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LITURGIA DIÁRIA

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Natal: Relembrando nossa vocação de ser humanos


Maria Clara Lucchetti Bingemer


Natal é festa de Deus entrando na história e realizando o milagre da Encarnação. É festa da Virgem Maria dizendo SIM ao plano de Deus e ficando grávida do Espírito Santo, passando a trazer em seu seio aquele que seria o homem Jesus , conhecido como o Galileu. É a festa do amor, da aliança de Deus com a humanidade,festa da Luz e da Alegria.Por isso mesmo é a festa que nos ensina e nos relembra que nossa verdadeira e mais profunda vocação é sermos humanos, verdadeiramente humanos, profundamente humanos. Pois somente mergulhando fundo em nossa humanidade realizamos aquilo para o que Deus nos criou: sermos imagem de seu Filho que, ele também, se fez humana, aprendeu a ser humano, é humano sem deixar de ser Deus.Assim, a festas do Natal é a festa de nossa vocação: vocação de ser humanos. A gente sempre acha que ser humano é algo que não se aprende. Já nascemos assim, já somos assim, já sabemos tudo sobre o que somos. É verdade em parte apenas. Por outro lado, ser humano é algo que se aprende. Senão, como se explica que tantas vezes agimos desumanamente? Como poder entender o fato de que em tantas situações nos comportamos mais animalescamente que o mais instintivo dos animais?São muitas as ocasiões em que, em lugar de nos humanizarmos, nos animalizamos, nos vegetalizamos. E, pior ainda, em lugar de ajudarmos a humanização do outro, o animalizamos, o desumanizamos. Toda vez que não nos abrimos à solidariedade, mas violentamente guardamos tudo para nós, nos assemelhamos ao animal que avança e morde quem quer pegar sua comida. Toda vez que usamos irresponsavelmente de nossa sexualidade, nos assemelhamos aos animais que por instinto e guiados pelo olfato sentem o cio da fêmea e o assédio do macho e copulam por instinto, garantindo a multiplicação da espécie, mas não vivendo o amor que é entrega e doação ao outro. A Encarnação de Deus que celebramos no Natal quer nos dizer que Deus, sem deixar de ser Deus, abre mão de suas prerrogativas e entra na carne frágil e limitada que é a nossa. Aprende a ser humano, a ser temporal, espacial; a ter frio, fome, sede, calor e sono; a cansar-se e a sentir desanimo; a ter que superar angústias e a não saber o futuro; a caminhar em disponibilidade diante de um amanhã que pode levantar-se ameaçador ou sorridente, trazer alegria ou opressão. Deus feito carne, feito ser humano, caminha na história para ensinar que ser humano é uma vocação alta, séria, que se aprende a cada dia, deixando a alteridade do outro requerer nossa atenção e nosso amor; deixando que o outro diga o que devemos fazer de acordo com suas necessidades e seus desejos; renunciando a nossas vontades e instintos imediatistas para que o outro ocupe o espaço do nosso querer e nosso agir através de seu rosto que interpela e constitui uma epifania. O Natal é a festa dessa vocação comum a todos nós: o aprendizado de ser humano, único caminho de acesso ao verdadeiro Deus. A partir desta vocação que é nosso solo comum, desenvolvem-se então todas as vocações específicas, leigas, ordenadas, consagradas, religiosas. Porque é humano o homem um dia deixa seu pai e sua mãe para unir-se a sua mulher e formar com ela uma só carne. Porque é humana a mulher um dia deixa sua família e a proteção do lar paterno para unir-se ao homem que ama e dele gerar filhos e formar a sua família. Porque é humano um dia um homem atende ao chamado que lhe ressoa dentro do peito de não constituir família nem nada ter de seu a fim de colocar-se inteiramente ao serviço do povo de Deus. Porque são humanos, tantos homens e mulheres renunciam a possuir bens, a constituir família, e a decidir sobre a própria vida, consagrando-se pelos votos religiosos e dispondo-se a ser enviados em missão longe de seu país, sua língua, sua cultura. E muitas vezes ali dão seu sangue e sua vida, como a religiosa americana Dorothy Stang, assassinada em Anapu, no Pará, como o jesuíta basco Ignacio Ellacuria, assassinado com toda a sua comunidade em El Salvador, como o eremita francês Charles de Foucauld assassinado em pleno deserto islâmico, em terras touaregs. A vocação primordial do ser humano é essa: ser humano. E viver plenamente essa humanidade poderá expressar-se de muitas maneiras. Porém, se a expressão primordial não estiver expressa e vivida, todas as maneiras e especificidades estarão falseadas, desviadas e não poderão comunicar nada aos homens e mulheres com quem convive. Só é testemunha quem é primeiro e antes que nada, humano. O Natal ensina isso, revelando ser esse o caminho que o próprio Deus escolheu: revelar quem é, manifestar sua divindade assumindo plenamente a humanidade.


A encarnação do Verbo de Deus


D. Eusébio Scheid


Estamos nos últimos dias de preparação para a grande festa do Cristianismo, o Santo Natal, quando comemoramos a Encarnação do Verbo de Deus, Jesus Cristo. Neste ponto central da História, concentram-se todas as profecias anteriores e as expectativas do futuro, justificadas e explicadas pela vinda do Messias. Ele é o fundamento da esperança para o mundo, em meio às injustiças e crueldades que marcam a nossa História.
Mas, por que Jesus veio à terra? Antes de tudo, para nos revelar Deus-Pai, identificar-se como seu divino Filho e demonstrar a atuação do Espírito Santo na Trindade, na Igreja e em cada um de nós. Veio, também, esclarecer o grande mistério do ser humano, que só podemos compreender melhor quando confrontado com o homem novo - Cristo, pois o velho homem - Adão, desfigurou a história e a face da humanidade. Em Cristo, o ser humano está destinado à glória, resplandecendo em si o brilho do próprio Deus. Pela fé no Verbo Encarnado, Rei do Universo e Senhor da História, vislumbramos o termo para o qual se encaminha a realidade deste mundo.
Jesus também veio nos ensinar como ser irmãos. O Natal é a festa da fraternidade. Porém, é fácil afirmar isto e ficar apenas nas palavras. Como ser irmãos de verdade, sem acepção de gênero, raça, cultura ou religião? Somos irmãos, de fato, sobretudo daqueles que celebram conosco o mistério da Encarnação do Verbo de Deus. Isto porque fomos adotados pelo Pai, em seu Filho, nosso Salvador, que se fez homem para nos restaurar, assumindo a dramaticidade da vida humana: a exclusão social, sem lugar para nascer; a perseguição e o exílio, ainda na infância; décadas de trabalho silencioso e oculto; três anos de missão evangelizadora. Finalmente, no desfecho de sua vida, pelo Mistério da cruz, pagou com seu preciosíssimo sangue o preço definitivo desta adoção.
Jesus veio à terra, ”veio para o que era seu, mas os seus não o receberam”. Nem todos reconheceram Jesus e o aceitaram. Isto ocorre até os nossos dias. “Mas a todos aqueles que o receberam, aos que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1,11-12). São João Batista, o maior de todos os profetas nascidos de mulher (cf. Lc 7,28), acolheu o Senhor, antes mesmo que ambos nascessem, mostrando que sua vida estaria, definitivamente, marcada pela presença do Messias Salvador: “Apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu no seu seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo” (Lc 1,41).
Quem acorreu ao Presépio para adorar Cristo, verdadeiro Deus, revelado em natureza humana? Os primeiros foram os anjos, a cantar louvores: “Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens por Ele amados” (Lc 2,14). Depois, os homens simples do campo – os pastores: “Foram com grande pressa e acharam Maria e José, e o menino deitado na manjedoura. Vendo-o, contaram o que se lhes havia dito a respeito deste Menino” (Lc 2,16-17).
Os grandes Sábios do Oriente fizeram, pelo menos, 2 ou 3 anos de viagem para chegarem até o Rei, nascido em Belém. Deixaram-se conduzir por uma estrela luminosa, que os convidara a caminhar, e partiram em busca da verdadeira Estrela da Manhã, que é o próprio Cristo Jesus: “Eu sou a raiz e o descendente de Davi, a estrela radiosa da manhã” (Ap 22,16).
Natal é uma festa de luz. E as luzes despontam pelas ruas enfeitadas. Há luz também dentro das casas, no pinheirinho e no presépio iluminados. A luz é algo de divinal, que ultrapassa as explicações simplesmente humanas. Luz é alegria, festa, oposição a toda treva, tristeza, mentira e embuste. A verdadeira Luz veio até nós e o próprio Cristo se define como tal: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12). Essa luz há que brilhar dentro de nós e ao redor de nós. Sejamos iluminados.
A adoração dos Sábios a Jesus nos introduz, ainda, numa outra reflexão: com o Advento do Mestre dos mestres, a sabedoria tomou outro rumo, surgiram referências completamente novas para as nossas vidas. Baste citar, por exemplo, a moral e a ética. Cristo veio ensinar uma nova percepção da realidade e purificar normas de comportamento. Conferiu critérios bíblicos aos dissolutos costumes pagãos e irrigou com a graça a aridez da lei judaica, que mostrava o erro, mas não dava a força para superá-lo. Em Cristo, temos o auxílio divino para podermos praticar e viver o que Ele anunciou.
Esta nova referência que Jesus veio trazer nós chamamos de Boa Nova. O Natal é festa da Boa Nova, que anuncia o surgimento de uma ordem inédita para as relações humanas, na qual prevalece a justiça divina, transformando e purificando a justiça humana. O Natal nos leva a reconhecer que a autêntica promoção do ser humano não está na potência das armas, nem no poder econômico, como tinham os romanos, no tempo de Jesus, e tantos outros impérios que se seguiram na história mundial. Quem, até então, havia proclamado que o maior no seu reino, seria aquele que se tornasse pequenino como uma criança? Somente Jesus o fez, tornando-se, ele mesmo, um Deus-Menino (cf. Mt 18,4). Por isso, façamos do Natal a festa da simplicidade. Assim, estaremos em sintonia com o verdadeiro Senhor desta celebração. Quando se abre o drama do Presépio, Jesus, não encontrando abrigo, vai nascer sobre a pobreza da palha, junto ao cocho e próximo, até, do esterco. Ali já se prenuncia o caminho do Calvário mas, ao mesmo tempo, começam a jorrar as fontes da Salvação. A novidade da graça flui para a Igreja, e para cada um de nós, a partir da cruz: “Cristo Jesus, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de todo nome” (Fl 2,8-9). “Não existe salvação em nenhum outro, pois debaixo do céu não existe outro nome dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos” (At 4,12).


