, o fardo da decepção: “Nós esperávamos que fosse Ele quem haveria de restaurar Israel e agora, além de tudo isto, é hoje o terceiro dia em que essas coisas sucederam” (Lc 24,21). Ao invés de buscar apoio na comunidade, quiseram enfrentar sozinhos a crise que se abateu sobre eles após os padecimentos e a Crucifixão de Cristo. E foram embora, como que sem rumo certo... Foi ao longo dessa caminhada que o próprio Senhor lhes apareceu, e eles nem O reconheceram. Esta é uma dificuldade nossa: imersos nos próprios problemas, às vezes, não identificamos Jesus, que se comunica de uma forma bem clara - pela voz de uma criança, de um amigo ou de um representante de Deus, através da leitura de um bom livro e, até mesmo, do sofrimento, que nos acomete...Jesus começa a explicar para aqueles discípulos o conteúdo das Escrituras: “Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo o que anunciaram profetas! Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na sua glória?” (Lc 24,25-26). Os dois discípulos envolvem-se de tal forma na conversa, que seus corações ardem de entusiasmo e começam a se encher de esperança. Finalmente, reconhecem o Senhor ao partir do pão, naquele momento que identificamos como uma celebração eucarística. Jesus vem consolar e confirmar na fé, durante a hora mais terrível de crise daquelas duas pessoas. Depois desaparece, deixando, como marcos da sua presença, os gestos e palavras que suscitam em nós um ardor de ordem transcendente... “Quando eu for levantado da terra, atrairei todos os homens a mim” (Jo 12,32). A forte expressão deste versículo resume a obra redentora de Cristo, na qual se fundamenta a missão de cada um de seus seguidores. No seu ato de união à Cruz, São Paulo afirma: “O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja” (Cl 1,24). A Paixão de Cristo é, evidentemente, completa em si. Mas cada um de nós precisa aceitar sua própria participação nela. Esta aceitação Jesus não pode assumir por nós, porque temos a liberdade e a necessidade da adesão da fé e da confiança.Se olharmos nossa própria experiência, quando é que isto acontece? A vida está cheia de cruzes. De ordem física - dores, doenças e a própria morte; de ordem moral - pecados e falhas cometidas e, também, humilhações e injustiças recebidas. Isto tudo faz parte do Mistério da Cruz, até mesmo a aparente incógnita do sofrimento dos inocentes, como o das crianças. Como explicá-lo? Cada uma delas está seguindo a morte do próprio Cristo, está completando, da sua parte, o quinhão que cabe a cada um de nós na Paixão de Nosso Senhor, na solidariedade que nos une a Ele e aos demais.Mesmo nas situações mais gratificantes, como o relacionamento e o convívio com os outros e o trabalho pastoral, não estamos imunes às decepções e desilusões. Nós esperávamos... assim falavam os discípulos de Emaús. Mas depois que encontraram Jesus, o que esperavam ou queriam passou a ser secundário. Deus deseja que colaboremos com o seu plano de amor, e não que lhe imponhamos nossas perspectivas. Acima de tudo, que a sua vontade se faça e, quem sabe, de vez em quando, a nossa, se coincidir com a d’Ele, naturalmente. Entretanto, em nenhum momento pode faltar a esperança. Pois, “então aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem. Todas as tribos da terra baterão no peito e verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens do céu cercado de glória e de majestade” (Mt 24,30). “Deus mesmo estará com eles. Enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição” (Ap 21,3-4).Não se pode querer afastar a Cruz do nosso cotidiano, ou subtraí-la à nossa realidade. As cruzes dos cemitérios estão aí, apontando para Deus e para os irmãos. O Cristo do Corcovado testemunha a Cruz Redentora, vitoriosa sobre a morte. Nós mesmos somos feitos em forma de cruz, ou melhor, a nossa envergadura moldou o formato da cruz, como lógica do nosso existir. Portanto, que o nosso sinal seja sempre o Sinal da Cruz, em todos os momentos. Meu pai terminou a sua vida traçando este Sinal, bem devagar, “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. E deixou de respirar o ar da terra, para respirar a bem-aventurança eterna. Que Deus nos conceda a graça de semelhante despedida do mundo transitório. Ao final de nossa caminhada, possamos todos engolfar-nos nos braços de Jesus Cristo, que penderam da Cruz para nos salvar e se abrirão para nos acolher no seu eterno convívio feliz.


A FAMÍLIA


O futuro do mundo e da Igreja passa através da família”. A constatação, absolutamente verídica, pode ser encontrada na Exortação Apostólica “Familiaris Consortio”, do Papa João Paulo II. Ela explica a atenção especial que a Igreja dá à sociedade doméstica. Os problemas aumentam, em nossos dias, como resultado do ambiente que nos cerca e do enfraquecimento dos valores que servem de alicerce à sociedade. O tema questiona, sumamente, o homem na atualidade.
Uma das causas que geram todas as crises conjugais e, de modo particular, a separação dos pais e suas sequelas, é a deficiência na preparação ao matrimônio. Um contrato que, para nós, é elevado à dignidade de Sacramento, - e, conforme São Paulo, “grande sacramento” (Ef 5,32)– exige cuidadosa formação. Trata-se de uma opção definitiva e indissolúvel pela lei natural e divina. A ausência de um profundo conhecimento mútuo é motivo de desentendimento e introduz o germe da desagregação. Com a convivência percebe-se defeitos físicos, espirituais e de caráter até então ignorados. Muitas vezes a união conjugal fundamenta-se na paixão e esta decorre do instinto – o poderoso instinto que assegura a continuidade da espécie humana – ao passo que o amor é um ato oblativo e se fundamenta também na razão. Importa, portanto, identificar, em tempo oportuno, qual dos dois elementos move à decisão em assunto matrimonial.
Um outro fator é a pressão de uma sociedade que promove a busca do prazer e da felicidade pessoal a qualquer preço como um direito indiscutível, mesmo que, para alcançá-lo, atropele o outro cônjuge e a prole. Esse é um grande drama que foi estimulado pela introdução do divórcio. Dada a fraqueza humana, certamente todas as famílias, no decorrer da existência, terão problemas a superar. A tentação em resolvê-las com a separação leva, com frequência, à dissolução da vida em comum. Na atualidade, o indivíduo se esquece da importância da ascese, da necessidade de suportar os problemas que surgem no transcorrer da vida. No entanto, o sofrimento é instrumento válido e fecundo na formação do caráter e no exercício da paz na vida matrimonial. Ela expressa a união de Cristo com sua Igreja.
As ilusões propostas como verdades sólidas, fazem muitos acreditarem que o casamento é um oásis a ser usufruído. Ora, isso só ocorre, se for construído e defendido dia a dia. No momento em que se pensa apenas em desfrutá-lo e, por vezes, à margem dos valores morais, envereda-se pelo caminho que leva à destruição do lar.
Ouvem-se, hoje, comentários de que a Igreja é contrária à satisfação do instinto sexual, inclusive dentro do matrimônio. Não é verdade. A Doutrina cristã veda a relação sexual fora desse sacramento ou com a exclusão, por meios artificiais, de seu efeito reprodutivo. Em outras palavras, impedindo uma de suas finalidades. Esse ato deve estar aberto à vida. Cabe aos pais decidir sobre o número dos filhos, tomando também em consideração as possibilidades do que podem dispor para educá-los. E utilizando somente métodos naturais.
Em nossos dias cresce uma deficiência que afeta uma grave obrigação dos progenitores. Refiro-me à omissão dos pais em dar aos filhos uma educação segundo os preceitos cristãos. O clima, que direi de loucura, pela permissividade moral que se respira por toda parte, acovarda alguns pais e mães, diante das exigências audaciosas da prole. Os que assim procedem darão severas contas a Deus. Todo fiel, consciente de seus deveres, jamais permitirá algo que fira a sua consciência cristã. O “não” deverá ser envolvido pela bondade, que não se confunde com fraqueza ou ausência. A observância dos compromissos diante do Senhor, com a ajuda mútua dos esposos na educação dos filhos, mesmo que não obtenha resultados positivos, muito ajudará a criar ou manter um ambiente de paz, que vem de Deus. A falha nessa matéria gera muitos outros problemas, que levam à crise no lar.
Evidentemente, a construção constante da estrutura familiar necessita do fator religioso, a começar pelo exemplo. O ensino dos encargos oriundos do Evangelho, a oração, e, em especial, o terço em família, são fontes inesgotáveis de bênçãos para todos e cada um. A observância do Dia do Senhor, o Domingo, se constitui elemento importante na edificação de uma família feliz. A Missa dominical, se possível unindo todos os integrantes da comunidade doméstica, se torna poderoso elemento de louvor e ação de graças ao Senhor. O mesmo se diga da leitura frequente da Palavra divina, a Bíblia. Sem dúvida, posso assegurar que aí está um pára-raios contra as borrascas no lar e uma fonte abundante de bênçãos para a família.
Na Exortação Apostólica “Ecclesia in America”, fruto da IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, ao tratar dos desafios para a Família cristã, assim se exprime o Santo Padre: “É urgente, portanto, uma ampla obra de catequese acerca do ideal cristão da comunhão conjugal e da vida familiar que inclui uma espiritualidade da paternidade e da maternidade. Maior atenção pastoral vai dirigida ao papel dos homens, como maridos e como pais (...) tampouco se omita uma séria preparação dos jovens, antes do casamento” (nº 46).
A saúde espiritual e moral da família é um assunto fundamental para a sociedade civil e religiosa. Merece todo sacrifício em sua defesa e promoção. Não nos faltará a graça de Deus e o amparo da Sagrada Família.


