LITURGIA DIÁRIA

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Entrevista com o assessor da Comissão Episcopal para o Diálogo Ecumênico e Inter-religioso da CNBB


"O ecumenismo é fruto do Espírito Santo"

Em todo o Brasil, as igrejas cristãs vivem, entre os dias, do domingo da Ascensão de Jesus ao de Pentecostes, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Tradicionalmente, a Semana de Oração é celebrada de 18 a 25 de janeiro, conforme proposto pelo presbítero anglicano, Paul Wattson, na Celebração da"Oitava pela unidade da Igreja", em 1908. O período abrangeria, portanto, a festa da Conversão de São Paulo.
Já no Hemisfério Sul, onde o mês de janeiro é um período de férias de verão, foi escolhida outra data nas proximidades da festa de Pentecostes, o que representa também uma outra data simbólica para a unidade das igrejas.
O assessor da Comissão Episcopal para o Diálogo Ecumênico e Inter-religioso, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), padre Elias Wolff, explica os objetivos da Semana de Oração e como foi criada. Além disso, esclarece as principais diferenças entre ecumenismo e diálogo interreligioso.

noticias.cancaonova.com - Desde quando existe a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos? E como é marcada a cada ano?

Padre Elias Wolff - Desde de 1908, o presbítero anglicano, Paul Wattson, propunha uma semana de oração pela unidade dos cristãos, ficando este ano como o marco inicial. No ano de 2008, portanto, celebramos o centenário. E essa proposta foi ganhando força e fazendo história. No hemisfério sul, nós realizamos a semana no período entre o domingo da Ascensão de Jesus e o de Pentecostes, momento que tem grande valor simbólico para a unidade, em que esperamos o Espírito de Pentecostes, o Espírito da unidade. Já no hemisfério norte, a semana acontece sempre entre os dias 18 e 25 de janeiro, num período que envolve a festa de São Pedro e São Paulo, caracterizando também um grande valor simbólico, pois eles são as duas colunas da Igreja. É importante perceber que esta semana já tem um século de história.

noticias.cancaonova.com - Como tem sido o caminho de diálogo ecumênico e interreligioso, pelo país e no mundo?

Padre Elias Wolff - No Brasil, muitos organismos promovem o diálogo ecumênico e interreligioso. Tratando mais especificamente do diálogo ecumênico, é bem conhecido o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic), que é formado hoje por seis igrejas e promove vários momentos de encontro, seminários de estudos, debates e convivência entre as igrejas cristãs do Brasil. Uma outra instituição é a Coordenadoria Ecumênica de Serviços (CESE), criada em 1973 e com sede em Salvador. A CESE se preocupa mais com a dimensão social do ecumenismo, ou seja, os projetos sociais acompanhados e promovidos pela igrejas integrantes da coordenadoria. Na Igreja Católica, temos também a Comissão Episcopal para o Diálogo Ecumênico e Interreligioso. Esta comissão é composta por três bispos e um assessor e, no momento atual, eu sou o assessor, e ela tem como finalidade fazer com que a Igreja no Brasil viva o ensinamento ecumênico do Concílio Vaticano II e assumir a orientação ecumênica da Igreja universal de acordo com a nossa realidade. São algumas das iniciativas ecumênicas do Brasil.Outras igrejas, como a Luterana, Anglicana, Presbiteriana, também tem suas iniciativas e muitos outros organismos ecumênicos, como o Conselho Latino Americano de Igrejas (CLAI). Em nível mundial, creio que a maior expressão de diálogo ecumênico seja o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), criado em 1948, em Amsterdã, Holanda, e que congrega, hoje, cerca de 350 igrejas. É um organismo com grande expressão na promoção do diálogo, na cooperação entre as igrejas, nos projetos de evangelização e também em estudos sobre questões teológicas e doutrinais que buscam unir os cristãos numa só fé.

noticias.cancaonova.com - Como pode ser avaliada essa busca pela unidade no pontificado do Papa João Paulo II e agora de Bento XVI?