Uma santidade para os tempos de hoje


Maria Clara Lucchetti Bingemer


O mundo em que vivemos não é mais como aquele onde viveram nossos antepassados. Isso é verdade da economia, das comunicações, e também e não menos dasreligiões, sua prática e o compromisso social que elas motivam. Se é verdade da religião, desua prática e do compromisso dela derivado, também o é da teologia, que é a reflexão sobrea fé que procura expressar-se no confuso campo religioso que hoje percebemos. Aconteceram muitas mudanças no decurso das últimas décadas sobre a vivência da fé. Mudou o perfil dos agentes sociais, a configuração da militância cristã e seus efeitos e reflexos sobre o entendimento que se tem sobre a maneira de viver a fé. É o momento de nos perguntarmos para onde vai essa nova maneira de conceber a vida cristã que deverá ser vivida por epara esses novos agentes e protagonistas.Hoje vivemos num mundo onde a religião muitas vezes desempenha mais o papelde cultura e força civilizatória do que propriamente de credo de adesão que configura a vida. a pluralidade advinda da globalização afeta não apenas os terrenos econômico e social, mas igualmente os políticos, sociais, culturais e também religiosos. Hoje as pessoas nascem e crescem no meio de um mundo onde se cruzam, dialogam e interagem de um lado o ateísmo , a descrença e/ou a indiferença religiosa, e de outro lado várias religiões, antigas e novas que se entrecruzam e se interpelam reciprocamente. O Cristianismo histórico se encontra no meio desta interpelação e desta pluralidade.A sacralidade tradicional apresentava uma face heterônoma, ou seja, supunha a adesão a um conjunto de normas e de verdades que , vindas de fora, se impunham ao ser humano como indispensáveis para a experiência da fé e a prática da religião. Hoje, após o advento e a crise da modernidade, a heteronomia encontra-se na sombra, e em seu lugar aparece, clara e inquestionável, a autonomia, ou seja, a liberdade do sujeito humano de fazer suas opções, escolher seu caminho e seu destino, sem se reger por autoridade alguma que lhe seja imposta desde fora dele mesmo e de sua consciência. A filosofia moderna reforçou esta afirmação de fundo e teve seu impacto e conseqüências sobre a vivência da fé e da espiritualidade cristãs. Hoje, com a queda dos antigos paradigmas e o advento dos novos, e com a complexificação do campo da vivência do religioso, a mudança de rosto dos agentes, o lugar e o papel da autonomia e heteronomia se apresentam de forma diferente.
O momento atual implica em que, no meio da secularização e a pluralidade religiosa, em meio à fragmentação mesma da pós-modernidade, o ser humano redescobre o primado da alteridade e revaloriza a experiência dessa mesma alteridade. Disso dão testemunho a volta a um crescer de importância dos paradigmas pessoais, das situações humildemente concretas, onde o Bem, o Amor, a Plenitude, se encarnam em pessoas vulneravelmente humanas, limitadas, frágeis, pecadoras e mortais. Aí é o lugar onde a resposta nos está sendo dita e onde o intrincado dilema entre autonomia e heteronomia vai encontrar sua possível interface. Não pela vaidade das hipóteses teórico-especulativas, mas sim pelo testemunho daqueles e daquelas que tocaram a esfera da Alteridade que lhes voltou a dar sentido à vida fragmentada pelo estilhaçamento de uma compreensão global do mundo e da vida. Desde o ponto de vista cristão, trata-se de aventurar-se a falar de algo que se conhece por experiência, mas que é infinitamente maior do que a estatura humana, seus vícios e erros: trata-se da intimidade com Deus, da nova compreensão do que seja ou venha a ser a santidade.Se o ideal, a finalidade do ser humano , do indivíduo é o "eu " como o mesmo, a heteronomia e a alteridade que aparecem como norma, podem realmente ser experimentadas como escravidão, como alienação, diante do outro que me obriga, que me oprime ou que me aliena. Se o ideal e a finalidade são os outros, ou seja, são a construção da comunidade e o estabelecimento de relações de solidariedade, de liberdade vivida na realidade, então nesse caso a alteridade do outro passa a ser - com todos os riscos e perigos e conflitos existentes pelo caminho - condição de possibilidade do "eu", algo que o institui,o funda, e lhe permite ser e existir.O cristianismo coloca como caminho possível da identidade do "eu"o amor ao outro. Amar o outro como a si mesmo é, desde o Antigo Testamento, o maior mandamento, paralelo à grandeza de amar a Deus sobre todas as coisas. No Novo Testamento ambos são tomados, segundo Jesus, como resumo, síntese feliz da lei e dos profetas. No cristianismo ,portanto, o ser humano é visto como alguém livre para amar. A liberdade não é concebida como uma heteronomia opressiva, no sentido de uma lei exterior que esmaga e destrói a subjetividade, mas é dom gratuito de Deus que coloca e recoloca sempre de novo o homem livremente no caminho do amor, no percurso em direção ao outro. E se Paulo afirma que não é a lei que salva, por outro lado é o mesmo Paulo que insiste que na obediência amorosa é que está a verdadeira liberdade, desde que se entenda a obediência - o verbo ob audire significa escutar - como escuta prática da Palavra instituinte, reveladora e fundadora de Deus.Talvez o nó da questão - a partir da visão cristã – esteja então na superação da compreensão de autonomia e de heteronomia como dois pólos irreconciliáveis, sem que haja saída possível para o impasse. A visão cristã tenta dar um passo adiante nesse sentido, ao dizer que a liberdade não vem puramente de fora, mas está dentro do ser humano, como inscrição ali gravada, da interpelação epifânica, manifestativa do rosto do outro – do pobre,da viúva, do órfão, do estrangeiro - que institui para ele a única lei, que é a lei do amor. E o amor aí entendido não o é apenas em termos de busca do prazer e desatisfação dos instintos e das necessidades. Mas traz o selo da sacralidade, enquanto é feitode saída de si mesmo, de entrega gratuita de si, de oblatividade, na qual tudo é posto a serviço da construção de uma solidariedade fraterna, de novas relações, de um reino de liberdade em que mesmo a renúncia sexual pode ter o seu lugar, enquanto opção de liberdade em nome de um projeto maior. Ter utopias que sejam motor davida; sentir sob os pés um sentido maior que lhes sustente a existência e pelo qual sejam capazes de ir até o fim no êxodo de si mesmos e no dom da própria vida – eis a santidade que o mundo de hoje necessita.


Domingo, o dia do senhor


Dom Orani João Tempesta


O terceiro dia após a Paixão, o primeiro dia da semana, quando Jesus Cristo ressurgiu dentre os mortos, é o Domingo, o dia do Senhor! “No primeiro dia, bem de madrugada, as mulheres foram ao túmulo levando perfumes que tinham preparado. Encontraram a pedra removida, mas, ao entrarem não encontraram o corpo de Jesus e ficaram sem saber o que estava acontecendo. Nisso, dois homens com vestes resplandecentes pararam perto delas. Tomadas de medo, elas olhavam para o chão. Eles, porém, disseram-lhes: “Por que estais procurando entre os mortos aquele que está vivo? Não está aqui. Ressuscitou!”(Lc, 24,1 a 6).É o primeiro dia da semana, que na narração do Gênesis corresponde ao dia em que foi criada a LUZ (Gn, 1, 3).O Domingo, primeiro dia da semana, em razão de ser o dia em que o Senhor ressurgiu dentre os mortos, tomou, tanto no Oriente como no Ocidente, o lugar do sábado, que na narrativa bíblica da criação do mundo foi o dia que o Criador repousou e santificou esse dia.É uma linguagem simbólica, pois o Deus Criador está sempre operante, e a criação do mundo se renova a cada dia. Os primeiros cristãos, como os narram as Escrituras, se reuniam no primeiro dia da semana – quando se encontraram com Jesus Cristo Ressuscitado! Daí para frente, para os cristãos, a partir do sábado à noite passou o dia de descanso, o dia do Senhor, o dia da Celebração da Eucaristia, o dia de encontro com a sua comunidade! A Ressurreição de Cristo é o acontecimento central da fé e da história – daí vem a nossa celebração semanal desse encontro.A vida toda do homem é para ser vivida como tempo de louvor e agradecimento ao Criador e, por isso, necessita o homem de momentos explícitos de oração, nos quais todo o seu ser é envolvido pela pessoa terna de seu Deus e Pai.O Domingo é, pois, o dia por excelência para que essa relação – Deus e homem – seja intensificada, mas, também, o Domingo é o dia do repouso, no qual se interrompe toda a atividade de trabalho para que haja recuperação dessas horas, que muitas vezes oprime o homem.Sabemos como em outras culturas o dia de descanso é respeitado por todos e não há nenhuma dificuldade em sair de suas casas para louvar a Deus nesses dias consagrados!Todavia, na sociedade ocidental hodierna, as evoluções sócio-econômicas, a mudança cultural, a dificuldade em viver os valores da vida cristã acabaram por modificar sensivelmente o sentido sacro do repouso para transformá-lo, unicamente, em dia de lazer, sem qualquer conotação com o sentido original do Domingo.Sem deixar de reconhecer o sentido positivo que o descanso tem para o ser humano, não podemos deixar de ver que quando o lazer se torna o único objetivo do descanso dominical, o homem acaba por isolar-se em seu mundo e esquece a dimensão mais sublime que é esse dia santificado pelo Senhor – esquece o transcendente. Não se faz mais a memória dos acontecimentos que Deus nos proporciona em nossa caminhada.Por isso, vemos multidões de pessoas que lotam os lugares de lazer e compras, que são os novos templos de adoração do homem, que vagam engalanados por estímulos de compras de coisas, muitas vezes supérfluas, que lhe deixam um vazio imenso, uma vez que seu vazio existencial não será preenchido com coisas materiais, mas quando ele, humildemente, se volta para seu Deus e Criador. Esquecemos que só Deus basta! É o grito que ecoa do Carmelo, cuja reformadora comemoramos dias atrás. Um superior geral de uma ordem dizia que gostava de passear nos locais de compras e de consumo para ver de quanta coisa ele não precisava para ser feliz! Neste tempo de relativismos e negligências de nossa caminhada cristã, é muito importante que o Domingo volte a ser o dia do Senhor, dia de descanso, é verdade, mas dia em que o homem se volta para seu Deus e lhe agradece a vida, os bens que tem, a saúde, a família, a alegria de viver, e isso, como comunidade orante!O Domingo é, pois, o dia do louvor ao Senhor, mas também de ação de graças pela vida, pelo céu, pelo ar, pela nossa pátria, pela nossa fé.Mesmo em países em que o Domingo é um dia de trabalho normal, os cristãos de ontem e de hoje procuram celebrar até de madrugada ou altas horas da noite e, ao celebrá-lo, sempre têm em mente e coração que era o dia do Senhor que vem vindo e elevavam seu grito de esperança: “maranatha” Vem, Senhor Jesus, vem Senhor Jesus!O saudoso Pontífice João Paulo II, a 31 de maio de 1998 publicou a Carta Apostólica “Dies Domini”. Com grande propriedade adverte o Servo de Deus: “Ao domingo, portanto, aplica-se, com muito acerto, a exclamação do Salmista: “Este é o dia que Senhor fez: exultemos e cantemos de alegria (118 [117], 24). Este convite à alegria, que a liturgia de Páscoa assume como próprio, traz em si o sinal daquele alvoroço que se apoderou das mulheres – elas que tinham assistido à crucifixão de Cristo – quando, dirigindo-se ao sepulcro “muito cedo, no primeiro dia depois do sábado” (Mc 16,2), o encontraram vazio. É um convite a reviver, de algum modo, a experiência dos dois discípulos de Emaús, que sentiram “o coração a arder no peito”, quando o Ressuscitado caminhava com eles, explicando as Escrituras e revelando-Se ao “partir do pão” (cf. Lc 24,32.35). É o eco da alegria, ao princípio hesitante e depois incontida, que os Apóstolos experimentaram na tarde daquele mesmo dia, quando foram visitados por Jesus ressuscitado e receberam o dom da sua paz e do seu Espírito (cf. Jo 20,1923).Retomemos o pensamento de João Paulo II revalorizando o domingo como o dia do senhor. Por isso, da mesma forma, o Cristão de hoje, a cada Domingo, sucedido por outro, caminha para o Domingo sem fim, a Pátria Celeste, a mística cidade de Deus que, “não necessita de Sol, nem de Lua para iluminá-la, porque é iluminada pela glória de Deus, e sua Luz é o Cordeiro” (Ap. 21,23). Eis um programa importante e essencial para cada domingo que nos ajuda no crescimento de nossa fé e entusiasmo no Senhor. Que possamos testemunhar esses sinais pelas nossas vidas e participação consciente e valorizada que o Senhor nos precede e nos ilumina pelo Seu Espírito.Graças a Deus, hoje, a participação entusiasta e alegre aumentou muito em relação à participação no passado. Hoje, além do número maior de participantes, eles exercem muitos ministérios na Igreja. Louvado seja o Senhor Jesus Cristo pelos passos dados, e que Ele nos ajude com a sua intercessão e unidade! Que a paz reine em nossas fronteiras e que o Domingo nos ensine a acreditar na vida e no mundo novo!