Autor: Cardeal Eugenio de Araujo Sales

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

OS SACRAMENTOS DA IGREJA


"Os sacramentos são sinais eficazes da graça, instituídos por Cristo e confiados à Igreja, por meio dos quais nos é dispensada a vida divina. Os ritos visíveis sob os quais os sacramentos são celebrados significam e realizam as graças próprias de cada sacramento. Produzem fruto naquele que os recebem com as disposições exigidas.
A Igreja celebra os sacramentos como comunidade sacerdotal estruturada pelo sacerdócio batismal e pelos ministros ordenados.O Espírito Santo prepara para a recepção dos sacramentos por meio da Palavra de Deus e da fé que acolhe a Palavra nos corações bem dispostos. Então, os sacramentos fortalecem e exprimem a fé.O fruto da vida sacramental é ao mesmo tempo pessoal e eclesial. Por um lado, este fruto é para cada fiel uma vida para Deus em Cristo Jesus; por outro, é a para a Igreja crescimento na caridade e em sua missão de testemunho."
Sacramento são gestos de Deus em nossa vida. Realizam aquilo que expressam simbolicamente.


Os sacramentos são, por conseguinte:
Sinais sagrados, porque exprimem uma realidade sagrada, espiritual;
Sinais eficazes, porque, além de simbolizarem um certo efeito, produzem-no realmente;
Sinais da graça, porque transmitem dons diversos da graça divina;
Sinais da fé, não somente porque supõem a fé em quem os recebe, mas porque nutrem, robustecem e exprimem a sua fé;
Sinais da Igreja, porque foram confiados à Igreja, são celebrados na Igreja e em nome da Igreja, exprimem a vida da igreja, edificam a Igreja, tornam-se uma profissão de fé na Igreja.
Sacramento

Batismo
Nascemos para fé
Iniciação Cristã
Começamos a fazer parte da grande família que é a Igreja
Confirmação
Crescemos como Cristãos
Iniciação Cristã
Assumimos com mais maturidade o compromisso na Igreja
Eucaristia
Precisamos de alimentos para fé e a vida em comunidade
Iniciação Cristã
Recebemos o corpo de Cristo unidos a todos os irmãos
Penitência
Erramos e nos arrependemos
Cura
Recebemos o perdão de Deus na comunidade
Unção dos Enfermos
Somos atingidos pela doença
Cura
A graça de Deus e o caminho da Igreja ajudam o doente que sofre
Ordem
Alguém sente vocação de serviço total a Deus e ao irmão
Serviço
O Cristão se torna sacerdote a serviço da comunidade
Matrimônio
Homem e mulher se amam e querem se casar
Serviço
Os dois se comprometem a viver seu amor como cristãos de verdade


segunda-feira, 3 de maio de 2010

SEMANA DE ORAÇÃO PELA UNIDADE DOS CRISTÃOS


“Hoje em muitas partes do mundo, mediante o sopro da graça do Espírito Santo, empreendem-se, pela oração, pela palavra e pela ação, muitas tentativas de aproximação daquela plenitude de unidade que Jesus Cristo quis” (Conc. Vat. II, Unitatis Redintegratio, 4).
E um evento muito importante, motivado pelo CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs no Brasil) e assumido, sobretudo, pela igrejas membro, mas com a participação de outras igrejas convidadas, e que acontece todos os anos na semana que antecede o Pentecostes, é Semana de oração pela unidade dos cristãos.
Na nossa Diocese, todos os anos é eleita uma comunidade que sedia a abertura oficial com uma celebração ecumênica, seja uma das paróquias católicas ou uma sede evangélica ou ainda, um local neutro. Depois, cada Região Pastoral, ao seu modo, dá continuidade à semana trabalhando na liturgia, encontros de reflexão ou mesmo celebrações de caráter ecumênico o sentido da unidade e a necessidade de se rezar pela unidade.
Este ano de 2010 a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos acontecerá de 16 à 23 de Maio. A celebração ecumênica oficial de abertura na Diocese de São José dos Campos será dia 17 de maio, na Câmara Municipal de São José dos Campos, às 19h30.
. As relações que os membros da Igreja Católica estabelecem com os outros cristãos a partir do Concílio Vaticano II, fizeram descobrir aquilo que Deus opera naqueles que pertencem a outras igrejas e comunidades eclesiais. Este contato direto, a vários níveis, entre os pastores e entre os membros das comunidades, faz com que se tome consciência do testemunho que os outros cristãos prestam a Deus e a Cristo (cf. Ut Unum Sint, 48).

Datas marcantes na história da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos


1740 Na Escócia, surgiu um movimento pentecostal, ligado à América do Norte, cuja mensagem de reavivamento incluía preces por e com todas as Igrejas.
1820 O Rev. James Haldane Stewart publica “Orientações para a união geral dos cristãos para o derramamento do Espírito”.
1840 O Rev. Ignatus Spencer, convertido ao catolicismo romano, sugere uma “União de oração pela unidade”.
1867 A Primeira Conferência de Bispos Anglicanos em Lambeth destaca a oração pela unidade no Preâmbulo de suas Resoluções.
1894 O papa Leão XIII estimula a prática de Oitava de Oração pela Unidade, no contexto de Pentecostes.
1908 Primeira vivência da Oitava da Unidade Cristã, iniciativa do Rev. Paul Wattson.
1926 O movimento Fé e Ordem começa a publicar “Sugestões para uma oitava de oração pela unidade cristã.”
1935 O abade Paul Couturier defende uma “Semana Universal de Orações pela Unidade dos Cristãos”, baseada em preces inclusivas pela “unidade que Cristo quiser, pelos meios que ele quiser”.
1958 A Unidade Cristã (Lyons, França) e a Comissão Fé e Ordem do Conselho Mundial de Igrejas começam a preparar em cooperação os materiais para a Semana de Oração.
1964 Em Jerusalém, o papa Paulo VI e o patriarca Athenagoras I rezam juntos a prece de Jesus para “que todos sejam um” (João 17)
1964 O decreto sobre Ecumenismo do Vaticano II enfatiza que a oração é a alma do movimento ecumênico e incentiva a observância da Semana de Oração.
1966 A Comissão Fé e Ordem do Conselho Mundial de Igrejas e o Secretariado para a Promoção da Unidade dos Cristãos (hoje conhecido como Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos) começam a preparar oficialmente juntos o material da Semana de Oração.
1968 Primeiro uso oficial do material da Semana de Oração preparado em conjunto por Fé e Ordem e pelo Secretariado para a Promoção da Unidade dos Cristãos (hoje conhecido como Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos).
1975 Primeiro uso de material da Semana de Oração baseado em uma versão inicial de texto preparada por um grupo ecumênico local. Um grupo australiano foi o primeiro a assumir esse projeto, na preparação do texto inicial de 1975.
1988 Os materiais da Semana de Oração foram usados na celebração de fundação da Federação Cristã da Malásia, que une os grupos cristãos majoritários do país.
1994 Um grupo internacional prepara o texto para 1996, incluindo representantes de YMCA e YWCA (Associação Cristã de Moços/as).
2004 Formaliza-se um acordo pelo qual os materiais da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos serão publicados e produzidos no mesmo formato por Fé e Ordem (WCC) e pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos (Igreja Católica).
2008 Comemoração do centésimo aniversário da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (sua predecessora, a Oitava da Unidade Cristã, foi observada pela primeira vez em 1908).