Padre Elias Wolff - João Paulo II foi o grande promotor do ecumenismo. Muitas foram as iniciativas por ele tomadas, como visitas e recepção de líderes de outras igrejas. Foi, por exemplo, ao CMI, promoveu diálogos interreligiosos com encontros em Assis e Roma, e foi o primeiro papa que escreveu uma encíclica, 'Ut unum sint', de 1996, falando especificamente do ecumenismo. O Papa Bento XVI dá continuidade a esse ensinamento ecumênico dos papas anteriores. Percebemos que, em quase toda semana, Bento XVI faz um pronunciamento a favor do ecumenismo e do diálogo das religiões. Em todas as suas visitas, há sempre agendado um encontro com líderes de outras igrejas ou de outras religiões. Assim foi quando veio ao Brasil para abrir a Conferência de Aparecida, quando também teve encontros com representantes de outras igrejas. Agora, recentemente, em sua viagem à Terra Santa, também participou de reuniões com líderes de outras religiões e fez belíssimos pronunciamentos a favor do diálogo interreligioso. Eu creio que os nossos papas estão buscando viver aquilo que a Igreja afirma no Concílio Vaticano II, ou seja, que o ecumenismo é fruto do Espírito Santo, a busca da unidade e cooperação dos cristãos é uma graça, é um dom que Deus nos dá e, ao mesmo tempo, uma vocação, um serviço, um compromisso que nós temos.E os papas tem consciência de que isto faz parte da nossa identidade cristã e também da nossa identidade eclesial. Hoje, um cristão católico é ecumênico pela sua consciência cristã e de Igreja. Basta ler os documentos da Igreja e perceber que nós não podemos dizer que ecumenismo não tem nada a ver conosco. Pelo contrário. Como eu costumo sempre dizer, quem é católico e não é ecumênico, não apenas está falhando com relação ao Evangelho de Jesus, mas também está desobedecendo ao magistério da Igreja e aos documentos dos papas que promovem o ecumenismo. Portanto, ser católico significa também ser ecumênico.

noticias.cancaonova.com – Qual é a diferença entre ecumenismo e diálogo interreligioso?

Padre Elias Wolff - O diálogo ecumênico acontece entre os cristãos. Historicamente, tem sido assim. Desde 1910, aconteceu o primeiro encontro de missionários, em que buscavam responder à pergunta "o Cristo que nós pregamos serve mais para unir ou para dividir aqueles que nos unem". Esta foi a grande questão na conferência de Edimburgo, na Escócia, em 1910. Digamos que essa conferência é o marco inicial do movimento ecumênico que busca a unidade dos cristãos. Então, ser ecumênico é, com base na fé em Cristo Jesus, no Evangelho e na consciência de Igreja, dialogar com outro cristão, buscando o entendimento mútuo. São muitas as tradições cristãs e, entre elas, há muitas divergências na compreensão do Evangelho, do que é ser igreja, dos sacramentos e, apesar disso, todos nos dizemos cristãos. Então, ser ecumênico é procurar superar as divergências ou até mesmo o que pode provocar contradição entre os cristãos. É também buscar elementos que nos unem numa mesma fé. É sermos discípulos de Jesus. Nós, enquanto cristãos, não podemos nos sentir confortáveis com a situação de separação dos cristãos. É o grande desejo de Jesus: "Que todos sejam um". Assim, nós esperamos que, um dia, na graça do Espírito Santo, os cristãos do mundo inteiro possam se reconhecer, confessando a mesma fé em Jesus Cristo e no seu Reino.
Já o diálogo das religiões é o encontro entre as tradições religiosas. Nós não buscamos comunhão na fé, porque as diferenças na compreensão de Deus, do sagrado, do transcendente e da vida são muito grandes. O que se busca, portanto, é favorecer uma convivência pacífica entre as religiões, isto é, entre cristãos, mulçumanos, hindus, xintoístas, tradições afro-brasileiras. Cada religião, mantendo sua verdade de fé, pode cooperar com outra tradição religiosa na busca da paz no mundo, na superação da injustiça social, da violência e de todos os elementos que ferem a dignidade humana e que também ameaçam a vida do planeta. É isto que se busca: uma cooperação das religiões por um mundo melhor.

In http://www.noticias.cancaonova.com/

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