Os sem senso e os com senso


Pastor Eduardo Rosa Pedreira


“Diz o insensato no seu coração; não há Deus” Sl 14:1
Vivemos em um país no qual o prefixo sem se tornou muito conhecido. Temos os sem-terra, os sem-teto, os sem-carro, os sem-educação, os sem-justiça, os sem-celular, os sem-comida, os sem-vergonha, os sem-escrúpulos...
A bíblia fala de um outro grupo de sem: os sem senso, ou in-sensatos, os sem juízo. O in-sensato, biblicamente falando, não é sinônimo de débil mental. O insensato não é um louco no sentido em que conhecemos hoje. O insensato pode ser alguém muito inteligente, com uma sólida formação acadêmica, diplomas espalhados por toda parede, pode ser alguém famoso, até mesmo um formador de opinião. O insensato não é alguém que não estudou e nem sabe falar uma outra língua. Insensato não é sinônimo de pobreza economica-social e cultural. Na bíblia, insensatez é o mesmo que pobreza espiritual. Não se trata de razão, mas de fé.
O sem-senso é aquele que diz no seu coração: “Não há Deus”. O in-sensato é aquele que mata Deus no fundo do seu coração, que faz da sua alma um túmulo de Deus. Então são os ateus que são insensatos? Não somente. Podemos ser o mais crentes de todos os homens e mulheres e ainda assim em alguns momentos agirmos como se Deus não existisse. Sabe qual é a principal diferença de um ateu, um incrédulo e um crente incrédulo? O ateu diz com a boca que Deus não existe. O incrédulo não diz com os lábios, mas desconfia com o coração de que Deus, apesar de não existir para ele, é capaz de fazer isto ou aquilo. O crente incrédulo é aquele que afirma Deus com os lábios e na vida prática age como se ele não existisse. No fundo ateísmo e incredulidade tem raiz na indiferença. Todas as vezes que somos indiferentes a Deus, a sua pessoa, a sua ação, a sua palavra, estamos sendo ateus ou incrédulos em alguma medida, ainda que nos achemos o mais crente de todos os seres humanos.
Tentar matar Deus é cometer suicídio espiritual. Abandonar a fé em Deus, é como cortar o cordão umbilical que nos liga ao único ser capaz de realmente alimentar nossa alma. Agir pelas nossas próprias forças, estribados no nosso próprio entendimento, embassados na nossa visão, no nosso conhecimento, é dizer no fundo do coração: não há Deus, pois, na prática, o que existe para mim sou eu e minha capacidade.
Na ingênua idéia de não querer incomodar Deus com coisas pequenas e achar que temos nós mesmos de cuidar delas, somente pedindo a Deus coisas realmente importantes, é também uma outra maneira de dizer: não há Deus, pois se eu tomo conta das coisas pequenas, então Deus não existe para elas. Deus é o Deus das grandes decisões e das pequenas escolhas. Ele é o Senhor de toda grandeza e o dono de todas as partículas. Ele está interessado em tudo na minha vida, daquilo que eu julgo como sendo mais importante e daquilo que acho ser pequeno demais. Quando se trata de mim e de você, nada é tão pequeno que Deus possa não estar interessado.
Hoje é o dia criado por ele para que de novo encontremos o senso perdido.. Que Deus derrame sobre nós uma imensidão de fé, para que possamos fazer parte do grupo dos com-senso, os justos, pois que estes vivem pela fé.

EDUARDO ROSA PEDREIRA é pastor da Comunidade Presbiteriana da Barra da Tijuca e professor da Fundação Getúlio Vargas.


O diálogo Inter-religioso


Sheikh Abu Osman*


Disse Deus o Altíssimo: “Falai ao próximo com benevolência” Alcorão 2:83. E Disse também: “Convoca (os humanos) à senda do teu Senhor com sabedoria, pela exortação e dialoga com eles com benevolência” Alcorão 16:125 Disse o profeta Muhammad (S.A.A.S.) : “A boa palavra equivale uma caridade”. Existem no Alcorão 527 versículos que falam sobre o diálogo.
As orientações do Alcorão tanto quanto a do profeta Muhammad (S.A.A.S.), são claras quanto o diálogo entre os muçulmanos entre si e entre os não muçulmanos também. Tais orientações reconhecem que os seres humanos podem divergir quanto as suas idéias e mentalidades, isso é natural, e os muçulmanos têm a obrigação moral e religiosa de respeitar as opinões diferentes e pensamentos diferentes e consideram que os diferentes pensamentos poderão desenvolver melhor o convívio entre as pessoas, uma vez que nós muçulmanos somos proibidos de impor a nossa religião aos demais.

O Islam além de tudo isso, estabelece regras e normas para o diálogo, são elas:
• Tenha boa intenção voltada para Deus, e não para alcançar vitória própria;

• Escolha o momento adequado;

• Tenha conhecimento do assunto do diálogo;

• Reconheça que as pessoas não são iguais na compreensão;

• Não confisque o tempo da fala e deixe os outros falarem também;

• Saiba ouvir e não interrumba quem fala ;

• Policie a si mesmo;

• Fale de uma forma clara;

• Dê exemplos e utilize estórias para aproximar as idéias;

• Explore os pontos comuns;

• Saiba parar no momento exato, se o diálogo não for frutífero;

• Não perca o controle emocional;

• Diga não sei, quando não saber;

• Reconheça o seu erro;

• Não seja radical;

• Seja fiel ao assunto do diálogo;

• Certifique-se quanto às informações a apresentar;

• Respeite o outro lado;

• Nem tudo pode ser dito em determinadas situações;

• Diferencie entre a idéia e seu portador e nã confunda os dois;

• Seja justo;

• Chame as pessoas pelo melhor nome;

• Use argumentos firmes;

• A diferença deve trazer amor e não ódio;

• Tente chegar num resultado;

• Não se irrite;

• Não aumente a sua voz mais do que necessário.

* Sheikh Abdelbagi Sidahmed Osman, natural do sudão, nacionalidade brasileira, Imam da comunidade Muçulmana do RJ de 1993 e atual presidente desde 2000 representante da Liga Islâmica Mundial e da Organização Islâmica para América Latina no Brasil.


Necessidade de ouvir e ser ouvido


Sheikh Abdelbagi Sidahmed Osman*

A proposta da criacão pelas Nações Unidas do Ano Internacional pelo Diálogo entre as Civilizações, talvez alguns não saibam, partiu de um país muçulmano, a República Islâmica do Irã. Essa proposta de diálogo, na verdade, não é nova, já tem quatorze séculos, desde o surgimento do Islã. Sempre houve diálogo, sempre houve possibilidades de aproximação e o Islã nunca entendeu por que o que deve prevalecer entre as nações - nos seus diferentes aspectos históricos ou religiosos - é o confronto.
Nós entendemos que o diálogo, a aproximação e o conhecimento da diversidade cultural caracterizam a raça humana. Deus cria o ser humano e ele tem o livre arbítrio de adotar a idéia que lhe convier. Esse livre arbítrio não é uma coisa que eu ou nós estabelecemos, mas foi o próprio Criador dos seres humanos que o estabeleceu para nós. É assim que todas as mensagens enviadas por Deus não vieram para impor uma idéia, mas sim para esclarecer. Adota a idéia quem quiser.
Tivemos a oportunidade, com os atentados de 2001, de ser um pouco mais ouvidos como muçulmanos. E ouvimos muitas pessoas falando determinadas coisas sobre religião e ouvimos também quem teve a boa intenção de tentar esclarecer mais a respeito do Islã e dos muçulmanos. Ninguém pensou antes: Será que alguma vez eles foram ouvidos? Será que nós tentamos entender o que é esse mundo, esse pensamento e o que é essa religião ou tentamos condenar sem direito de defesa e punir e aplicar punição?
Notamos que aqui no Brasil a presença muçulmana existe desde a descoberta pelos portugueses, ainda mais com os navios negreiros que trouxeram os muçulmanos da África e os novos cristãos. Desde então, e até hoje, não existe nenhum tipo de impasse, de incompreensão, entre a população brasileira e os muçulmanos que dela fazem parte. Os muçulmanos sempre se fizeram presentes em território brasileiro, mesmo quando pretenderam ignorar a sua presença, e não se sentiram de forma alguma discriminados, salvo por alguns orgãos da mídia, que tentam transmitir idéias que não são corretas sobre a nossa religião. Mas em termos gerais sempre fomos muito bem tratados, inclusive depois dos acontecimentos de 11 de setembro.
Os sentimentos de solidariedade, de compreensão e de carinho têm aumentado em relação aos muçulmanos aqui no Brasil. Isso demonstra que a população brasileira, em determinados momentos, não se deixa ser induzida pelas informações massificantes colocadas perante ela. Todas as estatísticas que foram feitas no Brasil sobre os atentados de 2001, mostraram, em sua maioria, um índice de mais de 80% a favor da paz no Oriente Médio, a favor de um ambiente de diálogo, de um ambiente de bom convívio.
Nós notamos que, no diálogo entre as civilizações, existem duas visões: uma que vê na diversidade uma forma de ameaça e outra que observa nela uma possibilidade de aproximação e de bom convívio da raça humana. Na Terra cabem todas as idéias, todas as diferenças, sejam elas culturais ou étnicas. Há a possibilidade de convivermos sem disputar interesses. Se eu sair em defesa do Islã e dos muçulmanos, estaria afirmando que existiria uma culpa pelo que aconteceu no mundo.
Não se deve acusar uma nação ou uma religião por uma atrocidade praticada por um grupo, seja ele quem for, inclusive até americano. Não podemos generalizar, como já aconteceu muito na história da humanidade, quando ela acusou, condenou, executou a pena e depois descobriu que era um equívoco. Eu presumo que num futuro próximo nós vamos nos envergonhar da história da humanidade quando ela apontou um acusado sem dar-lhe o direito de se defender, decidiu a pena e a executou. O fato é que hoje, e cada vez mais, milhões de pessoas estão fora de seus lares, expulsas pelas guerras de toda sorte, acumulando à miséria em que já viviam ainda mais miséria e terror.
Entendemos assim que não deve haver confronto entre civilizações e sim aproximação, diálogo e bom convívio. Desde que haja alguém que queira nos ouvir, nós também estamos dispostos a ouvir. Neste sentido, existe um provérbio árabe e muçulmano que diz que Deus criou uma boca e dois ouvidos exatamente para que nós possamos ouvir mais do que falar. O Alcorão e os ensinamentos do profeta Muhammad nos orientam para ouvirmos bastante e com atenção.
Houve certa vez um diálogo entre um grupo cristão e o profeta Muhammad, que o hospedou por três dias, no qual, embora não tenham chegado naquele encontro a um denominador comum, foram encontrados pontos em comum e cada um foi para o seu lado com muito respeito.
Quando os muçulmanos conquistaram Jerusalém foi dada às populações judaica e cristã a garantia da vida e da prática religiosa e, até hoje, cristãos, judeus e muçulmanos convivem. Nunca houve uma tolerância tão grande como a civilização islâmica tem proporcionado às outras religiões. É claro que existem grupos que não agem dessa forma e, como disse, isto não deve permitir generalizações.
A palavra Islã quer dizer paz e paz é o objetivo final de toda e qualquer revelação. Esse é o objetivo final da religião. Concretizar estas palavras no real. Que a Paz esteja convosco.

Sheikh Abdelbagi Sidahmed OsmanIman e Presidente da Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio de Janeiro, é Representante da Organização Islâmica para a América Latina e da Liga Islâmica Mundial no Rio de Janeiro.