“Vós sois as testemunhas disso” - Tema da Semana de Oração 2010


No movimento ecumênico temos frequentemente meditado sobre o discurso final de Jesus antes da sua morte. Nesse testamento final a importância da unidade dos discípulos de Cristo é enfatizada: “Que todos sejam um... para que o mundo creia” (João 17,21)
Este ano as Igrejas fizeram a escolha original de nos convidar a escutar o discurso final de Cristo antes da sua Ascensão: “É como foi escrito: o Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos no terceiro dia, e em seu nome se pregará a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, a começar por Jerusalém. E vós sois as testemunhas disso.” (Lucas 24,46-48). É sobre essas palavras finais de Cristo que refletiremos a cada dia.
Durante a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos de 2010, somos também convidados a percorrer todo o capítulo 24 do evangelho de Lucas. Tanto as mulheres assustadas diante do túmulo, como os dois desanimados discípulos no caminho de Emaús ou os onze discípulos dominados por dúvida e medo, todos os que juntos encontram o Cristo Ressuscitado são enviados em missão: “E vós sois as testemunhas disso”. Essa missão da Igreja é dada por Cristo e não pode ser posse particular de ninguém. É a comunidade dos que foram reconciliados com Deus e em Deus e podem testemunhar a verdade do poder da salvação em Jesus Cristo.
Percebemos que Maria Madalena, Pedro ou os dois discípulos de Emaús não vão testemunhar do mesmo jeito. Ainda assim, será a vitória de Jesus sobre a morte que todos colocarão no coração de seu testemunho. O encontro pessoal com o Ressuscitado mudou radicalmente suas vidas e, na originalidade de cada um, uma coisa se torna imperativa: “Vós sois as testemunhas disso.” Sua história vai acentuar aspectos diferentes, às vezes podem ocorrer entre eles discordâncias sobre o que a fidelidade a Cristo exige, mas ainda assim todos irão trabalhar para anunciar a Boa Nova.

SEMANA DE ORAÇÃO PELA UNIDADE DOS CRISTÃOS


No hemisfério norte, o período tradicional para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos é de 18 a 25 de janeiro. Essas datas foram propostas em 1908 por Paul Watson porque cobriam o tempo entre as festas de São Pedro e São Paulo e tinham, portanto, um significado simbólico. No hemisfério sul, em que janeiro é tempo de férias, as Igrejas geralmente preferem outras datas para celebrar a Semana de Oração como, por exemplo, ao redor de Pentecostes (como foi sugerido pelo movimento Fé e Ordem em 1926), que também é um momento simbólico para a unidade da Igreja.
Durante o século passado a reconciliação entre os cristãos tomou formas bastante diferentes. A espiritualidade ecumênica mostrou como a oração é importante para a unidade dos cristãos. Grande impulso foi dado à pesquisa teológica, levando a um grande número de acordos doutrinários. A cooperação prática entre as Igrejas no campo social fez nascer frutuosas iniciativas. Junto com essas conquistas mais amplas, a questão da missão assumiu um lugar especial. Há até um consenso generalizado de que a Conferência Missionária Mundial de Edimburgo, em 1910, marcou o começo do movimento ecumênico moderno.
No Brasil, este ano, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos acontecerá de 16 à 23 de Maio. Todos os cristãos são convidados a unir-se em oração pela unidade. Isto porque a unidade não é um mero capricho ou iniciativa de interesses egoístas, mas um mandamento do Senhor. É vontade de Jesus que os cristãos vivam unidos como irmãos, e é para que aconteça o cumprimento deste sonho de Jesus que devemos entre outras iniciativas e em primeiro lugar, orar.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Bento XVI e a pedofilia na Igreja: a realidade