Maria e a humanidade, hoje




O que Maria tem a dizer à humanidade em nossos dias?
Parece tão distante o tempo que nos separa daquela jovem judia que vivia na pequena cidade Nazaré, noiva de um homem bom e justo e que certamente viveu sua dimensão de esposa, mulher, mãe... Dois mil e poucos anos, muitos avanços, muitas descobertas, o progresso, a cura de doenças, a exterminação de alguns males, a transformação das cidades, o aumento da expectativa de vida... Tantas coisas, tantas histórias e tanta História. Mas a jovem de Nazaré continua a nos interpelar. O que tem ela a nos dizer? Certamente nos diz o que já dizia à humanidade de seu tempo. Temos hoje apenas melhorias materiais, mas muito pouco a humanidade avançou em termos de valores, de crescimento espiritual e de adesão ao verdadeiro reino de Deus.
Poderia sua cidade – ou mesmo todo o povo judeu – acreditar que daquela jovem que não era rica, não era princesa, mas apenas uma jovem criada para ser simplesmente esposa e mãe, nasceria o Messias? O impacto disso em uma sociedade que esperava um Messias revolucionário, lutador, um rei que os salvaria pela espada, certamente não acreditaria – e, verdadeiramente, não acreditou – que no silêncio da manjedoura em Belém nos era chegado o Filho de Deus. Poderíamos hoje acreditar em tais acontecimentos? Provavelmente não. Poderíamos acreditar que uma virgem concebesse apenas por graça de Deus? Claro que não! Com tantos conhecimentos científicos que temos, somos até capazes de provar que isso é impossível.
Esses são apenas dois pequenos aspectos que podem nos mostrar o que Maria tem a dizer à humanidade hoje: Ela diz o que não pode ser dito senão através da fé incondicional em um Deus que tudo pode. Ela diz que é preciso olhar com olhos desejosos de servir a Deus e ao outro para podermos reconhecer os “anjos” que até hoje continuam a nos anunciar que no meio das condições mais difíceis, Deus faz brotar a vida. Ela diz que é preciso acreditar no humilde, no pequeno, porque é na humildade e na pequenez que Deus fala.
Os valores da sociedade contemporânea incorporam ainda aqueles que o povo judeu vivia à época de Maria: inveja, intriga, injustiças... o amor sufocado, o serviço ao outro ironizado. Tudo isso sob nova roupagem, alimentado por teorias filosóficas e antropológicas que tentam explicar por que caminhos a humanidade se enveredou.
Ainda assim, Ela continua a nos falar. E nos fala como mãe – aquela que muitas vezes não queremos ouvir porque nos repreende e tenta nos educar. Quer ver seus filhos irmãos, quer que todos tenham a mesma oportunidade e deseja, sobretudo, olhos atentos aos pedidos de Deus e corações disponíveis para o sim – como aquele que um dia Ela própria dera ao enviado do Pai.
Maria não é, pois, apenas um objeto de culto ou de veneração. Não é apenas a “resolvedora” de nossos problemas. É pessoa viva que conosco caminha, fala, acompanha. E como escutá-la? Lendo sua vida, percebendo que fora apenas uma mulher que, com a sensibilidade própria do gênero feminino, viveu sua vida: vida de afazeres domésticos, vida de oração, vida de esposa, vida de mãe. Uma vida que não foi fácil: cuidar da casa, ficar viúva, caminhar com seu Filho por aquelas estradas, ver seu Filho morrer. E, depois, construir uma Igreja, cuidar dos apóstolos, receber e dar carinho. Maria trabalhou e trabalha, pois continua – com sua vida – a nos mostrar que é possível fazermos o mesmo com as nossas.


Bendita entre todas as mulheres


Maria Clara Lucchetti Bingemer


Maria de Nazaré, mãe de Jesus. Quem é essa que a Igreja proclama e venera como bendita entre todas as mulheres e cheia de graça? O que ela nos diz sobre o mistério de Deus, da vida, do ser humano homem e mulher? A teologia hoje trata de fazer uma releitura da Maria de acordo com as exigências de nosso tempo. Essa releitura dá testemunho, sobretudo, do momento privilegiado que vive a humanidade inteira com o despertar da consciência histórica da mulher. Com relação à interpretação sobre o mistério de Maria de Nazaré, portanto, há que ressaltar três pontos:a) O povo tem imenso carinho por Maria, a mãe de Jesus. E este amor expressa o clamor em busca de socorro, qualquer que este seja. Isto parece transparecer a espiritualidade mariana do povo mais simples. Maria é a esperança, a mãe, a protetora, aquela que não abandona seus filhos.b) Existe hoje, igualmente, uma maneira diferente e própria de ler os textos bíblicos. Os textos que falam d Maria são muito poucos na tradição neotestamentaria. Porém, cada época histórica parece construir, a partir deles, uma imagem de Maria e de sua atuação histórica passada e presente. c) O conceito de Reino de Deus é essencial para essa hermenêutica. Vai além da pessoa de Jesus e afeta a totalidade de seu movimento, do qual participavam homens e mulheres de forma ativa. Entre eles está incluída María, essa judia que é mãe de Jesus, com sua paixão pelos pobres e pela justiça de Deus, com sua memória perigosa e subversiva. Nesta perspectiva hermenêutica, Maria não é somente a encantada e suave mãe de Jesus, mas também e, sobretudo, trabalhadora na colheita do Reino, membro ativo do movimento dos pobres criado por seu filho Jesus de Nazaré. Mesmo os dogmas marianos devem ser pensados à luz dos pressupostos hermenêuticos anteriormente descritos e refletidos em chave eclesiástica e pastoral. E o que nos dizem estes dogmas? 1. Maria é mãe de Deus, figura e símbolo do povo que crê e experimenta essa chegada de Deus que agora pertence à raça humana Esta mesma que chamamos Mãe e Nossa Senhora é, porém a pobre e obscura mulher de Nazaré, mãe do carpinteiro subversivo e condenado à morte. Depois do título de glória e as luxuosas imagens com que a piedade tradicional a representa, Maria ensina a maternidade como serviço, inspiração para a Igreja que deseja ser servidora dos pobres, para quem a encarnação de Jesus em Maria traz a boa nova da liberação.2. Maria é virgem, não de um ponto de vista moralizante e idealizado. Trata-se, ao invés, da glória de Deus onipotente que se manifesta naquilo que é pobre, impotente e desprezado aos olhos do mundo. A preferência de Deus pelos pobres se torna clara e explícita ao encarnar-se ele mesmo no seio de uma virgem, inserindo-se na linha de serviço dos pobres de Yahvé.3. Maria é Imaculada e isso é garantia de que a utopia de Jesus é realizável nesta pobre terra. A Imaculada Concepção venerada nos altares é a pobre Maria de Nazaré, que leva sobre si a confirmação das preferências de Deus pelos mais humildes, pequenos e oprimidos. O assim chamado «privilégio Mariano» é, na verdade, o privilégio dos pobres4. Maria é Assunta aos céus e assim a humanidade e, muito especialmente, a mulher, têm a dignidade de sua condição reconhecida e assegurada pelo criador. A mulher que deu à luz em um estábulo, entre animais, que teve o coração transpassado por uma espada de dor, que compartilhou a pobreza, a humilhação, a perseguição e a morte violenta de seu Filho, que esteve a seu lado ao pé da cruz, a mãe do condenado, foi exaltada. É a culminação gloriosa do mistério das preferências de Deus por aquilo que é pobre, pequeno e desamparado neste mundo para fazer brilhar ali sua presença e sua glória.
Maria Clara Bingemer é autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.


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Maria: verdadeiramente nossa irmã


Maria Clara Lucchetti Bingemer


Permanece sempre uma pergunta fundamental no coração dos católicos. Quem é Maria afinal? Qual o seu lugar na história da salvação? Que posto ocupa em relação a seu filho Jesus no mistério cristão?Maria não é deusa, nem divina. Contrariamente à acusação que às vezes pesa sobre o catolicismo, nunca se disse nem sequer se pensou que Maria pudesse ser equiparada a seu filho com relação à dupla natureza, humana e divina. Maria é apenas humana, plenamente humana. Como nós. Igual a nós. Em tudo. Criatura, saída das mãos do Pai com gozo e agrado. Como nós. De carne e osso.
Maria é, portanto e antes de mais nada, criatura. Alguém que participa intimamente de nossa condição humana e nossa finitude. Viveu em um tempo histórico e foi a mãe judia do homem Jesus de Nazaré. Para a teologia e a espiritualidade católica, é central a afirmação de que esta que foi uma viva na história, é hoje alguém que vive em Deus. Nos que «vivem em Deus» se projeta a situação de todos os que “vivem na história”, situação de limitação e ao mesmo tempo de desejo do ilimitado. A jovem mulher de Nazaré hoje é instância à qual recorrem aqueles que, na história, estão sofrendo e penando por qualquer classe de obstáculos e dificuldades. A ela acorrem como mulher que vive em Deus e que portanto, tem poder de ajudá-los.
O conceito de reino de Deus é essencial para a hermenêutica que orienta a teologia Mariana atual. A explicação deste conceito vai além da pessoa de Jesus. Afeta a totalidade de seu movimento, do qual participavam homens e mulheres em forma ativa. A partir dele, poderão ser lidos os feitos de Maria, nas diferentes imagens que o reino de Deus assume na Escritura, na tradição e nas tradições, como feitos que fazem presente os sinais do reino de Deus, ações concretas que manifestam a presença de salvação na história humana. A figura de Maria fala de Deus e de seu reino, da proximidade da divindade vivida pela mulher; fala do Filho de Deus que nasce do povo e da mulher; fala dos muitos filhos engendrados pelo Espírito de Deus, que não nascerão da carne nem do desejo do varão, mas sim de Deus.
Uma teologia Mariana da perspectiva do Reino de Deus permite perceber, também, a paixão de Maria pela justiça de Deus e, através dela, permite recuperar a força do Espírito atuante nas mulheres de todas as épocas. É a recuperação da «memória perigosa» ou "memória subversiva”, capaz de transformar as coisas, pois mantém vivas as esperanças e lutas das mulheres do passado, e permite que nasça e cresça uma solidariedade universal entre as mulheres do passado, do presente e do futuro. Nesta perspectiva, Maria não é somente a encantadora e suave mãe de Jesus, mas sim é, acima de tudo, trabalhadora na colheita do reino, membro ativo do movimento dos pobres, tal qual Jesus de Nazaré.
Por isso diante da pergunta: qual o lugar de Maria? Quem é Maria para nós? Respondemos sem hesitar: nossa irmã, viva na comunhão dos santos, que nos precede marcada com o sinal da fé. Ave Maria, rogai por nós.
Maria Clara Bingemer é autora de "Deus amor: graça que habita em nós” (Editora Paulinas), entre outros livros.


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Deus se faz menino para nos vencer no amor