Por D. Hilário Moser,
bispo emérito de Tubarão/SC
De repente, a moda é falar da pedofilia dentro da Igreja. Episódios do passado, já conhecidos e encerrados, agora são exumados um por um, dentro de certo encadeamento, com a finalidade de exagerar a repercussão pelo mundo, tendo um claro objetivo: desacreditar a Igreja católica e atingir o Papa Bento XVI.
Será mesmo verdade tudo os que os jornais andam propalando? É a pedofilia que se quer combater, ou, na realidade, pretende-se “linchar” o Papa, hostilizado desde sua eleição e, periodicamente, por ocasião de alguma sua declaração ou tomada de atitude mais contundente?
Como se explica tudo isso? A resposta não é difícil. Existe no Ocidente certa cultura que se caracteriza por uma clara posição laicista e anticatólica, cujos porta-vozes são jornais e outros meios de comunicação social. Muitas vezes, por trás deles há os que algum sociólogo qualifica como “empresários morais”, pessoas que promovem e financiam campanhas segundo os próprios interesses.
A Igreja, para essa cultura, cria sérios problemas. Basta pensar na constante defesa da vida e da dignidade da pessoa humana contra interesses de pessoas, grupos poderosos e governos.
Para atacar o Papa, começou-se em Ratisbona (Alemanha), tentando envolver seu irmão, Mons. Georg Ratzinger, que por longos anos dirigiu o coral de meninos da catedral daquela diocese. De fato, no passado houve dois episódios de abuso de meninos desse coral; todavia, tais abusos ocorreram antes que Mons. Georg fosse posto à sua frente; inclusive, já eram conhecidos e estavam encerrados judicialmente.
Entretanto, o nome “Ratzinger” ficou nas manchetes dos jornais e não era difícil prever que se tentaria envolver nos escândalos outro Ratzinger, o próprio Bento XVI.
E assim foi. Procurou-se, então, a arquidiocese de Munique, onde Joseph Ratzinger foi arcebispo nos anos 80; ali desenterrou-se o caso do padre que ficou conhecido como “Padre H.”. Esse padre, tendo-se envolvido em casos de abuso de menores na sua diocese, Essen, foi acolhido por Ratzinger em Munique com a única finalidade de fazer uma terapia; todavia, sem dar conhecimento ao arcebispo, o vigário geral de Munique lhe confiou algumas tarefas pastorais; hoje, o vigário geral reconhece seu erro e assume toda a responsabilidade pelo não cumprimento das orientações de Ratzinger. Este caso também já estava resolvido judicialmente; o próprio tribunal que julgou o acusado confirmou a não responsabilidade do Cardeal Ratzinger.
Perguntamos: esse caso foi descoberto em 1985 e julgado por um tribunal em 1986; por qual motivo um jornal alemão decide exumá-lo 24 anos depois de encerrado?
Outra tentativa de envolver Bento XVI foi feita pelo jornal New York Times – tradicionalmente laicista e anticatólico. Segundo o jornal, em 1996, os cardeais Ratzinger e Bertone (respectivamente, prefeito e secretário da Congregação para a Doutrina da Fé) teriam ocultado o caso do padre pedófilo Murphy e impedido que fosse levado à atenção das autoridades civis.
A realidade é precisamente o oposto. Em 1975, Murphy foi denunciado às autoridades civis; todavia, elas não encontraram provas suficientes para condená-lo. A Igreja, apesar de a denúncia contra ele ter sido arquivada pela magistratura, foi mais severa que o Estado e continuou indagando sobre Murphy e, dado que suspeitava que fosse culpado, tomou medidas para que limitasse seu ministério.
Passados 20 anos, em 1995, num clima de fortes polêmicas sobre os casos dos “padres pedófilos”, a arquidiocese de Milwaukee considerou oportuno entregar o caso à Congregação para a Doutrina da Fé. A Congregação para a Doutrina da Fé não retomou o processo, mas recomendou que Murphy admitisse publicamente sua responsabilidade. Quatro meses depois, Murphy faleceu. Ficou claro, pois, que não houve nenhuma tentativa de ocultamento do caso do padre pedófilo por parte dos cardeais Ratzinger e Bertone, que só souberam do acontecido quando o sacerdote estava para morrer.
Além de exumar esses três “esqueletos”, os meios de comunicação social propositadamente exageram os números de casos de pedofilia na Igreja para dar a impressão de um fenômeno extenso e incontrolável, uma espécie de epidemia.
Repete-se constantemente, por exemplo, que só nos Estados Unidos houve 4.000 casos de abusos de menores por parte de padres. De fato, de 1950 a 2002, 4.392 sacerdotes americanos (sobre um contingente de 109.000 padres!) foram “acusados” de relações sexuais com menores; nem todos os casos, porém, se confirmaram como pedofilia, além de haver uma série de padres inocentes que foram caluniados. Ao mesmo tempo, porém, omite-se que, das 4.392 acusações (não sentenças de condenação), os casos de pedofilia foram somente 958 e levaram a 54 condenações, num período de 42 anos! Repetimos: 54 condenações sobre 109.000 padres!
O número de condenações de padres e religiosos em outros países é semelhante ao dos USA. De modo geral, se se compara a Igreja Católica dos USA com as principais denominações protestantes, as estatísticas mostram que a presença de pedófilos é – dependendo de cada denominação – de 2 a 10 vezes mais alta entre pastores protestantes do que entre padres católicos. Isso mostra que o problema não é o celibato, como alguns insistem em apontar, inclusive o teólogo católico Hans Küng. Note-se também que, enquanto um número reduzido de padres católicos foi condenado por abusos de menores, o número de professores de ginástica e treinadores de times juvenis de esportes (na maioria, homens casados) julgados pelos tribunais americanos beirou os 6.000.
E aqui uma observação importante: segundo o governo americano, dois terços mais ou menos das moléstias sexuais com menores não procedem de estranhos ou de educadores – padres e pastores protestantes – mas de membros da própria família: padrinhos, tios, primos, irmãos e até mesmo pais! Os mesmos dados são confirmados por numerosos países.
Existe ainda um dado mais significativo: mais de 80% dos pedófilos – sejam leigos ou sejam padres – são homossexuais, homens que abusam de outros homens. Por isso, mais uma vez, o problema não é o celibato.
Na Alemanha, a partir de 1995, em todo o país, houve 210.000 denúncias de abusos de menores; os casos ocorridos na Igreja foram apenas 94 (1 sobre 2.000!). Na Irlanda, o Relatório Ryan (sempre muito duro com a Igreja) de 2009, registrou o testemunho de 1.090 pessoas a respeito de casos de violência (não só sexuais, mas sobretudo físicas e psicológicas) no sistema escolar da ilha, de 1914 a 2000. No exame de centenas de violências, os religiosos acusados de abusos sexuais de menores são apenas 23, embora os dados não sejam completos porque em duas escolas o número não foi especificado.
Nas escolas femininas foram acusadas 3 empregadas leigas. Em diversas escolas, os abusos foram de pessoal adido, de visitantes externos ou de alunos maiores, não de sacerdotes. O relatório se refere mais a situações de abandono, violência física e depravação que afetou os métodos educativos de todo o sistema escolar.
No fim das contas, somando tudo o que se sabe sobre pedofilia na Igreja – pelo menos por ora -, trata-se de uns 300 casos de padres pedófilos no mundo inteiro sobre um contingente de 400.000 sacerdotes!
É óbvio que, no futuro, deverão surgir novas denúncias. Mesmo assim, sempre se tratará de um índice mínimo, se comparado com outros índices da sociedade em geral. Isto, naturalmente, não justifica de modo nenhum a prática da pedofilia por parte de membros do clero, que deveriam buscar com persistência a santidade de vida. Todo padre que se mancha com o crime de pedofilia é algo muito repugnante, mesmo quando se trata de um caso isolado; assim como é lamentável o fato de que algum expoente da Igreja tenha ocultado casos. Na verdade, essa era a praxe dos tempos passados: transferir o sacerdote culpado para outro ambiente a fim de não provocar escândalo, deixando de dar a devida atenção à vítima. Por outro lado, pintar a Igreja como um covil de pedófilos e o Papa e os bispos como empenhados em esconder casos, é totalmente falso.
Qual é a reação de Bento XVI aos casos de pedofilia? Bento XVI, dentre os papas contemporâneos, é o que mais se dedicou a corrigir essa chaga da Igreja. Foi esse Papa quem deu impulso decisivo a esta luta, também graças a seus 20 anos de experiência como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Como cardeal, favoreceu a reforma também legislativa mais rigorosa nesse assunto.
Em particular, procure-se conhecer a carta que Bento XVI dirigiu aos católicos da Irlanda, simbolicamente a todas as dioceses do mundo. É o primeiro documento de um papa que reconhece coletivamente a culpa da instituição eclesiástica quanto aos abusos sexuais cometidos por decênios e séculos, e vai direta ao coração do problema.
As vítimas foram silenciadas, admite, porque a primeira preocupação foi o bom nome da Igreja e evitar escândalos… Essa, de fato, como vimos, era a mentalidade da época. Pelo contrário, o Papa dá razão às vítimas, que não tinham como fazer ouvir a própria voz. Aos bispos fala de graves falhas, de erros, de falência da liderança, da não aplicação das penas canônicas…, apesar de se tratar de autênticos crimes.
Primeiro dever da Igreja na Irlanda: reconhecer o pecado perante Deus e a opinião pública; usar plena honestidade e transparência, sem nada esconder; os culpados se submeterem à justiça dos tribunais; os bispos colaborarem com as autoridades civis. Não por nada o Papa já aceitou algumas demissões de bispos irlandeses e determinou uma visita canônica minuciosa a toda a Igreja da Irlanda, ordenando uma série de orações e penitências em vista do arrependimento e da mudança de mentalidade e do modo de agir em casos semelhantes.
Na carta, o Papa estigmatiza com determinação o fenômeno, põe a nu sua raiz no afastamento da vida de fé por parte de alguns membros da Igreja e, de forma geral, em certas confusões devidas à secularização e à má interpretação do Concílio Vaticano II. Convida com força os bispos que encobriram casos ou que não reagiram adequadamente diante deles a assumir as responsabilidades dos próprios atos a fim de que não voltem a acontecer no futuro.
É a mesma clareza e determinação que o Papa mostrou durante sua viagem aos USA e à Austrália, quando se encontrou com algumas vítimas dos abusos.
A prova de que a atuação de Bento XVI está produzindo frutos é o relatório da Conferência Episcopal dos USA que mostra que o número das denúncias de supostos casos de pedofilia por parte de eclesiásticos alcançou o mínimo histórico em 2004 (desde quando começaram a ser conferidos). Portanto, a REALIDADE é bem diversa do que certos meios de comunicação social andam propalando.
Enquanto, de modo geral, os 400.000 sacerdotes no mundo inteiro procuram trabalhar corretamente, há quem aponte o dedo acusador para algumas centenas de padres – sem dúvida dignos de condenação ou de compaixão, conforme o caso – para desacreditar toda a Igreja, particularmente Bento XVI. Agir dessa maneira é trair a verdade e a justiça.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Eucaristia, muito mais que reunião fraterna


Discurso de Bento XVI aos bispos brasileiros em visita "ad limina"

Amados Irmãos no Episcopado,
A vossa visita ad Limina tem lugar no clima de louvor e júbilo pascal que envolve a Igreja inteira, adornada com os fulgores da luz de Cristo Ressuscitado. Nele, a humanidade ultrapassou a morte e completou a última etapa do seu crescimento penetrando nos Céus (cf. Ef 2, 6). Agora Jesus pode livremente retornar sobre os seus passos e encontrar-Se como, quando e onde quiser com seus irmãos. Em seu nome, apraz-me acolher-vos, devotados pastores da Igreja de Deus peregrina no Regional Norte 2 do Brasil, com a saudação feita pelo Senhor quando se apresentou vivo aos Apóstolos e companheiros: «A paz esteja convosco» (Lc 24,36).
A vossa presença aqui tem um sabor familiar, parecendo reproduzir o final da história dos discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 33-35): viestes narrar o que se passou no caminho feito com Jesus pelas vossas dioceses disseminadas na imensidão da região amazônica, com as suas paróquias e outras realidades que as compõe como os movimentos e novas comunidades e as comunidades eclesiais de base em comunhão com o seu bispo (cf. Documento de Aparecida, 179). Nada poderia alegrar-me mais do que saber-vos em Cristo e com Cristo, como testemunham os relatórios diocesanos que me enviastes e que vos agradeço. Reconhecido estou de modo particular a Dom Jesus Maria pelas palavras que acaba de me dirigir em nome vosso e do povo de Deus a vós confiado, sublinhando a sua fidelidade e adesão a Pedro. No regresso, assegurai-o da minha gratidão por tais sentimentos e da minha Bênção, acrescentando: «Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão» (Lc 24,34).
Nesta aparição, palavras - se as houve - diluíram-se na surpresa de ver o Mestre redivivo, cuja presença diz tudo: Estive morto, mas agora vivo e vós vivereis por Mim (cf. Ap 1,18). E, por estar vivo e ressuscitado, Cristo pode tornar-Se «pão vivo» (Jo 6, 51) para a humanidade. Por isso sinto que o centro e a fonte permanente do ministério petrino estão na Eucaristia, coração da vida cristã, fonte e vértice da missão evangelizadora da Igreja. Podeis assim compreender a preocupação do Sucessor de Pedro por tudo o que possa ofuscar o ponto mais original da fé católica: hoje Jesus Cristo continua vivo e realmente presente na hóstia e no cálice consagrados.
Uma menor atenção que por vezes é prestada ao culto do Santíssimo Sacramento é indício e causa de escurecimento do sentido cristão do mistério, como sucede quando na Santa Missa já não aparece como proeminente e operante Jesus, mas uma comunidade atarefada com muitas coisas em vez de estar recolhida e deixar-se atrair para o Único necessário: o seu Senhor. Ora, a atitude primária e essencial do fiel cristão que participa na celebração litúrgica não é fazer, mas escutar, abrir-se, receber… É óbvio que, neste caso, receber não significa ficar passivo ou desinteressar-se do que lá acontece, mas cooperar – porque tornados capazes de o fazer pela graça de Deus – segundo «a autêntica natureza da verdadeira Igreja, que é simultaneamente humana e divina, visível e dotada de elementos invisíveis, empenhada na ação e dada à contemplação, presente no mundo e, todavia, peregrina, mas de forma que o que nela é humano se deve ordenar e subordinar ao divino, o visível ao invisível, a ação à contemplação, e o presente à cidade futura que buscamos» (Const. Sacrosanctum Concilium, 2). Se na liturgia não emergisse a figura de Cristo, que está no seu princípio e está realmente presente para a tornar válida, já não teríamos a liturgia cristã, toda dependente do Senhor e toda suspensa da sua presença criadora.
Como estão distantes de tudo isto quantos, em nome da inculturação, decaem no sincretismo introduzindo ritos tomados de outras religiões ou particularismos culturais na celebração da Santa Missa (cf. Redemptionis Sacramentum, 79)! O mistério eucarístico é um «dom demasiado grande – escrevia o meu venerável predecessor o Papa João Paulo II – para suportar ambigüidades e reduções», particularmente quando, «despojado do seu valor sacrificial, é vivido como se em nada ultrapassasse o sentido e o valor de um encontro fraterno ao redor da mesa» (Enc. Ecclesia de Eucharistia, 10). Subjacente a várias das motivações aduzidas, está uma mentalidade incapaz de aceitar a possibilidade duma real intervenção divina neste mundo em socorro do homem. Este, porém, «descobre-se incapaz de repelir por si mesmo as arremetidas do inimigo: cada um sente-se como que preso com cadeias» (Const. Gaudium et spes, 13). A confissão duma intervenção redentora de Deus para mudar esta situação de alienação e de pecado é vista por quantos partilham a visão deísta como integralista, e o mesmo juízo é feito a propósito de um sinal sacramental que torna presente o sacrifício redentor. Mais aceitável, a seus olhos, seria a celebração de um sinal que corresponda a um vago sentimento de comunidade.
Mas o culto não pode nascer da nossa fantasia; seria um grito na escuridão ou uma simples auto-afirmação. A verdadeira liturgia supõe que Deus responda e nos mostre como podemos adorá-Lo. «A Igreja pode celebrar e adorar o mistério de Cristo presente na Eucaristia, precisamente porque o próprio Cristo Se deu primeiro a ela no sacrifício da Cruz» (Exort. ap.Sacramentum caritatis, 14). A Igreja vive desta presença e tem como razão de ser e existir ampliar esta presença ao mundo inteiro.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Páscoa: Experiência de fé e compromisso missionário


Maria Clara Lucchetti Bingemer

Não sei o que mais impressiona nos relatos pascais que encontramos nos Evangelhos. Se a mudança radical que faz com que o luto doloroso e lacrimejante pelo Crucificado morto de maneira infame se transmute em alegria exultante e intrépida; ou se o fato de que um mistério tão profundo e tão sublime seja ao mesmo tempo tão carregado de raiz histórica e realismo humano.
Talvez ambas as coisas. Mas o fato é que a lógica de Deus, que sempre desconcerta, porque vai na contra mão de nossa lógica humana, talvez jamais desconcerte tanto como no evento pascal que dá origem à fé cristã. A começar pela fragilidade do movimento que mudará o mundo e dividirá a história em “antes” e “depois”: umas frágeis e desoladas mulheres que não se conformavam que o corpo do Amado mestre, morto depois de sofrer tanto, ficasse sem o perfume e os óleos por elas cuidadosamente preparados em sua última morada.
Será que acreditavam mesmo que era a última? Será que em seus corações e, sobretudo em seus ventres feitos para a vida e a fecundidade, acreditavam na morte como última palavra? Ainda que suspeitando que não, o fato é que na madrugada do domingo, quando tudo ainda dormia e a noite ameaçadora ainda não fora vencida pela luz, elas caminharam trêmulas e tristes, amparando-se umas às outras e habitadas por uma pergunta que dá bem testemunho de sua fragilidade: “Quem nos há de remover a pedra da entrada do sepulcro?”
Força para enfrentar a noite e seus fantasmas elas tinham. Força para sobrepor-se à dor e levar perfumes para ungir o corpo do Mestre também. Mas força para remover a enorme pedra que selava o sepulcro... para isso precisariam da ajuda de alguém. E, no entanto, encontraram a pedra removida e o túmulo vazio e alguém que lhes disse, diante de seu estupor pela ausência do Mestre, que ele as precederia na Galiléia. E que fossem dar esta notícia a Pedro e ao discípulos.
Tiveram medo, diz o evangelista, e fugiram e calaram-se. Mas em Maria Madalena não houve medo que paralisasse, pois além de ver a pedra rolada, as impossibilidades removidas e a ausência que a desesperou pensando haver perdido o que lhe restava de seu Senhor para sempre, a necessidade de partilhar esta notícia foi mais forte que o medo. E foi dizê-lo aos discípulos... que não creram nela.
Depois, no entanto, foram ver. E não viram nada, pois o túmulo estava vazio. Mas aquele a quem Jesus amava viu e creu. E a partir daí, já nada nem ninguém mais era capaz de segurar esta notícia, esta boa nova, esta espetacular inversão da lógica da morte e da tristeza: aquele que vimos morto está vivo e apareceu às mulheres, a Maria Madalena, a Simão Pedro, a dois dos nossos que caminhavam para Emaús, aos onze reunidos.
Seria lógico que a alegria dos amigos que reencontram a preciosidade do amigo perdido fosse retumbante... se tudo voltasse a ser como antes. Mas não. Nada era como antes. O Ressuscitado aparecia e de novo os deixava. Dava-lhes incumbência e missão: contar a todos, anunciar a outros, a outros e outros mais. Fazer com que a notícia corresse mundo e transformasse os corações enlutados em alegres, o medo em coragem, a solidão em companhia. Deixava-os, mas desta vez não sozinhos, não em lágrimas, não mergulhados na desolação.
Sua identidade estava transformada. De frágeis e desolados seres humanos atirados em irremissível orfandade eram agora intrépidas testemunhas. Que deviam fazer? Juntar-se o mesmo grupo para comemorar juntos a boa notícia da qual só eles sabiam, na qual somente eles e elas creram? Não. Trabalhar, mover-se, contá-la aos outros. Testemunhar para que outros creiam e tenham parte nesta alegria.
Após a experiência tão dolorosa da Paixão, a palavra de ordem de Jesus Ressuscitado não é descansar e recuperar-se dos traumas para depois voltar à rotina. Mas é imediatamente mudar de vida, lançar fora uma rotina que nunca mais acontecerá. Porque agora a vida consistirá em não descansar nunca mais de anunciar que aquele que os homens mataram está vivo pelo poder de Deus e a morte não tem mais nenhum poder sobre ele.
O anúncio do mistério maior que funda a fé cristã não lança os discípulos que agora são apóstolos e mensageiros da boa notícia na órbita longínqua e distante da alienação imobilizante. Mas pelo contrário, os atira de cheio no ventre da história conflitiva e problemática, a mesma que levou Jesus à morte, para dar testemunho de sua Ressurreição.
O tempo mostrou que a muitos e muitas estaria reservada a mesma sorte do Mestre. Que importância tinha? Que medo poderiam ter de uma morte que Deus já havia vencido em seu Filho? O que poderia dete-los ou rete-los? Nada. Ninguém. Pelos caminhos de terra, pelo seio do mundo, pelo espaço e pelo tempo, desde aquela madrugada até hoje, esta notícia continua disponível para mudar a face da terra, transformar a dor em júbilo e proclamar que tudo tem sentido, uma vez que o amor é mais forte que a morte.
Passar por aí, sofrer a perda e proclamar o ganho, chorar a morte e converter-se em testemunha da vida, apalpar o fim e constatar e anunciar que é apenas o princípio da vida que não morre é o sentido da vida humana sobre a terra. Cabe a nós levar adiante essa notícia, cuidando-a desveladamente, a fim de que sua amorosa fragilidade possa chegar aos confins da terra, como desejou e profetizou Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem, padeceu, morreu, foi sepultado, mas foi ressuscitado por Deus seu Pai e nosso, porque o amor é mais forte que a morte.