Bento XVI: Audiência Geral de quarta-feira

ROMA, quarta-feira, 23 de dezembro de 2009 (ZENIT.org) .- Publicamos o discurso proferido por Bento XVI nesta quarta-feira, na presença dos fiéis e peregrinos, reunidos na Sala Paulo VI para a tradicional audiência geral.
Em sua reflexão, o Papa falou do mistério do Natal que se aproxima.
***
Caros irmãos e irmãs,
Com a Novena de Natal, que celebramos nestes dias, a Igreja nos convida a viver de modo intenso e profundo a preparação para o Nascimento do Salvador, que já está iminente. O desejo, que todos portamos em nossos corações, é de que a próxima festa do Natal nos dê, em meio à atividade frenética dos dias de hoje, o presente sereno e profundo de tocarmos a bondade de nosso Deus com as mãos, infundindo-nos nova coragem.
Para melhor compreendermos o significado do Natal do Senhor, gostaria de fazer uma breve referência à origem histórica desta solenidade. De fato, o Ano litúrgico da Igreja não se desenvolveu inicialmente a partir do evento do nascimento de Cristo, mas sim da fé em sua Ressurreição. Portanto, a festa mais antiga da cristandade não é o Natal, mas a Páscoa; a ressurreição de Cristo fundou a fé cristã, e está na base do anúncio do Evangelho e do nascimento da Igreja. Por isso, ser cristão significa viver de maneira pascoal, fazendo-nos arrastar pelo dinamismo originado do Batismo, e que leva a morrer para o pecado para viver com Deus (cfr Rm 6,4).
O primeiro a afirmar com clareza que Jesus teria nascido em 25 de dezembro foi Hipólito de Roma, em seu comentário ao Livro do profeta Daniel, escrito por volta de 204. Algum exegeta observa, depois, que nesse dia era celebrada a festa à Dedicação ao Templo de Jerusalém, instituída por Judas Macabeu em 164 a.C. A coincidência de datas vem então significar que, com Jesus, surgido como Luz de Deus em meio à noite, realiza-se verdadeiramente a consagração ao templo, o Advento de Deus sobre esta terra.
Na cristandade, a festa do Natal assumiu uma forma definida no século IV, quando toma então o lugar da antiga festa romana do “Sol Invictus”, o sol invencível; coloca-se assim em evidência que o nascimento de Cristo constitui a vitória da verdadeira luz sobre a escuridão do mal e do pecado. Todavia, a atmosfera intensa e particular que envolve o Natal veio a desenvolver-se na Idade Média, graças a São Francisco de Assis, o qual era profundamente apaixonado pela figura humana de Jesus, o Deus-conosco.
Seu primeiro biógrafo, Tomás de Celano, nos conta que São Francisco “acima de todas as outras solenidades, celebrava com inefável zelo o Natal do Menino Jesus, chamando de a festa das festas aquele dia em que Deus, feito um bebê, mamou em seios humanos” (Fonti Francescane, n. 199, p. 492).
Foi dessa devoção particular ao mistério da Encarnação é que se originou a famosa celebração do Natal em Greccio.
Esta, provavelmente, foi inspirada por São Francisco, em sua peregrinação na Terra Santa, e pelo presépio de Santa Maria Maior, em Roma. O que animava o Pobrezinho de Assis era o desejo de experimentar de maneira concreta, viva e atual, a humilde grandeza do evento do nascimento do Menino Jesus, e de comunicá-lo a todos.
Na primeira biografia, Tomás de Celano fala da noite de Natal em Greccio de modo vívido e comovente, contribuindo decisivamente para propagar a mais bela tradição natalina, a do presépio. A noite de Greccio, de fato, deixou para a cristandade toda a intensidade e beleza da festa de Natal, e educou o povo de Deus para que compreendesse sua mensagem mais autêntica, seu calor único, e a amar e adorar a humanidade de Cristo.
Esta abordagem particular ao Natal conferiu à fé cristã uma nova dimensão. Na Páscoa, as atenções se concentravam sobre a potência de Deus que vence a morte, inaugura a vida nova e nos ensina a esperar pela vida que virá. Com São Francisco e seu presépio, evidencia-se o amor desarmado de Deus, sua humildade e bondade, que na Encarnação do Verbo se manifesta aos homens, ensinando-os um novo modo de viver e amar.
Celano nos conta que, naquela noite de Natal, foi concedida a São Francisco a graça de uma visão maravilhosa. Viu dormindo imóvel na manjedoura um pequeno menino, que despertou de seu sono com sua aproximação. E acrescenta: “nem mesmo essa visão discordava dos fatos, porque, por meio de Sua Graça que agia através de seu santo servo Francisco, o menino Jesus foi ressucitado no coração de muitos que o haviam esquecido”. (Vita prima, op. cit., n. 86, p. 307).
Este quadro descreve com grande precisão, como a fé viva e o amor de São Francisco pela humanidade de Cristo transmitiram à fé cristã do Natal: a descoberta de que Deus se revela nos ternos braços do Menino Jesus. Graças a São Francisco, o povo cristão pôde perceber que, no Natal, Deus se tornou verdadeiramente Emanuel, o Deus-conosco, do qual nenhuma barreira nem nenhuma distância pode nos separar. Naquele Menino, Deus passou a estar tão próximo de cada um de nós, que podemos nos referir a Ele por você, cultivando com Ele uma relação íntima de profundo afeto, como faríamos com um recém-nascido.
Naquele Menino, de fato, se manifesta Deus-Amor: Deus vem sem armas, sem a força, porque não pretende conquistar, por assim dizer, a partir do externo, mas deseja ao contrário ser acolhido pelo homem livremente; Deus se faz um Menino indefeso a fim de vencer a soberba, a violência, o ímpeto de possuir do homem. Em Jesus, Deus assumiu essa condição pobre e desarmada para nos vencer pelo amor, conduzindo-nos à nossa verdadeira identidade. Não devemos esquecer que o maior dos títulos de Jesus Cristo é justamente o de “Filho”, Filho de Deus; a dignidade divina é indicada por essa terminação, que prolonga a referência à sua humilde condição na manjedoura de Belém, enquanto corresponde de maneira única à sua divindade, que é a divindade de “Filho”.
Sua condição de Menino nos indica, ainda, como podemos encontrar a Deus e desfrutar de Sua presença. É à luz do Natal que podemos compreender as palavras de Jesus: “Em verdade vos digo, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus”. (Mt 18,3)
Aquele que ainda não compreendeu o mistério do Natal, não compreendeu o elemento decisivo da existência cristã. Quem não acolhe Jesus com coração de criança, não pode entrar no reino dos céus: é isso que Francisco queria lembrar à cristandade de seu tempo e à de todos os tempos, também de hoje.
Oremos ao Pai para que conceda aos nossos corações aquela simplicidade que reconhece no Menino o Senhor, como fez Francisco em Greccio.
Assim poderá ocorrer também a nós o que Tommaso da Celano nos conta – referindo-se à experiência dos pastores na Noite Santa (cfr Lc 2,20) – sobre aqueles que haviam comparecido ao evento em Greccio: “e cada um retornou à sua casa, pleno de uma inefável alegria” (Vita prima, op. cit., n. 86, p. 479).
É o que desejo com afeto a todos vós, vossas famílias e entes queridos. Bom Natal a todos vós!
[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]
Queridos irmãos e irmãs, a tradição natalícia mais bela, que é o presépio, foi criada por São Francisco de Assis, para recordar a todos como Deus Se revela nos ternos braços dum Menino. A sua condição de criança indica-nos como podemos encontrar Deus e gozar da sua presença. É à luz do Natal que melhor se compreendem estas palavras do Senhor: «Se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, não entrareis no reino dos Céus». Amados peregrinos de língua portuguesa, a todos desejo um Santo Natal, portador das consolações e graças do Deus Menino, a quem vos encomendo ao dar-vos a minha Bênção.

in zenit.org.br

Dom Oscar Romero: Testemunha do Cordeiro


* Maria Clara Lucchetti Bingemer


Chama-se mártir em teologia cristã aquele ou aquela que para testemunhar e confessar em toda a sua radicalidade e autenticidade a fé é vítima de morte violenta. Juntamente com esta morte pode sofrer torturas, condenações, constrangimentos de toda sorte. Também são parte do seu martírio.
Na verdade, o que a Igreja quer ressaltar quando venera seus mártires é não o sofrimento em si que os atormentou, mas o porquê esse sofrimento os atingiu. Foram testemunhas fiéis até o fim, como Jesus. Não recuaram diante de nenhuma ameaça nem nenhum perigo. Preferiram perder a vida a renegar aquilo em que acreditavam do mais fundo de seu coração.
Os primeiros quatro séculos da história da Igreja foram regados pelo verter do sangue de milhares de mártires. Entre eles havia não apenas homens adultos, mas igualmente mulheres e crianças. Tratava-se de pessoas que, havendo aderido á fé cristã, recusavam-se a prestar culto ao Imperador como sendo divino e confessavam firmemente sua fé em Jesus Cristo, Senhor, Messias Salvador e Filho de Deus.
Mas não foi apenas há quase dois mil anos que o martírio acontecia e dava fecundidade à Igreja. Hoje também, perto de nós, continua acontecendo. O contexto é diferente, mas o princípio é o mesmo: confessar com a boca e com a vida que Jesus Cristo é o único Senhor e permanecer firme nessa confissão de fé até a morte, se preciso for. No dia 24 de março último, em plena Quaresma e às portas da Semana Santa, celebramos o martírio de Dom Oscar Romero, bispo de El Salvador, acontecido há 27 anos.
Oscar Arnulfo Romero y Gadamez nasceu em 15 de agosto de 1917, Ciudad Barrios, em El Salvador. Sua família era numerosa e pobre. Quando criança, sua saúde inspirava cuidados. Com apenas 13 anos entrou no seminário. Foi para Roma completar o curso de teologia com 20 anos e foi ordenado sacerdote, em 1943.
Retornou a El Salvador como pároco. Era um sacerdote generoso e atuante. Nesse tempo conheceu a miséria profunda que assolava seu pequeno país. Era um homem do povo, simples, de profunda sensibilidade para com os sofrimentos de sua gente, de firme perspicácia aliada à coragem de decisão. Corria a década de 70 e a maioria dos países latino-americanos vivia então duras experiências de ditaduras militares. Também para o pequeno El Salvador era um período de grandes conflitos.
Em 1977, padre Oscar Romero foi nomeado Arcebispo de El Salvador. Ao chegar à capital do país, as correntes eclesiais mais progressistas não ficaram muito satisfeitas. O novo arcebispo tinha fama de conservador. Porém os acontecimentos se precipitariam, dando uma guinada decisiva em sua vida. Em 1979, o presidente do país foi deposto por golpe militar. A ditadura se instalou e, pouco a pouco, se acirrou a violência. Reinava o caos político, econômico e institucional. De janeiro a março de 1980 foram assassinados 1015 salvadorenhos. Os responsáveis pertenciam às forças de segurança e às organizações conservadoras do regime militar instalado no país.
Nessa ocasião, dois sacerdotes foram assassinados por defenderem os camponeses que foram pedir abrigo em suas paróquias. Um deles era o jesuíta Rutilio Grande. Diante de seu cadáver, Dom Romero experimentou profunda conversão. Deixou sua posição moderada e, com impressionante coragem, colocou-se sem medo no epicentro do conflito, falando e atuando. Sua intenção não era acirrar os ânimos, mas conscientizar as pessoas, e sobretudo os responsáveis pelo poder, de que a paz só poderia vir pela via da justiça. E que os pobres não podiam ser massacrados pela injustiça e pela violência.
No dia 24 de março de 1980, Dom Romero foi fuzilado em meio aos doentes de câncer e enfermeiros, enquanto celebrava missa na capela do Hospital da Divina Providência, na capital de El Salvador. Enterrado pelo povo dilacerado pela dor e pela orfandade, seu nome foi incluído na relação dos 1015 salvadorenhos assassinados, em 1980.
Dom Romero é daqueles dos quais diz o Apocalipse, que lavaram suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro. Testemunha fiel de Jesus Cristo, Cordeiro de Deus, ele nos lembra que Deus é maior do que qualquer coisa e que os pobres são no mundo seus filhos prediletos. Que a Páscoa de Dom Romero nos prepare para celebrar mais dignamente a Páscoa de Jesus Cristo, Cordeiro de Deus e Testemunha fiel por excelência. * Maria Clara Bingemer é autora de "Deus amor: graça que habita em nós” (Editora Paulinas), entre outros livros, e é Diretora de Conteúdo do Amai-vos
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Santidade de João Paulo II era “evidente”


O Cavaleiro Supremo Carl Anderson reflete sobre o pontífice
A santidade de João Paulo II é evidente para todos aqueles que o conheciam e leram seus escritos, afirma o Cavaleiro Supremo dos Cavaleiros de Colombo.
Carl Anderson, que manteve encontros com o pontífice em várias ocasiões, falou a ZENIT sobre a causa da canonização do Santo Padre, que deu um passo adiante neste final de semana.
No sábado, Bento XVI aprovou um decreto que assegura as virtudes heróicas de João Paulo II. Para sua beatificação, João Paulo II, que morreu em 2005, necessita de um milagre atribuído a sua intercessão.

–Bento XVI aprovou as virtudes heróicas de João Paulo II e fala-se que poderia ser beatificado já no próximo mês de outubro. Até que ponto é importante avançar tão rapidamente o processo de canonização?
–Carl Anderson: Realmente é excepcional que a causa de beatificação avance tão rapidamente, mas não é algo que tenha precedentes em casos verdadeiramente extraordinários. A causa da Madre Teresa também avançou rapidamente. Penso que a chave de ambos, João Paulo II e Madre Teresa, foi esta: os dois foram reconhecidos e aclamados mundialmente por sua santidade. Não deveríamos esquecer os clamores de “santo já” repercutidos no funeral de João Paulo II.
Quanto à beatificação de João Paulo II, não gostaria de especular sobre o calendário da mesma. Um evento assim só acontece depois de um processo muito cuidadoso, que requer tempo, mas todavia as coisas estão avançando rapidamente.