Monsenhor Oscar Romero: Trinta anos de um martírio


Maria Clara Lucchetti Bingemer

No dia 24 de março de 1980, às 6 h da tarde, o arcebispo de San Salvador, capital do pequeno país da América Central, El Salvador, celebrava missa na capela do Hospitalito, hospital de religiosas que cuidavam de doentes de câncer. No momento da consagração, o tiro desfechado por um atirador de elite escondido atrás da porta traseira da capela atingiu o coração do pastor e matou-o imediatamente.
Calava-se assim a voz que defendia os pobres no regime cruel e sangrento que dominava El Salvador. E Monsenhor Romero passaria a estar vivo, a partir de então, no coração de seu povo, no qual profetizou que ressuscitaria, se o matassem. Assim foi, assim é. Não existe um só salvadorenho nos dias de hoje que não fale com carinho extremo de Monsenhor Romero e não reconheça nele um pai e um protetor. E não há um cristão que não deva conhecer a vida e a trajetória deste grande bispo que é exemplar para todos aqueles e aquelas que hoje se dispõem a seguir Jesus de Nazaré.
Como homem de seu tempo, Romero é configurado pela formação que recebeu como seminarista e sacerdote. Uma formação dada por uma Igreja pré-conciliar, onde a vivência da fé e a pratica da religião são concebidas como um tanto desvinculadas da vida real e cotidiana das pessoas. Seu caminho será extremamente coerente com o caminho cristão nesses mais de 2000 anos de história. A fé cristã foi desde seus começos uma fé no testemunho de outros. É uma fé de testemunhas e nem tanto de textos. As testemunhas continuam sendo os melhores teóricos da fé que professamos e que desejamos comunicar. Nesse sentido, continuam sendo os teólogos primordiais.
Monsenhor Oscar Arnulfo Romero entra nessa categoria de testemunha e teólogo primordial. Seu testemunho de vida e sua morte iluminaram e continuam iluminando o caminho e a vida de várias gerações. Enquanto era padre, Oscar Arnulfo Romero era um sacerdote de corte tradicional, que exercia sua pastoral mais ao interior da Igreja, celebrando missas, distribuindo sacramentos, organizando sua diocese. Devido a seu perfil tranqüilo e não conflitivo foi designado pelo Vaticano como bispo no conflitivo país de El Salvador.
A segunda conversão de Monsenhor Romero, conversão à causa dos pobres e dos explorados - uma classe de maioria nas terras de El Salvador – ocorreu depois de sua nomeação para as funções de bispo. Olhando mais de perto essa conversão, podemos ver que é perfeitamente coerente com o itinerário de um homem honrado e bom, cujo coração se mantinha aberto à missão recebida e à vocação sentida no coração. E sobretudo, aberto ao Deus em quem acreditava e ao qual tinha consagrado toda sua vida , assim como ao povo ao qual prometera servir como pastor. Desde seu posto de bispo, de autoridade eclesiástica, pôde sentir de outra maneira a miséria de seu povo e a violência dos capitalistas, que - como em muitos países do Continente - matavam ou faziam desaparecer líderes, camponeses, padres, agentes de pastoral e tantos quantos fizessem ouvir suas vozes em defesa do povo oprimido.
Monsenhor Romero foi “convertido” aos pobres e a sua causa, a causa da justiça e da verdade, por outra testemunha: o jesuíta P. Rutilio Grande. O Padre Rutilio fez muitas denúncias contra a situação de pobreza do povo, a insensibilidade das elites e a violência do governo. No dia 12 de Março de 1977 quando se dirigia para sua terra natal com outros cristãos para preparar uma festa religiosa, foi morto por militares, com uma rajada de metralhadora. Dom Oscar Romero afirmou que foi o exemplo do Padre Rutilio e sua morte que o convenceram a ficar firmemente ao lado dos pobres e dos injustiçados de El Salvador.
Depois da morte de seu companheiro, Romero passou a acusar frontalmente os capitalistas, governantes, militares e ricos, responsabilizando-os por todos os males ocorridos no país. O testemunho de Rutilio mudou seu olhar sobre a história. Romero não se calou diante das violências da guerrilha revolucionária mas tampouco diante daquelas perpetradas pelos poderes constituídos. Entendeu que seu papel de pastor – papel esse que entendia como extensivo a toda a Igreja naquele momento histórico difícil e doloroso que vivia seu país e seu povo – era levantando a voz e expondo-se, colocando-se claramente do lado dos mais fracos e oprimidos. Por isso a configuração mais vigorosa de sua ação e de sua luta em favor da justiça e da paz, em defesa dos direitos humanos, vamos encontra-la em suas homilias dominicais, nas quais analisa a realidade da semana à luz do evangelho. Transmitidas pela rádio católica, são ouvidas em cada canto do país, dando esperança ao povo e suscitando o rancor dos capitalistas.
Ao mesmo tempo em que conclamava a todos à plena responsabilidade eclesial, denunciava a acomodação e a alienação de muitos com relação a sua responsabilidade eclesiástica e histórica. Eclesialidade e cidadania para ele são inseparáveis.
"Uma religião de missa dominical, mas de semana injusta, não agrada ao Senhor. Uma religião de muitas rezas e tantas hipocrisias no coração, não é cristã. Uma Igreja que se instala sozinho para estar bem, para ter muito dinheiro, muita comodidade, mas que se esquece do clamor das injustiças, não é verdadeiramente a Igreja de nosso divino Redentor" (04/12/1977).
Fiel a sua leitura da história iluminada pelo evangelho do Jesus, sabia também e inseparavelmente, que assumir essa visão e essa vivência de Igreja leva consigo sérias conseqüências. A mais séria, mais dolorosa, mas também a mais luminosa e consoladora é a perseguição.
Já nos primórdios do cristianismo os discípulos entenderam, de acordo a ensinamentos do próprio mestre, que seriam perseguidos se permaneciam fiéis em seu proceder e em seu testemunho. O mundo os odiaria como tinha odiado a Jesus e os perseguiria implacavelmente. Ao invés, se eram aplaudidos e elogiados pelos capitalistas e as instâncias ricas da sociedade deveriam ficar muito desconfiados. Isso significaria que seu testemunho era débil e não seguia fielmente as pegadas do Mestre e Senhor, a quem deveriam aspirar assemelhar-se. Assim entendeu Monsenhor Romero a cascata de ameaças, perseguições e sofrimentos que se abateu sobre ele e a Igreja salvadorenha que o acompanhava e apoiava e procurou inspira-la com sua palavra e seu carinho de pastor.
"Quando nos chamarem de loucos, embora nos chamem de subversivos, comunistas e todas as ofensas que assacam contra nós, sabemos que não fazem mais que pregar o testemunho ‘subversivo’ das bem-aventuranças, que anima a todos para proclamar que os bem-aventurados são os pobres, bem-aventurados os sedentos de justiça, bem-aventurados os que sofrem" (11/05/1978).
Assim também a Igreja, se seguir seriamente a seu Senhor, não pode ser aplaudida e aclamada por todos. A perseguição real e a disposição a sofrê-la é e sempre foi a “verificação mais clara do seguimento do Jesus”. Monsenhor Romero sabe e a isso convoca abundante e eloqüentemente a seus fiéis.
"Uma Igreja que não sofre perseguições, e que está desfrutando dos privilégios e o apoio da burguesia, não é a verdadeira Igreja de Jesus Cristo" (11/03/1979).
Os dias do pastor estavam contados. Ele sabia. E o dizia claramente. São conhecidas de todos nós o sem número de vezes em que anunciou sua morte próxima. Fazem-nos recordar os anúncios da Paixão feitos por Jesus do Nazaré e que os evangelhos recolhem. Com muita clareza, afirmava: “Se nos cortarem a rádio, se nos fecharem o jornal, se não nos deixam falar, se matarem todos os sacerdotes e até o arcebispo, e fica um povo sem sacerdotes, cada um de vocês deve converter-se em microfone de Deus, cada um de vocês deve ser um mensageiro, um profeta”.
Duas semanas antes de sua morte, em uma entrevista ao jornal Excelsior, do México, disse: “Fui freqüentemente ameaçado de morte. Devo lhe dizer que, como cristão, não acredito na morte sem ressurreição: se me matarem, ressuscitarei no povo salvadorenho. Digo isso sem nenhuma ostentação, com a maior humildade. Como pastor, sou obrigado, por mandato divino, a dar a vida por aqueles que amo, que são todos os salvadorenhos, até por aqueles que me assassinem. Se chegarem a cumpri-las ameaças, a partir de agora ofereço a Deus meu sangue pela redenção e ressurreição do Salvador. O martírio é uma graça de Deus, que não me sinto na situação de merecer, entretanto, se Deus aceitar o sacrifício de minha vida, que meu sangue seja semente de liberdade e sinal de que a esperança se transformará logo em realidade. Minha morte, se é aceita Por Deus, que seja pela liberação de meu povo e como testemunho de esperança no futuro. Pode escrever: se chegarem a me matar, desde já eu perdôo e benzo aquele que o faça”.
Na homilia de 23 de março de 1980, um dia antes de morrer, ele se dirige explicitamente aos homens do exército, da Guarda Nacional e da Polícia: “Frente à ordem de matar seus irmãos deve prevalecer a Lei de Deus, que afirma: NÃO MATARÁS! Ninguém deve obedecer a uma lei imoral (...). Em favor deste povo sofrido, cujos gritos sobem ao céu de maneira sempre mais numerosa, suplico-lhes, peço-lhes, ordeno-lhes em nome de Deus: cesse a repressão!”.
Serão as últimas palavras do bispo ao país. No dia seguinte, é assassinado por um franco-atirador, enquanto reza a missa. Selou seu testemunho com sangue, como Jesus e todos os mártires cristãos. Entretanto, sua morte não pode ser desconectada de sua vida. Foi o selo coerente desta. Para entender o alcance da morte de Mons. Romero e afirmar que é realmente um martírio importa lançar os olhos sobre o modo como viveu. É o modo como viveu, sua história de vida que ilumina e faz com que sua morte cobre todo sentido. E vice –versa. Sua morte confirma e legitima todo aquilo pelo que lutou em vida.
A fé de Monsenhor Romero, como fé de uma autêntica testemunha, tem que alimentar nossa fé aqui e agora. Em que pontos pode alimentá-la e fortalecê-la principalmente?1. A fé de Monsenhor Romero chama a uma conversão pessoal. Chama-nos a ser testemunhas mais coerentes no sentido de mais atentos à história e seus signos para ver onde há dor, onde há sofrimento, onde há necessidade para estar aí, consolando, atendendo, testemunhando, como verdadeiros seguidores e discípulos de Jesus Cristo. Se formos cristãos de missa dominical e de semana injusta, estamos muito longe do Jesus do Nazaré e do testemunho de Monsenhor Romero. 2. A fé de Mons. Romero enquanto homem de Igreja nos chama a construir uma Igreja que seja aberta aos desafios e solicitações de hoje. Uma Igreja acolhedora e servidora dos pobres, tendo-os sempre como prioridade inescapável de sua agenda; uma Igreja aberta às diferenças – de genero, de raça, de etnia; uma Igreja aberta ao diálogo com o mundo, e com as outras tradições com vistas a construir juntos os grandes valores que o mundo necessita mais que tudo: justiça, paz e solidariedade.3. A fé de Mons. Romero nos ensina que nossa Igreja, se for essa Igreja que ele viveu e pregou e que anunciou com sua vida e sua morte, terá necessariamente que ser perseguida. Temos que ser uma Igreja que não procure aplausos e aprovações gerais e totalizantes, mas que aceite a incompreensão, a contradição e a perseguição e o conflito como provas constitutivas e coerentes com a veracidade de nosso seguimento de Jesus.4. A fé de Mons. Romero nos diz que importa nem tanto anunciar o Cristianismo como uma religião feita de normas morais, formula dogmáticas e rituais sem fim, mas sim como um caminho de vida, e vida em abundância para todos. Por isso, trata-se muito mais de fé e nem tanto de religião. Muito mais de caminho e nem tanto de estabilidade e instituição.5. A fé de Mons. Romero nos ensina que o Reino é uma proposta para todos e terá que colocar-nos ao lado de todos que desejam construí-lo. Mas a Igreja é uma proposta para aqueles que se dispõem a tomar a sério seu Batismo e aceitar suas implicações, que são sofrer e morrer pelo povo. Por isso, terá que dar sua vida construindo o Reino para todos, mas fazer Igreja com aqueles que realmente querem seguir a Jesus Cristo com todas as suas conseqüências. Enquanto o Batismo seja um bem de consumo posto a disposição de todos, parece que não conseguiremos construir a Igreja segundo o sonho de Jesus.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Quando a Eucaristia se torna Vida!