–Você conheceu João Paulo II pessoalmente. O que mais te impressionou?
–Carl Anderson: O Papa João Paulo II foi inesquecível em vários aspectos. Era, sem dúvida, um homem muito santo, que amava intensamente Cristo e que era o vigário de Cristo na terra, uma função que ele tomou com muita seriedade. Se a sua santidade era evidente, era também seu aspecto humano. Tinha um grande humor e uma mente muito brilhante.
Qualquer pessoa que leu os documentos de João Paulo II sabe o quão brilhante e importante era sua fé. Ao conhecê-lo, encontrei um homem fiel a seus escritos. Um homem com uma profunda consciência e compaixão pela humanidade, pelo próximo, pelo futuro.
Era um homem tão notável como pessoa, como eram também seus pensamentos e seus escritos. Isto era percebido por qualquer um que passava um pequeno tempo com ele.

–Muitos têm analisado o papado de João Paulo II e seu impacto na Igreja e no mundo. Mas o processo de canonização deve se fazer com a santidade do último Papa. De que maneira você pode dar fé da santidade pessoal de João Paulo II?
–Carl Anderson: Eu penso que os impactos de João Paulo II na Igreja e no mundo são resultados diretos de sua santidade.
Ele entendia a fé como algo que deveria ser pregado, algo que apresentar às pessoas para criar uma sociedade justa, em que a dignidade de todos – nascidos ou não, jovens e adultos, ricos e pobres – fosse levada a sério.
Ele levou sua fé para relacioná-la com o mundo, com resultados notáveis.
Também conduziu com o exemplo. João Paulo II tinha uma profunda vida de oração e uma verdadeira relação com Cristo. Seu amor por Deus e pelo próximo eram evidentes em todas as páginas de seus escritos.
Nos últimos anos de sua vida, começando pela tentativa de assassinato em 1981, foi um homem que frequentemente sofria fisicamente, mas testemunhou o amor e a esperança, apesar da dor.
Continuou se encontrando com as pessoas, pregando, sem se importar quão enfermo estivesse, e quando estava demasiadamente doente, mostrou ao mundo a forma bonita com que se pode morrer quando se está preparado para encontrar Deus, como um bom e fiel servo.

–Disse-se que o último Papa realizou muitos milagres. Isso é certo?
–Carl Anderson: Como o processo de santificação continua, a Congregação para as Causas dos Santos seguramente revisará a evidência para ver se ocorreu um milagre. Acredito que poucas pessoas ficariam surpresas se afirmarmos que João Paulo II está no céu cuidando de nós.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Maria, mãe e modelo do sacerdote


Terceira pregação de Advento a Bento XVI e à Cúria Romana


CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 18 de dezembro de 2009 (ZENIT.org).- Publicamos a terceira meditação de Advento dirigida na manhã desta sexta-feira pelo padre Raniero Cantalamessa, O.F.M. Cap., a Bento XVI e seus colaboradores da Cúria Romana, na capela "Redemptoris Mater", no Vaticano.
* * *
Maria, mãe e modelo do sacerdote
Na carta a todos os sacerdotes com ocasião da Quinta-Feira Santa de 1979, a primeira da série do seu pontificado, João Paulo II escreveu: "Há no nosso sacerdócio «ministerial» a dimensão estupenda e penetrante da proximidade da Mãe de Cristo”. Nesta última meditação do Advento, gostaríamos de refletir precisamente sobre esta proximidade entre Maria e o sacerdote.
De Maria não se fala com muita frequência no Novo Testamento. No entanto, se prestarmos atenção, notamos que ela não está ausente em nenhum dos três momentos constitutivos do mistério cristão, que são: a Encarnação, o Mistério Pascal e o Pentecostes. Maria estava presente na Encarnação, porque ocorreu nela, estava presente no mistério pascal, porque está escrito que: "perto da cruz de Jesus estava Maria sua mãe" (cf. Jo 19, 25); esteve presente no dia de Pentecostes, pois está escrito que os apóstolos “perseveravam na oração em comum, junto com algumas mulheres — entre elas, Maria, mãe de Jesus” (Cf. At 1, 14).
Cada uma destas três presenças revela algo da misteriosa proximidade entre Maria e o sacerdote, mas encontrando-nos na iminência do Natal, gostaria de limitar-me à primeira delas, aquilo que Maria diz do sacerdote e ao sacerdote no mistério da Encarnação.

1. Qual a relação entre Maria e o sacerdote?
Quero primeiramente mencionar a questão do título de sacerdote atribuído à Virgem na tradição. Um escritor do fim do século V chama Maria "Virgem e ao mesmo tempo sacerdote e altar onde se deu Cristo pão do céu para a remissão dos pecados" [1]. Depois dele, são frequentes as referências ao tema de Maria sacerdote, que tornou-se o objeto da observação teológico somente no século XVII, a escola francesa de São Sulpício. Nessa, o sacerdócio de Maria não se colocou tanto em relação com o sacerdócio ministerial como com o de Cristo.
No final do século XIX, espalhou-se uma verdadeira devoção à Virgem-sacerdote e São Pio X concedeu uma indulgência também à relativa prática. Mas quando se viu o perigo de confundir o sacerdócio de Maria com o ministerial, o Magistério da Igreja tornou-se reticente, e dois discursos do Santo Ofício colocaram praticamente fim a tal devoção [2].
Depois o Concílio continua a falar do sacerdócio de Maria, mas não vinculando-o ao sacerdócio ministerial, nem àquele supremo de Cristo, mas ao sacerdócio universal dos fiéis: ela possuía a título pessoal, como figura e primícias da Igreja, "o sacerdócio régio"(1 Pe 2, 9) que todos os batizados possuem a título coletivo.
Que podemos dizer dessa longa tradição que associa Maria ao sacerdote e da proximidade da qual fala João Paulo II? Continua a ser, ao meu ver, a analogia ou a correspondência dos planos, no interior do mistério da salvação. Aquilo que Maria foi no nível da realidade histórica, de uma vez por todas, o sacerdote o é cada vez que retorna ao plano da realidade sacramental.
Nesse sentido, podemos compreender as palavras de Paulo VI: "Qual é a relação e quais as distinções que há entre a maternidade de Maria, feita universal pela dignidade e caridade da posição atribuída por Deus no plano da Redenção, e o sacerdócio apostólico, constituído pelo Senhor para ser instrumento de comunicação entre Deus e os homens?
Maria dá Cristo à humanidade; e também o sacerdócio da Cristo à humanidade, mas de um modo diverso, como é claro; Maria mediante a Encarnação e mediante a efusão da graça, da que Deus a preencheu; o Sacerdócio através do poder da Ordem sacra [3].
A analogia entre Maria e o sacerdote pode-se exprimir assim. Maria, pela obra do Espírito Santo, concebeu Cristo e, depois dê-lo nutrido e alimentado em seu seio, deu-o à luz em Belém; o sacerdote, ungido e consagrado pelo Espírito Santo na ordenação, é chamado também ele a preencher-se de Cristo para poder dá-lo à luz e fazê-lo nascer nas almas através do anúncio da Palavra, da administração dos sacramentos.
Nesse sentido, a relação entre Maria e o sacerdote tem uma longa tradição atrás de si, muito mais autorizada do que a de Maria-sacerdote. Tomando um pensamento de Agostinho, o Concílio Vaticano II escreve: "a Igreja... toma-se também, ela própria, mãe, pela fiel recepção da palavra de Deus: efectivamente, pela pregação e pelo Baptismo, gera, para vida nova e imortal, os filhos concebidos por ação do Espírito Santo e nascidos de Deus” [5].
O batistério, diziam os Padres, é o seio no qual a Igreja dá à luz os seus filhos e a Palavra de Deus é o leite puro que os alimenta: “O pródigo místico! Um é o Pai de todos, um também o Verbo de todos, um e idêntico por todas as partes é o Espírito Santo e única é a Virgem Mãe: assim eu amo chamar a Igreja. Pura como uma virgem, amável como uma mãe, reunindo os seus filhos, alimenta-os com o leite sagrado que é a palavra às crianças depois do nascimento (cf. 1 Pd 2, 2) [6].
O beato Isaac de Estella, em uma página que lemos no ofício de leitura de sábado passado, fez uma síntese desta tradição: "Maria e a Igreja, escreve, são uma mãe e muitas mães, uma virgem e muitas virgens. Uma e outra mãe, Uma e outra virgem. Uma e outra concebida sem concupiscência pelo próprio Espírito; uma e outra dão a Deus Pai a prole sem pecado. Aquela, sem pecado algum, deu ao corpo a Cabeça; esta, na remissão de todos os pecados, dá o corpo à Cabeça” [7].
O que é dito nesses textos se diz da Igreja como um todo, como sacramento de salvação, deve-se aplicar de uma forma especial aos sacerdotes, porque, ministerialmente, são estes que, na prática, geram Cristo nas almas mediante a palavra e os sacramentos.