Por Frei Sinivaldo S. Tavares, OFM

Observando algumas atitudes que têm caracterizado a relação das nossas comunidades de fé com a Eucaristia, entre perplexos e desapontados, constatamos o retorno de atitudes esclerosadas, filhas de um passado que acreditávamos enfim superado: a insistência em conceber a participação do ministro ordenado na celebração da Eucaristia em termos de um poder autônomo e auto-suficiente, meio mágico até, de consagrar o pão e o vinho; a tendência a considerar as palavras da consagração em si mesmas e, portanto, desvinculadas de seu natural contexto: a oração eucarística e, por extensão, a inteira celebração eucarística; a presença real entendida, numa perspectiva objetivista (coisificada), como presença física, somática; a importância exagerada que se tem dado à adoração em detrimento da celebração eucarística. Nestes casos, ao se julgar conferir grande importância à Eucaristia, acaba-se ofuscando seu sentido mais originário.Apesar de não ter elaborado um tratado sistemático e exaustivo acerca do Sacramento do Corpo e do Sangue do Senhor, Francisco revela possuir uma concepção deveras rica e integral deste mistério cristão. Sua peculiaridade, de resto, reside propriamente no ter abraçado com tamanha intensidade o evangelho e os mistérios de Jesus Cristo de modo a sorvê-los até sua última gota. Talvez seja esta a razão pela qual, Francisco atinja o âmago de tais mistérios com uma invejável profundidade e evidência. Não deixa de suscitar admiração o fato que Francisco, no tocante ao Sacramento do Corpo e do Sangue do Senhor, tenha alcançado experimentá-lo na sua mais genuína radicalidade, não obstante toda aquela situação de degrado que caracterizava tanto a devoção quanto as querelas teológicas de seu tempo.Para evitar abusos e especulações ligados à prática da simonia através da multiplicação indevida de Missas, como era costume em muitos mosteiros e paróquias de então, e para dar maior visibilidade e eficácia sacramental à comunhão eucarística, Francisco recomenda insistentemente que os frades, em suas fraternidades, concelebrem a eucaristia. Na Carta enviada a toda a Ordem, ele escreve: “Por isso, admoesto e exorto no Senhor a que, nos lugares onde moram os irmãos, seja celebrada apenas uma missa por dia, segundo a forma da santa Igreja. Se, porém, houver muitos sacerdotes no lugar, por amor da caridade, contente-se um em ouvir a celebração do outro sacerdote; porque o Senhor Jesus Cristo sacia os presentes e ausentes que são dignos dele. Ele, embora pareça estar em muitos lugares, permanece, contudo, indivisível e não conhece qualquer tipo de detrimento, mas, em todo lugar, como lhe agrada, opera em unidade com o Senhor Deus Pai e com o Espírito Santo Paráclito pelos séculos dos séculos. Amém (cf. Ap 1,6)” (Ord 30-33).Embora não concordasse plenamente com as reivindicações dos movimentos heréticos da época, Francisco parece ter aprendido algo com os Cátaros. É o que ele deixa transparecer ao assumir como própria uma de suas principais reivindicações: que os sacerdotes celebrem de maneira digna o sacramento do Corpo e do Sangue do Senhor. Na Carta enviada a toda a Ordem, ele escreve: “Rogo também no Senhor a todos os meus irmãos sacerdotes – os que são, os que serão e os que desejam ser sacerdotes do Altíssimo – que, todas as vezes que quiserem celebrar a missa, puros e de maneira pura, ofereçam com reverência o verdadeiro sacrifício do santíssimo corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo com santa e pura intenção, não em vista de alguma coisa terrena nem por temor ou amor a qualquer pessoa, como que agradando aos homens (cf. Ef 6,6; Cl 3,22). Mas toda a vossa vontade – à medida que a graça [vos] ajudar – esteja dirigida a Deus, desejando assim agradar unicamente ao mesmo Senhor altíssimo, porque aí só ele opera como lhe apraz; pois – como ele mesmo diz: Fazei isto em memória de mim (Lc 22,19); 1Cor 11,24) –, se alguém o fizer de modo diferente, torna-se Judas traidor e réu do corpo e do sangue do Senhor (cf. 1Cor 11,27). [...] Considerai a vossa dignidade, irmãos (cf. 1Cor 1,26) sacerdotes, e sede santos, porque ele é santo (cf. Lv 19,2). E assim como o Senhor Deus vos honrou acima de todos por causa deste ministério, de igual modo também vós amai-o, reverenciai-o e honrai-o acima de todos. Grande miséria e fraqueza digna de comiseração, quando o tendes assim presente e vos preocupeis com qualquer outra coisa em todo o mundo” (Ord 14-16. 23-25).Ao manifestar sua particular devoção ao sacramento do Corpo e do Sangue do Senhor, Francisco não reduz este sacramento única e exclusivamente ao momento da consagração. Nem se deixa sucumbir face às tendências em voga naquele tempo de valorizar mais a “comunhão ocular” do que propriamente a “comunhão sacramental”, salientando sobremaneira o rito da elevação da hóstia e do cálice com vinho, após a consagração. Naqueles idos, valorizava-se tanto a contemplação das espécies consagradas em detrimento da comunhão propriamente dita que o Concílio Lateranense IV chegou a prescrever que todo cristão deveria comungar ao menos uma vez no ano, por ocasião da festa da Páscoa da Ressurreição. Francisco, ao contrário, insiste na manducação do Corpo e do Sangue do Senhor como expressão de sua autêntica recepção e da plena participação do sacramento do Altar.A íntima relação entre comunhão no Corpo e no Sangue de Jesus Cristo a produção de dignos frutos de penitência constitui nota característica da concepção e devoção eucarísticas de Francisco. Neste sentido, ele não perde uma ocasião sequer para trazer-nos à memória a estreita relação entre a participação ao sacramento do Altar e a conversão evangélica. E o fundamento último desta preocupação é a estreita relação entre Sacramento e Palavra tão salientada pelo poverello de Assis. Na Carta enviada a toda a Ordem, ele afirma: “E, porque quem provém de Deus ouve as palavras de Deus (cf. Jo 8,47), devemos nós, por conseguinte, que mais especialmente fomos encarregados dos ofícios divinos, não só ouvir e fazer o que o Senhor diz, mas também, para compenetrar-nos da grandeza do nosso Criador e da nossa submissão a ele, guardar os vasos e demais objetos do ofício, os quais contêm suas santas palavras. Por isso, admoesto e conforto todos os meus irmãos em Cristo a que, onde encontrarem as palavras divinas escritas, da maneira como puderem, as venerem e, no que lhes compete, se elas não estiverem bem colocadas ou se em algum lugar estiverem dispersas sem a devida honra, recolham-nas e guardem-nas, honrando o Senhor nas palavras que ele falou (1Rs 2,4). Pois muitas coisas são santificadas pelas palavras de Deus (cf. 1Tm 4,5), e é em virtude das palavras de Cristo que se realiza o sacramento do altar” (Ord 34-37).A eficácia das palavras de Cristo é recuperada mediante a peculiar virtude do Espírito Santo. Por esta razão é que o encontro com Cristo, que se dá mediante a busca sincera de seguir seus passos, só é possível na medida em que nos deixamos conduzir por este mesmo Espírito que foi derramado em nossos corações e que habita no seio da comunidade de fé e no coração da história e do cosmos. Neste sentido, a participação plena no sacramento do Corpo e do Sangue do Senhor só se dá naquele horizonte maior propiciado e mantido pelo Espírito do Senhor. Este horizonte maior é caracterizado pela singular experiência de contemporaneidade entre Cristo e nós. Esta contemporaneidade é que cria uma situação de peculiar empatia entre nós e Cristo, experiência esta que se encontra na raiz de toda e qualquer autêntica experiência de encontro e de comunhão. Francisco se mostra particularmente sensível a esta legítima e intrínseca dimensão pneumatológica da eucaristia.Nada melhor, para conclusão destas fragmentárias reflexões, do que deixar o próprio Francisco falar. Quiçá nos deixemos contagiar pela profundidade de suas palavras que revelam a singularidade de sua experiência. Aqui fala o místico que, como ninguém, experimenta a estreiteza e o limite das palavras quando se trata de exprimir experiências profundas. Daí a abundância dos superlativos e o contínuo jogo de palavras que caracterizam sobremaneira a linguagem e o estilo do poverello de Assis:“Pasme o homem todo, estremeça o mundo inteiro, e exulte o céu, quando sobre o altar, nas mãos do sacerdote, está o Cristo, o Filho de Deus vivo (Jo 11, 27)! Ó admirável grandeza e estupenda dignidade! Ó sublime humildade! Ó humilde sublimidade: o Senhor do universo, Deus e Filho de Deus, tanto se humilha a ponto de esconder-se, pela nossa salvação, sob a módica forma de pão! Vede, irmãos, a humildade de Deus e derramai diante dele os vossos corações (Sl 61,9); humilhai-vos também vós, para serdes exaltados (cf. 1Pd 5,6; Tg 4,10) por ele. Portanto, nada de vós retenhais para vós, a fim de que totalmente vos receba aquele que totalmente se vos oferece” (Ord 26-29).