2. Maria acreditou
Até agora, a analogia entre Maria e o sacerdote esteve sobre o plano, por assim dizer, objetivo, ou graça. Mas há também uma analogia no plano subjetivo, ou seja, entre a contribuição pessoal que a Virgem deu à graça da eleição e a contribuição que o sacerdote é chamado a dar à graça da ordenação. Nenhum dos dois é um mero canal, que deixa passar a graça sem contribuir nada próprio.
Tertuliano fala de uma versão do docetismo gnóstico, segundo a qual Jesus nasceu, sim, de Maria, mas não concebido nela ou por ela; o corpo de Cristo, vindo do céu, teria passado pela Virgem, mas não gerado nela ou por ela; Maria teria sido um caminho para Jesus, não uma mãe, e Jesus para Maria um hóspede, e não um filho [8]. Para não se repetir essa forma de docentismo na sua vida, o sacerdote não pode limitar-se a transmitir aos outros um Cristo aprendido dos livros que não se fez primeiro carne da sua carne e sangue do seu sangue. Como Maria (a imagem é de São Bernardo), eles devem ser um reservatório que transborda do que está preenchido, não um canal que se limita a fazer passar água sem reter nada.
A contribuição pessoal, comum a Maria e ao sacerdote, resume-se na fé. Maria, escreve Agostinho, “pela fé concebeu e pela fé deu à luz” (fide concepit, fide peperit) [9]; também o sacerdote, pela fé leva Cristo em seu coração e mediante a fé o comunica aos demais. Será o centro da meditação de hoje: que o sacerdote pode aprender da fé de Maria.
Quando Maria foi visitar Isabel, esta a acolheu com grande alegria, e “cheia do Espírito Santo” exclamou: “feliz aquela que acreditou, pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido!” (Lc 1, 45). Não há dúvida de que este ter acreditado refere-se à resposta de Maria ao anjo: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a sua palavra” (Lc 1, 38).
À primeira vista, parece que o ato de fé de Maria foi fácil, inclusive evidente. Converter-se em mãe de um rei que teria reinado para sempre sobre a casa de Jacó, mãe do Messias! Não era o que sonhava toda jovem judia? Mas este é um modo de pensar sumamente humano, carnal. Maria encontra-se em solidão total. A quem pode contar o que aconteceu com ela? Quem acreditará quando disser que o menino que leva no seu seio é “obra do Espírito Santo”? Isso não havia sucedido a ninguém antes e não acontecerá tampouco depois. Maria conhecia certamente o que estava escrito no livro da lei, quer dizer, que se a jovem, no momento do casamento, não era virgem, devia ser expulsa pela porta da casa do pai e apedrejada pelas pessoas do povoado (Cf. Deuteronômio 22, 20 s). Nós falamos de diariamente do risco da fé, entendendo por isso geralmente o risco intelectual, mas no caso de Maria tratava-se de um risco real!
Carlo Carretto, em seu livreto sobre a Virgem, conta como chegou a descobrir a fé de Maria. Quando vivia no deserto, tinha sabido por alguns amigos tuaregs que uma jovem do acampamento tinha sido dada como prometida a um jovem, mas que não tinha ido viver com ele, pois era muito jovem. Relacionou este fato com o que Lucas diz sobre Maria. Por este motivo, ao regressar depois de dois anos por aquele acampamento, perguntou pela jovem. Constatou um certo mal-estar entre seus interlocutores e, depois, um deles, aproximando-se, fez-lhe um sinal: passou a mão na garganta com um gesto característico dos árabes quando querem dizer: “vão lhe cortar a cabeça”. Estava grávida antes do casamento e a honra da família exigia acabar com ela. Então voltou a pensar em Maria, nos olhares sem piedade das pessoas de Nazaré, compreendeu a solidão de Maria, e nessa mesma noite a escolheu como companheira de viagem e como mestra de sua fé [10].
Deus não tira nunca de suas criaturas seu consentimento, escondendo-lhes as consequências, o que terão de enfrentar. Vemos isso em todos os chamados de Deus. Jeremias preanuncia, “te farão a guerra” (1, 19), e diz-se a Ananis sobre Saulo “pois eu vou lhe mostrar o quanto ele deve sofrer pelo meu nome” (At 9, 16). Poderia atuar de outra maneira com Maria, com uma missão como a dela? Com a luz do Espírito Santo, que acompanha o chamado de Deus, certamente vislumbrou que seu caminho não seria diferente do restante dos que são chamados. De fato, Simeão muito rápido expressará este pressentimento, quando lhe dirá que uma espada atravessaria sua alma.
Um escritor moderno, Erri De Luca, descreveu de maneira poética este pensamento de Maria no momento do nascimento de Jesus. Está sozinha, na gruta; José vela do lado de fora (segundo a lei, nenhum homem pode assistir ao parto). Acaba de dar à luz seu filho, quando curiosos pensamentos se amontoam em sua mente: “Por que, filho meu, nasces precisamente aqui, em Bet-Lehem, Casa do Pão? E por que temos de chamar-te de Ieshu?... Faz que este estremecimento da coluna vertebral, este calafrio do futuro fique longe dele”. A mãe pressagia que o filho será arrebatado, então diz a si mesma: “Até a primeira luz, Ieshu é só meu. Quero cantar uma canção com estas três palavras e basta. Esta noite, aqui em Bet Lehem, é só meu”. E com estas palavras aproxima-o do peito para amamentá-lo [11].
Maria é a única que acreditou “de maneira contemporânea”, quer dizer, enquanto sucedia o fato, antes de toda confirmação e de toda convalidação pela parte dos acontecimentos da história [8]. Jesus diz a Tomé: “Creste porque me viste? Bem-aventurados os que não viram, e creram!” (Jo 20, 29): Maria é a primeira dos que creram ser ter visto.
São Paulo diz que Deus ama quem dá com alegria (2 Cor 9, 7) e Maria pronunciou seu “sim” a Deus com alegria. O verbo com o que Maria expressa seu consentimento, e que é traduzido como “fiat”, ou “faça-se”, no original, encontra-se no optativo (génoito), um modo verbal que em grego se usa para exprimir o desejo e inclusive a gozosa impaciência de que algo aconteça. Como se a Virgem dissesse: “Eu também desejo, com todo meu ser, o que Deus deseja; que se cumpra o que ele quer”. Na verdade, como dizia Santa Agostinho, antes que em seu corpo, ela concebeu a Cristo em seu coração.
Mas Maria não disse “fiat”, pois não falava latim, e nem “génoito”, que é palavra grega. Que coisa disse então? Qual é a palavra que, no idioma falado por Maria, corresponde melhor a esta expressão? Quando queria dizer a Deus “sim, assim seja”, um judeu dizia “amém”. Se é lícito tentar remontar-se, com uma reflexão de fé, à mesmíssima palavra, à palavra exata que saiu dos lábios de Maria, ou ao menos à palavra que existia na fonte judaica usada por Lucas, esta deve ser precisamente a palavra “amém”. Acaso os salmos na Vulgata latina não terminavam com a expressão: “fiat, fiat”? O texto grego dos Setenta, neste caso, diz “génoito, génoito”, e no original hebraico conhecido por Maria aparece “amém, amém”.
Amém é uma palavra hebraica, cuja raiz significa solidez, certeza; era utilizada na liturgia como resposta de fé à Palavra de Deus. Com o amém se reconhece o que nos foi dito com uma palavra firme, estável, válida e vinculante. Sua tradição exata, quando é uma resposta à Palavra de Deus, é esta: “Assim é e que assim seja”. Indica fé e obediência ao mesmo tempo; reconhece que o que Deus diz é verdade e se submete. É dizer “sim” a Deus. Neste sentido, aparece nos próprios lábios de Jesus. “Sim, amém, Pai, pois assim foi do teu agrado...” (Mt 11, 26). É mais, Ele é o Amém personificado: “Assim fala o Amém...” (Ap 3, 14) e, através dele, qualquer outro “amém” de fé pronunciado na terra já se eleva a Deus (cf Cor 1, 20). Também Maria, depois do Filho, é o amém a Deus feito pessoa.
A fé de Maria é portanto um ato de amor e de docilidade, livre, ainda que suscitado por Deus, misterioso como misterioso é cada vez o encontro entre a graça e a liberdade. Esta é a verdadeira grandeza pessoal de Maria, sua bem-aventurança, confirmada pelo próprio Cristo: “Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram” (Lc 11, 27), diz uma mulher no Evangelho. A mulher proclama que Maria é bem-aventurada porque levou Jesus; Isabel a proclama beata porque acreditou; a mulher proclama como uma bem-aventurança levar Jesus no seio, Jesus proclama bem-aventurado que o leva no coração: “Bem-aventurados os que ouvem a Palavra de Deus e a guardam”, responde Jesus. Deste modo, ajuda aquela mulher e a todos nós a compreender onde está a grandeza pessoal de sua Mãe. Quem “guardava” melhor as palavras de Deus que Maria, de quem a Escritura diz em duas ocasiões que “guardava todas estas coisas, e as meditava em seu coração”? (cf Lc 2 19, 51).
Não deveríamos terminar nossa contemplação da fé de Maria com a impressão de que Maria acreditou uma vez e nada mais em sua vida; que só se deu um grande ato de fé na vida da Virgem. Quantas vezes, depois da Anunciação, Maria foi martirizada pelo aparente contraste de sua situação com tudo o que estava escrito e conhecia sobre a vontade de Deus, no Antigo Testamento, e sobre a própria figura do Messias! O Concílio Vaticano II nos ofereceu um grande presente ao afirmar que também Maria caminhou na fé, e mais, avançou na fé, quer dizer, cresceu e se aperfeiçoou nela [12].

3. Acreditemos também nós!
Passemos agora de Maria ao sacerdote. Santo Agostinho escreveu: “Maria acreditou e nela o que acreditou se cumpriu. Acreditemos também nós para que o que se cumpriu nela possamos também nós aproveitar” [13]. Acreditemos também nós! Que a contemplação da fé de Maria nos leve a renovar perante todos o ato de fé e abandono a Deus.
Todos devem e podem imitar Maria em sua fé, mas de modo muito especial deve fazê-lo o sacerdote. “Meu justo – diz Deus – viverá pela fé (cf Habacuc 2, 4; Rm 1, 17): isto se aplica, em especial, ao sacerdote. Ele é o homem da fé. A fé é o que determina, por assim dizer, seu “peso específico” e a eficácia de seu ministério.
O que os fiéis captam imediatamente em um sacerdote, em um pastor, é se “crê”, se crê no que diz e no que celebra. Quem busca no sacerdote antes de tudo a Deus, se dá conta em seguida; que não busca nele a Deus, pode ser facilmente enganado e induzir a engano o próprio sacerdote, fazendo que se sinta importante, brilhante, ao ritmo da moda, quando na realidade é “bronze que soa e címbalo que retine”.
Inclusive quem não crê se aproxima do sacerdote com um espírito de busca, entende em seguida a diferença. O que o colocará saudavelmente em crise não são em geral as mais cultas discussões sobre a fé, mas encontrar-se perante alguém que crê verdadeiramente com todo seu ser. A fé é contagiosa. Alguém não se contagia só escutando falar dos vírus ou estudando-os, mas entrando em contato com ele: assim é a fé.
Às vezes, sofre-se e inclusive se lamenta em oração com Deus, porque as pessoas abandonam a Igreja, não saem do pecado, porque falamos, falamos... e não acontece nada. Um dia, os apóstolos tentaram expulsar o demônio de um pobre jovem, mas sem conseguir. Depois de Jesus em pessoa expulsar o demônio do jovem, aproximaram-se de Jesus, retirando-se de lado, e perguntaram: “Por que nós não conseguimos expulsar o demônio?” Ele respondeu: “Por causa da fraqueza de vossa fé” (Mt 17, 19-20).
São Boaventura relata como um dia, enquanto estava no monte da Verna, lhe veio à mente o que dizem os santos Padres, quer dizer, que a alma devota, pela graça do Espírito Santo e a força do Altíssimo, pode espiritualmente conceber pela fé o bendito Verbo do Pai, dá-lo à luz, dar-lhe nome, buscá-lo e adorá-lo com os Magos e finalmente apresentá-lo felizmente a Deus Pai em seu templo. Escreveu então um opúsculo intitulado “As cinco festas do Menino Jesus”, para mostrar como o cristão pode reviver em si cada um destes cinco momentos da vida de Jesus. Limito-me ao que Boaventura diz das duas primeiras festas, a concepção e o nascimento, aplicando-o em particular ao sacerdote.
O sacerdote concebe Jesus quando, descontente da vida que leva, estimulado por santas inspirações e acendendo-se de santo ardor, desapegando-se firmemente de seus velhos costumes e afetos, fica como fecundado espiritualmente pela graça do Espírito Santo e concebe o propósito de uma vida nova.
Uma vez concebido, o bendito Filho de Deus nasce no coração do sacerdote, quando, após ter feito um sadio discernimento, pedido um conselho oportuno, invocado a ajuda de Deus, põe imediatamente por obra seu santo propósito, começando a realizar o que desde tempos estava amadurecendo, mas que tinha sempre deixado por medo de não ser capaz.
Este propósito de vida nova deve, no entanto, traduzir-se em seguida, sem vacilações, em algo concreto, em uma mudança, possivelmente também externa e visível, em nossa vida e em nossos costumes. Se o propósito não se realiza, Jesus é concebido, mas não é dado à luz. Será um de tantos abortos espirituais dos que infelizmente está cheio o mundo das almas.
Há duas brevíssimas palavras que Maria pronunciou no momento da Anunciação e que o sacerdote pronuncia no momento de sua ordenação: “Aqui estou!” e “Amém”, ou “Sim”. Recordo o momento quando estava perante o altar para a ordenação com uma dezena de companheiros. Em um determinado momento, pronunciou-se meu nome, e eu respondi emocionadíssimo: “Aqui estou”.
Ao longo do rito, foram-nos dirigidas algumas perguntas: “Queres exercer o ministério sacerdotal por toda vida?”, “Queres realizar digna e fielmente o ministério da palavra na pregação?”, “Queres celebrar com devoção e fidelidade os mistérios de Cristo?”. A cada pergunta, respondemos: “Sim, quero!”.
A renovação espiritual do sacerdócio católico, desejada pelo Santo Padre, será proporcional ao impulso com que cada um de nós, sacerdotes ou bispos da Igreja, formos capazes de pronunciar de novo um gozoso “Aqui estou!” e “Sim, quero!”, fazendo reviver a unção recebida na ordenação. Jesus entrou no mundo dizendo: “eis que eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade” (Hb 10, 7). Nós o acolhemos, neste Natal, com as mesmas palavras: “eis que eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade!”
[Traduzido por Zenit]
* * *
Notas [originais em italiano]
1) Ps. Epifanio, Omelia in lode della Vergine (PG 43, 497)
2) Cf. su tutta la questione, R. Laurentin, Maria – ecclesia – sacerdotium, Parigini 1952; art. “Sacerdoti” in Nuovo Dizionario di Mariologia, Ed. Paoline 1985, 1231-1242.
3) Paolo VI, Udienza generale del 7, Ott. 1964.
4) S. Agostino, Discorsi 72 A, 8 (Misc. Agost. I, p.164).
5) Lumen gentium, 64.
6) Clemente Alessandrino, Pedagogo, I, 6.
7) B. Isacco della Stella, Discorsi 51 (PL 194, 1863).
8) Tertulliano, De carne Christi, 20-21 (CCL 2, 910 ss.).
9) S. Agostino, Discorsi 215, 4 (PL 38,1074).
10) C. Carretto, Beata te che hai creduto, Ed. Paoline 1986, pp. 9 ss.
11) E. De Luca, In nome della madre, Feltrinelli, Milano 2006, pp. 66 ss.
12) Lumen gentium, 58.
13) S. Agostino, Discorsi, 215,4 (PL 38, 1074).

Cristãos da Terra Santa, testemunhos corajosos do perdão


Entrevista com o frei Pierbattista Pizzabala

Por Chiara Santomiero


CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 17 de dezembro de 2009 (ZENIT.org).- A pequena comunidade cristã na Terra Santa, cerca de 120 mil em Israel e 40 mil no território administrado pela Autoridade Palestina (1% da população total), resiste, apesar de todas as dificuldades, nos locais que assistiram à Encarnação e à experiência humana de Jesus, oferecendo um testemunho descontado de coragem e fé
Para saber mais, Zenit entrevistou o custódio da Terra Santa, frei Pierbattista Pizzaballa.


- Uma pergunta que não é nova: quais são os sentimentos em relação à presença dos cristãos na Terra Santa?
- Pizzaballa: Essa é uma pergunta que sempre nos fazemos e que deve sempre ser feita, porque a resposta nunca é a mesma. De fato, minha percepção pessoal em relação a essa questão muda com freqüência, assim como mudam as dinâmicas e as situações, de modo que é uma questão que deve ser sempre recolocada.
Mas sei concretamente o que não estamos aptos a ser: não podemos ser uma ponte entre a sociedade israelense e a palestina. Disse o Papa: a Terra Santa necessita “não de muros, mas de pontes”, e esta é uma grande verdade. Mas a comunidade cristã da região não pode servir de ponte entre essas duas sociedades, porque é composta basicamente de árabes palestinos; uma ponte que esteja mais de um lado do que do outro não pode unir. A comunidade cristã, portanto, exprime uma realidade única, mas ainda assim tem dado um testemunho importante. Primeiramente, trata-se de uma comunidade pacífica, não violenta. Não constitui ameaça para ninguém, e isso tem um significado muito importante.
Graças à presença da comunidade cristã chegam milhões de peregrinos, que trazem bem-estar econômico e social e isso é positivo. O nosso testemunho, porém, se expressa principalmente ali, simplesmente, como o de cristãos tentando viver o Evangelho, e a virtude que somos mais solicitados a expressar é a do perdão.
Jesus na cruz – do ponto de vista puramente humano -, morreu por uma terrível injustiça, como resultado de um processo falseado; e apesar disso, Ele perdoou. Este é o âmbito no qual nos cumpre atuar. O perdão não se pode doar, nem mesmo impor, o perdão é um caminho a percorrer. Não se presta a simplificações; antes de perdoar, é preciso entender e encarar o mal, defini-lo com muita verdade. É preciso ter respeito pelo sofrimento de pessoas nas quais foi infligida uma ferida. Ao mesmo tempo, devemos estar cientes de que a capacidade de perdoar deve direcionar o nosso olhar sobre a realidade.
Este é também o significado da presença da Custódia na Terra Santa. Somos uma pequena comunidade de 300 frades, de 32 nações diferentes - uma espécie de Babel! - tentando amar um ao outro, dando seu testemunho de que, não obstante as diferenças, é possível estar juntos. Gostaríamos de ajudar as pessoas, sem a presunção de revolucionar ou mudar o mundo, mas apenas colocando um pequeno sinal de partilha e de perdão.

- Como são as relações com os muçulmanos e judeus?
- Pizzaballa: São dois mundos completamente distintos. A relação com os muçulmanos remonta a séculos; os cristãos são árabes palestinos e vivem com muçulmanos que também são árabes palestinos; são crenças diferentes, mas um único povo que vive na mesma região. Trata-se de uma relação se dá no âmbito das instituições, a começar nas escolas.
Um dos aspectos fundamentais da comunidade cristã na Terra Santa, é que, na verdade, embora pequena, ela é muito viva e ativa - e justamente na escola. As 80 escolas cristãs existentes são freqüentadas tanto por alunos cristãos quanto muçulmanos e, portanto, desempenha um papel muito importante de mediação social.
Onde atuam as escolas cristãs, a relação entre muçulmanos e cristãos é harmoniosa, e isso se reflete na vida pública, porque as famílias se reúnem por causa das atividades escolares e assim se estabelece uma de confiança entre os dois grupos. Constatamos que onde não há escolas cristãs, os relacionamentos são mais difíceis de construir - faltam oportunidades públicas. O que se chama de diálogo inter-religioso e vivido no dia-a-dia, envolvendo todas as atividades da Igreja e em especial da escola.
Com os judeus, o relacionamento é diferente: não há possibilidade para diálogo no seio da Igreja porque Israel tem sua próprias instituições. A única forma de diálogo, ainda que não seja fácil, é do tipo cultural.
Recentemente, por exemplo, recebemos, como presente por parte da Província de Pádua, uma reprodução da Capela de Scrovegni, e que agora está em exibição no museu de Tel Aviv. A iniciativa tem atraído milhares de pessoas todos os dias, que, por meio de visitas guiadas, podem conhecer uma pouco da história da salvação, sob o ponto de vista cristão.
Mas não se pode esquecer que o conflito em curso tem seu peso: quando um cristão palestino fala de Israel, não está se referindo ao Israel bíblico de Jesus, mas aos check-points.

- É possível vislumbrar alguma perspectiva política de paz na Terra Santa?
- Pizzaballa: Neste momento, não parece haver muitas, por várias razões. Primeiro, porque já há um cansaço por parte de ambos os povos. A segunda razão é que não há – em nenhum dos dois lados – um líder forte e carismático com uma visão clara de paz, capaz de conduzir as pessoas e também de fazer as concessões necessárias.
A sociedade palestina, por sua vez, está dividida em duas partes por uma fratura profunda. A comunidade internacional, finalmente, para além de tantos discursos, não parece estar realmente decidida a dar passos concretos no sentido de pressionar as autoridades políticas a alcançar a paz. Continuamos nessa fase, que já parece interminável, das táticas e declarações, mas que não oferece nada de tangível que possa nos fazer acreditar que as coisas vão mudar a curto prazo.

- A visita do Papa em maio passado pôde deixar ecos positivos de diálogo?
- Pizzaballa: A visita de Bento XVI serviu para iluminar as relações tanto com a comunidade judaica quanto com a comunidade islâmica. Ainda assim, o impacto maior foi sobre as comunidades cristãs, que ainda falam do evento hoje de modo muito positivo, mencionando os discursos e gestos do Papa e as Missas públicas, que atraíram milhares de pessoas. Foi um momento forte, que uniu as comunidades cristãs, notoriamente divididas.

- O Papa esteve em Belém. Como está sendo vivido esse tempo do Advento na cidade vizinha ao muro de separação com Israel?
- Pizzaballa: É tocante constatar a cada dia a fé das pessoas. Nestas situações tão difíceis, redescobre-se sempre a oração. Há muita participação nas celebrações e rituais tradicionais que preparam para o Natal e para as estações que são montadas por toda a cidade para lembrar os vários episódios do Evangelho. Orar torna-se uma maneira de permanecermos unidos.

- Há uma mensagem de Belém, o lugar da Encarnação, para o Natal?
- Pizzaballa: A mensagem ainda é a mesma de sempre: Deus continua a visitar-nos através de Jesus, que continua a nascer e a ser uma fonte de renovação. Mesmo que as coisas permaneçam as mesmas, podemos mudar nossa maneira de vê-las. Apesar de tanta violência e morte, ainda há muitas pessoas que desejam se envolver e doar-se à sua terra, sua gente e sua Igreja. Esses são sinais de força, renovação e esperança, para a Terra Santa e também para outras regiões. A Terra Santa pertence a nós, nós pertencemos à Terra Santa. Nossa fé nasceu ali, e continua a nascer. Por isso, devemos acompanhar de perto o que ocorre na região.
In http://www.zenit.org/

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Algumas datas importantes na história da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos


1740 Na Escócia, nascimento de um movimento pentecostal com laços na América do Norte, cuja mensagem para a renovação da fé apela a orar por todas a igrejas e com elas.


1820 O Reverendo James Haldane Stewart publica “Conselhos para a união geral dos cristãos para a efusão do Espírito Santo” (Hints for the outpouring of the Spirit).


1840 O Reverendo Ignatius Spencer, um convertido ao catolicismo romano, sugere uma “União de oração pela unidade”.


1867 A primeira Assembléia dos Bispos anglicanos em Lambeth insiste sobre a oração pela unidade, na introdução às suas resoluções.


1894 O papa Leão XIII encoraja a prática da “Oitava de Oração pela Unidade” no contexto de Pentecostes.


1908 Celebração da “Oitava pela Unidade da Igreja” por iniciativa do Reverendo Pe. Paul Wattson.


1926 O Movimento Fé e Constituição inicia a publicação de “Sugestões para uma Oitava de oração pela unidade dos cristãos”.


1935 Na França, o Pe. Paul Couturier faz-se defensor da “Semana universal de oração para a unidade dos cristãos” fundamentada na oração pela unidade tal qual Cristo a deseja, com os meios que Ele deseja.


1958 O Centro Unidade Cristã de Lyon (França) começa a preparar o tema para a Semana de Oração em colaboração com a “Comissão Fé e Constituição” do Conselho Mundial de Igrejas.


1964 Em Jerusalém, o Papa Paulo VI e o Patriarca Athenágoras I recitam juntos a oração de Cristo “que todos sejam um” (Jo 17).


1964 O decreto Unitatis Redintegratio (do Concílio Vaticano II sobre o ecumenismo) sublinha que a oração é a alma do movimento ecumênico e encoraja a prática da Semana de Oração.


1966 A “Comissão Fé e Constituição” e o Secretariado para a Unidade dos Cristãos (hoje Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos) da Igreja Católica decidem preparar conjuntamente o texto para a Semana de Oração a cada ano.


1968 Pela primeira vez, a Semana de Oração é celebrada com textos elaborados em colaboração entre “Comissão Fé e Constituição” e o Secretariado para a Unidade dos Cristãos (hoje, Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos).


1969 Primeira celebração da Semana de Oração a partir de textos preparados a partir de um projeto apresentado por um grupo ecumênico local. Este novo modo de elaboração de textos é inaugurado por um grupo ecumênico da Austrália.


1970 Os textos da Semana de Oração são utilizados para a celebração inaugural da Federação Cristã da Malásia, reunindo os principais grupos cristãos deste país.


1971 O grupo internacional que preparou os textos para 1996 contava, entre outros, com representantes da YMCA e da YWCA.


1975 Primeira celebração da Semana de Oração a partir dos textos preparados a partir de um projeto proposto por um grupo ecumênico local. Este novo modo de elaboração dos textos foi inaugurado por um grupo ecumênico da Austrália.


1988 Os textos da Semana de Oração são utilizados para a celebração inaugural da Federação Cristã da Malásia, reunindo os principais grupos cristãos deste país.


1994 O grupo internacional tinha preparado os textos para 1996 contava entre outras representantes da YMCA e da YWCA.


2004 Acordo entre “Comissão Fé e Constituição” (Conselho Mundial de Igrejas) e o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos (Igreja Católica) para que o livreto da Semana de Oração seja oficial, conjuntamente publicado e apresentado num mesmo formato.


2008 Celebração do centenário da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (a Oitava pela unidade da Igreja, sua antecessora, foi celebrada pela primeira vez em 1908).